sábado, 22 de dezembro de 2012

O dízimo e sua função social. Uma análise bíblica




A questão do dízimo é um assunto muito estudado e muito falado dentro das igrejas evangélicas, e fonte de muitos embates entre os que defendem uma postura conservadora, ou seja, no sentido em que o dízimo deve ser dado na igreja e outros que afirmam que os dízimos se aplicam apenas aos judeus e por isso não deve ser exigido para os gentios.
O interesse do presente texto é elucidar o propósito do dízimo desde a sua instituição pela lei, passando pelas conotações adquiridas pelo dízimo, até os dias atuais.
O presente texto não terá a pretensão de esgotar o assunto e nem terá um caráter exegético, mas sim um caráter hermenêutico, tendo em vista a exposição da questão dos dízimos. Nos dias atuais onde cada vez mais vemos o evangelho sendo leiloado em uma dinâmica altamente repressora acredito ser importante voltarmos ao texto bíblico de forma a tentar entender de uma forma melhor alguns conceitos que hoje geram tantas confusões. Pretendo falar nos próximos textos sobre esta questão do dízimo. Nesta primeira parte falarei sobre a instituição do dízimo e a sua dinâmica exposta no antigo testamento. Em um segundo momento, pretendo abordar a relação de Jesus para com o dízimo, em uma terceira parte, uma exposição dos texto de Malaquias 3 que sem dúvida é o mais utilizado para o terrorismo evangélico em relação ao dízimo, e em uma última parte, uma análise crítica da questão do dízimo nos dias de hoje. 
A primeira citação que temos a respeito do dízimo se encontra em Gênesis14:20 [1] onde Abraão dá o dízimo a Melquisedeque depois de ter derrotado os reis que haviam seqüestrado seu sobrinho Ló. “E bendito seja o Deus altíssimo, que entregou seus inimigos em suas mãos e Abraão lhe deu o dízimo de tudo” (Gn 14:20).
A figura de Melquisedeque é emblemática no Antigo Testamento (AT) uma vez que ele é tido como “sem pai sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias, nem fim de vida, feito semelhante ao filho de Deus” (Hebreus 7:3). Muitos acreditam se tratar de uma teofania, (Uma aparição visível de Deus no AT) uma vez que ele aceitou o dízimo de Abraão. O que é relevante para o presente texto é que Abraão deu o dízimo a Melquisedeque em forma de agradecimento pela vitória alcançada. Tem-se então a primeira forma que o dízimo foi usado: exprimir agradecimento por uma vitória.
O dízimo depois reaparece em Gn 28:20 na figura de Jacó que promete a Deus o dízimo se Deus lhe garantisse um bom êxito em sua empreitada.



“Então Jacó fez um voto, dizendo: Se Deus estiver comigo, cuidar de mim nesta viagem que estou fazendo, prover-me de comida e roupa, e levar-me de volta em segurança à casa de meu pai, então o Senhor será o meu Deus. E esta pedra que hoje coloquei como coluna servirá de santuário de Deus; e de tudo o que me deres certamente te darei o dízimo” (Gn 28:20-22).


Iinteressante notar que estas duas primeiras citações do dízimo se encontram antes do estabelecimento da lei mosaica. Tanto Abraão quanto Jacó se encontravam cronologicamente antes da instituição da lei e, no entanto, já dizimavam e prometiam dízimo como forma de agradecimento.
Quando a lei é instituída por Deus através de Moisés, Deus deixa claro qual seria a prática a ser adotada em relação aos dízimos. Em Levítico 27:30, Deus afirma “Todos os dízimos da terra, seja dos cereais, seja das frutas, pertencem ao Senhor, são consagrados ao Senhor.”
Em Nm 18:21, 24, 26 e 28, o dízimo foi entregue aos levitas em retribuição ao trabalho que eles exerciam na Tenda do Encontro. A partir desse momento se institui que apenas os levitas poderiam se achegar à Tenda do Encontro e foi vetado a qualquer outro o fazê-lo. Os levitas não receberiam herança sobre a divisão das terras. A herança deles seria o Senhor e, em lugar da terra, o Senhor concedia aos levitas os dízimos que os israelitas apresentassem à Ele  (Nm18:24). No entanto, os levitas também deveriam dar o dízimo dos dízimos ao sacerdote, ou seja, a melhor parte dos dízimos deveria ser dada ao sacerdote. Os levitas poderiam comer esta parte e ela seria considerada como o salário pelo trabalho executado na Tenda do Encontro.
Percebe-se aqui que Deus dá o dízimo que antes pertencia apenas a Ele como relata em Lv 27:30 aos levitas, uma vez que estes não tem parte na terra. Deus, ao fazer isso, fica com apenas o dízimo de todos os dízimos que era dado pelos israelitas.
Esta entrega de 90% da receita para os levitas tem uma função social. Primeiramente que ela era o pagamento pelo trabalho exercido pelos levitas no templo. Em segundo lugar, Deus, ao passar o dízimo aos levitas, tem outro intento que ficará evidenciado no texto de Deuteronômio.
Em Deuteronômio, Deus novamente dá outras instruções em relação ao dízimo. Em Deuteronômio 12 Deus instituiu o local correto onde o dízimo deveria ser dado. Ao chegar neste lugar, o povo deveria se alegrar perante o Senhor e comer tudo o que tivessem levado para o sacrifício e para o dízimo. Todos poderiam comer fartamente, até mesmo os impuros poderiam comer aquilo que seria entregue ao Senhor no local que Ele determinasse. Deus deu instruções para que o povo se alegrasse, mas sem esquecer-Se dos levitas que habitavam com eles, uma vez que estes não tinham parte na terra. A única restrição era o sangue, que não deveria ser comido por ser vida (Dt 12:23). A entrega do dízimo foi seguida do sentimento de alegria. A ocasião era ocasião para festa, e Deus queria que isso fosse feito por quem estivesse ali, era um momento de regozijo e não de constrangimento.
Em Dt 14; 24-29, Deus novamente manda que o povo coma o dízimo na presença do Senhor no local que Ele escolheu para tal.

“No entanto, se o local for longe demais e vocês tiverem sido abençoados pelo Senhor, o seu Deus, e não puderem carregar o dízimo [...] troquem o dízimo por prata, e levem a prata ao local que o Senhor, o seu Deus tiver escolhido. Com a prata comprem o que quiserem: bois, ovelhas, vinho ou outra bebida fermentada, ou qualquer outra coisa que desejarem. Então juntamente com suas famílias, comam e alegrem-se ali, na presença do Senhor, o seu Deus. E nunca se esqueçam dos levitas que vivem em suas cidades, pois eles não possuem propriedade nem herança própria. Ao final de três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano, armazenando-os em sua própria cidade para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que, o Senhor o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho de suas mãos.”

Nota-se aqui Deus instituindo o dízimo como fator de igualação social. Deus está preocupado com a alegria do povo, como também em saciar o órfão, a viúva e o estrangeiro.  Percebe-se que tanto em Dt 12 como em Dt 14, o dízimo foi comido pelo povo que celebrou as bênçãos de Deus. No primeiro texto (Dt 12), todos podem comer do produto do dízimo e se alegrar perante o Senhor sem se esquecerem dos levitas que habitavam entre eles. No segundo texto (Dt 14), os órfãos, os estrangeiros e as viúvas também deveriam ser lembrados. O dízimo da colheita do terceiro ano era para que os levitas, os órfãos, as viúvas, e os estrangeiros pudessem comer e se saciar. No terceiro ano, os que não tinham parte na terra poderiam comer e se saciar. No entanto, pode-se notar que esta admoestação é um reforço à festa que era feita na entrega do dízimo, onde, tanto puros, quanto impuros, podiam comer e se alegrar na presença do Senhor.
A questão do dízimo é que agora ele não é mais somente dos levitas, mas pertence a todos os que “não têm parte na terra”, e aos órfãos, aos estrangeiros, as viúvas, e aos levitas.
O dízimo adquire no Deuteronômio um aspecto fortemente social, visando uma igualdade entre o povo. Ao festejar com o dízimo o povo de Israel deveria ter em mente todos os que não tinham parte na terra. O dízimo que antes pertencia somente ao Senhor (Lv 27:30) passou aos levitas (Nm 18: 21-28) e em seguida passa para todos os que não têm parte na terra (Dt 14: 22-28).
Todo esse movimento em torno do dízimo mostra que a preocupação central de Deus ao instituir o dízimo era que o povo se lembrasse D’ele, que o povo tivesse alegria  e que a sociedade pudesse ter igualdade social.
Deus não estava preocupado com o dinheiro que o povo daria, mesmo porque, a maioria do dízimo era dada em forma de bens, colheitas etc. Ele estava preocupado com “saúde” do povo. Ele queria que o povo visse Nele a fonte de todo provimento e visse que esse provimento deveria ser igual a todos os membros da comunidade. Daí o dízimo deixa de ser apenas objeto de agradecimento como nas histórias de Abraão e Jacó e passa a ter uma conotação altamente social.
Esta evolução da noção e função do dízimo pode ser vista no decorrer das passagens que foram analisadas acima. O que foi visto até agora é que o dízimo sofreu várias novas aplicações com o passar das gerações bíblicas.
O final da lei sobre o dízimo recai na alegria, na memória de Deus, e no bem-estar social do povo.
(...)  



[1] Para todas as referencias bíblicas será adotada a versão NVI- Editora Vida 2000