sábado, 29 de dezembro de 2012

O dízimo e sua função social. Uma análise bíblica - Parte 2






Percebemos no texto bíblico que os princípios do dízimo se perderam com o passar do tempo.
O povo de Israel se voltou para a atitude exterior do dízimo e esqueceu de seus princípios. Deus, várias vezes, afirma que Ele não mais aceitaria os holocaustos as ofertas e os dízimos que o povo estava dando, porque eles simplesmente estavam preocupados com a forma exterior e não com os princípios. Em Miquéias 6:6,7 pode-se ver que a questão exterior não é aquela que Deus quer, mas sim que o povo se voltasse para agir retamente para com Deus.
Outra vez em Isaías 1:11-17, Deus novamente admoesta o povo para que não apenas  trouxessem os sacrifícios e ofertas, mas que se limpassem e defendessem  a causa dos órfãos e das viúvas. A mesma admoestação foi dada por Jesus aos fariseus em Mateus 23: 23, quando Jesus afirmou que os fariseus davam o dízimo da hortelã e das hortaliças e ignoravam o mais importante da lei que é a justiça, a misericórdia e a fidelidade. O povo passou então a dar mais ênfase para a forma externa do que para os princípios.
O que não se pode esquecer é que paira sobre o povo de Israel a doutrina da retribuição como descrita muito bem no livro de Jó. Segundo esta doutrina, Deus recompensa os bons e pune os maus. Portanto, a noção do dar o dízimo, enquanto obra, está muito presente na cabeça do israelita que assim o faz para que as bênçãos do Senhor o alcance.  Esta doutrina que ganha uma ênfase muito grande no deuteronomio será vista ainda hoje como uma fonte de jugos inimagináveis por parte de várias lideranças evangélicas. Tanto Jó quanto o Eclesiastes contrariam tal doutrina em seus escritos e mostram que a relação com Deus não deve se pautar em uma relação retributiva. No caso de Jó, a própria vida dele como contada no texto bíblico demonstraria que nem sempre quem faz o bem recebe o bem, e nem quem faz o mal recebe o mal, esta é a ênfase em todo livro de Jó. No caso do Eclesiastes, este deixa bem claro quando afirma que "que há justos a quem sucede segundo as obras dos ímpios, e há ímpios a quem sucede segundo as obras dos justos." Ec 8:14. Ou seja, a doutrina da retribuição já é seriamente questionada desde o séc. II a.C (data provável da escrita de Jó e Eclesiastes), e é incrível ver como que até os dias de hoje ela ainda é muito utilizada para escravizar vários cristãos nas igrejas evangélicas. No entanto, como visto, o exterior para Deus é o que menos importa, e sim a intenção do coração. No entanto, o exterior é o que é enfocado pelo povo.
Jesus traz de volta a questão do dízimo para o âmbito do coração ao falar aos fariseus sobre suas práticas que ignoravam os princípios da lei.
Jesus ao mostrar que o  dízimo não deveria focar apenas na exterioridade da ação, mas deveria cumprir o propósito ao qual foi instituído procura restaurar a noção original da prática dizimal. Não se trata de dar o dízimo para "obedecer", mas trata-se de dar o dízimo porque o amor ao próximo está em questão. Ao devolver o dízimo ao templo, eu permito que aquele que não tem parte na terra possa ir ali e se alimentar e ter o sustento necessário para sua sobrevivência.
O mais importante na pregação de Jesus sempre foi a relação de amor que devemos estabelecer com o próximo, e isso fica muito claro também quando Jesus critica a prática farisaica e de vários outros que tentavam "barganhar" com Deus em nome de uma suposta obediencia a um princípio que há muito já havia deixado de ser focado. A exterioridade da ação que tinha como alvo o "ser visto pelos homens" aparece a Jesus como algo digno de condenação por não visar o amor a Deus e nem ao próximo. O dízimo entendido dessa forma em nada coopera para a implementação do reino de Deus que é sobretudo um reino de justiça social e paz. 
Pode-se notar, na exposição feita até agora, que Deus deixa bem claro qual o seu intuito em estabelecer a lei do dízimo.  No entanto, o que se vê nos dias de hoje é um abandono dos princípios e uma acentuação no âmbito do externo.
Para justificar esta posição, passamos agora à análise do texto de Malaquias 3:8-10 que são os versículos mais usados para justificar a cobrança dos dízimos dentro das igrejas evangélicas atualmente.