segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O dízimo e sua função social - Parte 4




 A utilização dos versículos de Malaquias nas igrejas evangélicas

O versículo, na maioria das vezes, é usado nas igrejas de forma errada, colocando de tal forma que o não trazer o dízimo é abrir uma porta para que a maldição chegue a casa deste que não o dá.
O que se faz é colocar um julgo enorme sobre a vida daquele que não dizima, fazendo com que este o faça por medo e não por princípio. Sob o nome de uma falsa obediência ao “princípio do dízimo” está o fardo de contribuir para a instituição religiosa a qual o indivíduo pertence. Não estou aqui sendo contra a contribuição financeira em instituições religiosas. O erro está em se atribuir a Deus a necessidade do dinheiro, uma vez que a necessidade é humana.

A instituição religiosa realmente precisa de dinheiro para pagar contas, funcionários e outros gastos que se fazem necessários, no entanto, o “clamor” pelo dízimo deveria ser feito evidenciando o real motivo do dízimo, e não criando um misticismo onde Deus é aquele que precisa do dinheiro, e quem não der será punido com “devoradores, migradores, cortadores e destruidores”, é aí que se encontra um erro grave ao se falar em dízimo  atualmente. Esse erro é de ordem prática, mas há outro erro que pode ser dito “bíblico” que é a total negligência do concílio de Jerusalém descrito em Atos 15, onde ficaram definidas quais as diretrizes deveriam ser passadas aos gentios. Dentre estas recomendações o dízimo não figura.Esta passagem é totalmente negligenciada pelos líderes hoje em dia que insistem em colocar o dízimo como lei e que por isso deve ser seguida. Mas pode-se ver que o dízimo não se encontra entre as recomendações feitas pelos apóstolos aos gentios.

Fica evidenciado na prática de alguns líderes em relação ao dízimo, que o que é feito é um “self-service de leis”, onde as leis do AT que são convenientes são mantidas e as outras são totalmente negligenciadas sob o pretexto de serem apenas “culturais” e não podem ser tomadas literalmente.
Essa relação do dízimo como lei que deve ser mantida em detrimento de outras, apenas evidencia essa prática que visa à conveniência.
Como a igreja não pode abrir mão da renda, ela coloca sobre o membro a responsabilidade de mantê-la e o faz colocando sobre ele um fardo e uma promessa de punição se não fizer a sua parte.
Por medo da punição muitos dizimam, no entanto, eles estão novamente se atendo à forma da contribuição e esquecendo-se do princípio assim como os israelitas faziam.

No entanto, essa prática é muito interessante para a instituição que com isso se mantêm a custa de um sofrimento psicológico do membro que está, portanto, sempre com medo de que algo aconteça a ele.
O dízimo como já foi dito no início visa muito mais que a forma, visa o coração do homem, visa a mente do homem, uma vez que é uma forma dele se lembrar de Deus que lhe concedeu todas as coisas,  visa o psicológico do homem uma vez que deve ser motivo de alegria o fato de ver que Deus tem suprido as necessidades e visa o social do homem, uma vez que o dízimo se destina a todos aqueles que não têm parte na terra.

Com a institucionalização da fé, o que aconteceu foi que esses princípios foram esquecidos e a forma foi exaltada. O exterior é que importa, e não mais o interior. Isso em termos bíblicos é totalmente vazio, uma vez que Deus olha o coração do homem e não apenas o que os seus atos dizem.
Alguns líderes afirmam durante suas orações que não se trata de uma negociação, mas que apenas estão requerendo o que diz a palavra de Deus no tocante aos dízimos e ofertas.
No final, o que se vê é uma relação onde o fiel dá o dízimo e em troca, quer receber as bênçãos de Deus. Neste contexto, aquele que não contribui é visto como quem está "roubando de Deus", ao passo que, como foi dito, o Deus roubado não é o Deus metafísico, mas o Deus que se revela nos que não têm parte na terra.
Esta acusação feita pelos líderes é imoral e anti-bíblica. Como Paulo afirma em Romanos, "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus." (Rm 8:1) Tendo em vista isto, pode-se ver que o aspecto coercitivo do dízimo está longe de promover uma obediência por parte do fiel, mas provoca um medo de que "o Deus retribuidor" venha a lhe punir com “pragas e gafanhotos”.

Esta apropriação do gafanhoto como um demônio que ataca quem não dizima é uma apropriação indevida no tocante a uma hermenêutica e a uma exegese bíblica. A figura do gafanhoto exposta no texto é mais bem entendida se tomada em seu sentido literal, uma vez que a cultura agrícola era predominante na época da reconstrução do muro.
Não há, portanto nenhuma alusão no texto de Malaquias ao gafanhoto sendo entendido como um demônio, ou uma entidade, ou algo que atacará àquele que não dizimar.

O dízimo, portanto, ao invés de servir como agente modificador da sociedade por meio do dom da partilha está servindo (em várias igrejas evangélicas) como aspecto coercitivo para que o fiel contribua com uma instituição.A institucionalização do dízimo retira deste o seu caráter social e o coloca como um imposto. Mas não simplesmente um imposto, mas um imposto que é colocado por Deus sob a condição de amaldiçoar quem não o pagar. Esta perda do sentido do dízimo pode ser vista todo domingo na maioria das igrejas evangélicas. Não nego o fato de que a instituição tem despesas, funcionários a pagar, coisas que precisam ser consertadas e outros tipos de serviço que qualquer "empresa" possui e o dinheiro é o que fará com que estas necessidades sejam sanadas. Não há aqui uma crítica à contribuição por parte do fiel. O que deve ser questionado são as motivações que o levam a contribuir.

O que se vê, é que a maioria dos fiéis contribui por medo de serem castigados por Deus, e é isso que deveria ser mudado dentro da igreja evangélica. As necessidades físicas da igreja são visíveis e é papel do membro que a freqüenta contribuir para que elas sejam sanadas. O erro está em atribuir a Deus uma necessidade que é institucional. Apelar para Deus como aquele que pede, e colocar a igreja como "gazofilácio" Dele.
A contribuição, portanto é necessária. Mas ao invés de coagir o povo a dizimar, o que deveria ser feito é ensinar o povo a ofertar, a usar da liberdade e da liberalidade para promover as melhorias na instituição.

Não se deve atribuir a Deus uma cobrança que é meramente institucional. Ao se postular hoje que quem não dá o dízimo rouba de Deus (metafísico), diz-se duas coisas:
1- Que a proposição de Paulo em Romanos 8:1 não faz sentido, ou que não é mais aplicável;
2- Que ainda se quer viver dentro do regime da lei e da doutrina da retribuição.

A opção pela lei do dízimo como algo aplicável na igreja hoje evidencia um "self-service de leis". Dentro do corpus bíblico, o que se faz é selecionar as leis que são mais convenientes e aplicá-las em favor da necessidade imediata da instituição. No entanto, o que se pode notar é que o dízimo também só deve valer para os judeus, uma vez que no concílio de Jerusalém, a instrução dos apóstolos sobre quais preceitos os gentios deveriam seguir não incluem entre eles o dízimo.

Por que então se dá ao dízimo um estatuto para além da lei, e em relação a outras leis elas só servem para os judeus? A resposta a que se chega é a questão da conveniência. O que é conveniente para a instituição é preservado sobre o pretexto de ser a vontade de Deus que tal coisa seja como é, e as outras são abandonadas sob o pretexto de serem específicas para um povo específico, a saber, os judeus.
Essa diferenciação, no entanto carece de explicação não podendo ser pautada meramente na conveniência. Como esta explicação não encontra uma base sólida, ela se apóia na convicção de quem detém o poder na instituição.

O líder da instituição (neste caso, o pastor) é quem irá definir o que vale ser tomado como lei e o que não vale. Mediante o seu entendimento da bíblia, uma lei do AT poderá ser aceita ou não na igreja.
Como o despreparo por parte dos pastores em várias igrejas é grande, o que se vê são inúmeras igrejas com doutrinas e hábitos muito questionáveis.

A questão do dízimo é apenas uma das questões que precisam ser revistas dentro das igrejas cristãs. Isso implica em uma hermenêutica voltada para o esclarecimento da questão, bem como de um maior preparo por parte dos líderes das igrejas para promoverem esse esclarecimento. Como essa revisão geraria um maior esclarecimento da comunidade onde a ideologia dominante a massacra em nome de Deus, isso não é incitado pelos próprios líderes que se verão perdendo o seu poder de dominação quando o povo começar a pensar. É interessante ressaltar como Cristo fazia com seus discípulos incitando-os a pensar sobre a lei, a pensar o papel individual deles no projeto divino e a refletir sobre o que significava tudo aquilo que estava sendo falado. Ao perguntar para eles: “E vocês, o que dizem que eu sou?” Jesus está incitando-os a pensar, a refletir no real motivo do porquê eles estão fazendo aquilo que estão fazendo.
Jesus sabia da importância de se refletir sobre as ações, bem como o que uma mente esclarecida seria capaz de fazer pela comunidade.

A fé sem reflexão é fanatismo, a fé meramente imposta não modifica a sociedade, não modifica a comunidade onde o membro se encontra. Pensar a fé é pensar a prática cristã, é pensar as minhas atitudes dentro da igreja e tentar entender o porquê ajo como ajo. Essa prática deve atingir todos os setores da igreja; desde o líder de onde vêm as diretrizes até o membro que às vezes simplesmente obedece sem mesmo questionar o líder sobre o real sentido da ordem ou da prática.
A igreja evangélica precisa repensar suas práticas e carece de mudanças urgentes. A meu ver, isso só acontecerá quando nos voltarmos para a Bíblia e a interpretarmos de uma maneira coerente com os princípios ensinados por Jesus; não mais pautando nossas ações em conveniências, ou em práticas irrefletidas. Meu desejo é que consigamos trilhar esse caminho.







Com esta quarta parte chegamos ao fim desta série de  publicações sobre a questão dos dízimos. Tentamos fazer um percurso histórico dentro do texto bíblico e nesta última parte abordar como que a igreja evangélica se apropria (várias vezes de forma perversa) da questão do dízimo. Espero sinceramente que o texto tenha servido para pensarmos sobre esta questão.