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terça-feira, 5 de abril de 2016

Hipocrisia e Felicidade - Slavoj Žižek







"Em psicanálise, a traição do desejo tem um nome preciso: felicidade. [...]

Num sentido lacaniano estrito do termo, deveríamos então postular que a "felicidade" se baseia na incapacidade, ou aversão, do sujeito de enfrentar abertamente as consequências de seu desejo: o preço da felicidade é permanecer o sujeito preso à inconstância do desejo. Na vida diária, (fingimos) desejar coisas que na verdade não desejamos, e assim, ao final, o pior que pode nos acontecer é conseguir o que "oficialmente" desejamos. A felicidade é, portanto, intrinsecamente hipócrita: é a felicidade de sonhar com coisas que na verdade não queremos. 

Quando hoje a esquerda bombardeia o sistema do capital com exigências que este evidentemente não consegue atender (Pleno emprego! Manter o Estado assistencialista! Todos os direitos aos imigrantes!), ela está fazendo um jogo de provocação histérica, de dirigir ao Mestre uma exigência que lhe será impossível satisfazer, expondo assim a sua impotência. Mas o problema dessas estratégia não é apenas o fato de o sistema não ser capaz de atender a essas demandas, mas além disso, o fato de que aqueles que as manifestam na verdade não desejarem que elas se realizem. Por exemplo, quando exigem direitos plenos para os imigrantes e a abertura das fronteiras, estarão os acadêmicos "radicais" cientes de que a implementação direta de tais exigências implicaria, por muitas razões, a inundação dos países ocidentais adiantados com milhões de imigrantes, criando dessa forma uma violenta reação racista da classe operária que colocaria em risco a própria posição privilegiada desses acadêmicos?
É claro que sabem, mas contam com o fato de que suas exigências não serão atendidas - e assim eles continuam hipocritamente a manter limpa a sua consciência radical sem perder sua posição privilegiada. [...]

Sejamos realistas: nós, acadêmicos da esquerda, queremos parecer críticos, apesar de usufruirmos de todos os privilégios que o sistema nos oferece. Vamos então bombardeá-lo com exigências impossíveis: sabemos que essas exigências não serão atendidas, e ficaremos seguros de que nada vai realmente mudar, e manteremos nosso status privilegiado!". Se alguém acusa uma grande empresa de certos crimes financeiros, está se arriscando até a uma tentativa de assassinato; por outro lado, se pede à grande empresa um financiamento para um projeto de pesquisa sobre a relação entre o capitalismo global e o surgimento de identidades pós-coloniais, a mesma pessoa tem uma boa probabilidade de ganhar milhares de dólares." 

ŽIŽEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do Real. Boitempo 2003 p. 79-80

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Jesus e a Família








"É aqui que a posição de Jesus ante a família revela-se surpreendente e até mesmo desconcertante. Acostumados como estamos a considerar a família uma instituição intocável, muitos textos dos Evangelhos chocam-se de forma estridente com nossa sensibilidade. Perdemos de vista que, para Jesus, a família não é, como o é muitas vezes para nós, o espaço mais sacrossanto, nem um espaço a defender a todo custo, como obrigação absoluta e sagrada.

Jesus nos revela uma nova ordem de relações humanas, na qual os "laços de carne" tornam-se superados (Mc 3,31-35 par. Mt 10,37; Lc 14,26). Fica inaugurado um novo modo de filiação, que desloca a ordem biológica. Uma nova comunidade, a do reino, adquire um lugar central, e os laços do espírito se impõem aos laços da carne. Disso resulta que, na medida em que os laços da carne sejam informados e estruturados pelos laços do espírito, a família terá lugar no reino de Deus. Mas, na medida em que estes laços da carne busquem manter sua primazia ou entrem em contradição com os do espírito, a família vai ser desqualificada.

Os laços familiares, por um lado, serão considerados por Jesus modelo e referência reveladora do que deve ser a nova família comunitária. Quase todas as relações familiares e humanas implicadas por essas situações são assumidas por Jesus como situações exemplares que servem para iluminar o significado da mensagem (assim, por exemplo, Mt 22,2-3; 24,19; Jo 16,21; Lc 16,27; Mc 10,19; Mt 7,9 etc.)

Mas, por outro lado, os laços familiares são radicalmente questionados quando se opõem aos valores que devem informar a nova comunidade. Uma vez que a família representa e transmite os valores sociais dominantes da cultura, o conflito entre os vínculos familiares e os valores do reino está declaradamente aberto. Na medida em que a família representa e fomenta os valores sociais do muito possuir, de ascender ao máximo e de brilhar acima de todos, os laços familiares implicam amarras que o seguidor de Jesus é convocado a romper.

Por isso, a mensagem radical do Evangelho supõe um nítido enfrentamento com o que a família pode ser e representar. De alguma maneira, o conflito é inevitável. Ele o foi para o próprio Jesus, cujos parentes achavam que ele havia enlouquecido porque não buscava o triunfo nos seus locais apropriados, porque vivia não para si próprio, mas numa atitude de serviço e entrega total às pessoas, porque em sua terra natal, entre parentes e amigos da casa, proclamou a impossibilidade de ser profeta (Mc 3,21; 6,1-6; Mt 13,55-58; Lc 4,16-20). Por tudo isso, Jesus afirmou pública e abertamente a substituição de sua família pelas relações comunitárias. Sua mãe e seus irmãos são os que, como ele, escutam e são fiéis à única paternidade possível sobre a terra (Mc 3,31-35 par. Mt 12,46-50; Lc 8,19-21). O ventre que cria e o peito que alimenta, bem como as relações biológicas, são substituídas pela escuta da palavra e seu cumprimento, ou seja, pelos laços do espírito (Lc 11,27)

A instauração do reino implica um enfrentamento até a morte com os valores dominantes da sociedade; por isso esse confronto irá situar-se no próprio núcleo da instituição familiar. A divisão da família, que tanto ameaça o arcabouço social, foi anunciada por Jesus e assumida como condição inevitável para o estabelecimento de outras relações mais humanas; pais e filhos se enfrentarão, os irmãos denunciarão irmãos e os entregarão à morte (Mt 10,21 par. Mc 13,12; Lc 21,16). A guerra se instalará entre todos os membros da casa por causa de Jesus (Lc. 12,51-53 par. Mt. 10,34-36). Ele mesmo proclamou-se objeto de amor mais importante que os da família; o pai e a mãe não podem ser mais queridos do que ele (Mt 10,37-38 par. Lc 14,26-27). Por isso os que o seguem abandonam seus pais, e com eles todos os seus familiares (Mt 4,20-22 par. Mc 1,20; Lc 5,11).

Tal é a radicalidade de Jesus. Radicalidade que questiona até o fundo a atitude sacralizadora que a sociedade facilmente adota diante da família. O fato de que esta venha a canalizar, garantir e controlar a sexualidade não é para Jesus razão suficiente e motivo válido para torná-la inquestionável. Existe algo mais importante do que o controle e a canalização da sexualidade dentro de certos limites estabelecidos. Esses limites, que também são um meio para introjetar os valores sociais dominantes, podem também ser utilizados para inculcar valores que se opõem de forma radical aos do Evangelho. Por isso a família deixa de ser para Jesus uma instituição sagrada e absoluta. A partir do momento em que a família representa e perpetua certos modos opressivos de relação, converte-se também numa estrutura contra a qual o reino deve empreender sua luta. Porque nem os valores mais santos que a família possa transmitir justificam, aos olhos do Evangelho, passar por cima dos valores de igualdade radical, de liberdade e de autonomia, de entrega e serviço, o que, com tanta freqüência, é feito pela instituição familiar. Desde o momento em que a família impede ou entorpece a liberdade do sujeito, e, portanto, sua disposição para o reino, Jesus se opõe a ela. Ele não se sentiu paralisado pelo temor, tantas vezes racionalizado, da divisão da família e de suas consequências sobre o controle da sexualidade. Com isso dessacralizou e relativizou o valor dessas estrutura fundamental onde a sexualidade se conforma, se canaliza e para a qual é primordialmente focalizada."

MORANO, Carlos Dominguez. Crer depois de Freud. Edições Loyola. 2003 p. 183-185

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Uma pequena resposta de Agostinho à pergunta "Quem é Deus?"






Quem é Deus ?

O que sei, Senhor, sem sombra de dúvida, é que te amo. Feriste meu coração com tua palavra, e te amei. O céu, a terra e tudo quanto neles existe, de todas as partes me dizem que te ame; nem cessam de repeti-lo a todos os homens, para que não tenham desculpas. Terás compaixão mais profunda de quem já te compadeceste; e usarás de misericórdia com quem já foste misericordioso. De outro modo, o céu e a terra cantariam teus louvores a surdos. Mas, que amo eu, quando te amo? Não amo a beleza do corpo, nem o esplendor fugaz, nem a claridade da luz, tão cara a estes meus olhos, nem as doces melodias das mais diversas canções, nem a fragrância de flores, de unguentos e de aromas, nem o maná, nem o mel, nem os membros tão afeitos aos amplexos da carne. Nada disto amo quando amo o meu Deus. E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento, um abraço de meu homem interior, onde brilha para minha alma uma luz sem limites, onde ressoam melodias que o tempo não arrebata, onde exalam perfumes que o vento não dissipa, onde se provam iguarias que o apetite não diminui, onde se sentem abraços que a saciedade não desfaz. Eis o que amo quando amo o meu Deus!
 
Então, o que é Deus?

Perguntei à terra, e ela me disse: “Eu não sou Deus”. E tudo o que nela existe me respondeu o mesmo. Perguntei ao mar, aos abismos e aos répteis viventes, e eles me responderam: “Não somos teu Deus; busca-o acima de nós”. Perguntei aos ventos que sopram; e todo o ar, com seus habitantes, me disse: “Anaxímenes está enganado eu não sou Deus”. Perguntei ao céu, ao sol, à luz e às estrelas. “Tampouco somos o Deus a quem procuras” – me responderam. Disse então à todas as coisas que meu corpo percebe: “Dizei-me algo de meu Deus, já que não sois Deus; dizei-me alguma coisa dele” – e todas exclamaram em coro: “Ele nos criou” – Minha pergunta era meu olhar, e sua resposta a sua beleza.

Dirigi-me, então, a mim mesmo, e perguntei: “E tu, quem és?” – e respondi: “Um homem”. Para me servirem, tenho um corpo e uma alma: aquele exterior, esta interior. Por qual deles deverei perguntar pelo meu Deus, a quem já havia procurado com o corpo desde a terra até o céu, até onde pude enviar os raios de meu olhar como mensageiros? Melhor, sem dúvida, é a parte interior de mim mesmo. É a ela que dirigem suas respostas todos os mensageiros de meu corpo, como a um presidente ou juiz, respostas do céu, da terra, e de tudo o que existe, e que proclamam: “Não somos Deus” – e ainda – “Ele nos criou”. O homem interior conhece essas coisas por meio do homem exterior; mas o homem interior, que é a alma, também conhece essas coisas por meio dos sentidos do corpo. Interroguei a imensidão do universo acerca de meu Deus, e ele me respondeu: “Não sou eu, mas foi ele quem me criou”. Mas essa beleza não se manifesta a quantos têm sentidos perfeitos? E por que não fala a todos a mesma linguagem? Os animais, pequenos ou grandes, a vêem; mas não podem interrogá-la, porque não receberam a razão que, como juiz, interprete as mensagens dos sentidos. Os homens, porém, podem interrogá-la, para que as perfeições invisíveis de Deus se manifestem pelas suas obras. Mas o amor às coisas criadas os escraviza, e assim os torna incapazes de julga-las. Ora, elas só respondem aos que podem julgar-lhes as respostas. Elas não mudam sua linguagem, isto é, sua beleza, quando um só as vê, e outro as interroga; elas não lhes aparecem diferentes mas, para uns ficam mudas, enquanto falam a outros. Ou melhor: eles falam a todos, mas apenas se entendem os que comparam sua expressão exterior com a verdade interior. De fato a verdade me diz: “Teu Deus não é nem o céu, nem a terra, nem corpo algum. A natureza das coisas o diz para quem sabe ver; a matéria é menor em seus elementos que em seu todo. Por isso, minha alma, digo-te que és superior ao corpo, pois vivificas sua matéria, dando-lhe vida, como nenhum corpo pode dar a outro corpo. Mas teu Deus é também para ti a vida de tua vida.

Santo Agostinho. Confissões. Livro X. Capítulo VI.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Neurose (Freud e Jung)


Mapa do Inferno de Dante (Sandro Botticelli)



"Nossas análises demonstram todas que as neuroses transferenciais se originam de recuar-se o ego a aceitar um poderoso impulso instintual do id ou a ajudá-lo a encontrar um escoador ou motor, ou de o ego proibir àquele impulso o objeto a que visa. Em tal caso, o ego se defende contra o impulso instintual mediante o mecanismo da repressão. O material reprimido luta contra esse destino. Cria para si próprio, ao longo de caminhos sobre os quais o ego não tem poder, uma representação substitutiva (que se impõe ao ego mediante uma conciliação) – o sintoma. O ego descobre a sua unidade ameaçada e prejudicada por esse intruso e continua a lutar contra o sintoma, tal como desviou o impulso instintual original. Tudo isso produz o quadro de uma neurose." (FREUD, Sigmund. Obras completas vol.19 (1924 [1923]/2006. Disponível online aqui)



"Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa, o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhes gratos, caso contrário teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer realmente quem somos. Uma neurose estará realmente 'liquidada' quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas é ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la" (JUNG, C.G. Obras completas vol.10 parágrafo 361 em tradução livre de Marco Heleno Barreto, ex professor meu e grande conhecedor da obra de Jung.)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"Não é pelo muito falar que seremos ouvidos" - Um pouco de Gilles Lipovetsky





"Assim como a idade moderna foi obcecada pela produção e pela revolução, a idade pós-moderna é obcecada pela informação e pela expressão. Somos todos Djs, apresentadores e animadores. Democratização sem precedentes da palavra: todo mundo é incitado a ligar para a central telefônica , quer contar algo a partir da sua experiência íntima, ou pode se tornar um locutor e ser ouvido. Isso vale tanto nesse caso como no dos grafites nas paredes de escolas ou no dos inúmeros grupos artísticos: quanto mais a gente se expressa, menos há o que dizer; quanto mais a subjetividade é solicitada, mais o efeito é anônimo e vazio.

Esse paradoxo é reforçado também pelo fato de que ninguém no fundo, está interessado nessa profusão de expressões, como uma exceção que deve ser levada em conta: o próprio emitente ou criador. Isto é, exatamente, o narcisismo, a expressão sem retoques, a prioridade do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença em relação aos conteúdos, a assimilação lúdica do sentido, a comunicação sem finalidade e sem público, o remetente transformado em seu principal destinatário. Daí essa pletora de espetáculos, de exposições, de entrevistas, de proposições totalmente insignificantes para qualquer pessoa e que não levam em conta nem mesmo a ambiência; outra coisa está em jogo: a possibilidade e o desejo de se expressar qualquer que seja a natureza da "mensagem", o direito e o prazer narcisista de se manifestar a respeito de nada, por si mesmo, mas retransmitido e amplificado por um meio de comunicação.

Comunicar por comunicar, expressar-se sem qualquer outra finalidade a não ser expressar-se e ser ouvido por um micropúblico, o narcisismo revela, tanto aqui quanto em outros aspectos, a sua conivência com a ausência de substância pós-moderna, com a lógica do vazio." (LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. 1983 p. 24)



"A tese do "progresso" psicológico é insustentável diante da extensão e da generalização dos estados depressivos, outrora reservados em prioridade para as classes burguesas. Ninguém pode se vangloriar de escapar; a deserção social ocasionou uma democratização sem precedente da depressão, o tédio de viver, flagelo hoje em dia difundido e endêmico. Do mesmo modo, o homem "cool" não é mais sólido do que o homem do adestramento puritano ou disciplinar. Na verdade seria mais o inverso.

Num sistema descaracterizado basta um simples acontecimento, um nada, para que a indiferença se generalize e ganhe existência própria. Atravessando sozinho o deserto, levando a si mesmo sem qualquer apoio transcendental, o homem de hoje se caracteriza pela vulnerabilidade. A generalização da depressão deve ser levada em conta não das vicissitudes psicológicas de cada um ou das "dificuldades" da vida atual, mas, sim, da deserção da res pública que foi limpando o terreno até o advento do indivíduo puro, do Narciso em busca de si mesmo, obcecado por si mesmo e, assim sendo, suscetível de enfraquecer ou de desmoronar a qualquer momento diante da adversidade que enfrenta desarmado, sem força exterior.

O homem descontraído está desarmado. Os problemas pessoais assumem, assim, dimensões desmesuradas  e quanto mais os contemplamos, ajudados ou não pelos psi, menos os resolvemos. Aqui se inclui o problema existencial, o ensino ou a política: quanto mais submetidos a tratamento e auscultação mais os problemas se tornam insuperáveis. O que, hoje em dia, não está sujeito à dramatização e ao estresse? Envelhecer, engordar, enfear, dormir, educar os filhos, sair de férias... tudo se transforma em problema. As atividades elementares se tornaram impossíveis.

O tempo em que a solidão designava as almas poéticas e excepcionais terminou, aqui todos os personagens a conhecem com a mesma inércia. Nenhuma revolta, nenhuma vertigem mortífera a acompanha; a solidão se tornou um fato, uma banalidade com a mesma importância dos gestos cotidianos. As consciências não mais se definem pela dilaceração recíproca; o reconhecimento, a sensação de incomunicabilidade e o conflito deram lugar à apatia, e a própria inter-subjetividade se encontra relegada. Depois da deserção social dos valores e das instituições, é a relação com o Outro que, segundo a mesma lógica, sucumbe ao processo de desafeição. O Eu não habita mais num inferno povoado de outros egos, rivais ou desprezados, a relação se apaga sem gritos, sem motivo, em um deserto de uma autonomia e neutralidade asfixiantes.

A liberdade, a exemplo da guerra, propagou-se pelo deserto; já atomizado e separado, cada qual se torna agente ativo do deserto, amplia-o e escava-o, incapaz que é de "viver" o Outro. Não satisfeito em produzir o isolamento, o sistema engendra seu desejo, desejo impossível que, no instante em que é alcançado, revela-se intolerável: o indivíduo quer ser só, sempre e cada vez mais só, ao mesmo tempo em que não suporta a si mesmo estando só. a esta altura o deserto já não tem mais princípio ou fim. (Idem p 29,30)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Místico sikh sobre Deus. Confluências...






As pessoas vão ao seus templos
Para saudar-Me;
Quão simples e ignorantes são meus filhos
Quando pensam que vivo isolado.

Por que não vêm e Me saúdam
Na procissão da vida, onde sempre vivo,
Nas fazendas, nas fábricas, no mercado?
Lá onde insuflo de ânimo aqueles
Que ganham seu pão com o suor de seu rosto?

Por que não vêm e Me saúdam
Nos barracos dos pobres,
E Me encontram a abençoar os pobres e necessitados,
Secando as lágrimas de viúvas e órfãos?

Por que não vêm e Me saúdam
Ao lado da estrada,
E Me encontram a abençoar o mendigo que pede por pão?

Por que não vêm e Me saúdam
Entre aqueles que são pisoteados
Pelos orgulhosos no roubo e no poder?
Por que não Me vêem contemplando seu sofrimento
e despejando compaixão?

Por que não vê e Me saúdam
Entre as mulheres que se afundaram no pecado e na vergonha,
Lá onde me sento junto delas para abençoar e elevar?

Estou seguro
Que jamais sentirão falta de Mim
Se tentarem Me encontrar
No suor e na luta da vida
E  nas lágrimas e tragédia dos pobres.

(Kushdeva Singh. Místico e ativista sikh. In Dedication 1974, p.31-32)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

17/05/2014 - Dia de Festa... 31 anos






"Nada é mais sério do que uma festa: nada concilia e emblema melhor a dupla paixão humana pela liberdade por um lado e pelo ritual por outro. Uma festa é um dia programado para ser fora do programa, e essa contradição encarna mais do que qualquer outro aspecto da cultura os contrastes da condição humana.

Os antropólogos entenderam há muito tempo o engano que seria continuar dividindo festas populares entre sagradas e profanas, visto que cada festa que encontrou ocasião de se entremear no calendário das gentes celebra a seu modo uma entrada no domínio do que não pode ser dito, visto ou explicado: o domínio do sagrado, que só pode ser explorado indiretamente.

Uma festa é um encontro que marcamos com aquilo na experiência que não pode ser articulado de outra forma: um encontro com o que só podem expressar a deliberada pausa, o deliberado excesso, o abraço, a risada, a cantoria, a dança, o beijo, o copo erguido para o alto, o banquete, o jogo, a fantasia, a música, a máscara, o cortejo com o caos, a dança com a morte, o balé da alegria de todos os fins e de todos os recomeços. Uma festa é a encenação ritual de um final feliz, e os seres humanos não esboçaram tema ou motivo mais sagrado."

Paulo Brabo http://www.baciadasalmas.com/2014/o-mundo-ao-reverso-e-outros-versos/


Festejemos a sacralidade da vida, 
os momentos felizes, 
os anos que se vão. 

Festejemos o tempo que passou
a lágrima que caiu
os amigos e os irmãos

Festejemos a esperança no porvir

Festejemos! Pois assim nos renovamos
Para o novo ano que se inicia. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

"Outra coisa me apavora: que o homem em mim ressuscitado possa me abandonar !"




Dimitri chegou emocionado para Aliócha e lhe deu um beijo. Seus olhos começaram a brilhar e em seguida ele diz:

"Irmão, nesses dois últimos meses senti em mim um novo homem, renasceu em mim um novo homem ! Ele estava enclausurado em mim, mas nunca apareceria se não viesse essa tormenta. É terrível ! Mas que me importa que eu venha a passar vinte anos arrancando minério a marretadas numa mina, não tenho nenhum medo disso, mas agora outra coisa me apavora: que o homem em mim ressuscitado possa me abandonar ! Até lá nas minas, debaixo da terra, posso encontrar a meu lado um coração humano num galé e assassino como eu e fazer amizade com ele, porque lá também se pode viver, e amar, e sofrer ! Nesse galé pode renascer e ressuscitar um coração congelado, pode-se cuidar dele por anos a fio e, por fim, arrancar desse antro para a luz uma alma já elevada, uma consciência sofrida, pode-se fazer renascer um anjo, ressuscitar um herói ! E eles são muitos, são centenas, e todos nós culpados por eles ! Por que sonhei com o "bebê" justo nessa circunstância? "Por que o bebê é pobre?" Essa profecia me aconteceu naquele instante ! Pelo "bebê" eu vou. Porque todos são culpados por todos. Por todos os "bebês", porque há crianças pequenas e crianças grandes. Todos são "bebês". É por todos eles que eu vou, porque alguém tem de ir por todos. Não matei meu pai, mas preciso ir. Aceito! Tudo isso me veio à mente aqui... entre essas paredes descascadas. Mas eles são muitos, lá eles são centenas debaixo do chão, empunhando marretas. Ah sim, estaremos acorrentados e privados de vontade, e então, em nossa grande aflição tornaremos a ressuscitar na alegria sem a qual já não é possível ao homem viver nem Deus existir, porque Deus traz a alegria, este é o seu privilégio, grande... Que o homem se consuma na oração, Senhor ! Como ficarei sem Deus lá debaixo do chão? Rakítin mente: se expulsarem Deus da face da Terra, nós O acharemos debaixo dela ! Para um galé é impossível passar sem Deus, mais impossível ainda do que para quem não é galé ! E então nós, homens do subterrâneo, cantaremos das entranhas da terra um hino trágico a Deus, em quem está a alegria ! Viva Deus e sua alegria ! Eu O amo !"   (Dostoiévski, Fiódor.  Irmãos Karamázov  p. 767,768)


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Fé e crédito - Giorgio Agamben







Para entender o que significa a palavra "futuro", é preciso, antes, entender o que significa uma outra palavra, que não estamos mais acostumados a usar, senão na esfera religiosa: a palavra "fé". Sem fé ou confiança, não é possível futuro. Só há futuro se pudermos esperar ou crer em alguma coisa.

Sim, mas o que é fé? David Flüsser, um grande estudioso da ciência das religiões – também existe uma disciplina com esse estranho nome – estava justamente trabalhando sobre a palavra pistis, que é o termo grego que Jesus e os apóstolos usavam para "fé". Um dia, ele se encontrava por acaso em uma praça de Atenas e, em um certo momento, levantando os olhos, viu escrito em caracteres capitais, à sua frente: Trapeza tes pisteos. Estupefato com a coincidência, olhou melhor e, depois de alguns segundos, se deu conta de que se encontrava simplesmente diante de um banco: trapeza tes pisteos significa, em grego, "banco de crédito".

Eis qual era o sentido da palavra pistis, que ele estava tentando entender há meses: pistis, "fé", é simplesmente o crédito do qual gozamos junto de Deus e do qual a palavra de Deus goza junto de nós, a partir do momento em que acreditamos nela.

Por isso, Paulo pode dizer em uma famosa definição que "a fé é substância de coisas esperadas" [ou, segundo a versão da Bíblia Pastoral, "um modo de já possuir aquilo que se espera"]: ela é o que dá realidade àquilo que não existe ainda, mas em que acreditamos e confiamos, em que colocamos em jogo o nosso crédito e a nossa palavra. Algo como um futuro existe na medida em que a nossa fé consegue dar substância, isto é, realidade às nossas esperanças.

Mas a nossa época, como se sabe, é de escassa fé ou, como dizia Nicola Chiaromonte, de má-fé, isto é, de uma fé mantida à força e sem convicção. Portanto, uma época sem futuro e sem esperanças – ou de futuros vazios e de falsas esperanças. Mas, nesta época muito velha para crer realmente em alguma coisa e esperta demais para estar verdadeiramente desesperada, o que será do nosso crédito, o que será do nosso futuro?

Porque, olhando bem, ainda há uma esfera que gira totalmente ao redor do eixo do crédito, uma esfera em que acabou toda a nossa pistis, toda a nossa fé. Essa esfera é o dinheiro, e o banco – a trapeza tes pisteos – é o seu templo. O dinheiro nada mais é do que um crédito, e sobre muitas notas de crédito (sobre a libra esterlina, sobre o dólar, mesmo que não – sabe-se lá por que; talvez deveríamos começar a suspeitar disso – sobre o euro) ainda está escrito que o banco central promete garantir esse crédito de algum modo.

A chamada "crise" que estamos atravessando – mas aquilo que se chama de "crise", isso já está claro, nada mais é do que o modo normal em que funciona o capitalismo do nosso tempo – começou com uma série insensata de operações sobre o crédito, sobre créditos que eram descontados e revendidos dezenas de vezes antes que pudessem ser realizados. Isso significa, em outras palavras, que o capitalismo financeiro – e os bancos que são o seu órgão principal – funciona jogando sobre o crédito – ou seja, sobre a fé – dos homens.

Mas isso também significa que a hipótese de Walter Benjamin, segundo a qual o capitalismo é, na verdade, uma religião e a mais feroz e implacável que jamais existiu, porque não conhece redenção nem trégua, deve ser tomado ao pé da letra. O Banco – com os seus funcionários pardos e especialistas – tomou o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito, manipula e gerencia a fé – a escassa e incerta confiança – que o nosso tempo ainda tem em si mesmo. E o faz do modo mais irresponsável e sem escrúpulos, tentando lucrar dinheiro com a confiança e as esperanças dos seres humanos, estabelecendo o crédito de que cada um pode gozar e o preço que deve pagar por isso (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram à sua soberania).

Desse modo, governando o crédito, ele governa não só o mundo, mas também o futuro dos seres humanos, um futuro que a crise torna cada vez mais curto e a prazo. E se hoje a política não parece mais possível, isso se deve ao fato de que o poder financeiro sequestrou de fato toda a fé e todo o futuro, todo o tempo e todas as expectativas.

Enquanto essa situação durar, enquanto a nossa sociedade que se acredita laica permanecer subserviente à mais obscura e irracional das religiões, será bom que cada um retome o seu crédito e o seu futuro das mãos desses tétricos pseudosacerdotes, banqueiros, professores e funcionários das várias agências de rating. E talvez a primeira coisa a fazer é parar de olhar apenas para o futuro, como eles exortam a fazer, para, ao contrário, voltar o olhar para o passado.

Apenas compreendendo o que aconteceu e, sobretudo, tentando entender como pôde acontecer, será possível, talvez, reencontrar a própria liberdade. A arqueologia – não a futurologia – é a única via de acesso ao presente.

Para entender o que significa a palavra "futuro", é preciso, antes, entender o que significa uma outra palavra, que não estamos mais acostumados a usar, senão na esfera religiosa: a palavra "fé". Sem fé ou confiança, não é possível futuro. Só há futuro se pudermos esperar ou crer em alguma coisa.

Sim, mas o que é fé? David Flüsser, um grande estudioso da ciência das religiões – também existe uma disciplina com esse estranho nome – estava justamente trabalhando sobre a palavra pistis, que é o termo grego que Jesus e os apóstolos usavam para "fé". Um dia, ele se encontrava por acaso em uma praça de Atenas e, em um certo momento, levantando os olhos, viu escrito em caracteres capitais, à sua frente: Trapeza tes pisteos. Estupefato com a coincidência, olhou melhor e, depois de alguns segundos, se deu conta de que se encontrava simplesmente diante de um banco: trapeza tes pisteos significa, em grego, "banco de crédito".

Eis qual era o sentido da palavra pistis, que ele estava tentando entender há meses: pistis, "fé", é simplesmente o crédito do qual gozamos junto de Deus e do qual a palavra de Deus goza junto de nós, a partir do momento em que acreditamos nela.

Por isso, Paulo pode dizer em uma famosa definição que "a fé é substância de coisas esperadas" [ou, segundo a versão da Bíblia Pastoral, "um modo de já possuir aquilo que se espera"]: ela é o que dá realidade àquilo que não existe ainda, mas em que acreditamos e confiamos, em que colocamos em jogo o nosso crédito e a nossa palavra. Algo como um futuro existe na medida em que a nossa fé consegue dar substância, isto é, realidade às nossas esperanças.

Mas a nossa época, como se sabe, é de escassa fé ou, como dizia Nicola Chiaromonte, de má-fé, isto é, de uma fé mantida à força e sem convicção. Portanto, uma época sem futuro e sem esperanças – ou de futuros vazios e de falsas esperanças. Mas, nesta época muito velha para crer realmente em alguma coisa e esperta demais para estar verdadeiramente desesperada, o que será do nosso crédito, o que será do nosso futuro?

Porque, olhando bem, ainda há uma esfera que gira totalmente ao redor do eixo do crédito, uma esfera em que acabou toda a nossa pistis, toda a nossa fé. Essa esfera é o dinheiro, e o banco – a trapeza tes pisteos – é o seu templo. O dinheiro nada mais é do que um crédito, e sobre muitas notas de crédito (sobre a libra esterlina, sobre o dólar, mesmo que não – sabe-se lá por que; talvez deveríamos começar a suspeitar disso – sobre o euro) ainda está escrito que o banco central promete garantir esse crédito de algum modo.

A chamada "crise" que estamos atravessando – mas aquilo que se chama de "crise", isso já está claro, nada mais é do que o modo normal em que funciona o capitalismo do nosso tempo – começou com uma série insensata de operações sobre o crédito, sobre créditos que eram descontados e revendidos dezenas de vezes antes que pudessem ser realizados. Isso significa, em outras palavras, que o capitalismo financeiro – e os bancos que são o seu órgão principal – funciona jogando sobre o crédito – ou seja, sobre a fé – dos homens.

Mas isso também significa que a hipótese de Walter Benjamin, segundo a qual o capitalismo é, na verdade, uma religião e a mais feroz e implacável que jamais existiu, porque não conhece redenção nem trégua, deve ser tomado ao pé da letra. O Banco – com os seus funcionários pardos e especialistas – tomou o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito, manipula e gerencia a fé – a escassa e incerta confiança – que o nosso tempo ainda tem em si mesmo. E o faz do modo mais irresponsável e sem escrúpulos, tentando lucrar dinheiro com a confiança e as esperanças dos seres humanos, estabelecendo o crédito de que cada um pode gozar e o preço que deve pagar por isso (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram à sua soberania).

Desse modo, governando o crédito, ele governa não só o mundo, mas também o futuro dos seres humanos, um futuro que a crise torna cada vez mais curto e a prazo. E se hoje a política não parece mais possível, isso se deve ao fato de que o poder financeiro sequestrou de fato toda a fé e todo o futuro, todo o tempo e todas as expectativas.

Enquanto essa situação durar, enquanto a nossa sociedade que se acredita laica permanecer subserviente à mais obscura e irracional das religiões, será bom que cada um retome o seu crédito e o seu futuro das mãos desses tétricos pseudosacerdotes, banqueiros, professores e funcionários das várias agências de rating. E talvez a primeira coisa a fazer é parar de olhar apenas para o futuro, como eles exortam a fazer, para, ao contrário, voltar o olhar para o passado.

Apenas compreendendo o que aconteceu e, sobretudo, tentando entender como pôde acontecer, será possível, talvez, reencontrar a própria liberdade. A arqueologia – não a futurologia – é a única via de acesso ao presente.

Retirado do site da IHU http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506810-quando-a-religiao-do-dinheiro-devora-o-futuro-artigo-de-giorgio-agamben

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Reflexão sobre o Titanic



Nós fitamos juntos os mares muito suaves no local onde o RMS Titanic afundou há um século. Como o salmista que cantou: "Das profundezas, eu clamo a ti, ó Senhor", o Titanic ainda clama para nós das profundezas das águas coroadas de icebergs, mais de mil vozes que nos falam das feridas da perda que cem anos de solidão no fundo arenoso do Atlântico não curaram.

A água é o meio do verdadeiro Mistério, trazendo-nos as vozes dos passageiros perdidos a partir dos escombros espalhados como as pérolas derramadas para fora da bolsa de uma viúva, mediante o que os investigadores marinhos definem como "campo de destroços" da grande embarcação.

Mesmo enquanto os coletores tentar recolhê-los, esses objetos testemunham que esse não é um campo de destroços, mas sim um campo humano. Esses pequenos acessórios da vida cotidiana – navalhas e pentes, canetas e fivelas e broches – sussurram sobre os seus proprietários, trazendo-os à vida, de modo que nos sintamos no convés ao lado deles, conhecendo o que eles não têm do destino que, de repente, os iria engolir juntamente com os planos e os sonhos não muito diferentes dos nossos.

Podemos sentir as correntes de tristeza que correm tão profundamente por essas águas, assim como a Corrente do Golfo, a não muitos quilômetros de distância. O que nos lembramos desses passageiros – os seus pecados ou as suas tristezas? Neste mesmo mês de abril, como não ouvir de novo, também, as vozes daqueles que afundaram junto com as Torres Gêmeas, a partir dos relatos de que alguns de seus restos mortais estão sendo enterrados no mesmo mar?

E o que eles nos contam, em seus telefonemas e e-mails finais para aqueles que eles amavam, senão a bondade simples das pessoas que os pregadores equivocadamente chamam de pecadoras e que nós, erroneamente, chamamos de comuns? A dor das vítimas do 11 de setembro parece mais nova do que a das vítimas do Titanic. Contudo, a tristeza não tem qualquer carimbo de tempo ou data de validade. E agora elas se misturam, testemunhando juntas os laços do amor humano e a tristeza que é semeada como o trigo no campo do tempo que passa.

Agora que elas se libertaram do tempo e entraram na eternidade, nós podemos vê-las e compreendê-las melhor. Nós captamos vislumbres da pureza do coração que, apesar do trovão dos sermões acusando homens e mulheres por seus pecados, elas parecem tão simples e inconscientemente possuir.

O que devemos aprender neste tempo de Páscoa em que, durante as semanas cheias de cinzas da Quaresma, fomos alertados por severos pregadores sobre a enorme dívida de pecado que Jesus pagou morrendo por nós? Como é grande o nosso pecado, clamam eles, para que tal preço tenha sido cobrado por nós.

Mas, talvez, essa seja uma compreensão econômica da redenção, preparado por contadores que, se você lhes perguntar como vão, eles vão lhe dizer que o mercado de ações está em alta ou em baixa. Será que Jesus, podemos nos perguntar enquanto a luz plena da primavera se eleva, morreu para pagar por nossos pecados ou para se identificar com as nossas dores? Ele é chamado de o Homem das Dores, então, talvez, essa compreensão mais profunda tenha sido escondida à vista de todos, enquanto os mistérios simples do amor e da devoção estão todos ao nosso redor.

Jesus perdoou os pecadores prontamente, mas passou grande parte do seu tempo na terra respondendo à dor e à tristeza que são a condição da nossa vida no tempo.

Estamos todos reunidos nesta semana em que a latitude e a longitude inscrevem uma cruz na superfície das águas em cujas profundezas o despedaçado Titanic jaz. O seu telegrafista, conta-se, enviou mensagens até o último momento. Talvez, no entanto, possamos ouvir esses sinais dessas profundezas em nossas próprias profundezas, dizendo-nos que, abaixo de nós, jaz um lugar de julgamento em que os bem-aventurados foram conduzidos para a eternidade, porque eles estavam tão ocupados carregando as tristezas da vida que vêm com o amor que quase não tiveram tempo algum para pecar.

Texto de Eugene Cullen Kennedy, publicado no site da National Catholic Reporter, 12-04-2012.

Disponivel em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/508514-a-licao-do-titanic-mais-tristeza-do-que-pecado-no-mundo

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Fé e crédito - Observações de Giorgio Agamben









Para entender o que significa a palavra "futuro", é preciso, antes, entender o que significa uma outra palavra, que não estamos mais acostumados a usar, senão na esfera religiosa: a palavra "fé". Sem fé ou confiança, não é possível futuro. Só há futuro se pudermos esperar ou crer em alguma coisa.

Sim, mas o que é fé? David Flüsser, um grande estudioso da ciência das religiões – também existe uma disciplina com esse estranho nome – estava justamente trabalhando sobre a palavra pistis, que é o termo grego que Jesus e os apóstolos usavam para "fé". Um dia, ele se encontrava por acaso em uma praça de Atenas e, em um certo momento, levantando os olhos, viu escrito em caracteres capitais, à sua frente: Trapeza tes pisteos. Estupefato com a coincidência, olhou melhor e, depois de alguns segundos, se deu conta de que se encontrava simplesmente diante de um banco: trapeza tes pisteos significa, em grego, "banco de crédito".

Eis qual era o sentido da palavra pistis, que ele estava tentando entender há meses: pistis, "fé", é simplesmente o crédito do qual gozamos junto de Deus e do qual a palavra de Deus goza junto de nós, a partir do momento em que acreditamos nela.

Por isso, Paulo pode dizer em uma famosa definição que "a fé é substância de coisas esperadas" [ou, segundo a versão da Bíblia Pastoral, "um modo de já possuir aquilo que se espera"]: ela é o que dá realidade àquilo que não existe ainda, mas em que acreditamos e confiamos, em que colocamos em jogo o nosso crédito e a nossa palavra. Algo como um futuro existe na medida em que a nossa fé consegue dar substância, isto é, realidade às nossas esperanças.

Mas a nossa época, como se sabe, é de escassa fé ou, como dizia Nicola Chiaromonte, de má-fé, isto é, de uma fé mantida à força e sem convicção. Portanto, uma época sem futuro e sem esperanças – ou de futuros vazios e de falsas esperanças. Mas, nesta época muito velha para crer realmente em alguma coisa e esperta demais para estar verdadeiramente desesperada, o que será do nosso crédito, o que será do nosso futuro?

Porque, olhando bem, ainda há uma esfera que gira totalmente ao redor do eixo do crédito, uma esfera em que acabou toda a nossa pistis, toda a nossa fé. Essa esfera é o dinheiro, e o banco – a trapeza tes pisteos – é o seu templo. O dinheiro nada mais é do que um crédito, e sobre muitas notas de crédito (sobre a libra esterlina, sobre o dólar, mesmo que não – sabe-se lá por que; talvez deveríamos começar a suspeitar disso – sobre o euro) ainda está escrito que o banco central promete garantir esse crédito de algum modo.

A chamada "crise" que estamos atravessando – mas aquilo que se chama de "crise", isso já está claro, nada mais é do que o modo normal em que funciona o capitalismo do nosso tempo – começou com uma série insensata de operações sobre o crédito, sobre créditos que eram descontados e revendidos dezenas de vezes antes que pudessem ser realizados. Isso significa, em outras palavras, que o capitalismo financeiro – e os bancos que são o seu órgão principal – funciona jogando sobre o crédito – ou seja, sobre a fé – dos homens.

Mas isso também significa que a hipótese de Walter Benjamin, segundo a qual o capitalismo é, na verdade, uma religião e a mais feroz e implacável que jamais existiu, porque não conhece redenção nem trégua, deve ser tomado ao pé da letra. O Banco – com os seus funcionários pardos e especialistas – tomou o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito, manipula e gerencia a fé – a escassa e incerta confiança – que o nosso tempo ainda tem em si mesmo. E o faz do modo mais irresponsável e sem escrúpulos, tentando lucrar dinheiro com a confiança e as esperanças dos seres humanos, estabelecendo o crédito de que cada um pode gozar e o preço que deve pagar por isso (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram à sua soberania).

Desse modo, governando o crédito, ele governa não só o mundo, mas também o futuro dos seres humanos, um futuro que a crise torna cada vez mais curto e a prazo. E se hoje a política não parece mais possível, isso se deve ao fato de que o poder financeiro sequestrou de fato toda a fé e todo o futuro, todo o tempo e todas as expectativas.

Enquanto essa situação durar, enquanto a nossa sociedade que se acredita laica permanecer subserviente à mais obscura e irracional das religiões, será bom que cada um retome o seu crédito e o seu futuro das mãos desses tétricos pseudosacerdotes, banqueiros, professores e funcionários das várias agências de rating. E talvez a primeira coisa a fazer é parar de olhar apenas para o futuro, como eles exortam a fazer, para, ao contrário, voltar o olhar para o passado.

Apenas compreendendo o que aconteceu e, sobretudo, tentando entender como pôde acontecer, será possível, talvez, reencontrar a própria liberdade. A arqueologia – não a futurologia – é a única via de acesso ao presente.

Artigo de Giorgio Agamben publicado no jornal La República em 16/02/2012.
Disponível no link http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506810-quando-a-religiao-do-dinheiro-devora-o-futuro-artigo-de-giorgio-agamben