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sábado, 15 de março de 2014
Reflexões sobre Salmos 116:11 - Generalização e Esperança
"E na minha perturbação disse: Todos os homens são mentirosos" (Sl 116:11)
Estava meditando no Salmo 115 e 116 hoje pela manhã e dentre tantos versículos belíssimos, este acima me chamou muita atenção. O salmista em seu momento de aflição expõe um julgamento sobre o mundo, uma generalização que me fez lembrar muito de como nós mesmos fazemos diante dos momentos de aflição.
Acabamos generalizando nossos momentos como forma de lidarmos com a situação. Nossos olhos ficam condicionados pelo momento que estamos passando. Vemos tudo por meio dessas lentes provisórias e criamos para nós a ilusão de que se dermos uma resposta "definitiva" para todos os nossos problemas os colocando em uma espécie de "grande balde" tudo se resolverá.
Generalizamos pois isso nos serve como uma grande defesa. Afinal, se todos são dessa forma, o que sofro faz parte da natureza. Seria assim de uma forma ou de outra. Não raras vezes caímos em um grande sentimento de autodepreciação, em um processo de nos colocarmos como incapazes de mudar, ou com pensamentos do tipo: "Os outros nunca me verão de forma diferente, pois sempre foi assim". Estas generalizações da mesma forma que funcionam como formas de defesa, acabam funcionando como grandes armas para nos afligir. Uma defesa que tem em uma espécie de masoquismo a sua grande arma.
O salmista nos mostra que nos momentos de aflição temos tendencia a estas generalizações. Quantas pessoas diferentes já ouvi fazendo vários destes discursos em momentos de aflição. Olham para o passado, e como as coisas nem sempre caminharam da melhor maneira possível, mas terminaram de forma como não queriam, acabam projetando que no futuro as coisas acontecerão da mesma forma. Se esquecem que a cada novo dia novas oportunidades aparecem, novos horizontes se abrem. Se esquecem que a generalização acaba sendo uma grande perda de tempo na busca de encontrar um sentido para a situação, embora seja a primeira que aparece no cenário.
O sentido de determinada situação deve sempre ser buscado, mas a generalização não parece ser o melhor caminho para se obter isso, pois apenas exacerba o nosso atual momento de forma a não nos possibilitar sair dele, mas apenas se afundar em um grande processo de generalizações.
A generalização, na lógica, se constitui uma grande falácia. Pois ao generalizar acabamos chegando a conclusões que não me são permitidas a partir das premissas ou dados que possuo. A generalização se torna uma grande tentação na busca da resolução de um problema ou, no caso da lógica, na resolução de um silogismo. Geralmente é um péssimo passo argumentativo pois os dados não me permitem afirmar o que a generalização pretende.
No entanto, temos a tendência a generalizar as coisas. Ela torna tudo mais fácil. Ao invés de nos abrir para o novo ela nos encerra em uma espécie de repetição ad infinitum do mesmo. O salmista no momento de aflição também sucumbe a tentação e generaliza o mundo ao seu redor, afinal, se todos os homens são mentirosos, a sua situação encontra uma resposta. A situação se encerra e me permite me isentar da minha responsabilidade diante dela. A generalização me leva não raras vezes ao comodismo. E esta talvez seja a ruína que vem com a promessa de uma suposta resposta definitiva para o momento.
Que o nosso desafio seja o não generalizar nossas situações, que seja o de se abrir para os possíveis horizontes que nos apresentam e que as generalizações insistem em negar. Que ao invés das generalizações que nos encerram diante do mesmo, possamos nos abrir para a esperança do provisório e encarar os fatos que nos assolam no momento como possibilidade de um outro algo que as generalizações não são capazes de prever.
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Filósofo. Especialista em Teologia. Mestre em Filosofia. Doutor em Psicologia. Doutor em Filosofia.
segunda-feira, 10 de março de 2014
"Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mt 11:30) Um convite à leveza.
Essa é uma pequena reflexão feita a partir de Mateus 12:1-13 que está logo na seqüência do versículo supracitado no início desse texto.
O trecho de Mateus 12 mencionado acima mostra Jesus tratando a questão da lei a partir de dois exemplos.
O primeiro exemplo se dá a partir de uma crítica dos fariseus de
que os discípulos de Jesus estavam colhendo espigas no sábado contrariando o
quarto mandamento, o qual Jesus rebate afirmando que Davi comeu os pães da
propiciação no sábado, coisa que lhe não era lícito fazer, e depois afirma que
até mesmo os sacerdotes violam o dia de sábado no próprio templo e nem por isso
são culpabilizados pelo feito.
O segundo exemplo se dá com a cura do homem da mão ressequida que
também se dá no sábado apontando para o valor da pessoa humana que sempre deve
sobrepor à lei.
Jesus, ao apontar a dimensão humana da lei, (aparentemente
desconhecida pelos fariseus) propõe uma nova abordagem do mandamento não mais
atrelado à sua forma, mas ao seu significado. A lei, quando tomada apenas como
obstáculo para a realização humana, tem como grande destino ser transgredida.
Se a entendemos como possibilidade de humanização do sujeito, como
diferenciação deste do reino animal, a lei não se coloca como limitadora da
liberdade, mas como condição para a vida humana e condição para a própria
liberdade.
Jesus, ao propor um repensar a lei a partir dos dois exemplos
citados, quer mostrar que a lei não deve ser vista como algo que tem como fim
cercear o homem da sua liberdade, ou inseri-lo em uma dimensão neurótica de
estar sempre em débito com algum mandamento, mas visa inserir o homem no mundo
da cultura que para além de toda limitação da liberdade, visaria exatamente o
seu contrário, que é a humanização do sujeito.
A reinterpretação da lei, como proposta pelo Cristo, visa colocar
o homem, e não o mandamento, em primeiro lugar. Daí podermos entender quando
Jesus nos afirma que "não foi feito o homem por causa do sábado, mas o sábado
por causa do homem", (Mc 2:27) ou seja, a primazia é a humanização do sujeito pela lei e
não a subjugação do sujeito pela lei. A lei tomada como cerceadora da liberdade
traz um jugo enorme, pois como já nos adverte o próprio Tiago, "quem peca
em um aspecto da lei é condenado por ela toda" (Tg 2:10), ou seja, ao se pautar pela
tentativa de "cumprir toda a lei" o homem se insere em uma dimensão
neurótica onde o débito em relação à lei sempre se sobressai ao seu
cumprimento, de forma que não raras vezes a culpa é companhia presente para
este indivíduo.
A lei, como instância humanizadora do sujeito, pressupõe que o
limite seja estabelecido por ela. Esse limite me é imposto por um Outro que me
castra do meu desejo de onipotência e me faz ver que o acesso ao gozo sempre
precisa passar pela lei, que em última instância, é a lei da linguagem. É a lei
da palavra.
No princípio do sujeito sempre há um verbo, pois sem a palavra
nunca há sujeito, afinal, a partir da interdição da lei da palavra surge no homem o
desejo. Lei e desejo humanizam o homem, e é esta a dimensão da lei que Jesus
propõe aos fariseus. A ênfase não está na forma da lei, mas em seu significado
humanizador. Não está em seu cumprimento cego, mas está em compreender que o
homem é sempre mais importante que a lei.
Talvez por isso seja possível a Jesus
resumir toda a lei e os profetas no "Amarás a Deus sobre todas as coisas e
o próximo como a ti mesmo". Amar a Deus sobre todas as coisas pressupõe
que a relação com Deus não pode se dar no mesmo nível que a minha relação com
as coisas do mundo. Deus não pode ser apenas mais um objeto com o qual tento
preencher o vazio estrutural provocado pela palavra que me humanizou. Deus
precisa estar para além de um mero objeto.
Amar o próximo como a mim mesmo
pressupõe ao mesmo tempo o reconhecimento do meu valor enquanto pessoa, uma dose de narcisismo (que é necessário para todo amor possível), mas pressupõe também o valor do outro na dinâmica da
humanização do sujeito (que não pode se constituir sem esse Outro). Sem o Outro não há sujeito para se
relacionar com a lei, sem o narcisismo não há a possibilidade do amor ao próximo, e sem ambos não há como haver um sujeito que se relaciona com Deus.
A proposta de Jesus passa por um amar a si mesmo para que me seja possível amar o próximo e depois disso fazer o salto em direção a Deus como aquele que deve ser amado para além das coisas. Eu, o Outro e Deus.
Para haver lei é preciso haver um Outro que me coloca essa lei, a partir disso, eu sou capaz de me constituir como sujeito e me tornar essa estrutura desejante, que por causa deste grande "furo" na minha estrutura tentará preencher este vazio de todas as formas. Se Deus aparece apenas como esta tentativa de tampar este buraco, ele se transforma em uma grande ilusão, no entanto, a proposta do Cristo é para que esse Deus esteja acima de todas as coisas, pois apenas estando acima de todas as coisas ele poderá ser visto não no seu caráter ilusório, mas talvez como uma grande aposta na busca de um sentido para a existência.
Esse Deus, visto desta forma, necessita que o Eu e o Outro já tenham se encontrado para que só depois disso, ele possa aparecer no cenário. A lei vista em seu caráter humanizador coloca o ser humano em primeiro plano e assim torna o jugo suave e o fardo leve, pois em sua base não está mais uma forma rígida, mas o amor que me une ao próximo e conseqüentemente me leva a Deus.
Vejo a proposta de Jesus como um convite à leveza. Para além da rigidez cega da lei, uma proposta humanizadora. Um fardo suave, um jugo leve.
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Filósofo. Especialista em Teologia. Mestre em Filosofia. Doutor em Psicologia. Doutor em Filosofia.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
O lava pés e o bom samaritano - Reflexões esparsas sobre o amor cristão
"Senhor, tu lavas-me os pés a mim?" João 13:6
"Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?"
Lucas 10:36
Muito se fala sobre o amor dentro do cristianismo e realmente é algo que deve sempre ser falado , afinal esse é o núcleo de toda a proposta cristã. Queria fazer uma breve reflexão sobre esses dois versículos que coloquei no início desse texto.
Em relação ao primeiro versículo, ele nos remete a uma cena muito conhecida no cenário cristão que é a cena do lava pés. Neste episódio, Jesus, próximo à Páscoa, se propõe a lavar os pés dos seus discípulos antes de comer a refeição com eles, o que gera uma grande estranheza em todos. O primeiro versículo é uma fala de Pedro se colocando veementemente contra a proposta de Jesus no momento.
Logo após esse episódio, Jesus afirma que um dentre os discípulos o trairia, o que nos remete à simples ideia de que qualquer um a qualquer tempo pode nos ferir mesmo depois de termos feito o melhor que pudéssemos fazer.
Nem todo serviço gera uma obrigação de retribuição e talvez por isso a proposta do amor gratuito do Cristo. Mesmo lavando os pés de seus discípulos, os alimentando, os escolhendo, os transformando em pessoas de destaque nas regiões vizinhas, trazendo uma dignidade maior a eles, ainda assim um dentre eles o trairia. Ou seja, a gratuidade do nosso amor nem sempre leva o outro a me retribuir pelo que fiz, mas isso em nada invalida o meu amor pelo outro.
Outro exemplo muito bom dessa proposta de amor gratuito do Cristo reside na parábola do bom samaritano que provavelmente todos já ouvimos em algum momento da nossa vida. A parábola do bom samaritano conta a história de um homem que estava caminhando por um determinado caminho quando é assaltado por um grupo que o machuca e o deixam semi-morto caído à beira da estrada. Passam por ele um levita, um sacerdote que não o ajudam, mas depois passa um samaritano que o ajuda e cuida dele com todos os cuidados possíveis.
Algo interessante na parábola do bom samaritano é o fato de que o que gerou a parábola foi a pergunta de um doutor da lei . A pergunta era "o que farei para herdar a vida eterna" ? Pergunta simples, mas ao mesmo tempo complexa, que ao mesmo tempo revela uma dinâmica de preocupação com a lei por parte do doutor (a qual Jesus sacia ao mostrar que o que o doutor anda fazendo está realmente de acordo com a lei), mas ao mesmo tempo revela uma dinâmica bastante infantil de encontrar uma resposta totalizante para toda a ação possível. O anseio de um caminho único por onde eu possa trilhar e ter a certeza de que por ali nenhum mal me tirará dele. Desejo infantil de onipotência. (Desejo esse que Jesus não sacia).
No final da parábola, Jesus pergunta ao seu interlocutor: "Quem foi o próximo daquele que foi ferido?" Pergunta bem estranha se notarmos que o que gerou a parábola foi a pergunta "O que farei para herdar a vida eterna?" Esperaria-se que se perguntasse quem foi o próximo para o samaritano e não para o ferido. O ferido não fez nada a não ser aceitar o amor proposto pelo samaritano. Ao perguntar quem foi o próximo para o ferido, Jesus está mostrando que o amor ao próximo não consiste sempre em um "fazer para o outro", mas inclui o "deixar que o outro faça algo por mim". Uma proposta onde o amor fosse sempre ativo daria ao doutor da lei a impressão de que a vida eterna é alcançada dentro da dinâmica da retribuição. No entanto, Jesus aponta para a dimensão da passividade do amor que deve ser recebido em alguns momentos da nossa vida. Amor como dom imerecido, do qual nada precisamos fazer para merecer, que nos garante uma identidade enquanto humanos, que não visa retribuição. Amor que supera uma mera dimensão narcísica projetiva que me leva sempre a me amar no outro. O deixar o outro fazer algo por mim permite que unamos amor e graça.
Esse exemplo de amor também é visto no episódio do lava pés que Jesus faz com seus discípulos antes do anúncio que um deles o trairia. Pedro se coloca veementemente contra a proposta de Jesus lhe lavar o pé, demonstrando dessa maneira esta dificuldade em "deixar o outro fazer algo por ele", e a resposta de Jesus remonta novamente a esta passividade exigida pelo amor. "Se eu não lhe lavar os pés, não tem parte comigo." Ou seja, "se não me deixar ser aquele que faça algo por ti, você será como alguém que quer apenas polarizar a relação me tornando sempre alguém abaixo de ti."
Para que amemos um ao outro a igualdade tem que estar pressuposta. Apenas dessa forma o próximo pode ser amado como a mim mesmo não meramente como projeção narcísica, mas para além dela. Tomar o amor sempre como algo ativo não raras vezes me causa a ilusão de que posso estar no controle da situação, posso sempre ser aquele do qual os outros dependem sem nunca precisar depender de alguém e sabemos que o amor passa longe dessa dinâmica. Para isso basta lembrarmos que o grande ato de amor do Cristo foi uma entrega. Um ato que remete a um deixar-se.
No lava pés, Jesus nos demonstra a dimensão do amor que faz pelo outro sem esperar nada em troca, ou melhor, que faz pelo outro mesmo sabendo que algum dos próximos poderia o trair em algum momento. É uma atividade visando o bem do próximo. Na parábola do bom samaritano, Jesus nos mostra que o amor também possui uma dimensão passiva, que é o fato de "deixar o outro fazer algo por mim", que me tira da tentação de estar sempre no controle da situação e me coloca como um igual diante do meu semelhante.
Ao unirmos esta duas dimensões do amor que Jesus nos coloca somos capaz de entender em que consiste o amor cristão. É um amor que não visa apenas a um "acúmulo de atos", mas visa uma dimensão passiva, que coloca o outro no centro da proposta, mas agora não apenas um outro a quem devo sempre ajudar, mas a um outro que me constitui como sujeito a partir do momento que me deixo ser amado por ele.
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Filósofo. Especialista em Teologia. Mestre em Filosofia. Doutor em Psicologia. Doutor em Filosofia.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Deus e a Amizade - Uma proposta teológica
Sempre haverá dias piores que outros. Feliz é aquele que durante as inúmeras tormentas da vida pode ser acompanhado por amigos.
Mesmo que a tormenta pareça não passar nunca, ainda assim a presença desse outro, (ou desses outros) fará com que a a água que cai não fira como canivete cortante, mas seja vista como um possível refrigério para o corpo e para a alma abatida.
Os amigos às vezes me lembra a figura judaico/cristã de Deus. Eles trazem a existência coisas que não existem. Do nada eles dizem: "Haja luz" e o mundo antes "sem forma e vazio" se transforma em possibilidades, em vida, etc.
A chuva que castigava se transforma em orvalho que rega
O vazio se preenche pela palavra da esperança
As trevas se dissipam pela chegada da luz
Tudo isso pelo simples poder da palavra. Talvez daí possamos entender um pouco as palavras dos salmos reproduzidas pelo Cristo, "sois deuses". O Deus que conheço acaba por remeter a esse outro que age como quem cria, que tem no momento uma esfera de ação maior que a minha, mas nem por isso me abandona ou age como os deuses de Epicuro que estão preocupados apenas com seus afazeres.
Esse deus se assemelha muito mais ao "Deus dançante" de Nietzsche, ao deus "pai que ama" do Cristo. Deuses dispostos a caminhar conosco, dançar conosco, chorar conosco, dispostos a nunca nos abandonar por mais difícil que seja a caminhada.
Talvez isso seja o mais próximo que consigo pensar sobre Deus hoje. Um deus que se faz presente não como "entidade metafísica", mas como ser que caminha, que dança comigo. Penso que Jesus ao dizer "não vos chamo mais servos, mas amigos" propunha subverter a relação imaginária proposta pelos discípulos em relação a ele. A proposta estava agora não mais pautada em uma subserviência pautada no medo/culpa, mas em uma relação baseada na igualdade entre as partes. A distância antes tão marcada é mitigada na relação da amizade.
Mostrando esta dimensão da amizade, Jesus propõe uma nova visão sobre Deus. Não o Deus projeção do pai severo, mas Deus como ser próximo que caminha comigo, um deus que por isso sempre está comigo, que permite ao salmista dizer que "ainda que ande pelo vale da sombra da morte" ele não temerá mal algum.
Em Jesus realmente Deus se encarna, torna-se homem, mas não penso que isso seja do ponto de vista literal. Penso que Deus se humaniza na figura do Cristo, e a partir dessa humanização, ele nos mostra que somos capazes sim de vivermos com Deus não de uma forma distante, mas de forma próxima. Dessa forma, Deus não se torna mera projeção humana como propunha Feuerbach, nem ao mesmo tempo uma entidade metafísica distante. Penso que na proposta do Cristo, Deus se torna esse amor que nos move em direção ao outro, pois vemos nesse outro um pedaço desse Deus perdido tipificado na história do Éden.
Talvez a amizade, além de ser uma condição para a vida feliz como já nos dizia Aristóteles, seja um bom paradigma para pensarmos a relação homem/Deus. Fica aqui talvez uma proposta teológica...
Filósofo. Especialista em Teologia. Mestre em Filosofia. Doutor em Psicologia. Doutor em Filosofia.
domingo, 29 de dezembro de 2013
"Que grande inutilidade. Diz o mestre. Que grande inutilidade! Nada faz sentido! " Ec. 1:2
Não há muito para dizer. O que há são apenas sentimentos confusos, buscas inacabadas, pensamentos esparsos, desilusões criadas em meio a uma vida semi-agitada. De nada adianta tentar verbalizar o sofrimento diante do mundo que tanta coisa tem para acontecer. É como se tudo fizesse tão pouco sentido que o que resta é apenas a dor no peito, o aperto no coração, o desejo quase que perene de algo sobre o qual também não sou capaz de dizer o que seria.
Sempre podemos cair na tentativa de comparar sofrimentos e dizer que temos motivos de sobra para estarmos gratos (coisa que realmente é verdade), mas nada disso serve para aplacar o sofrimento, a dor dilacerante de uma angústia sem sentido. É como se durante esta angústia a única coisa que importasse fosse esse objeto que insiste em se fazer presente, martelando cada vez mais forte em sua cabeça, formulando as mais impossíveis conjecturas só para sua cabeça manter o ritmo de pensamento.
Diante desta tentativa de ordem no caos o que se obtém é nada além de cansaço e mais angústia. É como se todo o seu esforço resultasse em nada mais que apenas distrações e nunca alcançasse a raiz do problema. Todas as coisas ainda estão lá. Sussurrando, debatendo, conjecturando em sua mente. Nenhuma delas acontece, elas apenas estão lá.
À medida que os objetivos vão se perdendo, pouca coisa resta para aplacar a desilusão. Sempre podemos olhar para trás e buscar conforto naquilo que já fomos para vermos o quanto caminhamos até o momento, mas isso muito pouco ajuda pois os olhos sempre estão à frente do corpo. O olhar para frente é sempre o mais natural, e na maioria das vezes só olhamos para trás quando queremos algo que estará à nossa frente. Esta busca pelo passado como forma de valorização do nosso lugar atual parece um tanto quanto falsa, embora tenha um teor de verdade. Olhamos para trás como quem busca uma esperança. A esperança que sempre é tomada como algo para frente, neste caso se encontra olhando para trás.
Mas e quando nem mesmo a esperança vem quando olhamos para trás? Quando não encontramos nada além de meros fatos que podem até trazer alegria, mas não passam de pequenas memórias que não nos motivam em nada?
O que resta para nós diante destas coisas?
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terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Os Reis Magos, o Símbolo, a Simplicidade
Ouro, incenso e mirra.
Símbolos da realeza, mas também símbolos de uma jornada que só é possível quando se faz juntos.
Símbolos de uma caminhada rumo a um destino desconhecido, símbolos de uma fé pura que não precisa de nada mais que um mero brilho de uma estrela para que algo faça sentido.
Símbolos que remetem a uma grande aposta em direção ao desconhecido e é recompensada com um compartilhar de momentos de alegria e felicidade.
É recompensada com a vista de um simples menino deitado em uma manjedoura com seu pai e sua mãe ali sem muito a oferecer.
"Um menino vos nasceu". Algo tão simples, tão corriqueiro, mas que ganha uma dimensão completamente diferente para os que creem.
A simplicidade da recompensa nos remete ao fato de que talvez nem precisasse de uma recompensa para que a caminhada fizesse sentido.
A travessia rumo a esse algo prometido já era o suficiente.
Agora, o encontrar o menino deitado na manjedoura, encontrar o símbolo da salvação de Deus vinda aos homens no final de uma jornada pelo deserto é mais do que qualquer viajante poderia esperar.
O que resta a fazer senão depositar os presentes perante a manjedoura ?
Ouro, incenso e mirra. Símbolos que podem ser deixados, pois os magos encontraram o que tanto procuravam.
Diante do Sentido o símbolo se esvai e tudo ganha nova dimensão. Os magos saem diferentes, o mundo está diferente.
Feliz Natal !
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Ainda sobre Isaías 41:10 - Um pouco sobre o conceito de justiça aplicado a Deus.
Ainda pensando no texto de Isaías 41:10 percebemos que o deus que fortalece e ajuda, o faz, fazendo uso da justiça. O conceito de justiça é bastante complicado , pois traz a tona uma série de discussões tanto filosóficas quanto teológicas. Ainda mais sabendo que a justiça de deus não é a justiça dos homens, tal conceito entra em um terreno árido e o diálogo se torna bastante complicado. Obviamente que o intuito aqui não é definir o que seria justiça, nem muito menos abordar a questão do ponto de vista nem teológico e muito menos filosófico.
O que podemos dizer da justiça de Deus? Geralmente o que vemos é puro antropomorfismo aplicado à Deus. Esquecemos que o relato mais claro da justiça de Deus se faz presente na fala do Cristo que nos diz: "Nem eu tão pouco te condeno, vá e não peques mais". Esta justiça que não visa nada em troca, que perdoa os pecados gratuitamente, que não gera débito e que ainda é oferecida universalmente, é algo raramente associado como ideal de justiça divina. A imagem que geralmente ouvimos por aí é de um Deus que cobrará todo o bem e todo o mal no final fazendo com que a vida do "servo" seja realmente a vida de um "servo sofredor", para usarmos a paráfrase de Isaías 53. A vida do homem passa a ser a vida de um eterno devedor que nunca terá como pagar aquilo que deve.
A justiça vinculada à graça subverte o nosso conceito de justiça e por isso é melhor pensarmos em um Deus que no final será o justo juiz. Coisa interessante que ouvimos por aí é a aquela história de "Deus é amor, mas também é justo". A noção de adversidade é tão nítida que parece ser impossível vincularmos de forma aditiva a noção de amor e justiça. É como se a idéia de "Deus corrige a quem ele ama", fosse a regra para pensarmos a noção de justiça para com Deus.
Mas não será a correção de Deus uma atitude de graça para com a pessoa que permite que ela faça de forma diferente aquilo que ela fez?
É como se naquele "vá e não peques mais", estivesse o auge da justiça divina que vê o homem como falho, mas ao mesmo tempo permite uma nova chance, não encerrando cada ação como última, mas abrindo a possibilidade para o novo sempre. A justiça aqui se liga ao amor, se liga à liberdade, se liga à autonomia do homem de fazer e refazer suas ações.
Deus é amor e é justo, e só é justo porque ama. Prefiro pensar a justiça de Deus mais vinculada ao amor do que à punição. Prefiro pensar em um Deus que nos dá outra chance do que pensar em um que anota os erros e acertos em um caderno para depois cobrar tudo no final.
Um deus que possui um caderninho onde anota as dívidas e os acertos é um deus capaz de barganha. Talvez por isso esta ideia deste deus "dono do armazém" seja tão aclamada por vários pregadores em tantos lugares. Se este deus é capaz de barganhar, então é possível que eu possa fazer algo para que ele me conceda o que peço, ou quem sabe Ele verá que eu fui um "bom menino" e me dará aquilo que eu preciso.
As palavras do Eclesiastes que diz "há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade" (Ec. 7:15) soam estranhas a um sujeito que lida com um Deus que barganha. O que o Eclesiastes evidencia neste pequeno fragmento é algo que vemos todos os dias, ou seja, que as coisas nem sempre funcionam como achamos que elas deveriam funcionar, e nem por isso elas estariam "fora" da justiça divina, embora seja muito mais simples pensar em um Deus que recompensa quem faz o bem e pune quem faz o mal.
Curiosamente, por mais que se fale de "graça" "redenção" e outros termos tão caros ao discurso do novo testamento, a lógica de pensamento sobre a questão da justiça continua sendo o deuteronômio. O capítulo 28 então é o preferido de todos que querem tornar Deus um juiz que tem a lei em uma mão e o desejo incontrolável de punir os outros na outra mão. A grande condicional com o qual o deuteronômio inicia sua lista de "bençãos" e "maldições" é sempre evocado para que o homem se sinta responsável pelas bençãos ou pelas maldições que sobrevierem sobre ele. Nunca ouvi ninguém comentando sobre o papel de Deus nesta história do Deuteronômio, e acredito que a maioria das pessoas não prestam muita atenção a isso quando leem o texto.
A doutrina da retribuição como teologia vigente da época deuteronômica impede que Deus seja visto para além desta teologia, ou seja, o deus de Israel tem que ser o Deus que retribui ou que pune para que a coisa funcione. Se não for assim a coisa desanda. Apenas com o passar do tempo, com o desenrolar da história do povo de Israel, com as diversas críticas feitas à esta teologia (como exemplo podemos citar os livros de Jó e Eclesiastes que fazem severas críticas à doutrina da retribuição) é que é possível entendermos o discurso do Cristo e posteriormente o discurso de Paulo sobre a graça de Deus que subverte o conceito de justiça como retribuição. Um longo caminho teve que ser trilhado para que a noção de amor se fizesse sobressair sobre a noção de retribuição. Obviamente que já vemos nos Salmos, Provérbios, e vários profetas do antigo testamento este Deus de amor se revelando, o que vai contra a ideia muito difundida que o Deus do antigo testamento seria um Deus punidor e o Deus do novo testamento um Deus de amor.
O conceito de justiça perpassa todo o texto bíblico e é bastante interessante pensarmos em seu desenrolar à medida que o povo de Israel vai enfrentando novos desafios, novos exílios, novas batalhas. Assim como qualquer conceito é fruto do seu tempo, o conceito de justiça vai sofrendo uma grande mudança no texto bíblico. Esta transição é várias vezes negligenciada por alguns que insistem em fazer de Deus um sujeito carrasco que apenas quer coisas para nos dar outras. Presos à uma visão arcaica de Deus esquecem do desenvolvimento do conceito de justiça que tem no amor o seu vínculo último.
Talvez só assim possamos pensar como que Deus nos fortalece com a destra da sua justiça. Ou seja, ele nos permite refazer nosso caminho quantas vezes for necessário, pois ele sabe que neste refazer o nosso caminho está envolvida a nossa liberdade, a nossa autonomia, e o mais importante, o seu amor que é fonte da sua justiça. E durante o caminho, por mais escuro que seja, ele está sempre dizendo para nós: "Não temas porque eu sou contigo".
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Não temas, porque eu sou contigo. Reflexão sobre Isaías 41:10
Diante do caos que parecia eminente e que nada seria capaz de acalmar ou remediar, surge uma voz que dizia: "Não temas porque eu sou contigo, não te assombres porque eu sou teu Deus. Eu te fortaleço e te ajudo com a destra da minha justiça" (Isaías 41:10).
Assim, em meio ao cativeiro onde nada mais parecia se vislumbrar, a voz de Deus ressoava na boca do profeta. Era talvez como uma brisa suave, que assim como com Elias, o tomava sem esperar e o surpreendia pois estava acostumado apenas com gestos grandiosos de um "deus dos exércitos".
A voz soava, ecoava, trazia palavras de esperança, palavras de conforto que fazia o povo acreditar que nem tudo estava perdido. Acreditar que por mais que pareça que tudo esteja desmoronando ao nosso redor, ainda assim é possível uma palavra de esperança, ainda assim é preciso crer que o futuro será melhor que o passado.
A voz de Deus naquele momento não era um convite à apatia, ou um convite a simplesmente "se entregar" e deixar que tudo se resolva. Era exatamente o contrário. As palavras ditas pelo profeta são para aqueles que continuavam a seguir no caminho. A fala do profeta fala de um Deus que os fortaleceria, ou seja, de um Deus que andaria com eles pelo caminho, mas em momento algum de um Deus que tomaria conta de tudo, como quem assume a responsabilidade por nossas ações. O Deus que fortalece e ajuda, é um deus que caminha junto.
Pelo fato de caminhar junto no caminho é possível a Ele dizer "não temas", é apenas porque ele estará conosco durante todo o percurso que podemos crer e não temer. Uma promessa deixada apenas no campo da palavra em nada mudaria a vida do povo. Basta lembrarmos do caminho de Emaús, onde a companhia, o gesto permitiu aos discípulos o entendimento da situação. O caminho de Emaús precisava ser trilhado, assim como nós precisamos trilhar vários caminhos durante nossa vida. Às vezes eles serão tortuosos, às vezes serão mais planos, mas a confiança que temos é que Ele estará conosco enquanto caminhamos.
Curiosamente, Ele chega até nós no caminho como mais um que caminha, como alguém que quer estar perto, quer ser parte da caminhada. Ele chega como um amigo, como irmão, como simples homem frágil que tem que caminhar para o seu destino. Longe das intervenções metafísicas, longe dos barulhos, alardes, etc. Uma chegada simples como a brisa com Elias, simples como um homem montado no jumentinho, simples como as pombas. E na simplicidade de um amigo que caminha junto Ele se mostra e diz novamente para nós: "não temas porque eu sou contigo."
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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
O juiz, o general e o Outro.
Cada um enxerga o Deus que quer, mas não apenas o Deus que quer, mas o deus que lhe é ensinado. Alguns são ensinados que Deus é um grande juiz que tudo vê o tempo todo, que está sempre pronto a encontrar uma falha para nos punir e nos condenar ao inferno eterno, ou então nos recompensar por todo o bem que fizemos na Terra durante nossa pequena jornada por aqui.
Este deus que administra uma balança e pesa todo o bem e todo o mal e feito é bem recorrente nas várias falas que ouvimos por aí em diversas igrejas, discursos, etc. A meu ver esta visão coloca a questão da salvação de uma forma bem simples. Vira uma questão de meritocracia aplicada à alma. Se você fez o bem, será recompensado, se fez o mal sofrerá as punições. Tipicamente a teologia da retribuição/deuteronômica tão criticada já nos textos de Jó e Eclesiastes.
Esta mudança da forma de ver Deus acontece até mesmo no próprio texto bíblico. O "Senhor do exércitos" é a forma como o povo de Israel via o seu Deus. Tanto que se notarmos o texto bíblico no Antigo Testamento, veremos que as constantes guerras se davam entre os povos, mas entre os deuses dos povos também. O exemplo clássico de Elias contra os profetas de Baal tipifica esta relação muito bem. A questão ali era saber quem era o deus mais poderoso; ou seja, o deus mais poderoso seria aquele que mandaria o fogo dos céus e queimaria as ofertas do altar. Dessa forma, o "senhor do exércitos" tinha sempre que dá mostras do seu senhorio a cada batalha, e não raro vemos deus sendo descrito como um general que daria as estratégias ao povo de Israel para que estes ganhassem a batalha.
Esta visão sobre Deus condiciona também o que pensamos que Ele possa querer de nós. Se notarmos bem, não há uma proposta de "evangelização" no Antigo Testamento. Os povos derrotados geralmente eram eliminados pois eram vistos como rebeldes e desobedientes. Não há uma tentativa de converter os povos derrotados, é como se o senhor do exércitos não tivesse interesse em novos guerreiros. Podemos notar que a imagem de Deus para o povo de Israel é a de um Deus que comanda seu povo, é um Deus general, que funciona como legitimador das guerras por território. Talvez no Antigo Testamento, apenas em alguns dos salmos de Davi podemos ver esta imagem se esvaindo e se tornando mais intimista.
É bastante óbvio que a imagem que temos de Deus é fundada a partir da cultura que vivemos. Seria até interessante pensar hoje a relação ou até mesmo a volta da doutrina da teologia da retribuição sob o nome de teologia da prosperidade à luz da presença massiva do capital em praticamente todos os setores da vida.
É como que se de alguma forma, a teologia da prosperidade não mais precisasse de Deus para fazer efeito, mas apenas do pressuposto que a meritocracia é um bom meio para as coisas se encaixarem. Se antes a teologia da retribuição colocava tudo nas mãos de Deus, chegando várias vezes a negar a própria vontade do homem em nome da vontade de Deus, (doutrina próxima a defendida por Calvino) a teologia da prosperidade coloca Deus na mão do homem. De doador, Deus passa a ser visto como serviçal que há muito tempo atrás teria feito uma promessa de honrar o mérito do seu senhor. Esta perversão da noção de "servo" na relação para com Deus é algo bem comum hoje em dia, principalmente nos meios neo-pentecostais.
Estas diversas visões a respeito de Deus poderiam ser multiplicadas ad infinitum tanto no texto bíblico e daí mostrar suas evoluções, etc, quanto se considerássemos outras culturas, ou outras religiões, etc. Esta tarefa por mais interessante que seja é impossível de ser tratada neste pequeno texto.
Para mim, as duas formas que o texto bíblico expressa de forma mais "universal" a imagem de Deus é na fala do salmista que diz: "Oh Deus, tu és o meu Deus e eu te busco intensamente" (Sl 63:1 - NVI) . Ou seja, Deus é sempre o meu Deus, pois sempre o vejo de forma diferente e nova, pois ele se revela para mim sempre de forma diferente e nova. Eu sempre me relaciono com ele a partir das minhas vivências, a partir daquilo que me ensinaram. O meu Deus só passa a ser "pai nosso" quando encontramos alguém que o vê parecido como nós o vemos. Quando somos inseridos em um cultura que nos diz que "deus é assim". Deus nunca é igual para mim e para o outro, mas é parecido. Deus é sempre uma experiência particular que toma sentido a partir do outro.
A segunda, e talvez a definição mais simples, é a de João que afirma que "Deus é amor", (I Jo 4:8) ou seja, Deus é sempre incompleto, pois o amor é sempre incompleto, sempre está pronto para se doar, para abrir concessões, para se expandir, o mesmo penso eu a respeito de Deus. Deus é este inominável que se mostra a partir do amor ao próximo, que se mostra no amor à terra, que se abre ao outro se doando sem nada esperar receber. Talvez por isso a definição mais simples seja a mais complicada no final das contas. Daí talvez que as diversas formas de enrijecer a imagem de Deus seja sempre uma espécie de atentado à liberdade do amor que se encontra em todos.
Por isso que Deus é sempre meu Deus, mas ao mesmo tempo é sempre "Pai nosso" que é visto sempre em pequenos traços, mediado pelo meu contato com o próximo a quem sempre posso levar amor fazendo com que Deus se mostre para o outro de forma sempre nova.
No final então, nem o juiz, nem o general, mas apenas um grande outro que se revela sempre de forma nova dando sentido à existência.
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Igrejas inclusivas - Algumas considerações
Todos que me conhecem sabem que sou super a favor da causa homossexual, defendo que eles devam ter todos os direitos iguais como qualquer outro cidadão, quanto a isso acho que não tem o que discutir.
Recentemente recebi um email sobre a criação de uma igreja gay que se reúne em BH e em outras cidades brasileiras. As igrejas ditas inclusivas já e existem há algum tempo. Em um grupo que participo a questão sobre esta igreja apareceu e entre as conversas foram ponderadas algumas coisas.
A igreja evangélica lida muito mal com a questão homossexual e isto é sabido por qualquer homossexual que tente frequentar uma igreja evangélica. Geralmente é dado a este homossexual duas alternativas: Ou ele "abre mão" de sua orientação sexual (como se isso fosse possível), ou então "mantém sua orientação sexual" contando que não pratique uma relação homossexual. Não sei qual das duas alternativas seria a pior para o sujeito, mas nenhuma das duas soa saudável.
E por que a igreja evangélica age assim em relação aos homossexuais? Porque para a igreja evangélica os escritos de Paulo devem ser lidos de forma literal sem contextualização histórica, sem a ponderação de que talvez a visão paulina seja fruto de seu meio, de seus próprios pré-conceitos, fundados em um tipo de antropologia que fazia sentido na época, mas que precisa ser repensada hoje.
Notem bem que não cito os textos de Levíticos pois isto levaria a discussão para um outro lugar que seria uma questão do tipo: "Quais são os critérios para obedecer alguns preceitos de Levíticos (por exemplo quando citam a questão homossexual), e não outros claramente proibidos por lá (tais como os alimentos proibidos, os filhos desobedientes que deveriam ser apedrejados, etc)?" Questões estas que podem até ser analisadas em outro texto posterior.
A meu ver, enquanto se mantiver uma visão fundamentalista do texto bíblico não é possível um diálogo aberto sobre a questão homossexual dentro da igreja evangélica. Pois temos que admitir que as duas "alternativas" que são dadas aos homossexuais pelas igrejas evangélicas citadas acima não configuram alternativas sadias. Apenas uma visão fundamentalista do texto bíblico permite o tipo de tratamento que é dado aos homossexuais dentro das igrejas evangélicas.
Do ponto de vista teológico penso que a questão fica bem complicada para legitimar a igreja gay. No entanto, eu acredito que seja possível uma igreja cristã que aceite a questão homossexual sem abir mão de sua teologia, mas abrindo mão de sua antropologia, e neste sentido já há uma boa tentativa de diálogo. Como exemplo cito o livro lançado pela Unisinos chamado "A pessoa sexual" onde este diálogo é feito de uma forma mais sistemática.
Algo que me preocupa é que ao ser necessário uma "igreja gay" não estaria a própria igreja enquanto instituição sucumbindo à dinâmica mercadológica em um nível acima do que já vemos constantemente hoje?
No final das contas parece que quem determina o "tipo de igreja" é a "demanda do mercado" de forma que ela se torna mais um produto a ser consumido. Ou seja, tem-se a igreja gay para os gays, a igreja rica para os ricos, etc. como sendo um mero produto, e isso a meu ver é um projeto fadado ao fracasso.
Por um lado estas igrejas podem ser "úteis" por permitir uma certa vivência congregacional a indivíduos aos quais são negados o congregar, mas por outro lado todas estas "mercadorias eclesiásticas" podem estar cooperando para o esvaziamento da proposta que diferencia "igreja" de "produto"...
Em suma, não seria a própria dinâmica do capital que criaria a "necessidade" de uma igreja gay de forma a atender "o mercado" carente de um certo produto da mesma forma que as igrejas que adotam a teologia da prosperidade vêm fazendo? E se for esta a relação predominante, não estaria a igreja gay sendo um grito de intolerância diante de uma instituição que se nega a aceitar seus pressupostos?
Entra-se numa dinâmica estranha onde ambos os lados podem ser chamados de intolerantes. Tanto a igreja cristã que nega a aceitar a questão gay em nome de uma certa teologia, e ao mesmo tempo a igreja gay que tenta forçar um reconhecimento em uma instituição que não aceita os pressupostos e para isso assume o título de "igreja cristã" sem uma certa legitimidade.
Mas por que as igrejas que adotam a teologia da prosperidade e todas estas falcatruas que vemos em seu meio são aceitas como igrejas evangélicas e as inclusivas não? A meu ver é porque as igrejas neopentecostais não mexem na "antropologia teológica comumente aceita", enquanto que as igrejas inclusivas precisam se arraigar seu discurso "refundando" uma antropologia.
Para mim, falta às igrejas ditas inclusivas um embasamento teológico mais consistente de forma a legitimar o seu discurso dito cristão. Enquanto isso não acontecer, penso que as igrejas inclusivas permanecerão sendo vistas com maus olhos pela igreja cristã e sua tentativa de inclusão terá pouquíssima chance de ser aceita.
Fica aqui o meu convite às igrejas inclusivas
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quarta-feira, 3 de julho de 2013
A igreja evangélica e o tabu do sexo antes do casamento.
Já há algum tempo que venho pensando em escrever algo sobre a tumultuada relação entre a questão sexual e o meio evangélico. Sei que muita coisa já foi escrita sobre isso, algo até com muito mais embasamento bíblico do que o que será exposto por aqui, mas mesmo assim achei interessante colocar minha opinião por aqui.
Vários que me conhecem já sabem minha opinião a respeito do tema pois já falei diversas vezes sobre ele em conversas informais e discussões não tão informais assim.
A questão sexual é um grande tabú dentro da igreja evangélica. Pouco se fala sobre o tema na maioria das igrejas que conheço, e quando é falado algo sempre é frisado a questão normativa como tema principal. O importante não é esclarecer nada, mas apenas tentar mostrar o que é certo ou errado em relação ao assunto.
No meio dos jovens a coisa ainda é pior. Na maioria das igrejas evangélicas, o que é defendido é que o sexo só pode ser feito após o casamento, embora não exista nenhum versículo bíblico que afirme este tipo de coisa. O versículo mais utilizados para justificar tal proibição sexual é aquele de Hebreus 13:4 "Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará."
No entanto, como qualquer leitor pode perceber, este versículo não está fazendo nenhuma referência ao sexo antes do casamento, mas apenas "venerando" o matrimônio. Outra coisa digna de ser notada, mas que não se é, é que o "leito sem mácula" inclui também o casal casado "formalmente". O leito sem mácula implica uma união entre os dois onde não há mácula alguma. Sabemos de diversos casais que vivem juntos apenas por comodismo, que um não conversa com outro, que vão dormir brigados, chateados com o outro. Este versículo me parece ser mais para este tipo de situação do que aquele primeiro do sexo antes do casamento.
Toda tentativa de legitimar o sexo antes do casamento como proibição por ordem divina acabam por perverter os textos bíblicos para interesses escusos. Alguns usam o versículo Mateus 19:5 que afirma que "então deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher", afirmando que o "ato de deixar pai e mãe", implicaria necessariamente o casamento, e só depois que ele poderia se unir à sua mulher. Além de não fazer sentido nenhum este tipo de "análise cronológica" do versículo, ainda se esquecem de uma parte, que eu considero ser a central no debate que é: "O que significa deixar pai e mãe? Poderíamos aqui falar da questão simbólica proposta pelo ensinamento do Cristo neste versículo, onde o lugar do pai e o lugar da mãe deve ser abandonado para que o filho possa surgir como ser independente, mas gostaria apenas de apontar na direção de que se formos olhar apenas a literalidade deste versículo (como várias igrejas insistem em fazer) deveria-se também proibir que filhos casados morem com os pais, ou na casa deles, ou no lote deles, não é? O mesmo versículo analisado cronologicamente permite imputar o jugo muito grande para quem "casa para não viver abrasado".
Um outro uso não pouco comum é usar o texto de I Coríntios 7:2 onde Paulo fala sobre o matrimônio "Mas, por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido". Mesmo Paulo deixando claro no versículo 6 que isto era mais uma opinião dele do que um mandamento, a carta de Paulo é tomada como bússola para a questão. A maioria das "análises" deste versículo insiste em colocar o sexo antes do casamento aliado à "imoralidade sexual", assim como justificar a prescrição de Paulo fora de todo contexto da época.
Este a meu ver é um dos principais erros destas tentativas de legitimar uma instituição social que é o casamento a partir de uma ordem divina afirmando que o casamento enquanto instituição advém de Deus. Se quisermos ser bem honestos, vemos muito claramente que em nenhum lugar do texto bíblico Deus cria o casamento. Em nenhum lugar ele institui o casamento como "sacramento". O fato do relato bíblico dizer que Deus criou uma mulher para Adão não implica que Deus estava criando aí uma instituição, implica apenas a demanda do homem pelo outro. O outro era necessário para que Adão se humanizasse, talvez este seja um princípio interessante a se pensar no relato da criação. Eva não apenas como "mulher de Adão", mas Eva como "outro que humaniza Adão e é humanizado por ele".
Se olharmos o próprio texto bíblico veremos que o "casamento" acontecia NO ato sexual. O ato sexual marcava o homem e a mulher como casados. Pelos textos bíblicos (principalmente no Antigo Testamento) seria impossível o sexo antes do casamento, pois o próprio sexo era o casamento.
Não se oferece saída para os jovens, adolescentes para lidarem com sua libido. Ou ele casa, ou ele tenta de alguma forma sublimar sua libido participando do louvor, teatro, reunião de oração, etc, uma vez que a masturbação também é visto como pecado. Não resta alternativa para o adolescente ou o jovem dentro desta perspectiva evangélica em relação ao sexo. Tudo isto embasado em uma noção de santidade que muito me espanta pois vê quase tudo que vem do corpo como algo digno de ser rejeitado, como algo menor, impuro por definição. Um platonismo/agostinianismo que permeia toda uma dicotomia entre corpo e alma, onde esta deve ser purificada e a aquele deve ser preso entre cadeias de barras grossas.
Consigo entender que este tanto de proibição tem como finalidade fazer com que o jovem, adolescente foque sua libido em outras coisas, etc. Em vários casos acredito que isso possa ser até bastante válido, no entanto tentar justificar isto como ordenação divina, citando textos bíblicos esparsos e sem muita contextualização, a meu ver é um uso perverso da Bíblia.
Por que não se investe em uma educação sexual de qualidade dentro da igreja, de forma a ensinar o jovem, adolescente a lidar com suas pulsões sexuais e não tentar apenas coibí-las por meio de um discurso vazio de santidade? O silêncio da igreja evangélica sobre o tema indica um grande problema, pois esta negação da fala coloca em evidência os diversos tabus sobre a questão no meio evangélico.
Podemos notar aqui também uma dinâmica muito hipermoderna que é o próprio fato da família se eximir desta função social da educação. No mundo onde todo tipo de informação está disponível muito facilmente, a maioria das famílias acaba por deixar que a informação sexual venha por outras fontes tais como a escola, a igreja, etc. Abre-se mão da responsabilidade de ensinar os filhos, e isso torna-os presas fáceis dos discursos tanto legalistas (advindos de várias igrejas) quanto "libertinos" (advindos muito da sociedade hipermoderna que cria a ilusão de uma liberdade sem limites).
Para mim, a principal questão em relação ao sexo é sempre a questão do amor. E acho que este ponto acaba se tornando o principal, até mesmo dentro do relato bíblico. O que torna a união sexual, a meu ver, algo de um valor especial (o que faz também ela se recobrir-se de tabus) é quando o ato sexual é a manifestação de duas pessoas que se importam uma com a outra e que se está disposto a se responsabilizar pelo outro, afinal o amor sempre envolve responsabilidade para com o outro. Neste sentido, se o sexo acontece entre duas pessoas que se amam, que estão dispostos a se responsabilizarem um pelo outro, então, a meu ver é completamente indiferente o fato de estarem ou não casadas.
Sei que este meu discurso soa muito "demodè" para uma sociedade onde o sexo perdeu o seu caráter de união e virou mero império de um gozo que Lacan chamaria "gozo mortal", um gozo que só se importa consigo, altamente narcísico, onde a dinâmica do outro some do cenário, e o corpo é apenas um objeto a ser usado para obtenção de prazer.
Também não ignoro que algumas pessoas consigam fazer a substituição do sexo sublimando isto por meio de leituras do texto bíblicos, envolvimento com outras atividades, orações etc. Várias igrejas fazem um esforço hercúleo para driblar os desejos sexuais dos jovens e adolescentes. Acredito que seja possível e várias vezes muito mais benéficas para o sujeito que uma relação sexual. A meu ver, a relação sexual demanda uma certa maturidade para que seja feita de forma saudável para ambos os participantes.
O ponto que gostaria de ressaltar aqui é que para tentar justificar a proibição do sexo antes do casamento por meio do texto bíblico várias vezes se faz um uso perverso do texto, forçando alguns, deixando de fora pontos muito mais importantes na dinâmica relacional em nome de uma fixação na proibição do sexo.
Queria fazer uma análise de todos os versículos utilizados para "proibir" o sexo antes do casamento, mas ainda não tive tempo para tal, quem sabe em outros posts aqui no blog?
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sábado, 15 de junho de 2013
A igreja evangélica em Belo Horizonte e os protestos no Brasil
Observando toda a onda de manifestações que estão acontecendo no Brasil contra o aumento das passagens do transporte público, contra a corrupção, contra a violência, a insegurança e tudo que tem assolado o Brasil em seus 513 anos de existência me deparo com algo muito interessante. As diversas manifestações trazem consigo um sentimento de união em torno de uma causa comum. É como se desde 1992 com o Impeachment de Collor esta união se manifestasse apenas durante os jogos da seleção de futebol ou volei, em torno de algumas competições esportivas esparsas, mas agora não mais. O povo se une em nome de causas que afligem a todos, interferem na vida de todos sobre as quais não dá mais para se calar. Talvez o grito engasgado de vários brasileiros tenha conseguido sair e os protestos que começam a acontecer sugerem que mudanças drásticas estão para acontecer.
No entanto, algo muito curioso me espantou. A igreja evangélica não se pronunciou, não apoiou, não se fez ouvir, não comentou em hora nenhuma sobre os diversos protestos que vem acontecendo. Entrei no site das igrejas evangélicas mais "famosas" de Belo Horizonte tais como a IBL (Igreja Batista da Lagoinha), IBG (Igreja Batista Getsêmani), Sara Nossa Terra e em nenhuma delas há nenhum tipo de mensagem, nenhum tipo de análise sobre o que vem acontecendo no país. Este fato nos mostra um pouco da face da igreja evangélica em Belo Horizonte.
Em grande parte uma igreja que se omite de sua função social, uma igreja narcísica que olha apenas para si mesma. Enquanto diversas coisas acontecem na cidade, diversos protestos, diversas mudanças, é como se a igreja se sentisse "fora do mundo". É como se ela estivesse preocupada apenas em manter o seu próprio status quo. Em seus sites vemos apenas notícias de acampamentos, retiros espirituais, programação nos templos e coisas que dizem respeito apenas a si mesma.
Uma igreja que não dialoga com o mundo é uma igreja que não tem sentido para existir. Interessante é que se voltarmos um pouco no tempo e pegarmos o texto bíblico veremos que todos os exemplos para a igreja cristã se posicionaram sempre a favor dos oprimidos e dos que não tem parte na Terra. Poderíamos citar o exemplo de Jesus que expulsa os cambistas do templo, denunciando toda a corrupção que ali habitava. Ao invés de se retirar do mundo, procurar outra sinagoga onde ir, Jesus se colocou como aquele que luta contra aquilo que estava errado, luta contra a corrupção praticada diante dos seus olhos. Outro exemplo que temos são os próprios profetas durante os reinados dos diversos reis de Israel e Judá. Jeremias, Ezequiel, Elias, todos eles denunciavam o abuso de poder dos governantes, se envolviam na luta pelo direito dos pobres, dos órfãos, dos que são maltratados, etc.
Em todos os exemplos bíblicos não há um que tenha se afastado, que não tenha se posicionado diante da situação que afligia o povo. No entanto, hoje as igrejas evangélicas se colocam à margem de toda a onda de protestos. Elas não se posicionam, não apoiam, e isso é algo preocupante. Todos os exemplos bíblicos nos incita a posicionarmos enquanto cristãos.
Qual a função desta igreja que não se coloca como defensora da causa do oprimido, mas se coloca como aliada de um sistema repressor? Qual a função dos pastores que supostamente deveriam "conduzir" o povo rumo ao esclarecimento, mas ao invés disso obscurece sua audiência em nome de uma metafísica onde o céu deve ser buscado e a Terra pouco interessa para o "peregrino em terra estranha" ?
Os exemplos bíblicos nos dizem completamente o contrário. Lutar contra as estruturas repressoras deveria estar na ordem do dia das igrejas evangélicas. De que adianta realizar os cultos normalmente enquanto o mundo fora do templo sofre? Ouçamos as palavras de Tiago que nos diz "E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? " ( Tiago 2: 15,16).
De que adianta realizar seus cultos, fazer suas orações, clamar para que "Belo Horizonte seja do Senhor Jesus" se na hora de lutar contra a opressão a igreja evangélica se omite de sua função? Algo que aprendi muito cedo é que Deus nunca vai fazer aquilo que o homem deve fazer. Assim como no exemplo de Lázaro que Jesus diz: "Tirai a pedra" para que o milagre fosse feito e Lázaro pudesse ser ressuscitado, tem uma parte que cabe ao homem fazer. Obviamente Jesus poderia ter mandato a pedra sair da frente do túmulo e depois realizado o milagre, mas optou por incluir aqueles que estavam ali, e para isso, os que estavam ali precisavam fazer a parte que lhes cabia no processo.
O discurso de que "Deus está no controle" não serve para isentar os cristãos de sua participação contra as estruturas repressivas. A agressividade é uma faceta natural do ser humano e cabe a ele saber utilizá-la em nome da justiça, do amor. A agressividade usada desta forma é vista nos profetas, no próprio Jesus de forma que seria possível pensar em uma "teologia da violência". Violência aqui entendida não como gratuita, não como vandalismo, mas como agressividade que se coloca em nome do amor e da justiça. Esta justiça, este amor não em nome de si próprio, mas sempre em nome de um outro. Uma violência que se justifica em nome de melhores condições de existência, que faz uso da agressividade para lutar por justiça. (Este ponto aqui carece de mais esclarecimentos que não tem como explicitar neste texto, mas é algo interessante a ser pensado)
Da mesma feita, é preciso que a igreja evangélica se posicione diante dos acontecimentos, e faça voz pelos que não tem parte na terra, pelos que são oprimidos diariamente por um sistema repressor. Que a igreja seja uma das que luta, uma das que se manifesta, uma das que agremia pessoas para a causa e vá a luta por um mundo melhor, por fazer vir a nós o reino de Deus que é um reino de paz, justiça e amor.
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sexta-feira, 14 de junho de 2013
Sobre Vasti
Outro dia estava pensando sobre Vasti, a esposa do rei Assuero descrito no texto bíblico como uma mulher muito formosa e que se recusa a cumprir uma ordem do rei durante uma festa. O rei, muito furioso e ouvindo o conselho dos seus conselheiros, abre uma espécie de concurso para que outra mulher assuma o lugar de Vasti. Depois disso nada mais se fala sobre ela. Esta história está descrita no primeiro capítulo do livro de Ester.
O que me chamou a atenção é que o ato de transgressão de Vasti a fez perder seu lugar de companheira do rei Assuero, que na época seria o rei mais poderoso da Terra. O texto bíblico não diz o porquê Vasti se negou a ir à presença do rei, mas fala apenas que ela se negou. Isso com certeza espantou a todos na festa e aí está talvez a coisa mais interessante deste pequeno relato.
Vasti se colocou contra todo o status quo da época que ditava que a mulher deveria fazer o que o homem mandasse, e no caso do rei, sob penas severas. (o que no caso de Vasti foi a expulsão da convivência com o rei). Esta postura fica clara a partir da fala dos próprios conselheiros que ficaram com medo de que o exemplo de Vasti fosse seguido por outras mulheres e a partir daí viesse a desordem, a bagunça, a falta de controle por parte do homem.
Vasti é colocada pelos príncipes como um mau exemplo a ser seguido e os príncipes fazem de tudo para impedir que tal coisa aconteça. Esta história é interessante uma vez que trata de um ato de protesto feminino frente a dominação e ao modo como as coisas aconteciam no império de Assuero. Ao se colocar contra a ordem do rei, Vasti dá voz às outras mulheres; i.e, o ato de Vasti a coloca como transgressora e como modelo.
Vasti se coloca como um sujeito que escolhe e não apenas que obedece. O ato de Vasti nos leva a pensar que várias vezes a transgressão precisa ser feita para que a sua voz seja ouvida. E esta transgressão às vezes será feita contra uma figura de autoridade, que no caso específico seria autoridade tanto política quanto familiar. Vasti vai contra o rei e contra o marido. Ela está disposta a lutar contra a ordem do rei e ao mesmo tempo contra a ordem do "chefe da casa". A transgressão de Vasti adquire um caráter político que faz surgir a necessidade de uma nova promulgação real. Este ato jamais aconteceria se Vasti se visse como "apenas mais uma entre mulheres e concubinas". Foi preciso que a condição de sujeito aparecesse para que ela se colocasse como alguém capaz de negar um desejo da autoridade. Este ato a coloca como livre e não submetida a ninguém a não ser ela mesma. O ato transgressor de Vasti a liberta da dinâmica do palácio e implica em uma nova época no reino de Assuero. Há toda uma mobilização posterior para que se escolha a nova rainha que reinará no lugar de Vasti.
Hoje em dia várias manifestações estão em voga. A luta contra o status quo, a luta pelos direito das mulheres, homossexuais, etc. tudo isso aparece na pauta do dia e cada vez mais outras demandas vão surgindo, o que nos leva a pensar e repensar diversas posições que adotamos.
O que aprendemos com Vasti é que é preciso coragem para se levantar contra o status quo, mesmo que isso gere conseqüências que a princípio nos serão danosas, mas que não podem deixar de serem feitas e depois nos mostra que a mulher pode e deve exercer o seu papel em nome de sua própria liberdade, se fazendo ouvir e se colocando como sujeito que não apenas se submete, mas que luta por aquilo que acredita ser correto.
Ainda hoje vivemos em um mundo extremamente machista onde a mulher é tratada de forma diferente do homem em diversos aspectos, tanto socialmente, economicamente, etc. No entanto, acredito que Vasti seja um bom exemplo de como é possível às mulheres se fazerem ouvidas, e isso a partir do protesto, a partir da tomada de posição frente ao mundo tão machista em que vivemos. Questões em relação ao próprio corpo, em relação ao direito de gerirem o seu tempo, de fazerem ouvidas e tantas outras demandas atuais.
Que o ato transgressor de Vasti possa servir de exemplo para os nossos dias em que o reino de Assuero se mostra cada vez mais opressor, e o assujeitamento se mostra cada dia mais veemente. Que tenhamos a consciência de que o ato de uma pessoa tem muito valor para a mudança do status quo, e que aprendamos com Vasti que nos mostra que às vezes é preciso se colocar contra o opressor para que a liberdade seja adquirida e a dignidade mantida.
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sábado, 30 de março de 2013
Feliz Páscoa
A páscoa é talvez a data mais importante para o Cristianismo, afinal ela celebra a ressurreição de Cristo que possibilitou a salvação de todo aquele que crê. A páscoa é uma das festas judaicas assimiladas pelo Cristianismo. Em meio a toda a dinâmica atual do consumo que faz da páscoa apenas uma data comercial no intuito de vender ovos de chocolate acho importante relembrar o real sentido e origem desta festa.
Como a maioria deve saber, a prática de dar ovos de presente é bastante antiga e antigamente as pessoas se presenteavam com ovos pintados, ovos de ouro, etc, até que com os espanhóis na América maia/asteca desenvolveu-se a prática de fazer ovos de chocolate para presentear uns aos outros. No entanto, a páscoa não tem nada a ver com ovos, mas tem a ver com a história, a escravidão, a libertação.
A páscoa judaica celebra a saída do povo do Egito liderados por Moisés descrito no livro do Êxodo. A páscoa celebra esta memória.
Enquanto o povo estava preso no Egito, Deus enviou as 10 pragas. Moisés havia falado ao povo de Israel para que aos 10 dias daquele mês o povo tomasse um cordeiro e o reservarssem para que no décimo quarto dia eles o sacrificassem e o comessem.
Depois de comido o cordeiro, o sangue dele deveria ser aspergido na porta. O cordeiro deveria ser comido com ervas amargas e pães ázimos. Naquela noite aconteceria a última praga que seria a morte de todos os primogênitos, cuja casa não estivesse com o sangue de um cordeiro na porta. O povo de Israel fez conforme a ordenação dada por Moisés, e na noite em que o "anjo da morte" passou sobre o Egito, toda casa que tinha o sangue na porta foi poupada, enquanto a casa dos egípcios que não tinham colocado o sangue na porta teve o primogênito morto. Após este ocorrido o Faraó libertou o povo que andou pelo deserto até à terra prometida. Deus ordenou ao povo que isso fosse sempre lembrado, como "estatuto perpétuo" para lembrar ao povo da libertação que Deus lhes proporcionou naquele dia. O pão ázimo lembra o sofrimento enquanto o cordeiro lembra a salvação.
A páscoa cristã é entendida como sinal da redenção que Deus deu aos cristãos. Na páscoa, celebramos a ressurreição de Jesus que, com isso, redime o homem do pecado, dando a este a possibilidade de se achegar a Deus de forma direta, sem intermédiarios.
Assim como o cordeiro era imolado na páscoa judaica e comido com ervas amargas (como lembrança ao povo de Israel sobre o tempo que passou no Egito como escravo), o cordeiro de Deus foi morto em meio a sofrimento, para libertar os homens do pecado. Cristo, ao se sacrificar por todos, apagou essa exigência da imolação de um animal para que o pecado fosse perdoado. Se antes, para todo pecado cometido era preciso que um animal fosse sacrificado, Cristo substitui a necessidade deste sacrifício se colocando como cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo por meio de seu sacrifício (Jo 1:29). Sacrifício último, vicário, uma vez que é o próprio Deus que morre para que tenhamos vida. Com o sacrifício de Jesus, temos acesso direto ao pai.
Depois de três dias, Cristo ressuscita dentre os mortos, vencendo a morte e possibilitando a todos a esperança da ressurreição no último dia. A ressurreição é celebrada porque é por meio dela que a salvação é possível. Nas palavras de Paulo, "E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé." (1 Coríntios - 15:14). A ressurreição de Cristo nos marca profundamente. Ela então está no centro da pregação cristã e por isso celebramos a páscoa. A liberdade dada ao povo no Egito é levada às últimas conseqüencias pelo Cristo que nos liberta para vivermos uma vida em abundancia.
Celebremos, pois, esta dada, e lembremo-nos de seu real significado: a ressurreição de Cristo e o amor de Deus pelos homens.
Feliz páscoa!
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Filósofo. Especialista em Teologia. Mestre em Filosofia. Doutor em Psicologia. Doutor em Filosofia.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Salmo 88 - Esboço comum que pode ser visto em qualquer pregação evangélica
Gosto muito do Salmo 88 por mostrar uma face do salmista muito pouco explorada.
Salmo 88 (http://www.bibliaonline.com. br/acf/sl/88)
Os Salmos sempre são vistos por todos como um livro alegre, festeiro, usado em diversas celebrações tanto nos cultos como durante as inúmeras pregações. Sempre ouvimos eles sendo recitados durante o período de louvor, lido no início do culto para incitar os outros a cantar, celebrar e etc. No entanto, quando olhamos o Salmo 88 parece que mudamos de livro e não mais lemos os tão queridos salmos que nos incitam a celebrar. Muito pelo contrário, vemos um salmista deprimido, abatido, sem forças. Nenhuma de suas orações parecem ser respondidas. Um salmista cansado, sem esperança. A visão que temos é de um homem que não mais acredita que algo bom virá, resta-lhe apenas esperar a morte, no entanto ele ainda clama a Deus por socorro, mas parece não haver resposta, por isso anda aflito, desorientado, sem um norte para onde fixar o olhar. E tragicamente, o salmo termina sem uma resposta. Fica o lamento, um salmista em depressão, sem ter para onde olhar, que pode apenas confiar que em algum momento o Deus em que ele crê virá para o resgatar, mas isso não acontece.
O salmista evidencia diversos sinais de depressão, e nem por isso ele se torna um pecador, alguém que deva ser "expulso da congregação" dos justos. A depressão não é algo maligno, vindo do diabo ou qualquer outra coisa. A idéia de que o cristão não deve ficar deprimido não faz sentido, e a meu ver serve apenas para colocar um jugo sobre uma alma já muito atribulada. A depressão é algo humano da qual todos podem ser acometidos em algum momento da vida por motivos diversos. Alguns terão mais facilidades para desenvolvê-la, outros menos, mas não acredito que a depressão seja algo apenas patológico, mas que envolva outros fatores externos. Não falo de nenhuma metafísica, ou mal espiritual, não. Por fatores externos digo algum acontecimento que nos abalou, algo que nos fez perder as esperanças, etc.
O que acho interessante em ver este salmo encrustado no meio do livro de celebração é que ele nos mostra que os momentos ruins também acontecem durante a vida, e eles fazem parte dela. Mesmo que na hora não tenhamos uma resposta, isso não deve tirar nossas esperanças. O salmista não oferece uma resposta para a sua angústia. Deus não o responde. A depressão que ele sofre continua lá. Este é o único salmo atribuído a Hemã, um dos filhos de Coré. Provavelmente Hemã era um levita responsável pelas atividades do templo, ou seja, provavelmente era um líder de seu tempo que não sabia para onde caminhar, que sofria, que andava deprimido sem ter a quem recorrer uma vez que como ele diz no final "para longe de mim afastaste amigo e companheiro: meus conhecidos são trevas". (v.18)
Então o que fazer? Hemã não nos responde, ele apenas diz que continua a clamar por auxílio enquanto vive. Ele crê ! Mesmo acreditando que o mal que ele sofre venha de Deus, ele ainda crê que este mesmo Deus virará para ele Seus olhos e virá em seu auxílio. Talvez como Jó que crê, Hemã também creia.
Hoje em dia já há vários tratamentos para a depressão, diversos remédios, terapias, etc. Mas até hoje a atitude positiva de Hemã ainda é um excelente remédio para a luta contra a depressão. Crer que o melhor estar por vir, crer que esta situação não é definitiva, crer que algo ou alguém virá em meu socorro e me ajudará, crer que talvez haja algo que eu possa fazer para não sucumbir às trevas que me rodeiam. Diversos estudos científicos já mostram que atitudes positivas diante de tempos difíceis ajudam na recuperação, e talvez isso fosse algo que Hemã já soubesse há algum tempo atrás. Não que isso o fizesse parar de sofrer, mas com certeza isso o ajudava a continuar seguindo.
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Filósofo. Especialista em Teologia. Mestre em Filosofia. Doutor em Psicologia. Doutor em Filosofia.
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