segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Virando as páginas








Página virada é sempre motivo de esperança,
Nunca se sabe o que virá na próxima página.
Pode ser que venham boas surpresas,
As vezes não tão boas assim.

Sem virar as páginas não caminhamos em nossa leitura,
Ficaríamos sempre lendo a mesma coisa sem nunca avançarmos e concluirmos nosso objetivo proposto, ou seja, o término do livro.

Poderíamos, claro, ficar lendo as mesmas letras sempre pensando que se as lermos novamente elas mudarão seu sentido, mudarão sua forma e nos faria diferente do que somos.

Mas não é assim. As páginas relidas serão sempre as mesmas páginas, e por mais que haja algo novo nelas, ainda assim serão sempre as mesmas palavras que nos trouxe ou sofrimento ou alegria que estarão lá da mesma forma.

Virar a página constitui um salto no escuro, atitude de fé rumo a algo meramente previsto, mas nunca sabido de antemão.

Nos lançamos rumo ao novo, torcendo para que a nova página seja melhor que aquela que viramos.

Claro que há páginas e páginas. Há aquelas que nos deleitamos e não queremos que elas acabem nunca, gostaríamos que elas fossem pra sempre, que durassem, que não precisassem ser viradas.
Há outras que torcemos para que passem rápido, pois não aguentamos mais ler tão enfadonhas palavras.

Mas todo virar de página traz em si a esperança de que algo melhor virá para a trama da nossa história.

Viremos as páginas e sigamos em frente, sem saber o que nos aguarda no futuro.
Isso é motivo de alegria. A ignorancia em relação ao futuro é o que nos faz virar as páginas.

Pura esperanca de que a alegria será maior na próxima página.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Pingo d'água








Um pingo d’água é apenas um pingo d’água
Assim como uma pessoa é apenas uma pessoa

Hoje enquanto almoçava, reparava os diversos pingos d’água que caíam
Eles simplesmente caíam, não tinham nenhuma intenção em si mesmos
não cumpriam nenhum propósito pra ninguém.

Assim como subiram algum dia, caíram no dia de hoje.

No entanto, havia alguns pingos que caíam de árvores,
E enquanto caíam, traziam consigo várias substancias acumuladas das árvores
algo da folha, algo do caule, algo dos galhos,
Caíam em uma poça d’água.

Quando caíam provocavam ondulações na poça,
A água que estava ali na poça se agitava com a novidade,
mas depois, tudo voltava ao normal
o estranho foi absolvido pelas demais gotas que lá estavam e formavam a poça

Tudo voltava ao normal, até que outro pingo d’água encontrasse novamente a poça
trazendo novamente a novidade e logo depois virava poça também.

Poça que se formou a partir de vários pingos que perderam também sua identidade
se uniram e se perderam.
Por que? Ninguém sabe.


Pensei em nós,
Seres humanos que como aquele mesmo pingo, sempre traz consigo alguma coisa
ao adentrar em um ambiente.
Sempre chegamos com novidades, movimentando o novo ambiente,
até que por algum motivo, não se sabendo o porque,
viramos poça.
Não mais influenciamos ninguém, não mais agitamos ninguém, não mais fazemos diferença alguma.
Somos simplesmente poça.
Todas as experiencias trazidas por nós enquanto caíamos, são esquecidas
não fazem mais diferença. Afinal, viramos poças.

A alegria da vida, a beleza das coisas simples, o que aprendemos enquanto caíamos,
tudo se foi, esquecido em algum lugar dentro de nós.

Triste vida de poça, será pisada por vários pés que reclamarão porque ela estará ali
Incomodará várias pessoas, e nisto, o pingo antes cheio de novidades não mais existirá.
Como gota que cai no oceano e vira oceano, o pingo cai na poça e vira poça.
O homem cai no meio e vira meio.
Falta de autenticidade, nem ao mesmo tenta não ser poça,
Aceita-se isto como algo que não pode ser mudado,
e nisto se vai a humanidade, a beleza do humano, a singularidade de ser pingo d’água.

Excesso de metafísica sempre atrapalha.

Mero pensamento da hora do almoço.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Um homem que sofre







Em um mundo não tão distante, mas paradoxalmente tão perto habita um homem que sofre.
Mas que importa se este homem sofre, de quem é o problema senão dele mesmo?
Que tenho eu a ver com isso? Que tem qualquer pessoa a ver com isso que não o próprio homem que sofre?
E por que sofre?
Não sabe.

Apenas sabe que sofre a solidão de ser apenas mais um em meio a tanta gente
Sofre por se ver como alguém que facilmente pode ser deixado de lado em detrimento de outros, talvez mais interessantes que ele.
Sofre por não ser compreendido embora tudo o que faça seja tentar ser compreendido pelos outros.
Nem toda a sua ciência e seu conhecimento foi capaz de fazer com que ele deixasse de sofrer
Neste caso já dizia o Eclesiastes que o muito estudar é enfado da carne. Ele deveria saber disso.

Não sou eu o homem que sofre, mas talvez o conheça de algum lugar
Talvez ele me seja familiar no meio das inúmeras pessoas com quem convivo todo dia
Talvez homem seria um termo genérico, e representasse qualquer pessoa que sofra.

Mas de quem é o problema?
Hoje em dia, o problema é sempre individual, e se é assim, pra que vou querer gastar tempo me preocupando com problemas alheios?
Já tenho meus próprios problemas pra me preocupar. Não preciso de outros.
Curiosamente, nosso discurso sempre se vê permeado pela figura do outro.
Nas reuniões que participo sempre falam que devo amar o próximo, ajudar na caminhada daquele que está junto comigo, e até concordo com tais premissas, mas quão distante a coisa se torna quando requer a prática.

Na prática a teoria é outra.
Esta relação eu-outro acaba sempre por ficar no nível da superficialidade
Pra que almejar algo além da superficialidade? As coisas caminham melhor na superficialidade
No entanto, a relação da superficialidade não se constitui enquanto eu-outro, mas sempre eu-enquanto-eu-no-outro, e nisto reside um grande problema da sociedade atual.

Inúmeros “eus”, inúmeros “outros” sempre faltando o hífen que os uniria.
Mas pra que o hífen?
Talvez o hífen eliminaria o sofrimento do homem que sofre,
mas até lá,
Continuo conhecendo um homem que sofre sem saber porque.



domingo, 26 de dezembro de 2010

Sobre olhos







Gosto muito de tirar fotos. Elas tem um que de nostalgia, um que de ressurreição.

Toda foto é uma volta ao passado. É um trazer de volta o que já não existe.

É uma forma de registrar a morte.
A morte daquele momento que foi tão bom, ou tão ruim, mas que por algum motivo foi digno de ser lembrado por meio de uma fotografia.

Gosto muito de várias fotos que tenho em meu email, meu computador, guardadas na memória,.
Gosto de ver as expressões dos presentes nas fotos. Os olhos dizem muita coisa. Alguns mais que outros, mas todos eles falam.

Aprendi a ler alguns olhos há um tempo atrás. Quantas falas ouvi sem nenhum sussurro, quantas palavras ditas sem que lábios alguns se mexessem. Foi um dos melhores aprendizados que já tive.

Quem precisa das palavras quando se tem olhos?

Talvez tenhamos herdado dos gregos este "frissom" pelo "logos". O que importaria seria apenas aquilo que poderia ser verbalizado, ser posto de forma ordenada dentro de uma sentença e tudo que não pudesse ser desta forma deveria ser deixado de lado. A ontologia subordinada ao logos.

Mas quando os olhos entram em ação, as palavras perdem a sua importancia. Os olhos tem a capacidade de expressar o que as palavras não podem, eles falam do nosso interior. Revelam a dinâmica do que somos, e isso tudo em silêncio.

Vivemos em um mundo onde apenas as palavras dominam. Tudo que tem que ser dito, tem que fazê-lo em palavras. Não há lugar para mensagens silenciosas, apenas verbos, substantivos. Excesso de categorizações, tudo ordenado por meio de uma lógica rígida. Mera questão de gramática.

No entanto, os olhos riem disso, eles dizem suas palavras no silêncio, em meio aos barulhos das palavras. E se prestássemos atenção, veríamos que o que eles dizem silenciosamente são as coisas que as palavras não podem, ou não conseguem dizer.

E o que é a foto senão o olho tentando se sobrepor a palavra? O olho afirmando que não precisa delas pra se expressar, muito pelo contrário, se expressa melhor sem elas.

Uma imagem diz mais que mil palavras já diz a sabedoria popular. Se os teus olhos forem bons todo o seu corpo será luminoso já nos dizia o nazareno.


Quem tem olhos para ouvir, ouça.







quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Incompetência







Ah se desse texto saísse poesia ...
Se através destas palavras conseguisse dizer algo que mudasse a vida de alguém

Mudasse minha vida, mudasse algo...


Mas estas palavras acabam por serem vãs

Destituídas de conteúdo que excedam os sentimentos de quem as escreve.


Ah se elas expressassem pelo menos os sentimentos de quem as escreve... Isso já seria por demais objeto de felicidade, mas penso que nem isto consigo com elas.


Não sei porque escrevo, apenas o faço na tentativa de expressar meras palavras vãs que pretendem ser algo mais do que meras palavras vãs.


Pura demonstração de incompetencia.


Duvidam? Apenas olhem para o texto novamente. Não consegui fazer destas palavras algo que não fosse vão.

sábado, 23 de outubro de 2010

A um irmão querido





É, lá se vão 18 anos.

Lembro do seu primeiro dia, lembro de ter te visto envolto naqueles lençóis, chegando em uma casa pela primeira vez.

Tudo novo, olhos fechados, e como tudo na vida, aqueles olhos se abriram rapidamente, e começou a contemplar o mundo.

Mundo novo para uma pessoa nova.

E os tempo passou...

E as brincadeiras foram muitas, os choros foram muitos, as preocupações foram muitas, mas em todos esses momentos bons e ruins podíamos perceber algo de bom florescendo, algo divino acontecendo, um caráter se formando, uma visão de mundo sendo adquirida.

E nisto, nos sentíamos orgulhosos, nisto os nossos corações se alegravam.

Foi bom te ver crescer, poder estar contigo neste tempo todo, poder te ajudar a se tornar uma pessoa amável, querida por muitos, líder de vários.

Que nesta nova fase que se inicia em sua vida, você possa lembrar do que foi ensinado, que seu coração possa guardar os conselhos dados.

"Sobre tudo o que deve guardar, guarde seu coração", já dizia o provérbio bíblico.

Espero que mesmo se o nada algum dia vier sobre você e a angústia tentar te dominar, você se lembre que existem pessoas que te amam e sempre torcerão para o seu bem.

Fico muito feliz e grato a Deus que permitiu que você viesse ao mundo, crescesse, aprendesse boas coisas e fosse acima de tudo meu irmão.

Talvez estas pequenas palavras que me trazem tão boas memórias e faz meus olhos encherem de lágimas não consiga expressar no momento o que quero, mas sei que compreenderás a intenção do gesto simples.

É bom te ter por perto, é bom te ter como irmão. Te amo meu irmão querido!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Profissionalismo nas baias







No início apenas uma baia, nada além dela,
Falta de humanidade como qualquer outro objeto.
Nela nada havia que nos impressionasse ou nos causasse espanto
Era simplesmente uma baia.

Os materiais se espalham nela,
Tesoura, furador, corretivo, grampeador, nada de diferente do que vemos em todas as baias
Há também vários papéis presos em suas divisas
Reflexo apenas da falta de organização que assombra o lugar onde a baia se encontra.

A falta de humanidade na baia também reflete apenas a falta de humanidade do lugar
Símios fariam o trabalho do habitante da baia. Símios talvez até fariam melhor tal serviço
Pelo menos sobre eles não recairia a tristeza pela falta de humanidade.

Já pensei outra vez em robôs...
Sobre eles também não recairia tal necessidade de se mostrarem humanos
Afinal, eles seriam robôs

Engraçado que sempre nos "vangloriamos" por sermos humanos
Sermos dotados de razão, sentimentos, podermos nos importar com os outros e outras coisas
mas pra que isso se não nos importamos?

Sempre me intrigou muito a divisão que fazemos entre "ambiente de trabalho" e "outros ambientes". Acho que esta divisão apenas reflete o diagnóstico de Marx ao enfatizar o caráter alienador do trabalho na sociedade capitalista.

No trabalho somos pessoas diferentes, lá não cabe contatos humanos profundos, lá não é lugar de exercer preocupação com os outros, lá não é lugar de brincadeira, lá não é lugar de risos, ( a não ser pequenos momentos e mesmo assim, contidos) lá nos transformamos em robôs, símios, ou qualquer coisa que não humanos.

Abrimos mão da humanidade sem perceber. E o pior é chamarmos essa falta de humanidade de "profissionalismo". Seremos "bons profissionais" se deixarmos de ser humanos. Troca injusta na minha opinião, mas almejada pela maioria das pessoas. Elas querem ser bons profissionais.

Claro que elas querem ser boas pessoas também, mas isso só é válido para fora do ambiente de trabalho. O lugar de serem bons humanos é longe do trabalho. Lá é lugar de serem profissionais.

Claro que tal antagonismo não é sempre visto de forma tão oposta. Conheço pessoas que são bons humanos, e bons profissionais no mesmo ambiente. Estas estão cada vez mais raras.

Profissionalismo que nos transforma em seres não-humanos? Triste alienação vivida por nós todos os dias.

Baia. Mera baia. Tão não-humana como vários de nós, que em nome do excesso de profissionalismo negamos nossa humanidade.

Onde estou enquanto falo isso? Na baia tentando ser humano.