domingo, 12 de março de 2017

A bênção de Deus sobre nós.







Fabiano, você acredita que Deus te abençoou quando você foi comprar seu novo apartamento?
Fabiano, você acredita que Deus abençoa as pessoas?

Essas duas questões foram um tema de um debate curiosíssimo que tive hoje na casa de Mams durante o fim da noite e início da tarde. 
A minha resposta à primeira pergunta foi negativa, enquanto a resposta à segunda questão é positiva. O que possibilita que tais respostas sejam diferentes é a nossa concepção sobre Deus. 
Diversas vezes nesse blog já mencionei a forma como compreendo Deus. e isso sempre é alvo de contínuas perguntas dirigidas a mim. 

Ao responder negativamente à primeira pergunta fui compreendido como alguém que se mostrava extremamente auto-suficiente que teria conseguido tudo com a força do meu braço sem precisar da ajuda de ninguém. Essa impressão, no entanto, está longe da forma com o que a resposta negativa à pergunta quer dizer. Quando respondo negativamente à primeira pergunta, quero dizer apenas que não acredito que Deus esteja preocupado com os mínimos detalhes da vida das pessoas. Pensar em um Deus assim nos traz muito mais problemas que soluções, pois transforma Deus em um ser muito "à mão", ou seja, um Deus do qual posso me valer na hora que eu quiser, do jeito que eu quiser. Um Deus que se preocupasse com os mínimos detalhes da minha vida, ou que definisse planos para a minha vida já seria um Deus que de alguma forma estaria cerceando a minha liberdade e a minha responsabilidade diante do mundo. Esse Deus pensado dessa forma seria a completa antítese da proposta do Deus anunciado por Jesus que, longe de ser um Deus infantilizado, é amor que se estende a todos e a tudo. Ao mesmo tempo, ao responder negativamente à primeira pergunta não implica que me considero alguém que seja o único responsável por adquirir às coisas. Basta um olhar rápido para toda a natureza para percebermos a nossa pequenez, a nossa humilde condição, ou apenas perceber que somos como "uma neblina que passa". 

Da mesma forma que posso me compreender tão pequeno diante da Natureza, posso me colocar como extremamente pequeno dependendo da relação que estabeleço com a noção de Deus. A visão de um Deus cristão nunca propõe a anulação do sujeito, ou ainda a transformação do sujeito em um nada para que Deus possa ser tudo. A proposta do Cristo traz em si uma visão sobre Deus que nos trata não como "vermezinhos de Jacó", mas como "amigos", que implica uma relação madura com Deus e não infantilizada. Ao invés de reduzir o sujeito à nada, a proposta do Cristo eleva o sujeito à condição de se relacionar com Deus, ou seja, conserva a dignidade do homem. 
Reconhecer a pequenez diante do mundo que nos rodeia, ou até mesmo nos considerar pequenos diante de Deus depende da forma como concebemos Deus no mundo. O ser humano nunca foi, nem nunca será auto-suficiente. Ele sempre depende de um Outro que o acolha e lhe traga um mundo no qual possa habitar. 

É nesse sentido que posso responder afirmativamente à segunda pergunta, ou seja, acredito que Deus abençoa as pessoas, mas não em casos especialíssimos, mas a benção de Deus que está sobre todos é apenas aquela que nos permite viver, nos permite respirar, e nos permite experienciar as belezas do mundo que nos faz reconhecer a nossa total pequenez e ignorância diante de várias coisas que nos rodeiam, que faz chover sobre justos e injustos, como traz o sol sobre justos e injustos. Desde a mais ínfima bactéria até as galáxias mais distantes de nós apontam para a nossa pequenez. Daí talvez possamos entender a admoestação que o Deus de Israel dá ao povo pouco antes de entrarem na Terra prometida na história do Êxodo:

"Não aconteça que, havendo comido e estando plenamente saciado, havendo construído casas confortáveis e habitando nelas, havendo-se multiplicado teu gado e o número de tuas ovelhas tendo aumentado, e também se multiplicado tua prata e teu ouro, e tudo o que tiveres, que teu coração se ensoberbeça e venhas a te esquecer do Eterno, o teu Deus, que te fez sair livre da terra do Egito, da casa da escravidão; que te conduziu através daquele imenso e perigoso deserto, cheio de serpentes e escorpiões mortais; e que numa terra seca e hostil, tirou água da rocha para te saciar a sede; que no deserto te sustentou com maná que teus antepassados não conheciam; para te humilhar, e para te provar, com o objetivo de proporcionar o melhor para ti no futuro. Portanto, não digas no teu íntimo: ‘A minha força e o poder do meu braço me conquistaram estes bens e riquezas’. Antes, te recordarás de Yahweh teu Deus, porque é Ele o que te dá força e capacidade para gerar riqueza, confirmando a Aliança que jurou a teus pais, conforme hoje se constata claramente. " (Dt 8, 12-18)

Ou seja, compreender a nossa pequenez diante do mundo, diante da natureza ou diante de Deus faz parte da nossa compreensão do mundo e toda a natureza aponta para isso. O autor do Deuteronômio traz a nossa atenção exatamente para esse ponto, ou seja, o fato de que devemos sempre lembrar de Deus, daquilo que é superior a nós, e perceber que somos muito pequenos diante das coisas. No caso do texto citado ainda há o fato de lembrar que foi Yahweh que deu ao seu povo todas as coisas. O texto nos aponta, portanto, para essa relação que podemos criar para com Deus, sempre lembrando que a sua bênção está sobre todos proporcionando a possibilidade da vida. Mas a partir do momento que transferimos essa bênção de Deus que nos capacita e transformamos esse Deus em algo apenas "à mão", abrimos mão da nossa responsabilidade diante das coisas. 

E o que quer dizer quando atribuímos à Deus bênçãos sobre as nossas vidas? O que queremos com isso? Queremos apenas atribuir um sentido às coisas transitórias que acontecem no mundo e em nossas vidas. Nesse sentido posso ler o mundo como um lugar em que a bênção de Deus está sempre diante de nós e nos permite fazer todas as coisas. Se de fato a coisa é assim ou não é assim isso tudo depende da aposta no sentido ou não-sentido das coisas no mundo. Quando digo: "Isso me aconteceu e é bênção de Deus", o que quero dizer é que resolvo ler o mundo como um lugar em que Deus está constantemente interferindo nele para fazer as coisas de um jeito específico. E isso não é pouca coisa. O que não devemos fazer é querer que Deus se responsabilize por coisas que são decisões nossas, mas podemos atribuir a ele uma bênção diante da nossa escolha, mas isso dirá apenas que há uma crença envolvida e não que de fato houve uma bênção em casos especialíssimos.  

Nesse sentido, acredito que fica claro porque a resposta para a primeira questão seja negativa (pois isso implicaria na concepção de um Deus "à mão"), e a resposta seja positiva à segunda questão (pois a nossa pequenez diante do mundo nos faz tentar dar um sentido às coisas, que podemos  atribuir à Deus).

quinta-feira, 2 de março de 2017

A Religião light ou Religião "à la carte"








Na relação do homem com a religião na contemporaneidade acontece o que aqui chamarei de uma espiritualização instrumental da vida. Um movimento crescente de pessoas que nas redes sociais e às vezes até mesmo na vida diária adotam agora "novas posturas", "novas formas de vida", que agora afirmam se dedicar à yoga, alimentação saudável, cultura da paz, práticas exotéricas, mapas astrais, lemas budistas, práticas milenares de meditação, etc.

Esse fato mesmo parecendo ser recente é algo que já acontece há algum tempo em nossa sociedade totalmente permeada pelo individualismo e pela ausência de referenciais. Esse novo tipo de "espiritualidade" é o que chamamos de  "religião light", ou "religião a la carte", ou até mesmo "religião portátil". Todos esses os conceitos trazem em si a noção de que a apropriação que um indivíduo faz de preceitos religiosos é, diversas vezes,  meramente instrumental e aliada às demandas do próprio capitalismo. Não é raro vermos pessoas que afirmam que assim que começaram a meditar se sentem mais dispostas para o trabalho, afirmar que rendem mais em suas atividades, etc. A prática espiritualizada servindo em grande parte para a exacerbação da produção. 

A religião light se evidencia principalmente entre os mais jovens que na ânsia de encontrar algum sentido diante das diversas sensações que o mundo oferece começam a ver em práticas religiosas uma possível saída para o estado de anomia. Assim, o sujeito encara de forma muito tranquila o fato de seguir preceitos budistas e fazer coaching para produzir melhor. Ou então ele se sente muito bem praticando yoga, mas trabalhando freneticamente porque tem no acúmulo financeiro um objetivo inegociável de vida. Para esse sujeito é muito tranquilo participar de festas consumistas em que a dinâmica efêmera da vida está toda estampada contando que a proposta apareça com o nome de "Krishna" ou alguma outra entidade oriental. Esse sujeito da religião light é ele mesmo um indivíduo light, descomprometido com tudo, que tem na ausência de conflitos a sua razão de viver.

A religião à la carte é exatamente esse movimento de se servir de preceitos religiosos em uma espécie de self service onto-metafísico em que o "cliente" (afinal a sua apropriação na maior parte das vezes é para se aliar à dinâmica do capital) é livre para se apropriar do que achar mais interessante para a sua vida. Com o seu prato ele se serve da mística cristã, da sabedoria budista, dos tambores africanos, da serenidade das religiões orientais, da yoga, da meditação e monta o seu prato pronto para ser devorado durante o horário de almoço da sua vida em busca de dinheiro. Essa relação do indivíduo com a religião marca uma tendência contemporânea no mundo da ausência de referenciais. A sociedade líquida (Como Bauman gostava de chamar) traz consigo essa liquidez nas relações que o homem estabelece com a religião. A religião light é uma religião descomprometida, sem afeto, sem amarras metafísicas, sem compromissos ontológicos; ela se torna simplesmente um instrumento para o sujeito se sentir melhor. E esse "sentir melhor" pode ser simplesmente um "comer comida orgânica", "meditar algumas vezes por semana" e se sentir "transcendendo a efemeridade da vida" por alguns minutos em silêncio.

A religião light ou "à la carte" é ao mesmo tempo uma "religião portátil", ou seja, aquela que o indivíduo tem "sempre à mão" para pegar o que precisar, quando precisar, para a tarefa que precisar. Se em um determinado momento ele precisa justificar uma determinada prática que pode ter alguma pega com algum preceito budista, o sujeito simplesmente se apropria daquilo e utiliza sem precisar conceituar ou colocar tal preceito dentro do arcabouço teórico a que tal conceito pertence. Ele é simplesmente utilizado pelo sujeito segundo seu bel prazer e o mesmo acontecendo com os diversos rituais das diversas religiões.

As religiões orientais são talvez as que mais são apropriadas pelo ocidente devida a sua forma bastante diferente de ver a relação do homem com o mundo. Daí muito facilmente vermos os mais diversos praticantes de yoga, meditação, práticas alimentares que simplesmente estão fazendo estas determinadas coisas para otimizar a sua vida financeira, ou sua vida profissional, enfim, para render melhor na dinâmica do capital. Isso marca uma deturpação curiosíssima da função consagrada da religião que em sua dinâmica está totalmente alheia à noção de "produção". A religião light permite ao sujeito se sentir melhor, mas mantendo a mesma dinâmica neurótica que o aprisiona dentro da estrutura do capitalismo. Nesse sentido podemos dizer sem nenhuma dúvida que a religião light é o fenômeno que marca a apropriação da religião pelo capital.

A religião, de doadora de sentido para a existência, se transforma em um meio para otimizar a produção do sujeito na dinâmica capitalista; e quando ela se torna isso, há muito tempo já perdeu o seu sentido de ser. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Teologia Apofática - A chamada Via Remotionis







A teologia negativa, ou teologia apofática é um campo da teologia iniciado por Dionísio Pseudo-Areopagita que afirmava que sobre Deus não haveria discurso possível, ou seja, sobre Deus não há nada que possa ser dito, e para tentar explicar isso a filosofia medieval cunhou o termo que ficou conhecido como "Via Remotionis".

A via remotionis é o modo de falar negativamente a respeito de Deus o que difere do conceito de negação. A função da negação é excluir determinado objeto de um campo predicativo podendo com isso definir determinada coisa a partir do que ela não é. A diferença entre a negação e a via remotionis é ilustrada a partir da figura do escultor que trabalha com um bloco; o trabalho do escultor é feito de forma a possibilitar que o material trabalhado crie a forma desejada, e essa forma é dada a princípio, ou seja, toda escultura é em si uma imitação de um objeto. O que há ali é a "remoção" daquilo que não é a escultura e ao remover o que sobra da pedra algo ali vai se delimitando.

A música, por exemplo, não pode ser esculpida por não ter uma forma que se adeqüe a um bloco de mármore . A função da via remotionis é mostrar que nada pode ser dito a respeito de Deus. A via remotionis mostra que não existe campos predicativos aos quais Deus e seus atributos se encaixem. Se tentamos colocar Deus dentro de campos predicativos através de negações sucessivas o que se segue é o esgotamento de todos os campos predicativos inteiros. Falar de um objeto, é colocá-lo dentro de um campo predicativo. Com Deus isso é impossível. E é exatamente isso que a via remotionis vem mostrar. 

Deus não é um objeto dizível, e por isso qualquer tentativa de explicação Dele deve obrigatoriamente levar ao silêncio, pois podemos falar de objetos que estão no mesmo plano do dizível, e dentro de um campo de predicação, e Deus não está neste plano e nem em nenhum outro pois está acima de todas as coisas e por isso o dizível não se aplica a Ele. Portanto, assim como para esculpir algo, o escultor precisa de um objeto a ser imitado, para falarmos algo a respeito de alguma coisa, precisamos ter um campo de predicação desse objeto que lhe seja pertinente. Deus não está em nenhum campo de predicação, por isso assim como uma música não pode ser esculpida em um bloco de mármore, não podemos falar nada a respeito de Deus pois Deus não é um objeto dizível.

A mesma ideia de uma teologia apofática é evidenciada muitos séculos depois na proposta de Wittgenstein em seu famoso "Tractatus logico-philosophicus" que se encerra com as palavras: "Sobre o que não se pode falar, deve-se calar", ou seja, a via proposta por Wittgenstein acaba por se resumir ao silêncio sobre o místico, incluindo aí a figura de Deus. Na mesma esteira podemos também colocar o pensamento de Mariah Corbi em que o que restaria a respeito de um discurso sobre Deus seria apenas o silêncio. A teologia apofática também é bastante comum nos textos de teólogos ortodoxos advindos do antigo império bizantino tais como Nikolai Berdiaev e mais recentemente Mikhaill Epstein e sua proposta de Religião mínima. 

A teologia apofática até hoje continua inspirando diversos autores e a sua fecundidade aponta para os limites da nossa linguagem ao tentar dizer algo sobre Deus. Nessa impossibilidade se evidencia a possibilidade de uma mística e de uma postura diferente em relação a isso que chamamos Deus que estaria para além de toda predicação. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Édipo sem complexo - Pequena reflexão sobre o Édipo Rei de Sófocles



A história do Édipo Rei de Sófocles é um clássico da tragédia grega e foi muito utilizado por Freud para expor sua teoria, embora muito contestada a forma como ele utiliza este mito. O mito do Édipo Rei de Sófocles, se insere dentro do cenário da tragédia grega antiga e reflete exatamente como que ela era vista pelos gregos dessa época. A tragédia grega se destaca por colocar o herói em uma situação que lhe é contrária àquilo que se espera, deslocando portanto o foco da trama. Segundo aponta Jean Pierre Vernant em seu livro o herói na tragédia grega é tipo como pego pela palavra, assim como acontece na história do Édipo Rei.

Algo que é identificado no facilmente é a questão da ambigüidade e da reviravolta, que  é algo que todos os trágicos gregos recorriam como meio de expressão e modo de pensamento. Essa ambigüidade reflete-se segundo uma tensão de valores que se tornam inconciliáveis a despeito de sua igualdade. Segundo Vernant em  seu livro "Mito e tragédia na Grécia Antiga." (1999 p. 75) a ambiguidade se refletia em cada herói em seu universo próprio, e ele era como que pego na palavra que proferiu, e isso era algo recorrente e ele o chama de ironia trágica. Essa ironia, consistia no fato de que àquilo que era dito pelo herói acabava retornando para ele mesmo, como uma forma de punição dos deuses, pela falta de conhecimento por parte do herói sobre o que era a verdade dos fatos. Isso é muito bem visto na história do Édipo, quando àquilo que ele deseja que aconteça ao personagem central da trama volta-se a ele mesmo no decorrer da peça.  A mensagem trágica torna-se-lhe inteligível na medida em que arrancado de suas incertezas e de suas limitações antigas percebe a ambigüidade das palavras, dos valores, da condição humana.

Vernant trata também dos subentendidos utilizados de forma consciente, e isso depende de um certo conhecimento anterior por parte dos espectadores da peça, que já iam para o teatro com todo um conjunto de informações que seriam necessários para a compreensão da tragédia.
A verdade na tragédia grega, está sempre presente, só que na maior parte dela de forma oculta, de forma que, só os espectadores que no caso de estar assistindo os dois lados da história se assemelham aos deuses, que conseguem conhecer todos os discursos e prevê o que vem à frente. A diferença é que ao contrário dos deuses, os espectadores não interferem no desenrolar da peça, já os deuses, sempre são recorrentes nas tragédias gregas. Édipo mesmo atribui aos deuses o seu afortunado destino. Quando Édipo fala o que será feito ao assassino de Laio, ele se coloca como juiz de si mesmo, pois o que ele deseja ao malfeitor, irá acontecer a ele também. Essa é a forma como a tragédia se desenvolve normalmente, mas no Édipo- Rei ela não acontece como uma oposição dos valores nem em uma duplicidade de personagens , mas diverte-se com a vítima. No caso de Édipo, é ele quem é o joguete em toda a trama. É a sua vontade de descobrir o assassino e desmascarar o culpado, mesmo tentando ser impedido por Jocasta, Tirésias e o pastor , achando com isso que está cumprindo seu papel diante da cidade é o que o leva de herói para vilão, pois ao descobrir o assassino de Laio, Édipo se descobre na trama. 

Essa atitude Édipo faz parte de sua personalidade. Ele não é homem de desistir das coisas, gosta de ir até o final mesmo que com isso possa descobrir algo que não lhe agrada que é o fato de saber que é ele mesmo o joguete do início ao fim. Édipo é portanto duplo, quando ele fala, acontece-lhe dizer outra coisa contrária ao que ele está dizendo. Ele é portanto um enigma que só se resolve quando ele mesmo descobre que o que ele tinha por verdade não o é mais. Édipo portanto não escuta o discurso que ele mesmo diz sem saber, e é exatamente essa a verdade que está oculta; a única coisa autêntica.

Essa verdade oculta só é compreendida por quem tem o dom da dupla escuta ou da dupla visão como é o caso do adivinho Tiréisias. O discurso de Édipo se distingue entre o humano e o divino que irão se encontrar no final da peça, quando o problema estará resolvido e o enigma desfeito. É nessa hora que se dá a “reviravolta” da ação em seu contrário.
Quando Édipo soluciona o enigma, ele encontra ele mesmo, e esta identificação do herói provoca uma reviravolta completa da ação. A atitude de Édipo inverte as posições dentro da tragédia formulada por Sófocles.
Ao final da pesquisa feita por Édipo o justiceiro se identifica com o assassino e portanto descobrir quem matou Laio, é também descobrir quem é Édipo. A pesquisa por justiça por parte do rei de Tebas, torna-se uma pesquisa sobre quem realmente é o rei de Tebas. Essa reviravolta e ambigüidade é bem destacada por Vernant quando cita que o estrangeiro de Coríntio é, na realidade nativo de Tebas; o decifrador de enigmas, um enigma a ser descoberto, o justiceiro, um criminoso; o clarividente um cego; o salvador da cidade, sua perdição. Édipo que para todos era o maior dos homens, e o melhor dos mortais, se torna o mais infeliz e pior dos homens, um criminoso, e objeto de horror aos seus semelhantes, odiados pelos deuses reduzidos à mendicância e ao exílio.

A tragédia grega usava palavras gregas semelhantes para dizer coisas que no contexto da peça eram contrárias. A situação de Édipo depois de sua descoberta se torna a de um miserável que não merece o convívio com a cidade. A sua descoberta o expulsa do mundo visível e o coloca no mundo de Tirésias o vidente que pagou com seus olhos o dom da dupla visão. Considerando o ponto de vista humano Édipo é o chefe clarividente, igual aos deuses, mas considerando do ponto de vista dos deuses ele aparece cego e igual ao nada. A reviravolta da ação, como a ambigüidade da língua, marca a duplicidade de uma condição humana, que, à maneira do enigma, se presta a duas interpretações opostas. A linguagem humana se inverte quando os deuses falam através dela.

O Sentido da tragédia como concebida pelo gregos passava pelo enigma sobre a qual a peça estava escrita. Essa é a reviravolta consiste no fato do positivo se tornar negativo e vice-versa . Algo interessante de ressaltar é que Édipo não queria fazer o que fez, pois nutria um sentimento de filho para com quem considerava seus verdadeiros pais e condenava tal ato que fez, como sendo algo indigno de qualquer comiseração. Segundo marca Vernant, outra forma de reviravolta é o fato de que sua glória vai se afastando dele aos poucos para fixar-se sobre personagens divinas, Édipo vai se colocando cada vez mais na posição de homem sujeito a vontade dos deuses.

Um exemplo de ambigüidade é o seu próprio nome que em sim mesmo é de caráter enigmático e que marca toda a tragédia. Édipo é o homem dos pés inchados ( oîdos) , uma enfermidade que lembrava a criança abandonada e maldita; mas Édipo é também o homem que sabe (oîda) e foi esse saber que o colocou onde estava agora, como rei da cidade de Tebas por derrotar a Esfinge por seu próprio conhecimento. Todo enigma de Édipo se encontra contida no jogo ao qual o enigma que o seu nome contém. A descoberta do segredo da Esfinge já o coloca de certa forma diante do enigma sobre quem é ele próprio.

Diante da descoberta da verdade dos fatos, Édipo se coloca na figura do pharmakós o qual é preciso ser expulso da cidade para que a peste cesse. A figura de Édipo se inverte de Sábio para poluição da cidade, ele é o criminoso que precisa ser expulso. Édipo assume também a figura de bode expiatório sobre o qual irá repousar toda a culpa da cidade de Tebas. De Týrannos para pharmakós, Édipo sofre essa reviravolta. Enquanto no primeiro momento , ele é venerado por todos como a um deus, ele agora é odiado por todos e é visto como um mal da cidade que precisa ser expulso. A figura do týrannos como herói exposto e salvo, rejeitado e que volta como vencedor se prolonga até o século V no mundo grego. Como herói, o tirando acede à realeza por uma via indireta, fora da descendência legítima; como aquele, ele se qualifica para o poder por seus atos, sua proezas. Ele reina não pela virtude de seu sangue, mas por suas próprias virtudes; ele é filho de suas obras ao mesmo tempo que o é da Boa Sorte.

Tebas estava sofrendo com a esterilidade dos rebanhos e das mulheres, enquanto uma peste dizimava os vivos. Para se acabar com essa peste era preciso que o mal da terra fosse expulso, e como Édipo é esse mal, ele deve assumir a função de pharmakós.
Essa noção de pharmakós que deve levar o mal da cidade era um rito em Atenas que visava expulsar periodicamente a poluição acumulada durante o ano, e portanto instituiu-se o costume de uma purificação constante pelos pharmakói. O pharmakói era geralmente escolhido entre os povos pobres da cidade, entre os malfeitores condenáveis, os feios , de baixa estatura que por seus atos se tornavam o estolho da sociedade. Libertar a cidade era expulsar o pharmakós.

A figura do týrannos que Édipo representa o põe diante de uma reviravolta, pois enquanto o suporte da cidade não for expulso, a cidade continuará a sofrer. Ele mesmo é o mal da cidade; ele que a princípio foi o salvador da praga da Esfinge, torna-se agora a própria praga que precisa ser expulsa, aquele que outrora trouxe a paz, é agora quem provoca a peste. Rei divino-pharmakós : tais são portanto, as duas faces de Édipo que lhe conferem seu aspecto de enigma, reunindo nele, como numa fórmula de duplo sentido, duas figuras que são o inverso uma da outra. O herói era o modelo da condição humana, e Sófocles em sua peça se aproveita desse consenso entre os gregos e se apropria disso para colocar o týrannos como um pharmakós para ilustrar o tema da reviravolta, é porque na sua oposição essas duas personagens aparecem simétricas e, em certos aspectos, permutáveis, um e outro são responsáveis pela saúde da cidade. Toda a cidade pagaria pelo erro de um só.

O pharmakós é o inverso do rei, é como uma réplica ao contrário, que de igual forma é responsável pelo destino da cidade, e, por ser o mal, deve ser expulso para que o verdadeiro rei assuma sua posição e estabeleça a paz. Esta é, portanto a ambigüidade e a reviravolta que se encontra na peça de Sófocles. De týrannos, para pharmakós, Édipo se encontra nos dois lados da moeda, enquanto a princípio ele é o responsável pela paz, em um instante seguinte, se encontra precisando ser expulso por ser a causa da peste que assola a cidade que outrora ele teria salvo.

Caso queira se inteirar mais do tema sugiro o excelente livro do Vernant - 

VERNANT, Jean Pierre, VIDAL-NAQUET, Pierre, Mito e Tragédia na Grécia Antiga., São Paulo , Editora Perspectiva, 1999.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Questões a partir do materialismo aleatório de Althusser




 Althusser , em sua última filosofia, faz uma crítica a vários conceitos do materialismo dialético entre eles o conceito de “origem-fim”. Althusser critica esse conceito afirmando que o tipo de materialismo que isso visa não passaria de um idealismo. A filosofia de Althusser não parte de problemas filosóficos, mas pretende eliminar esses problemas para começar de um vazio filosófico.

Para Althusser, um materialismo que visa uma teleologia, no final não passaria de um idealismo, uma vez que a própria origem será vista já visando um fim. A origem é construída a partir de um fim. A crítica de Althusser parte de um vazio filosófico para poder a partir daí construir algo que não seja um idealismo. É preciso portanto desconstruir o conceito de origem-fim para que se possa entender o mundo como um processo aleatório.

O filósofo desloca portanto a ideia de mundo necessário e coloca em seu lugar a contingência. A contingência não seria apenas uma modalidade ou uma exceção dentro de um mundo necessário, mas o necessário é constituído a partir de encontros de contingentes. Os acontecimentos contingentes é que geram o que se torna necessário e não o contrário. O mundo portanto nada mais é do que encontros aleatórios que geram necessidades a partir disso. O mundo não é conseqüência de um princípio-ordem, uma ordenação, um logos do mundo. Ele é apenas um fruto de uma conjuntura-acontecimento (Nessa mesma linha desloca a filosofia de Badiou em "Ser e evento" tentando mostrar como se daria a "lógica do mundo" a partir da noção de "acontecimento).

O mundo nesse sentido continua sendo objetivo e independente em relação ao sujeito, no entanto ele não é assim por causa de um princípio que ordena as coisas, mas ele é fruto de um encontro que poderia ter acontecido de outra forma. Segundo Althusser, todo estado do mundo pode ser mudado de maneira imprevisível acrescendo ou subtraindo algum elemento no mundo. Não tem como estabelecer leis da história, o máximo que podemos fazer será apenas extrair do mundo algumas constantes e tendências pelo hábito que temos de ver as coisas acontecendo como acontecem. Althusser portanto caminha na contramão de uma filosofia idealista. Não há um fim nas coisas. Há apenas acontecimento-conjunção em uma formalidade vazia. 

Algo que fica claro na proposta de Althusser é que, para ele, o materialismo do encontro não critica apenas o fato do idealismo ser regido pelo principio da razão. Este seria um instrumento de poder político, de imposição de suas verdades, e que a tradição racionalista da filosofia mascara como sendo o poder da “Verdade”. A filosofia reconhece a realidade exterior, mas estabelece com esta uma relação de apropriação. O conceito se impõe à prática, tenta colocar a verdade da filosofia (suas ideologias política, religiosa, moral e estética) como sendo sua verdade. A realidade é tragada e reformulada segundo este princípio da razão sem que sua natureza própria seja levada em conta. Pelo contrário, é preciso corrompê-la para que o domínio da verdade da filosofia se efetive.

O materialismo aleatório não exerce sobre as práticas uma  “violência do conceito”. Elas são justamente aquilo que pode questionar a filosofia, seu outro, algo que está aberto a contingência do acontecimento e da experimentação, indeterminado em relação a um objetivo último. A crítica da filosofia idealista e do princípio da razão tem por objetivo livrar os campos filosófico e histórico da submissão que as categorias filosóficas (princípio de razão, como conceito-verdade, e as noções de Sentido, de Sujeito, de Substância e de Origem-Fim) impõem às práticas sociais dos homens. A partir da desconstrução que materialismo do encontro faz da maneira idealista de pensar, seus elementos teóricos tornam-se como os átomos que caem no vazio do clínamem, instâncias passíveis de novos encontros e combinações. O materialismo aleatório promove a abertura do acontecimento, a possibilidade de outros mundos filosóficos.  

A proposta althusseriana se mostra extremamente interessante para pensarmos as relações humanas e a própria relação do homem com a religião. Obviamente que Althusser não era um religioso, e sua proposta materialista de cara já elimina qualquer proposta metafísica por parte dele relegando qualquer adepto de sua teoria ao ateísmo. No entanto, a sua proposta de um encontro aleatório para além de uma noção de origem-fim é uma proposta vigorosa na nossa época contemporânea ausente de referenciais teóricos. A ausência de um princípio organizador e a ausência de um télos no mundo coloca o indivíduo diante de um grande vazio que clamará por algum tipo de preenchimento, mesmo que parco. Neste sentido a própria filosofia poderá se colocar como uma tentativa desse preenchimento, mas não no sentido de "organizar o mundo conceitualmente", mas tendo como tarefa abraçar toda a aleatoriedade do mundo. No entanto, talvez haja outras saídas para além das filosóficas para tentar lidar com a aleatoriedade e é exatamente essa a proposta instigante que Althusser nos relega. 

Será que a religião seria capaz de oferecer algum tipo de resposta à aleatoriedade sem ter como meta eliminar tal aleatoriedade? Como seria uma religião que abarcaria a aleatoriedade althusseriana? E o conceito de "Deus"? Como ele seria pensado a partir dessa proposta? Resta a ele apenas sair de cena em um materialismo cego, ou será que há a possibilidade de pensar tal conceito a partir da noção de aleatoriedade? Essas são perguntas obviamente sem respostas ainda, mas que instigam o nosso pensamento. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Reflexões sobre Deus a partir de um inseto







Ontem um inseto entrou em minha casa enquanto assistia televisão. Depois do susto provocado por uma entrada tão súbita, a primeira reação que tive foi a de pegar o chinelo no intuito de matar tal invasor. Foi o que fiz. No entanto, enquanto pegava o chinelo e o lançava em direção ao inseto indefeso diante da minha onipotência circunstancial uma imagem me veio à cabeça e me imaginei como se eu fosse aquele inseto diante de um Deus que teria todo poder para me esmagar a qualquer momento que ele quisesse sem que eu de nada soubesse sobre isso. 

Esse Deus todo poderoso teria todas as coisas ao seu dispor, ou seja, assim como eu, ele também teria um chinelo, um tênis, ou qualquer outro objeto para me esmagar a qualquer momento, e fiquei pensando: - Mas por que razão ele não me esmaga sem misericórdia alguma? Com certeza eu nunca saberia que teria sido esmagado por aquele Deus e minha vida simplesmente acabaria ali, sem sentido algum, fruto de uma vontade desconhecida, que talvez por nada melhor pra fazer resolvesse matar um inseto que adentrou em sua casa.

Nessa hora me veio à mente duas referências bíblicas. A primeira foi aquela  referência bíblica de Isaías 41,14 que chama o povo de Israel de "vermezinho de Jacó", ou seja, algo insignificante diante do poder de Deus que supostamente poderia fazer qualquer coisa para com aquele ser desprezível. E a segunda referência que me veio foi a referência de Lamentações 3,22 que afirma que "As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque a sua misericórdia não tem fim", ou seja, se Deus não me esmaga como eu fiz com o inseto é porque a sua misericórdia para comigo é sem fim, e para ele, de alguma forma, há um interesse na minha existência, ou até mesmo um desinteresse passivo quanto a eu existir ou não. 

Agora a tarde tive outra experiência interessante. Como estou de férias, dei uma cochilada na parte da tarde e quando acordei, acordei com fome e então fomos à padaria para comprar coisas. Eu queria comer pão com queijo e por isso fomos à padaria e compramos pão com queijo, pois esse era o meu desejo no momento. Ao mesmo tempo eu fiquei pensando que diversas pessoas tem o desejo apenas de "comer" e nem isso lhe é dado, pois diversas vezes elas simplesmente não tem o que comer, enquanto eu posso escolher e ter acesso àquilo que quero. 

Se pensarmos que Deus seria responsável para com isso cairíamos naquele velho debate despropositado que coloca a culpa de todas as coisas em Deus como aquele que seria uma espécie de sádico brincando com os desejos e as condições de vida das pessoas. Particularmente não penso que estas questões sejam da alçada de Deus, mas se vinculam muito mais à dinâmicas estruturais dos modos de produção capitalista. Deus não tem absolutamente nada a ver com isso, mas sim as condições materiais de existência que geram um disparate que permite que enquanto alguns tenham muito e acesso a qualquer que seja o seu desejo, outros nada tenham e por isso mendigam e até morram por não conseguir comer. 

Para mim é bem claro que a visão que temos sobre Deus condiciona de forma cabal a forma como nos relacionamos com ele. Se eu vejo  Deus como esse ser sádico que pode me matar a qualquer momento, mas não o faz simplesmente porque não quer ou está desinteressado em minha existência, mas ao mesmo tempo seria o responsável por alguns poderem comer o pão com queijo quando querem enquanto outros não podem nem mesmo escolher se comerão ou não, então a minha relação com ele será extremamente ambivalente, como já mostrou Freud em diversos textos. Vou amá-lo porque a sua misericórdia me mantém e me permite escolher o que quero comer e ter aceso a isso, mas ao mesmo tempo vou temê-lo porque a qualquer momento ele pode resolver me matar sem me dar nenhuma explicação. Essa ambivalência fará com que a minha relação com ele sempre esteja oscilante; e diante das perguntas da vida eu ficaria completamente sem resposta, pois não teria como escolher entre o Deus de amor e o Deus sádico. 

A minha proposta é que Deus deva ser visto para além dessa dimensão ambivalente. Deus não é o responsável por eu ter o que comer e beber, nem mesmo responsável por eu estar vivo, mas posso ser sempre grato a Ele por isso. A ideia que coloco aqui é a de que Deus pode ser entendido como um sentido que organiza o mundo sem fazer com que o mundo dependa dele e nos excusemos da nossa responsabilidade. Se sou grato a Deus por eu ter o que comer e o que vestir isso não quer dizer que tudo venha Dele, mas apenas quer dizer que eu resolvo ler o mundo de uma forma em que me vejo não como causa de mim mesmo, mas dependente de uma esfera de ação que me ultrapassa. Posso até mesmo significar o mundo dizendo que "tudo vem de Deus", mas significando por Deus não um ser todo poderoso, mas um Sentido para a minha existência.  Dessa forma perseveramos a dimensão do mistério, perseveramos a dimensão de Deus e eliminamos a dimensão sádica daquele Deus todo-poderoso que brinca com meus desejos, ora possibilitando satisfações, ora não e que poderia me esmagar a qualquer momento.

Finalmente percebemos que as coisas no mundo dependem de relações que são determinadas internamente e não por Deus que esteja coordenando todas as coisas, no entanto, eu, quando vou ler o mundo, procuro dar um significado para esses acontecimentos e para isso eu escolho ler o mundo a partir da dimensão do Sentido. Esse Sentido me coloca de uma maneira diferente diante do mundo, encarando todo o vazio e sem sentido de diversos acontecimentos, mas sem esquecer que a aposta é sempre a do Sentido para além do mero vazio e acaso. Acredito que isso nos coloca em um meio termo entre um materialismo cego e ingênuo que é incapaz de apostar no sentido, e uma explicação completamente metafísica que faz tudo depender de um Deus todo poderoso colocando o homem apenas como um verme diante de um poder pleno. A proposta aqui faz com que encaremos a nossa responsabilidade na construção de um mundo melhor, encaremos a nossa responsabilidade diante das nossas vidas, e permite ao mesmo tempo admitir a possibilidade do aparecimento de Deus, mas um Deus fraco, vazio, que se mostra apenas em pequenas gotas de esperança diante do mundo caótico. Esse Deus visto como esse Sentido é o que nos faz lutar para que todos tenham o que comer, que todos tenham o que vestir, que tenham o que beber, onde morar, etc. Deus se esvazia de metafísica e se transforma em horizonte para onde todos navegamos. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

[... escolhe pois a vida, para que vivas... Dt 30,19]










Enquanto podia, aconselhava, ouvia, ponderava, levantava prós e contras, contava de sua própria experiência, projetava algumas delas, ocultava outras, etc. 
Fez tudo o que pode para que ele não fosse pelo caminho que parecia traçar para si. No entanto, a partir do momento que  ele decidiu seguir o caminho que escolheu, ela fez de tudo para ajudá-lo. Até testemuhou o que aos olhos dela era um erro. Aceitou o fato de que ele tomou a decisão que achava melhor para si. 

Isso quando abandonou o emprego, isso quando resolveu morar de aluguel ao invés de comprar uma casa, isso quando resolveu namorar alguém que claramente não tinha nada a ver com ele. Mesmo com todos alertas ela resolveu deixá-lo seguir o que achava melhor. Não se eximiu da sua responsabilidade enquanto quem ama, não tomou para si responsabilidade que não era dela, não foi indiferente à demanda do outro, mas deixou o outro livre e ajudou no que pôde e o quanto pôde. Mas fez assim porque o amava, porque compreendia que por mais que discordasse, por mais que alertasse, a decisão, por mais errada que fosse a seus olhos, cabia somente a ele. Nada fez para se colocar como obstáculo, pelo contrário, tudo o que pôde fazer para ajudar, ela fez. 

Não mereceria ela a mesma credibilidade agora que a situação se inverteu? Não deveria ele agora fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudá-la a levar a cabo sua decisão? No entanto agora ele se esconde atrás de racionalizações, se esconde atrás de planilhas. Planilhas essas que não fez diferença alguma na hora  de abandonar o emprego. Racionalizações essas que foram deixadas de lado quando a sua demanda se impôs, mas que agora serve de desculpas para se eximir da ajuda possível.

É sempre possível usarmos um juízo para o outro e não sermos coerentes o suficiente para usarmos o mesmo juízo para nós mesmos. Da mesma forma que há pessoas que são muito duras com os outros mas ao mesmo tempo são bastante condescendentes consigo. Para o outro todo o peso das racionalizações, para mim nem tanto peso assim, e assim a vida segue como que normalmente diante das incongruências destas posições. Os já conhecidos "dois pesos e duas medidas" acabam falando mais altos diante dos nossos interesses e isso é algo extremamente humano, mas nem por isso seja algo que devemos nutrir, afinal, seria bom se fôssemos justos o tempo todo; tanto conosco como com os outros.

Há também aqueles que são extremamente severos consigo e extremamente condescendente com o erro dos outros. Esse segundo tipo também encontramos aos montes em nossa vida. O grande desafio é encontrar o meio-termo entre essas duas situações e tentarmos, na medida do possível, nos tornar melhores em relação ao outro. Ajudar o outro sempre que possível e não ser empecilho para que o outro tome as suas decisões. No que depender de nós devemos ter sempre o coração disposto a ajudar o próximo para que ele se realize e para que ele sempre se responsabilize pelos seus atos.

Toda escolha envolve uma perda. Escolher é sempre perder algo. Enquanto adultos cabe a nós reconhecer o direito do outro de tomar as suas próprias decisões, o direito do outro de escolher o que achar melhor para si. Por mais idiota que possamos achar a escolha do outro não compete a nós decidir por ele. Se solicitados podemos expor nossas opiniões, nossos pontos a favor e contra tal decisão, mas sempre tendo em mente que cabe apenas ao outro tomar tal decisão. A nós cabe respeitar  e torcer para que o outro escolha o que for melhor, cabe a nós torcer para que o outro escolha a vida e viva. E isso é sempre um grande desafio para nós.

Que estejamos sempre prontos a aconselhar e ajudar o outro naquilo que sabemos, mas sem nunca tirar do outro a responsabilidade e o seu direito/dever de escolher o seu próprio caminho.