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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Em que difiro deles, meu Deus? Em que difiro?





Monólogo 1 (Horácio como juiz de outro)

Isto que estão fazendo com você é um absurdo !
Eu, se fosse você, já teria dado um fim nesta situação.
Não sei como você consegue não tomar nenhuma decisão neste sentido.
Pergunte a qualquer um se eles não fariam o mesmo que eu.
Isso que você faz é típico de alguém sem atitude.
Quem faz isso com você não merece sua consideração.
Olha como te tratam! Olha o que estão fazendo !
Pra mim, eles sempre foram uns falsos, que te engana porque você é inexperiente e deixa.
Onde já se viu, depois de tanto tempo te enganando você ainda ficar junto deles?
Parece que você não tem amor próprio, parece que você gosta de ser usado. Sinceramente, às vezes acho que você gosta de sofrer numa espécie de masoquismo estranho.
 Preste atenção nos sinais, cara. Você só não vê ´porque não quer !


Monólogo 2 (Horácio como analista de si)

Mas de repente, por uma coincidência, eu me vi fazendo o mesmo que aqueles a quem tanto condenava.  Agora era eu que enganava, era eu que arrumava as desculpas, era eu que agia com quem gostava de forma leviana e agia de forma enganadora.
E o que eu digo para mim mesmo agora?
Mudarei minhas críticas?
Direi que minha situação é diferente daquela?
Mas em que é diferente?
Tanto eles quanto eu apenas queremos satisfazer nossos desejos que um outro apenas não é capaz de suprir e para isso, em nome desse desejo incontrolável, estamos dispostos a enganar, mentir, esconder, desconsiderar àqueles que sempre estiveram próximos a nós.

O que temos de diferente? Me diga, o que temos de diferente?

As críticas que valem pra eles, valem para mim também e dessa forma me vejo me culpando de algo que só conseguiria culpar em outros. Talvez os tenha criticado  muito rapidamente, sem antes olhar para mim e ver que posso ser tão igual a tudo que condeno.
Claro que para mim, consigo arrumar as mais diversas desculpas, consigo explanações "pseudo-lógicas" que me confortam. Consigo brincar com as palavras de forma que minha atitude pareça condizer com uma certa visão de mundo que criei mesmo sem fazer muito sentido para ninguém, exceto para mim mesmo. Na realidade isso pouco melhora a situação, pois no campo prático, tudo continua a mesma coisa. 

Eu e eles somos a mesma coisa. Somos farinha do mesmo saco, somos egoístas, egocêntricos, pensamos apenas em nós mesmos e damos muito pouco a mínima para nossos companheiros.  Triste perceber isso apenas depois de ter criticado tão duramente. Talvez, se tivesse visto antes isso, teria sido mais condescendente com eles.


Horácio agora estava mais pensativo e talvez entendendo um pouco melhor algumas questões que o assolavam há muito tempo. O monólogo 1 perdeu o sentido depois do monólogo 2, e pelo menos para mim, Horácio é um pouco melhor agora que compreendeu algumas coisas.


domingo, 26 de abril de 2015

Mais uma do Horácio




Horácio era desses que sofria por muito pouca coisa.

Bastava uma resposta mais ríspida de alguém mais próximo que aquilo virava um turbilhão em sua cabeça. Não que levasse a coisa para um lado pessoal, mas aquilo o remetia a um questionar sobre o mundo e sobre a vida de uma forma que a depressão quase o assolava.

Juntamente com a depressão rondante, uma culpabilização o atormentava, e o atormentava de tal forma que o fazia sentir-se o pior dos seres humanos ao mesmo tempo que demonstrava toda a sua carência de forma muito latente. Era como se ele se sentisse responsável por tudo e todos nesses pequenos momentos. Ao mesmo tempo que gostaria de fazer algo para se tirar do buraco em que sempre se metia, ao mesmo tempo mantinha uma certa felicidade nessa culpabilização que talvez por conta disso sempre retornava de alguma forma.

Ao mesmo tempo, era como se a qualquer perturbação na ordem das coisas fosse o suficiente para que nada mais fizesse sentido.Um caráter obsessivo o seguia sempre de forma que não era raro vê-lo cabisbaixo pelos cantos dos lugares mesmo em momentos festivos. Como alguém que perde o olhar no tempo. Era um sujeito estranho que se entretia com muito pouca coisa, mas ao mesmo tempo se sentia extremamente entediado na maioria das vezes.

Estas características de Horácio não raras vezes o levava para as redes sociais, afinal, lá era possível não apenas se entreter, mas também uma forma de se sentir próximo a algumas outras pessoas de um círculo mais largo criando nele a leve sensação de companhia da qual várias vezes sentia falta. Era como se nas redes sociais ele pudesse ser realmente quem ele queria, e não raras vezes podíamos vê-lo postando fotos de momentos felizes, viagens, ou até mesmo frases de efeito ou reportagens de cunho críticos mais tendenciosos à esquerda arrastando consigo vários "likes" e "comments" e algumas vezes até "retweets". Isso dava a ele uma leve sensação de paz e por isso, sempre que podia, fazia questão de dar a sua contribuição nas redes sociais.

A felicidade das redes sociais apenas escondia essa insatisfação latente a que remetíamos mais acima, funcionava bem como uma válvula de escape. Nesse sentido, nada de especial havia em Horácio. Ele era apenas mais um que fazia das redes sociais uma espécie de alter-ego idealizado onde tudo é mais bonito que a realidade, onde apenas as vitórias contam, onde não há lugar para a crueza da vida, mas apenas a vida vivida como conto de fadas.

Obviamente que essa fuga não resolvia o problema de Horácio consigo mesmo e muito menos reduzia a sua culpabilização ou a sua obsessividade. Era apenas mais um placebo da vida que ele insistia em tomar como forma de achar que está se tratando de algo.

Curioso esse Horácio que na sua especificidade se mostra apenas como mais um de nós.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Triste momento de Horácio







E a angústia o assaltava como há muito tempo não acontecia. Mas dessa vez era uma angústia que se misturava com expectativa, que ganhava contornos de ansiedade e o fazia perder um pouco a noção do tempo e das coisas.
Era como se Horácio fosse um grande fã da permanência, e qualquer mudança que acontecia em seu mundo o colocava em um não-lugar que ia ficando cada vez mais difícil de controlar. Sua obsessão pela repetição beirava a compulsividade e não raras vezes podíamos perceber que isso também o incomodava bastante.
Várias vezes ele não queria ser assim, afinal esse tipo de prática trazia sobre ele um enorme desconforto e sem contar que inúmeras vezes ele se sentia como que sendo um estorvo para os mais próximos dada a sua extrema fragilidade demonstrada pela sua obsessão.
Que ele tinha vários problemas familiares era algo que poucas pessoas sabiam, afinal ele não era também muito de comentar sua vida com estranhos, mas quase sempre lhe acometia um medo de ser abandonado pelos seus, medo de ser esquecido, um medo desesperador que inúmeras vezes o fazia querer agarrar-se a qualquer a qualquer mínima fagulha de companheirismo.
Talvez pelo fato de sua mãe ter sido muito ausente, ou pelo fato do pai, mesmo sendo aquele que o acompanhava à igreja, nunca tenha se feito participativo do processo educacional, sempre terceirizando os serviços educacionais na forma de babás, empregadas, etc.
Talvez um pouco daí a sua obsessão e o seu desejo homeostático. Ao tentar manter tudo em perfeita ordem, fazendo o possível para que o presente e o futuro fosse exatamente como foi o passado, Horácio se sentia mais seguro e o abandono parecia menor, afinal era como se para ele aquilo servisse de garantia de alguma coisa; garantia de que não precisaria novamente batalhar por tudo que já tinha conquistado.
Esta análise selvagem (para falarmos como Freud) que fazemos da figura de Horácio talvez em nada nos ajude a compreender o porque de tamanha ansiedade, o porque de tamanha preocupação, mas talvez de alguma forma nos ajude a compreender um pouco da figura de Horácio. Como já comentamos um pouco sobre Horácio outras vezes, não cabe aqui ficar repetindo o que já sabemos.
Esta compulsão pelo mesmo demonstrava um caráter tipicamente neurótico de Horácio, e acredito que qualquer psicanalista veria nele uma espécie de "tipo ideal do neurótico", mas para todos os efeitos Horácio nunca tinha ido a um psicanalista, na realidade ele achava essa noção de inconsciente, recalque, etc. meio estanha demais para ele. A ideia de que no ser humano haveria algo que o incita a autodestruição soava muito estranho para Horácio, que todos sabemos era um sujeito bem tranquilo e bondoso.
Enfim, o que tinha naquele momento era apenas aquela angústia vazia, destituída de todo objeto, que nada nem ninguém o ajudaria a superar. Era como se a fixação de Horácio sobre os pequenos detalhes fosse um grande empecilho para coisas mais profícuas para si e esse excesso de detalhe gerava nele aquela angústia que ele lutava com todas as forças para não aparecer. Olhava demais para o micro e isso gerava aquela angústia no macro. Triste momento de Horácio.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Fragmentação de si via email ...



Por algum motivo que Horácio não compreendia, resolveu mandar um email. Pensou, pensou, rabiscou algumas coisas antes em seu caderno e depois começou a digitar. Não sabia muito bem o que escrever pois a situação lhe parecia um pouco delicada, mas ao mesmo tempo não queria tratar do assunto pessoalmente por talvez achar que seria um tanto quanto invasivo.
De toda forma, achou que o email seria uma boa alternativa e pôs-se a escrever. Achei o email bem escrito, embora meio vago em relação ao assunto. Também não fica muito claro sobre o que se trata, nem para quem é endereçado tal email, e muito menos se foi enviado ou não dada a sua última frase, mas em todo caso Horácio se sentiu aliviado por ter escrito. Honestamente espero que tenha conseguido resolver o que se propôs com o email. Espero até que tenha enviado ao seu destinatário.

Em todo caso, no email,  Horácio escreveu assim:

"Eu sei que não serão palavras que te farão mudar.
Nem sei se isso seria necessário.
Penso talvez que sua situação exija esse tipo de comportamento. Estranho talvez, mas mesmo assim, um comportamento válido. Talvez seja só comigo, embora algumas pessoas tenham comentado que você tem andado estranha.

Claro, claro, ninguém tem nada a ver com sua vida, seus problemas compete a você e a quem você quiser compartilhar. A vida é assim mesmo.

Lembro de ter te dito certa vez que se afastar é bom às vezes, mas para você tomar cuidado para não se afastar demais.

Acredito que a maioria das pessoas não percebe. Acredito que para elas, tudo está normal, como sempre esteve, como sempre estará.

Não temos o hábito de nos preocupar com os outros. Sabe como é. Vai que o outro acha que estamos com segundas intenções? Vou me preocupar pra quê? É estranho quando aparece um que faz isso. Sei lá.

Melhor viver minha vida como se nada estivesse acontecendo. Afinal, o que os outros tem com ela mesmo?

Acho tudo muito curioso. Acho tudo muito intrigante. Sei lá porque.

Tentei com minha mente encontrar talvez algum nexo, encontrar um "fio de Ariadne" que me conduzisse pra fora do labirinto. Confesso que não encontrei.

Não consigo entender onde isso te incomoda, o porque isso incomoda. Já te disse diversas vezes que são apenas gestos gratuitos. Não quero nada em troca, apenas amizade. Saber que se importa. Até onde consigo ler, sei que se importa, talvez demonstre de forma diferente, mas ainda acredito que se importa.

Por que é tão difícil aceitar esses gestos?

Como você mesmo me disse, é uma fase de transição. Ou melhor, recuperação. Sei que precisa de tempo, precisa de espaço talvez.
Desculpe minhas constantes interrupções em seu silêncio com assuntos que não servem pra nada e muito menos são do seu interesse.
Tentarei ficar mais calado ao seu lado. Se não tenho nada pra oferecer que lhe interesse no momento, então é melhor ficar calado.

Nem sei se vou te mandar isso, sinceramente não sei."





segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Horácio ?





Horácio era um homem complicado, mas era um bom homem. Nele não havia nada demais que o pusesse acima da média, nem nada de menos que o colocasse abaixo dela. Era um homem normal, sem muitas qualidades e também sem muitos defeitos. Ou talvez as suas qualidades se equiparassem aos seus defeitos e todos ficavam com a sensação de um grande zero a zero.

Todos gostavam do Horácio. Ele era simpático, conversava bem; não era de tanto assunto assim, mas geralmente tinha alguma contribuição a fazer em assuntos variados. Alguns diria até que ele era um sujeito conversado que atraía as pessoas para si.

Aparentemente nada incomodava Horácio. O seu senso de normalidade espantava muita gente que o tinha como talvez um grande cosmopolita para quem pouco importavam as diversas moralidades contando que ao seu redor as coisas estivessem minimamente em ordem. Isso obviamente fazia com que fosse um sujeito agradável na maior parte do tempo. Raríssimas vezes vi Horácio tecer algum comentário mais taxativo ou de cunho moralista sobre algum assunto. A última coisa que ele queria era parecer um sujeito "mente fechada". Às vezes fazia um esforço Hercúleo para parecer não se importar com as coisas, mas geralmente surtia efeito. Pelo menos não incomodava muita gente com esse tipo de conversa.

Horácio teve uma boa criação cristã. Era filho de pai protestante e mãe católica. Cresceu a maior parte da sua infância dentro da igreja protestante pois sua mãe, apesar de ter a sua vivência de fé, não apreciava muito a igreja próxima à sua casa e por isso ia raras vezes. O pai por ser mais assíduo à igreja sempre levava Horácio para a escola dominical e o fazia ler minimamente os textos bíblicos. Seu pai era diácono na igreja e por isso sempre fazia questão de que Horácio o seguisse aos cultos. Não era daqueles que ia a todos os cultos, mas nos finais de semana sempre marcava presença. A formação protestante de Horácio foi feita em uma igreja nem tão fundamentalista, mas também nem tão liberal. Diria que o aspecto "morno" da igreja em que cresceu tenha contribuído para a forma de Horácio lidar com sua vida posterior.
Um excesso de apatia acometia Horácio de vez em quando de forma que ele ficava como que indiferente ao mundo e não raras vezes tentava aplicar alguma teoria a algum tipo de experiência que estava vivendo. Geralmente não obtinha sucesso nesse tipo de empreitada.

Trazia consigo o peso da criação cristã. Esse era talvez um grande fardo para ele em vários momentos. À medida que foi crescendo foi aprendendo a lidar com essa culpa que o consumia, mas no momento atual de sua vida estava longe de obter êxito com esse problema e também podemos dizer que não estava tão preocupado assim com a questão. O que o incomodava, pelo que me disse recentemente, era uma certa sensação de vazio, um certo incômodo em relação a si mesmo que já vinha tentando lidar há algum tempo. Na maior parte das vezes vivia como se isso não fosse tão grande problema, mas de vez em quando caía em uma espécie de "reflexão" que o levava a devaneios existenciais. Ele não levava jeito para tais devaneios e por isso rapidamente desviava a cabeça para outra coisa.

Enfim, Horácio era um homem bastante normal que tinha como todo mundo certas crises existenciais às quais dava pouca atenção por achar que isso era coisa meio besta para se perder tempo, mas nem por isso poderíamos dizer que era um cara "superficial", afinal, ele tinha lá seus "insights", suas opiniões sobre as coisas, etc. Não sei porque resolvi falar da vida do Horácio nesse momento, mas sempre o achei um cara interessante e talvez por excesso de ócio e falta de assunto resolvi trazê-lo ao conhecimento dos demais. Quem sabe não fale mais sobre Horácio algumas outras vezes?

Confeso que eu não me surpreenderia se através de algumas vivências do Horácio descobríssemos um pouco de nós mesmos, nossos medos, esperanças, etc.