quinta-feira, 16 de maio de 2019

Ética contemporânea - Um relato de aula








Recentemente, em uma das minhas aulas estávamos falando sobre ética contemporânea. A princípio propus um recorte mais histórico para entendermos uma espécie de "quando" poderíamos propor uma espécie de "virada ética" no ocidente e resolvemos tomar como marco o pós-guerra e o declínio dos discursos iluministas/positivistas e os discursos religiosos institucionais, o que daria origem, em grande medida, à ascensão de um existencialismo de cunho mais ateu. (Lembrando que o existencialismo já existia desde o século 19 com Kierkegaard, mas ainda muito vinculado à religião cristã). A partir desse marco precisávamos também analisar as mudanças sociais advindas do mundo pós-guerra e o impacto do início da globalização na vida desse sujeito ao mesmo tempo que precisávamos entender o avanço do capitalismo no pós-guerra, o que com certeza geraria impactos cruciais na vida dos sujeitos. 

No meio desse debate um aluno faz uma pergunta que a princípio não tem muita coisa a ver com a discussão, mas ele pergunta: "professor, qual a diferença entre "esquerda" e "direita"?" A pergunta que aparentemente soava sem sentido foi um excelente complemento para o nosso debate. Na hora me lembrei do texto de Hannah Arendt "As origens do totalitarismo" em que ela faz uma excelente análise de como que um movimento totalitário pode ser apropriado tanto por governos ditos de esquerda e governos ditos de direita. A partir desse texto comecei respondendo que a noção de "direita" e "esquerda" tem origem na França em que as alas mais conservadores ficavam à direita, enquanto a ala mais progressista ficava à esquerda, o que deu origem ao termo, mas que no entanto, hoje ninguém se referia mais a essa diferenciação quando usavam o termo.

Em seguida, seguir de perto a proposta de Deleuze que sempre afirmou que não há governo de esquerda, pois o máximo que pode haver são governos favoráveis a pautas da esquerda, mas nunca um governo de esquerda, pois para isso seria preciso que toda uma estrutura de poder fosse desfeita, o que até hoje não aconteceu. A partir disso propus uma categorização primeira de afirmar que a proposta da direita envolveria um aspecto mais conservador enquanto a esquerda propunha um aspecto mais progressista. O aluno então propõe uma pergunta pertinentíssima que coloca em xeque essa primeira categorização que é o fato de alas ditas de direita são extremamente a favor de um liberalismo econômico, liberdade do indivíduo, etc., enquanto alas mais à esquerda não raras vezes se mostravam mais a favor de um Estado mais forte, etc. Esse novo questionamento nos levou a uma segunda categorização, que talvez seja até mais interessante para pensar tal dinâmica dentro do capitalismo tardio.

Propus que para termos uma definição mais interessante poderíamos falar que dado o avanço do capitalismo no pós-guerra ter sido de maneira global, o mercado se transformou em grande medida em um grande déspota que sobrepõe às categorizações antes vigentes entre "esquerda" e "direita", e por isso seria interessante pensar uma outra forma de pensar essa diferenciação e até mesmo checar se tal diferenciação não teria se tornado anacrônica do ponto de vista da categorização. Propus então a diferenciação de que enquanto a direita propõe uma ênfase sobre o indivíduo, o elegendo como critério máximo na escala de valores de forma que tudo que contrarie o indivíduo deve ser visto como forma de limitação da sua liberdade (um neoliberalismo na sua forma mais hard), a esquerda propõe que o indivíduo não é esse critério máximo, mas sim a sociedade em seu conjunto que deve ser eleita como tal critério, de forma que é por isso que enquanto a direita defende um estado mínimo (pois o Estado nessa visão seria um limitador da liberdade do sujeito), a esquerda propõe um Estado mais amplo de forma a garantir um acesso a um número maior de pessoas à coisas que o indivíduo não consegue por si só dada a uma série de fatores. 

Como esses fatores são dados pelo sistema econômico, uma vez que eles determinam em grande medida a forma como o sujeito vai se relacionar no mundo, é interessante percebermos que acima dessa divisão entre esquerda e direita há um mercado global que transcende em grande medida tais divisões. Neste sentido, em época de capitalismo global podemos pensar em outra forma de categorização de direita e esquerda, de forma que talvez aqui aponte para algum anacronismo nessa categorização. Direita e esquerda teriam a ver com o quanto essas visões estariam dispostas a ceder ao mercado. A direita disposta a ceder muito (daí a proposta de um estado mínimo e o indivíduo eleito a critério último de valores), enquanto a esquerda disposta a ceder menos (daí a noção de um Estado mais forte capaz de garantir à sociedade, e não apenas ao indivíduo possibilidades, em suma, a sociedade eleita como critério último).

No entanto, algo que percebemos aqui é que nem a direita (por motivos óbvios) e nem a esquerda (por motivos não tão óbvios) estão dispostos a romper com a lógica do mercado, mas no máximo proporem uma espécie de "capitalismo humanizado" (outro anacronismo) capaz de atender as demandas sociais em segundo plano enquanto primam pelo lucro de um número cada vez menor de pessoas. A meu ver uma proposta de uma esquerda "true" deveria ser a proposta de um novo sistema econômico capaz de dar contas dos disparates criados pelo capitalismo. A primeira aposta da esquerda em um socialismo/comunismo de Estado não deu certo, pois muito rapidamente a ideia se perdeu em nome de uma maximização estatal que acabou funcionando como "novo detentor dos meios de produção" mantendo as mazelas que visava combater. No entanto, não é pelo fato da primeira tentativa ter dado errado que isso signifique a esquerda deva abrir mão de propor novos modelos de funcionamento da economia em que a sociedade e a humanização do sujeito sejam as prioridades. 

Um aluno então comenta algo que encerrou a aula com chave de ouro, pois tínhamos estudado antes o texto "homo sacer" do Giorgio Agamben em que o filósofo define o homo sacer e explora o conceito para o nosso tempo. A fala do aluno foi: "então, professor, vc está dizendo que no atual cenário mundial, ou você está no mercado, ou você é um homo sacer?" Eu respondo: "É exatamente isso. Você entendeu exatamente o ponto, e a meu ver, um sistema econômico que condena mais da metade da população mundial à condição de homo sacer não pode ser algo que podemos ver como algo que "funciona". É preciso de alguma forma pensar e repensar modelos econômicos capazes de re-humanizar o sujeito e ter neste e na sua vida em conjunto o critério último para uma ética e não o mercado. É a partir desse contexto que podemos pensar uma ética contemporânea que tentaremos iniciar na próxima aula. 



quarta-feira, 17 de abril de 2019

Resposta à uma questão sobre o movimento e o repouso em Aristóteles






Como Aristóteles resolve o problema entre movimento e o repouso no ser?

A questão que Aristóteles se propõe a resolver é antiga e remonta desde Heráclito com o problema do movimento e repouso.
Aristóteles migra esse problema para tentar explicar o ser. “O ser está em constante mudança,” era o que afirmava Heráclito. Mas para que algo mude é preciso que haja alguma coisa no ser que permaneça imóvel.
Aristóteles  para resolver o problema distingue no ser o que é ato, e o que é potência. Por ato, Aristóteles entende como aquilo que já existe no ser desde o princípio, e por potência, ele entende como aquilo que o ser tem possibilidade de ser.
Seguindo essa linha, Aristóteles afirma que o primeiro motor que move todas as coisas é um ser incorruptível e o é assim em essência. Pois é o primeiro que move os outros e se quisermos um movimento perfeito é necessário que o primeiro motor seja perfeito pois dele partirá os outros movimentos.
O problema de como princípios iguais geram seres corruptíveis e incorruptíveis é respondido a partir das idéias de substância e acidente. Por substancia, Aristóteles entende aquilo que é essencial do ser, e por acidente aquilo que é atributo circunstancial e não-essencial do ser.
Juntamente com a ideia de ato e potência Aristóteles afirma que o ser se diz de várias formas, e portanto , o fato de ter os seres os mesmos princípios não garante que o ser possuirá as mesmas características; isso porque no percurso podem haver “acidentes” que conduzirá o ser por outro caminho. A noção de potência  também é levado em conta pelo fato do ser ter a capacidade de vir-a-ser várias coisas no decorrer do tempo.
A causa disso, segundo Aristóteles está no fato do ser poder ser dito de várias formas. Essa foi a forma que Aristóteles encontrou para resolver o problema do movimento e do repouso.
Existe algo no ser que é imóvel, e outras coisas neste mesmo ser que são móveis, o que dá ao ser essa dualidade e resolve em si o problema do movimento e do repouso.
O fato de haver pessoas corruptíveis e incorruptíveis não está portanto ligado à parte imóvel do ser, ou àquilo que ele é em essência, mas sim ligado à sua potência, e aos acidentes que determinam como esse ser agirá. Assim o papel do primeiro motor é simplesmente mover o ser, mas não em determinar se ele será corruptível ou incorruptível.
Os acidentes pertencem ao ser, mas não são necessários para a natureza dele. Os acidentes ajudam a determinar como que o ser irá agir em determinada situação, definindo-o assim como corruptível ou incorruptível.


Esse texto foi escrito em 2005 enquanto cursava o segundo período de Filosofia na UFMG.



segunda-feira, 25 de março de 2019

Paradoxos contemporâneos



O copo com autofluxo de Robert Boyle preenche a si próprio neste diagrama





Qualquer um minimamente inteirado do modo de funcionamento do capitalismo tardio sabe que enquanto a democracia favorecia os interesses do capital ela precisava ser mantida, pois o próprio capitalismo acabava por perceber que a suposta responsabilidade do sujeito pela vida política o torna também consumidor de uma forma de vida um pouco mais complexa. Por complexidade aqui queremos dizer tanto do ponto de vista teórico, quanto do ponto de vista prático.

No entanto, assim que a democracia deixou de ser hegemônica (ou seja, dominada por uma elite extremamente seleta) dada as diversas vozes encontrando eco na democracia, por exemplo, o alcance do negros no mercado de trabalho, a questão feminina se colocando contra o domínio do patriarcado, uma classe mais pobre começando a conhecer e reivindicar seus direitos, a democracia precisou ser reconfigurada para que os interesses do capital continuassem sendo alcançados. Essa chave de leitura nos permite entender em grande medida o colapso democrático no mundo do século 21.

A tônica da reconfiguração da democracia se vê exatamente no momento em que a possibilidade de representatividade aumenta como fruto dos embates pós 1970. Para que o capitalismo se mantenha não é mais necessário que os sem voz permaneçam sem voz, mas é preciso que a sua própria voz seja transformada em produto pelo próprio modo de produção capitalista. Enquanto não se tem voz, não é possível consumir de maneira adequada, pois falta dignidade a esse comprador no mercado global, de forma que é necessário que essa voz seja ouvida, pois cada pessoa é sempre um consumidor em potencial. Se os sem voz continuam sem voz, se a democracia caminha na direção oposta, ela precisa ser reconfigurada, ou seja, ser realinhada aos interesses do capital. 

Aqui há um curioso paradoxo envolvido. As democracias sempre foram exaltadas como um modo de governo em que as minorias podiam se expressar de maneira um pouco mais enfática e ter um mínimo de representatividade nas esferas do poder. No entanto, o processo democrático moderno sempre esteve sob a tutela do modo de produção capitalista (assim como qualquer regime de governo no capitalismo) que já se mostrou funcionar sob a dinâmica do acúmulo de riqueza por uma parte cada vez menor da população. (Atualmente cerca de 2% da população domina cerca de 98% das riquezas produzidas) Dessa forma quanto mais representatividade se adquire, mais o capitalismo tardio transforma tal luta pela representatividade em objeto a ser consumido. Em última instância podemos dizer que o fortalecimento das democracias funcionam como suporte para o capitalismo enquanto os agentes envolvidos na democracia permaneçam consumidores. Claro que aqui não estamos dizendo que as lutas por representatividade não sejam importantes, muito pelo contrário. Temos a plena consciência que tais lutas são de um ganho enorme para diversas parcelas da sociedade; o que ressaltamos aqui é que no modo de produção do capitalismo tardio até mesmo as reivindicações são transformadas em produto.

É aqui que percebemos em que medida as diversas lutas das minorias se tornam abocanhadas pelo capitalismo de maneira nada velada. As pautas feministas, negras, homoafetivas se tornam produtos a serem consumidos exatamente por essas minorias e também pelos próprios apoiadores das causas em questão, de forma que a crítica se torna um meio para ascender aos valores ditados pelo próprio capitalismo que faz com que a própria luta pela representatividade reforce os ideais advindos do capitalismo. Quando alguma minoria tem como maior interesse se adequar aos valores do capitalismo percebemos que a ideologia capitalista já está sedimentada de forma quase que acabada.

Tais valores penetram na vida do sujeito de maneira tão sutil que simplesmente o sujeito se sente empoderado pela noção de poder dada pelo próprio sistema econômico que o colocou como minoria. Isso é um paradoxo que faz com que as lutas, por mais importantes que sejam, se tornem inócuas do ponto de vista sistêmico. É preciso sim a luta das minorias, no entanto penso que elas não devam ser um fim em si mesmo, mas ser um degrau para que os valores do capitalismo sejam substituídos por outros valores em que o humano seja o mais importante e não o capital.

Dessa forma conseguimos traçar uma dinâmica extremamente sutil do capitalismo tardio. As lutas pelas representatividades típicas do nosso tempo, por mais importantes que sejam são transformadas como fim em sim mesmo e dessa forma perpetuam o sistema que permitem que elas ocorram, uma vez que as lutas são pautadas pelos valores dados pelo próprio sistema que visa combater. Para além das lutas pelas representatividades diversas, penso ser necessário que tais pautas não sejam um fim em si mesmas, mas levem o sujeito a ascender aos lugares de poder ditados pelo capitalismo como forma de minar por dentro o próprio sistema. A luta das minorias é uma luta hercúlea que facilmente acaba sendo desviada em nome dos valores do sistema econômico. É preciso, no entanto, não perder o foco da luta para que ao invés de meras performances inócuas tenhamos de fato uma mudança no status quo. 



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O frágil sujeito contemporâneo e sua atividade passiva.





Não há nada mais frágil que o sujeito contemporâneo. Tudo o fragiliza, tudo é motivo para que ele se sinta ofendido, magoado, rejeitado, etc. É como se de alguma forma esse sujeito não se sentisse fixado a nada, como se ele estivesse sempre pairando sobre um vazio sem  nenhum tipo de apoio a não ser os micro-apoios que cria para si através de pautas cada vez mais genéricas, ("Vamos acabar com a fome no mundo". "Quero um mundo sem guerras") ou pautas ultra-específicas. ("Sou contra usar coleira em cachorro", "não podemos comer verduras porque elas pensam", etc.)

Curiosamente esse sujeito contemporâneo é o que mais assume para si "causas". Todo dia aparece alguém lutando por algum novo motivo urgente que PRECISA ser debatido, que precisa ser dialogado, que precisa ser "coletivizado". No entanto, uma dinâmica muito interessante é que na maioria das vezes não há nenhum tipo de ação efetiva no mundo para a mudança de absolutamente nada. Com o avanço das redes sociais, o que mais se vê é o já famoso "ativismo online" em que o sujeito se mostra super engajado (mas apenas nas redes sociais), super crítico (mas apenas nas redes sociais), disposto a refletir (mas apenas nas redes sociais) e tudo isso permeado de discursos, compartilhamentos de entrevistas, compartilhamento de outros compartilhamentos ad nauseam sem que isso altere em absolutamente nada a vida nem mesmo a vida do seu vizinho, quem dirá do mundo.

Por incrível que pareça, o sujeito contemporâneo totalmente aberto a tudo e a todos padece de um mal diagnosticado por Marx lá no século XIX ao criticar a esquerda hegeliana. Marx afirmava que a esquerda hegeliana tinha a ideia (ainda iluminista) de que à medida que as pessoas fossem esclarecidas dos seus problemas, esclarecidas do que estava acontecendo, elas mudariam a sua forma de viver, elas agiriam diferente, e só não agem porque desconhecem as coisas. E aí entraria o papel do filósofo, pois ele seria aquele que esclareceria o sujeito ignorante para que ele pudesse agir corretamente. Marx compara esse tipo de ideia a um homem que está se afogando e tenta se salvar se puxando pelos próprios cabelos. Ou seja, totalmente inútil essa atitude "esclarecedora" da esquerda hegeliana, e é nesse contexto que Marx diz a famosa frase "não é a consciência que determina o modo de existência, mas as condições materiais de existência que determinam a consciência." Se algo precisa ser mudado não é a forma de pensar das pessoas, mas sim as condições que fazem as pessoas pensarem como elas pensam. 

Essa crítica de Marx lá no século XIX pode ser transposta para os dias de hoje de maneira quase que direta, só que com um pequeno agravante; hoje não são os filósofos que pensam assim, mas basicamente todo mundo na era das redes sociais pensa assim, de forma que a única atitude vislumbrada por esse sujeito é o que? "Esclarecer os outros". A aposta ainda é algo como "fulano age assim porque não sabe isso ou aquilo, então, o meu papel como alguém que supostamente sabe algo é, na medida do possível, ajudá-lo para que ele saia da ignorância e aí ele vai agir diferente." Obviamente que em algumas situações esse "Approach" pode até ser interessante e profícuo, no entanto o que vemos é que via de regra o sujeito contemporâneo só está disposto a fazer isso mesmo. Tudo aquilo que extrapole o seu papel de "esclarecedor" está fora de cogitação, afinal, "o mundo é assim né? Fazer o quê?"

Neste sentido percebemos que o ativismo online funciona como um suporte ideológico muito grande para que no excesso de agito tudo continue exatamente do mesmo jeito. Na época dos "stories críticos", "stories elucidativos", "stories educativos", "stories reflexivos", o sujeito de fato acredita piamente que está mudando de alguma forma a vida de alguém, ou de fato lutando por alguma causa que considera justa, digna, etc. sendo que na realidade o que está sendo feito é apenas uma performance para que o outro o veja como alguém "elucidativo", "reflexivo", "educador", "crítico", etc. Claro que pode haver algum tipo de benefício nisso, e com certeza algumas pessoas podem de fato refletirem, se esclarecerem a partir dessa dinâmica, mas do ponto de vista da realidade nua e crua como ela é, esse tipo de dinâmica se mostra uma espécie de placebo para que nesse torpor o sujeito se sinta realizado sem fazer absolutamente nada. 

Essa nova relação com a "atividade" está no cerne da dinâmica do capitalismo tardio que pode continuar funcionando perfeitamente enquanto o agito online apenas faz barulho, mas impacta muito pouco na efetividade da vida das pessoas. É este o ponto que a meu ver acaba por fragilizar ainda mais o sujeito contemporâneo, pois na realidade esse sujeito não passa de uma grande performance, não disposto a se entregar por nada que não seja ele próprio. Até mesmo as grandes causas que sempre são debatidas como "racismos", "feminismos", "movimentos homoafetivos" entram nessa mesma dinâmica. Dificilmente a luta se dá de maneira efetiva, mas é diariamente performada nas redes sociais, mas sem que isso encontre raiz suficiente para que o sujeito se ancore em tais causas. 

Nesta atividade passiva o sujeito se angustia cada vez mais, pois o que ela performa online cria para ele ao mesmo tempo a demanda por ação maior, (o pensamento de que "eu devia estar fazendo mais", "olha como sou uma farsa", etc.) mas também o apazigua no mesmo instante (o pensamento de que "poxa, já estou fazendo o que posso", "eu tenho contas a pagar, não posso largar tudo e me dedicar a uma causa", "poxa, mas se cada um fizer um pouquinho a coisa melhora", etc.) e neste movimento pendular, como não se ancora em absolutamente nada, o sujeito vai se tornando cada vez mais perdido e oscilante em suas ponderações, criando cada vez mais para si pequenas micro-regras para o orientar, mas sem saber que com isso se perde cada vez mais. 

Triste a situação do sujeito contemporâneo oscilando de um lado para outro, de um extremo a outro, sem norte, desbussolado, tentando a todo custo encontrar algo pelo qual anima viver, mas ao mesmo tempo com medo de parecer "intransigente" se escolher um valor para si pelo qual a sua vida valha a pena. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Meus primeiros passos com Freud






Esse texto foi a primeira coisa que escrevi sobre Freud em 2006 quando fazia a matéria de estética na UFMG. Encontrei esse texto (que era a resposta a uma questão de prova da disciplina) e compartilho com vocês. 

A pergunta era: " Explique como Freud articula os conceitos de inconsciente, resistência e recalque."


Segundo Freud, o recalcamento ocorre quando as aspirações morais do ego entram em conflito com a maneira de satisfação da libido. Devido a isso, ocorre a separação entre a representação e o afeto.
A representação sofre o recalque e é enviada para o inconsciente onde é esquecida. Isso não acontece com o afeto que fica livre na consciência.
Já a resistência para Freud surge após o recalcamento e é uma força que se opõe a volta do conteúdo recalcado à consciência.
Para ele, a sua manifestação se dá de várias formas, dentre elas pode-se citar a resistência intelectual, e a resistência onírica que pode ser encarada como “censura” que são temas trabalhados por Freud em outras conferencias também.
Para Freud a resistência e recalcamento estão sempre ligados.
Só se tem a resistência porque houve um recalque em alguma hora. A experiência do recalque quer se tornar consciente e não consegue por causa da resistência que a impede.
O conceito de Inconsciente é fundamental dentro da Teoria Freudiana.
Não tem como conceber a teoria freudiana sem entender o inconsciente. Esse é um termo chave da teoria e representa a parte do aparelho psíquico que o eu não tem acesso. Os conteúdos presentes no inconsciente não podem ser representados de forma direta e só se mostram após terem passado por um trabalho de deformação.
O inconsciente é também uma instância psíquica que pode ser determinada através de três pólos: um econômico, um dinâmico e outro topográfico.
Freud articula esses conceitos afirmando que o inconsciente armazena o objeto recalcado e cria ele mesmo a resistência para que este não volte à consciência.

Depois desse texto muita coisa já escrevi sobre Freud que todos sabem é um autor por quem tenho um interesse especial. Caso queiram ler outros textos meus sobre Freud aqui abaixo segue alguns links de artigos já publicados. 






sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O hábito da Filosofia: ou Sobre a arte de lidar com minhocas.




Foto da Glowworm caves na Nova Zelândia. As luzes são emitidas pelas minhocas que habitam a caverna.  
Disponível em https://paraondefor.com.br/glowworm-caves-caverna-das-minhocas-brilhantes/


Nós, os filósofos, temos uma certa "tara" por minhocas. Cultivamos diversos tipos delas nos mais diversos solos e nas mais diversas condições climáticas. Para mim, uma condição necessária para se ser um bom filósofo é meio que gostar de cultivar minhocas. 
No entanto, nossas minhocas são um pouco diferentes daquelas do pescador, daquelas das pessoas que aram a terra, adubam, etc. As nossas minhocas passam por questões que várias vezes nem sequer existem, mas passam a se colocar como problemas porque nós as elegemos como tais. 

Obviamente que todos nós, não somente os filósofos, cultivamos minhocas de vez em quando. Aquela sensação de algo vai dar errado, aquela sensação de que alguma coisa não está certa quando tudo está normal, aquela sensação de que somos feios, gordos, desinteressantes, que ninguém nos amará, que somos barrigudos, que somos uma farsa ambulante, que somos o pior dos seres humanos sobre a face da Terra, que não somos bons em nada, que nossa profissão não é o que gostaria de fazer, que minha vida não tem sentido, etc. tudo isso é o que aqui chamo de minhocas e que tenho certeza que qualquer leitor desse texto já cultivou alguma em algum período da vida. 

Claro que algumas dessas minhocas são mais frequentes em épocas pontuais da nossa vida. A questão da aparência é típica da adolescência e todos os traumas advindos dessa fase nebulosa; as questões referentes aos laços mais sólidos é típica da fase infantil, em que as relações basilares da vida do sujeito estão sendo construídas, etc. A questão do se sentir uma farsa tem muito a ver com a idade adulta e o discurso do capitalismo tardio em que nunca se está com conhecimento suficiente, nunca se é bom o bastante, etc. Não preciso dizer, entretanto, que isso não é "rígido"; ou seja, dependendo da vivência de cada pessoa, algo que seria comum acontecer durante a infância passa a acontecer na adolescência, na fase adulta, etc. Cada caso é um caso quando se trata de criação de minhocas. 

No caso específico de nós filósofos, as minhocas desempenham  um papel crucial para o exercício da nossa função, afinal, é com elas que trabalhamos. Não nos aventuramos a mexer com quase nada que não sejam minhocas. No entanto, nossas minhocas são várias vezes criadas e cultivadas por nós mesmos e debatidas e compartilhadas entre nós mesmos. Quem mais sofre quando se convive com um cultivador profissional de minhocas são os mais próximos. Afinal, são eles que tem que nos lembrar diversas vezes que nossas minhocas nem sequer existem na realidade, e que se caso fôssemos cultivar minhocas seria muito mais proveitoso cultivar minhocas reais do que minhocas imaginárias. Não é raro vermos os próximos de nós propor uma espécie de "giro wittgensteiniano" para nos dizer que na realidade o que estamos tratando são falsos problemas e trazer a questão para o plano da "realidade". Nem sempre esse giro resolve o problema, mas tem sido uma prática bastante utilizada por pessoas próximas a cultivadores de minhocas. 

No entanto, nem tudo são ônus para os que convivem com cultivadores de minhocas. Como cultivamos vários tipos de minhocas e como as cultivamos por muito tempo e em diferentes solos, somos experts em identificar as minhocas quando elas aparecem naqueles que nos são próximos. Neste sentido, os amigos dos cultivadores de minhocas se beneficiam bastante dos nossos saberes, pois as identificamos muito facilmente e somos capazes de arrancar as minhocas dos solos alheios com certa destreza. Eu na minha experiência de vida já transitei por diversas terras cheias de minhocas e fui capaz de arrancá-las de maneira bastante hábil. Ainda hoje retiro minhocas de terrenos quase que semanalmente e de diversas pessoas. 

Mas como diz aquele velho ditado (talvez o meu segundo ditado preferido, pois o primeiro é "enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé") "em casa de ferreiro, o espeto é de pau", ou seja, nós, tão hábeis em arrancar minhocas alheias, encontramos uma dificuldade assombrosa em arrancar as minhocas em nossa própria propriedade; pelo contrário, ao invés de arrancá-las, nós as cultivamos, alimentamos, as transformamos em verdadeiros monstros que quase nos dominam de forma assombrosa. O grande desafio para nós, os cultivadores de minhocas profissionais, é de fato não deixar que as minhocas dominem o nosso terreno, mas que nós as dominemos. Obviamente que nem sempre somos capazes de fazer isso sozinho, e é exatamente nessas horas que os amigos aparecem, pois eles são capazes de (talvez por já nos ter visto atuando em algum momento) retirar habilmente as minhocas de nossas terras. Os métodos variam de amigo para amigo. Alguns são mais incisivos e as retiram a machadadas no melhor estilo nietzscheano e sua filosofia do martelo, outros procuram um viés um pouco mais sutil, cercando o terreno, vislumbrando o deslocamento delas para depois as retirarem de forma bastante delicada; os estilos são tão variados quanto são os amigos que lidam com isso conosco. Nesse contexto também temos outros profissionais que lidam especificamente com minhocas alheias (embora acredite que eles também possuem certas dificuldades em lidar com suas próprias minhocas) que são os psicólogos, psicanalistas, professores, etc. 

Como já deve ter ficado claro, lidar com minhocas é algo que todos nós fazemos e podemos dar nomes clínicos para diversos dessas minhocas com as quais lidamos. Algumas são reais e demandam remédios, outras são imaginárias, outras são meio que reais, meio que imaginárias, mas em todo caso sabemos que nem toda minhoca é "em si" um problema, mas o problemático é a forma como resolvemos lidar com elas, o espaço que deixamos elas ocuparem em nosso terreno, o que as deixamos fazer em nossa terra. Saber cultivar e arrancar minhocas é uma tarefa árdua até para os profissionais, quem dirá para o leigo.  De toda forma, caso necessite de alguém que trabalhe com minhocas, lembre-se que nós, os filósofos, somos experts nesse tipo de problema e somos capazes de resolver uma boa parte dos problemas com minhocas em terras outras, mas temos muitas dificuldades para resolver em nossas próprias terras. Para resolver em nossas próprias terras sempre precisamos de amigos, psicólogos, psicanalistas, professores, etc. etc. etc. 

Caso você esteja enfrentando sérios problemas com minhocas procure ajuda. Um psicólogo, um psicanalista, um psiquiatra, um filósofo, cada um com seu método de tratamento. No caso do filósofo será muito mais um auxílio por meio de uma boa conversa do que propriamente um "tratamento". No caso de tratamento recomendo mais um psicólogo, um psicanalista, talvez um psiquiatra, tudo dependendo sempre do tipo de minhoca que anda transitando em suas terras. E claro, às vezes um amigo da Letras, um amigo da Música, um amigo das Artes também podem ser de grande valia, pois te ajudará a perceber facetas que nem sempre você foi capaz de perceber enquanto cultivador de minhocas profissional.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A doçura de caráter - O ceticismo de Pirro



Fonte da imagem: https://veja.abril.com.br/revista-veja/a-licao-de-pirro-para-2018/



Pirro de Élida, foi um dos grandes filósofos da antiguidade, que trouxe uma novidade no pensamento grego antigo. Mesmo sendo considerado um cético pelos escritores posteriores à sua época como exemplo de Cícero, Sexto Empírico, dentre outros , a sua filosofia pode ser considerada como cética no sentido em que aquilo que Pirro defendia era a suspensão do juízo e a busca da ataraxia através da adiaforia. Pirro por si só não escreveu nada, a não ser uma poesia dedicada a Alexandre . O que nos chegou de Pirro foi escrito por seu discípulo mais próximo Timão, que fez um relato das idéias e dos ensinamentos de seu mestre.

Pirro, viajou com Alexandre pelo Oriente, e isso fez uma grande diferença em seu pensamento, uma vez que entrou em contato com o pensamento do Oriente, especialmente com os gnosofistas, (ordem de provável origem indiana que se dedicavam ao estudo da ética e da física como prática da virtude)  e segundo se falam, Pirro presenciou a morte de Cálamo, que mesmo enquanto estava sendo queimado, mostrava-se tranqüilo em relação a situação que estava vivendo. Claro que não podemos esquecer da influencia de Demócrito de Abdera e de Anaxarco que o ensinaram muitas coisas e influenciou bastante seu pensamento como também Brison, do qual Pirro foi discípulo.

A principal característica de Pirro, era duvidar de tudo e ser indiferente a tudo, (adiaforia) esse era o ceticismo de Pirro. Para Pirro a epoché ( suspensão do juízo) é caminho que o sábio deve fazer para alcançar a paz de espírito ou ataraxia. A dúvida cética não se referiria às aparências ou fenômenos que são evidentes, mas em relação às coisas que nos são ocultas. A Pirro é também atribuída os dez tropos, ou razões da dúvida, dos quais neles se inserem as contradições do sentido.

A vida de Pirro se caracterizou pela sua total indiferença em relação às coisas, o seu principal propósito era a ataraxia e a busca de uma boa regra de conduta. Segundo Pirro, para que essa ataraxia fosse alcançada, o sábio deveria suspender seu juízo sobre as coisas. A epoché e adiaforia são as principais características de Pirro e que ele tentou passar a seus discípulos. Pirro se negava a discutir com os filósofos de sua época; a sua única resposta é que ele não sabia nada, e assim o fazia para viver uma vida isenta de preocupações, e viver tranqüilo e feliz. Pirro fez da dúvida, um instrumento de sabedoria, moderação e firmeza.

Os relatos sobre a vida de Pirro, mostram que ele vivia com seu espírito inabalável, mesmo quando as situações adversas lhe aconteciam. Sua uniformidade de alma era inalterada e praticava com serenidade a indiferença que ensinava. Era venerado por seus discípulos por viver de acordo com aquilo que pregava, e era isso que dava autoridade a seu discurso.

Concluindo, ao contrário das religiões em sua forma mais comum, nos quais se abandonam as coisas da vida na espera de uma recompensa, (quer tal recompensa seja pensada como reencarnação, lei de causa e efeito, vida eterna, etc.) a vida de Pirro era de indiferença, não por causa dessa espera, mas porque via nisso uma forma de viver feliz, era como se fosse algo de sua própria natureza essa indiferença. Algo que fica bem notado é a influência que o pensamento oriental e gnosofista teve na vida de Pirro juntamente com os pensamentos de Buda. A vida de Pirro foi portanto um exemplo para os seus seguidores, podemos afirmar que em Pirro se manifesta a ideia de que a doçura de caráter é a última palavra do ceticismo.