terça-feira, 4 de julho de 2017

A noção de infinito em Giordano Bruno




O tema do infinito é por si só muito grande para ser tratado de uma forma geral, e acredito que nós como seres finitos, não poderemos nunca ter uma concepção certa a respeito deste tema. A discussão sobre o infinito é um tema bastante antigo e vemos a referencia a este tema desde os poemas de Homero e Hesíodo. Alguns filósofos também trabalharam a questão do infinito em seus escritos, e todos eles buscaram conceber a ideia de infinito dentro de um contexto que lhes eram inerentes. 

Vemos que o tema do infinito permeia toda a história da filosofia; desde os primeiros escritores gregos até os dias de hoje. No entanto a concepção de infinito que mais perdurou foi a ideia Aristotélica de que o infinito coincidiria com o vácuo. “Tudo aquilo que existe tem um lugar” afirmava Aristóteles. Portanto a concepção de algo pudesse existir sem ter em si um lugar era algo inconcebível dentro do contexto do renascimento. A visão que perdurava era a de que o universo era algo que continha todas as coisas e que não era contido por nada. Seria portanto como um vaso que contém várias coisas dentro dele, mas ele mesmo não é contido por nada.

Durante o renascimento o tema do infinito também gerou muita discussão, e levou vários filósofos à morte, dos quais o mais conhecido é Giordano Bruno. Giordano Bruno apresenta uma dura crítica à posição Aristotélica sobre o infinito. Tentarei neste pequeno texto expor as idéias de Giordano sobre o infinito e considerar em que aspectos ela se difere da posição Aristotélica.

Giordano, começa seu texto sobre o infinito colocando as posições que estavam em discussão em seu tempo. Como que o universo pode ser infinito ou finito? Por meio de quatro amigos que irão discutir o assunto Giordano coloca a sua posição sobre o infinito.Giordano acreditava que o infinito existia, ao contrário do que pensava Aristóteles, mas ele não poderia ser percebido pelos sentidos mas somente pela razão; os sentidos serviriam apenas para estimular a razão pois a verdade não está nos sentidos. Segundo Aristóteles, o mundo se encontra em si mesmo, e não em algum lugar, sendo assim, o mundo se encontra em lugar nenhum.

Giordano acreditava que fora do convexo do primeiro céu, deveria haver alguma coisa aonde o mundo estaria subsistindo. Giordano coloca que, se o mundo se encontra em Deus, fica da mesma forma difícil de explicar como que uma coisa que não é dimensionada pode estar contida em algo não dimensionado. É interessante, que a questão que se coloca aqui, é uma concepção aristotélica de que aquilo que existe tem obrigatoriamente que ter um lugar, escapando assim da noção de vácuo. O que Giordano coloca em questão é que o mundo não necessariamente precisa estar contido em algum lugar, supondo a existência de um vácuo, onde esse mundo estaria existindo. 

“É ridículo afirmar que alem do céu não exista nada, e que o céu existe por si mesmo.” ².

Essa frase expõe a posição de Giordano sobre o a condição do mundo; O problema exposto por Giordano consiste no fato de que provar o que está dentro, não prova que não exista nada do lado de fora. Giordano coloca a questão do vácuo em xeque quando coloca que ao admitir que além do convexo do primeiro céu não há nada, isso implica em aceitar um vácuo que seja informe e limitado deste lado em que se encontra o universo. Cai-se no mesmo problema, pois como que o vazio pode conter um corpo continente?

Essa pergunta se refere ao conceito aristotélico, de que aquilo que existe, só existe se estiver em algum lugar. O que Giordano coloca é que se eu afirmo que fora do mundo existe o nada, e no nada, qualquer coisa pode existir, pode haver outros planetas iguais ao nosso. O que Giordano diz nesta altura do diálogo é que o vácuo não tem como repelir nem receber um planeta, sendo assim a nossa razão tem como conceber a ideia de um universo infinito com outros planetas que lhes são subjacentes. A discussão agora se coloca na questão da plenitude do universo. Se assumirmos que ele é auto-suficiente pelo fato de fazer o que precisa, é bastante razoável que o universo seja pleno. “Onde não existe nada, nada lhe pode ser contrário” ³ . Giordano coloca aqui, que esse mesmo mundo que existe neste espaço o qual estamos chamando de perfeito, poderia existir em outro espaço, que se fosse o qual, também o chamaríamos de perfeito. O nada portanto dá essa amplitude de poder colocar tudo dentro dele. Sendo assim Giordano conclui que “O universo será de dimensão infinita e os mundos serão inumeráveis”.

Feito essa asserção sobre o infinito das coisas corpóreas, começa-se a discutir a noção de Deus, dentro desse contexto de infinito. É importante ressaltar que a visão tomista de diferenciação entre infinito, absoluto era aceita. Segundo o tomismo Deus não poderia ser infinito pelo fato de no infinito sempre se pode acrescentar algo, dando a ideia de uma coisa imperfeita; e em Deus não pode ser concebida a ideia de imperfeição. Giordano afirma que é necessário que para a forma divina haja um simulacro infinito no qual todas as coisas infinitas existiriam nele. Há aqui um indício da discussão que tomaria um rumo mais analítico no século XX, que é a teoria dos conjuntos infinitos, que conteria infinitas coisas dentro do sistema. Uma discussão interessante sobre o tema pode ser encontrado no livro "Lógica dos mundos" de Alain Badiou.

Giordano afirma que assim como existem vários graus de perfeição para explicar a excelência divina, assim também deve haver infinitos animais, que para os conter seriam necessários infinitos mundos, e como conseqüência um espaço que seja infinito, o qual é contido dentro de um ser divino que também deve ser infinito. Percebe-se assim uma teia onde ilustra um conjunto de conjuntos infinitos. Não podemos dizer que esse mundo poderia ser considerado perfeito dentro da esfera que ele mesmo alcança, pois possui uma certa perfeição das coisas. Este conceito, Giordano afirma que podemos dizer, mas não podemos provar, pois não temos conhecimento sobre os outros mundos, para dizer que aquilo que temos aqui seja realmente o que há de perfeito. Com essa argumentação Giordano acaba com a noção de lugar como concebida por Aristóteles e seus discípulos. A noção de mundo como algo que contém todas as coisas e não é contido por nada é totalmente descartada por Giordano.

O argumento de Giordano passa para a esfera do religioso, e a ideia de Deus surge a partir desse ponto da discussão. O universo infinito é tido aqui como fruto de um ser infinito que o fez assim pelo fato de ser melhor do que faze-lo finito. O argumento de Giordano se pergunta por que Deus faria o universo finito sendo que ele poderia te-lo feito infinito, uma vez que para a divina potência que pode fazer todas as coisas, o fazer infinito ou finito é a mesma coisa. Por que Deus preferiria limitar sua magnitude ao criar algo finito e não expandi-la, mostrando assim ser um pai fecundo, gracioso e belo?

A potência divina tem, portanto, a necessidade de criar novos mundos para escapar do vácuo. O que é infinito não pode fazer outra coisa senão aquilo que faz, e isso que faz é infinitamente pré estabelecido. Após essa discussão que foi brevemente tratada aqui, passo a discutir agora a noção de primeiro princípio que move as coisas e que é uma discussão antiga que vem desde os pré-socráticos e foi tratada também por Aristóteles, o qual concebeu a idéia de primeiro motor.

Segundo Aristóteles, esse primeiro motor seria aquilo que move o mundo e não é movido por nada. O que Giordano coloca em questão é que o primeiro motor não move o universo, mas sim que ele dá o poder ao universo para que ele se mova pela sua própria alma. O universo então possui dois princípios ativos de movimento: um que é finito que age segundo a razão e o outro infinito que age segundo a razão da alma do mundo.
Neste pequeno esquema do texto de Giordano Bruno, podemos dizer que o infinito como concebido por ele, é uma necessidade de ordem divina e de ordem lógica, pois o universo finito seria uma afronta a ideia de um Deus infinito que cria coisas conforme ele quer. Limitar o universo é limitar o poder de Deus, o que é algo inconcebível dentro do contexto social do renascimento onde Giordano está inserido. Por causa dessa afirmação de outros mundos, universo infinito, e demais coisas é que Giordano Bruno foi morto em 1600 pela igreja queimado em uma fogueira.

O texto de Giordano Bruno, caso queiram ler pode ser encontrado na seguinte edição: 


BRUNO, Giordano- Os Pensadores : Sobre o infinito, o universo e os mundos. Pag. 17 Tradução de Helda Barraco, Nestor Deola, Aristides Lobo – 2ª edição- São Paulo – Abril Cultural, 1978.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Run, baby, Run !






Lembro de Freud quando ele dizia que o chiste, o humor se constitui como uma grande forma de defesa do inconsciente diante daquilo que lhe parece estranho. Essa talvez seja uma chave de leitura interessante para ler a dinâmica evidenciada hoje do "se nada der certo" da escola particular no RS.

A questão que paira no fundo, a meu ver, não é apenas a do menosprezo típico do capitalismo diante das profissões consideradas menores exemplificadas pelos alunos na escola, nem mesmo a questão da distância que separa estruturalmente a classe média dessas profissões. A meu ver o ponto de fundo é muito mais óbvio do que parece e é igual aquela piada do homem de quem se suspeitava que ele roubava mantimentos de uma determinada obra, e por isso, todo dia antes dele sair da obra os guardas fiscalizavam minuciosamente tudo que ele estava levando dentro do carrinho de mão e nunca encontravam nada, até que muito tempo depois descobriram que o homem estava roubando exatamente os carrinhos de mão da obra. 

Assim como a questão do carrinho a questão aqui soa muito mais óbvia do que parece. O outro com toda a sua complexidade, com toda a sua diferença, com tudo aquilo que não sou eu sempre se coloca como núcleo traumático para o sujeito de forma que a única forma encontrada para lidar com ele é por meio da sua ridicularização. O chiste se coloca como alternativa para lidar com o estranho que habita o próprio sujeito, mas que confortavelmente é visto como algo apenas externo a ele. Ou seja, o chiste é a forma "capenga" do sujeito lidar com aquilo que Lacan chamava de Real.

O que está em jogo é o medo da classe média de que aquele outro assuma o lugar do protagonismo que está totalmente dedicada a ela. Esse outro menosprezado só pode aparecer sob a forma do cômico, do satirizado, sob a forma do "erro". A partir do momento em que se coloca nesse outro uma noção de dignidade a baliza que localiza o sujeito da classe abastada se rompe e o seu mundo perde o sentido. Aqui não se coloca apenas a noção de privilégio da classe média, mas, assim como no caso do carrinho de mão, o segredo está a vista o tempo todo, ou seja, não se trata de uma relação entre classe média e classe mais baixa, mas sim um círculo vicioso que envolve a classe média em torno de si mesma. 

É bem sabido que a nossa classe média padece do grande problema da ausência de consciência de classe, ou seja, ela não é consciente da sua condição na estrutura de funcionamento do capital e por isso ela é capaz de ver o diferente como alguém "que não deu certo". Dar certo é reproduzir o mesmo modo de produção perpetuado dentro de si sem nenhum tipo de abertura para a dimensão do outro. A classe média se torna monádica, sem abertura, fechada em si mesmo de forma que o "nada" do "nada der certo" é universalizado na condição de impossibilidade. Ao mesmo tempo a forma cínica como tal evento é tratado evidencia o abismo entre a realidade do fato e o Real que ele esconde.  

Não é pouco sintomático o fato do episódio ter acontecido dentro de uma escola, afinal, a escola na maioria das vezes reproduz a infraestrutura econômica, a não ser que haja um esforço grande por parte dos professores para tentar contornar a relação intrínseca entre infra e superestrutura no processo educacional. Não é preciso dizer que na maioria das vezes esse tipo de tentativa é pouco profícuo. A escola então evidencia esse lugar onde a classe média pode esconder o seu preconceito de forma visível e ao mesmo tempo disfarçado de "lúdico", "atividade pedagógica", etc. O movimento ideológico se torna visível no episódio tipificado hoje no RS e a sua obviedade se mostra muito mais complexa do que aparenta, por isso é preciso refletir seriamente quando estas coisas acontecem, pois o que o óbvio esconde várias vezes é muito mais perigoso do que o que ele revela. 

A fuga da questão de fundo é sintomática, pois a partir do momento que as análises se concentram apenas naquilo que está à mostra, o mais óbvio escapa, o movimento ideológico por trás da questão se coloca como uma neblina que impede de ver o quadro todo. Ao mesmo tempo que a neblina é o que se faz mais presente e nos envolve é ela mesma a que impede que vejamos o que precisamos ver. A ideologia faz exatamente esse papel de esconder o objeto enquanto se mostra o tempo todo. 



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Pascal - A miséria e a grandeza humana




Blaise Pascal nasceu em Clermont-Ferrand em 19 de junho de 1623, e era filho de Étienne Pascal e Antoinett Bégon. Pascal desenvolveu bastante seu lado religioso e escreveu várias coisas que defendiam o cristianismo. Sua obra filosófica mais conhecida são “os pensamentos” onde Pascal faz uma apologia ao cristianismo, e expõe suas idéias sobre vários assuntos que vão desde o homem até Deus. Ele foi bastante influenciado pelo pensamento de Descartes, pensamento esse, que foi um pouco contestado em sua obra. Pascal possuía também um conhecimento extenso da filosofia grega antiga e as de sua época. Sobre a filosofia grega, Pascal cita Epiteto e a filosofia estóica. Sobre a filosofia de sua época, ele cita Montaigne e Descartes como citado acima. Pascal se preocupava muito com o homem e sua relação para com Deus.
A questão da antropologia pascaliana é um tema de muito estudo para aqueles que  se dedicam a estudar os pensamentos de Pascal, pois ele trata a questão de uma forma bem particular dentro do contexto de sua obra. O problema da miséria e grandeza do homem é o que será tratado neste trabalho usando como base  os próprios pensamentos de Pascal.
Para ele, a questão da miséria e da pobreza está inteiramente ligada com a natureza humana. Segundo Pascal, o homem possui duas naturezas. A primeira natureza seria aquela que o homem teria antes de sua queda no Paraíso. Pascal considera o homem como um ser criado por Deus e que pela cobiça foi condenado a sair do Jardim do Éden e com isso perdeu o convívio direto com Deus. Para Pascal , com essa queda, o homem passou a agir de acordo com sua segunda natureza, que é totalmente corruptível e capaz de fazer tudo aquilo que é mal. A queda do homem gera nele uma insatisfação por ter perdido o seu contato íntimo com Deus. Pascal considera o homem destituído de Deus, e só pode retornar a Ele por meio da graça salvadora de Deus.
Pascal difere de forma bastante clara a primeira e a segunda natureza. Para ele a marca da primeira natureza é o conhecimento do dever e o da segunda natureza é o fato de ele não conseguir realizar isso por ele mesmo, somente pela graça.
A questão da grandeza do homem está em reconhecer sua miséria sem Deus. O homem tenta preencher esse vazio que é sua vida sem Deus através das vaidades, criando com isso uma realidade que não é real. Pascal não chega a negar a vida terrena, mas ele coloca em vários de seus pensamentos que a eternidade, que é uma busca do homem é mais importante do que o curto espaço de tempo a que estamos destinados a viver. Nisso também reconhece-se a nossa miséria, no fato de sermos limitados em nossa justiça e em nossa moral.
Para Pascal, a nossa miséria, nos faz dar mais importância a coisas que não são tão importantes assim, segundo ele, queremos ser justos, mas como seres miseráveis que somos, nossa justiça não passa de trapos de imundícia.
Pascal intercala a miséria com a grandeza. O homem é grande porque pensa, e através deste pensamento ele consegue  se compreender e compreender o mundo que o cerca. Conhecer-se miserável, é ser grande. O pensamento torna o homem grande, e por esse pensamento podemos entender conhecimento.
Para Pascal aquilo que é natureza dos animais, no homem é o símbolo de sua miséria, pois o homem decaiu de uma natureza melhor e vive em uma natureza inferior. O homem só se sente infeliz  porque um dia já foi feliz. Por isso a insatisfação do homem. O homem está sempre insatisfeito porque busca sua união com Deus que foi perdida com a queda. Essa queda provocada pelo orgulho  e desobediência de Adão. Pascal se apropria de muitos textos bíblicos para justificar suas proposições a respeito do ser humano; essa posição mostra sua preocupação em colocar Deus acima do homem e esse homem totalmente dependente de Deus. O homem não possui uma “razão” mas que tudo o que ele possui vem de Deus, e que só ele pode fazer com que o homem possa alguma coisa.
Segundo Pascal, o homem sempre esta em busca de Deus, e é isso que o torna insatisfeito, ele por si só não consegue alcançar a Deus. Mas Deus pela sua graça, se revela ao homem e o faz vê o quanto o homem é miserável. O paradoxo da grandeza se estabelece nesse momento, pois o fato do homem reconhecer que ele por si só não consegue alcançar a Deus, se vendo assim, como um ser miserável, o torna grande; pois os animais não possuem essa consciência. Segundo Pascal, o homem que não conhece sua miséria, em nada difere do animal.
O homem, portanto, para preencher esse vazio deixado da queda no qual ele perdeu o seu contato com Deus, começa a se ater em coisas vãs, as quais Pascal cita como vaidade. A vaidade, é em si algo que não tem nenhum valor, e por isso ela é fácil de ser usada como máscara, o preenchimento se baseia em se encher de algo, que no caso do homem geralmente é preenchido por algo sem valor que não passa simplesmente de uma busca por Deus, no sentido em que , tudo que o homem quer é voltar para Deus. Pascal coloca essa questão de forma bem clara, quando afirma que a segunda  natureza do homem é totalmente dependente de Deus, por ser corruptível.
O problema da miséria e da grandeza do homem é uma assunto de várias abordagens de Pascal, e ele coloca isso de várias maneiras. Segundo Pascal, o homem é um meio termo entre o nada e o infinito; pois se comparado ao nada, ele é tudo; se comparado ao grande ser universal, ele é nada, ele é portanto um meio termo nessa relação que ele estabelece com Deus e com a natureza.
Tendo visto essas coisas, podemos definir a grandeza do homem como a consciência de sua miséria, é isso que o faz diferente dos animais. O homem insensato para Pascal é aquele que ainda não teve ainda a consciência de sua miséria, e busca no divertimento, ou na imaginação uma fuga de seus problemas, ficando dessa forma, alheio de sua real condição e tenta viver uma falsa felicidade que no final das contas verá que não passa de mera fascinação com aquilo que não o deveria preocupar tanto, que é essa vida terrena. O homem deve portanto através do pensamento atingir a consciência de sua miséria, e só assim ele poderá ser feliz e viver bem.

Essa vida só tem sentido, quando aquilo que se faz, é feito por amor a Deus e a ninguém mais. Pascal, afirma que o homem precisa de Deus, e só pode fazer as coisas que ele faz se Deus o estiver agraciando. O homem é, portanto, um ser que ao mesmo tempo tem uma diferença singular dos outros animais, pois é o único que pode ter a consciência daquilo que ele realmente é, tornando-se assim grande, e não passa também de um ser que em vários aspectos se assemelha aos animais, pois ele é perecível por causa da sua desobediência. O homem devido a sua antiga natureza torna-se insatisfeito e busca preencher essa falta de várias formas, e geralmente em coisas vãs. A única solução para o ser humano, segundo Pascal é refugiar-se em Deus. Vemos aqui uma forte influência do pensamento agostiniano, que afirma que o homem deve se refugiar em Deus. Fonte de vida e esperança; segundo Pascal, o homem só busca a Deus porque ele ainda não o encontrou, e é isso que dá sentido a vida do homem, essa busca pelo infinito onde realmente somos o que somos.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Eclesiastes 3,1-8. Com tempo, sem télos !





No capítulo 3 de Eclesiastes há os conhecidíssimos versículos em que o Qohélet nos afirma que há tempo para todo propósito debaixo do sol e por meio de vários ciclos de morte e renascimento nos conduz a repensar a nossa relação com o tempo. Relação essa cada vez mais tumultuada, cada vez mais difícil de aprender dadas as inúmeras coisas que arrumamos para fazer durante o dia, durante a semana. Na maior parte das vezes nem temos tempo para refletirmos sobre como usamos o nosso tempo. 

As coisas seguem como uma grande avalanche levando consigo todas as coisas e nos levando juntamente com ela. Refletir sobre o tempo é um exercício que deveríamos fazer com mais frequência. Como diz o Eclesiastes, há tempo de nascer e morrer, plantar e arrancar o que se plantou, etc. Entender o ciclo das coisas, o ciclo da natureza é primordial para que no entendamos também. O ciclo da natureza do versículo 1 se liga às nossas ações no versículo 2, que se liga às nossas emoções tratadas no versículo 3, etc.  

O que o Eclesiastes nos mostra nesses 8 versículos em que nos elucida a questão do tempo é que por mais que tentemos abarcar todas as coisas, a circularidade do tempo é algo que nos manterá para sempre preso a ele. Não há uma finalidade em si para as coisas que acontecem debaixo do sol. Elas funcionam em ciclos que vão e vêm.  Talvez não seja fácil perceber, mas aqui há uma crítica grande à noção de linearidade tão comumente aceita pela tradição judaica. O fato do texto ter sido escrito no século 2 a.C aponta para uma possível influência de algumas escolas helênicas tais como o estoicismo e o ceticismo. O autor do texto aponta para um constante devir das coisas que acontecem debaixo do sol, tanto que logo após tal reflexão o versículo 9 nos aponta: "Que proveito tem o trabalhador naquilo que trabalha"? 

Não há a dimensão de um "télos" (finalidade) na passagem do tempo segundo o autor do texto; o que vemos são as coisas acontecendo em ciclos de nascimentos e mortes, ações e des-ações e compreender isso nos coloca em uma posição mais tranquila diante do mundo. Primeiramente porque nos ensina a não nos perturbarmos em querer fazer coisas desesperadamente, em segundo lugar por mostrar que o tempo que temos é sempre o ideal para fazermos tudo aquilo que é importante para ser realizado. Se todas as ações do homem não encontram um "télos", todas elas podem ser executadas no tempo que temos debaixo do sol. Até a guerra e a paz se encontram nesta circularidade temporal. Nada escapa ao passar do tempo e todas as coisas se complementam à medida que o tempo passa. 

O Qohélet aponta que o tempo é aquilo que rege as ações debaixo do sol e debaixo do sol é o tempo para fazer todas as nossas ações já que depois dele nada mais haverá para fazer. Para além de toda moralidade simplória o ciclo do tempo coloca para nós que há o "tempo de matar", "o tempo de odiar", etc. i.e, a vida que ocorre debaixo do sol é uma vida muito ampla, difusa, complexa de forma que toda tentativa de um "télos" pré-ordenado se mostra comprometida. Esta conclusão está em total consonância com o teor do livro do Eclesiastes que será capaz de, apesar de toda ausência de finalidade da vida, afirmar a alegria e a crença na figura de Deus. 

A reflexão sobre o tempo proposta pelo Qohélet é essencial para os nossos dias, para que não nos deixemos levar pelas dinâmicas da vida contemporânea que nos sugam o tempo e nos fazem perder as pequenas alegrias do "tempo de abraçar", "tempo de dançar", "tempo de amar". Se há tempo para todo propósito debaixo do sol, que nos esforcemos para que as pequenas alegrias encontrem tempo em nossas vidas e nos façam viver melhor com os outros e conosco. A grande tentação do nosso tempo é que sempre precisamos estar para além do tempo que temos debaixo do sol. Sofremos pelo passado que não fizemos, pelo futuro do qual não temos nenhum controle e enquanto isso o momento fugaz do presente vai passando sem que nos apercebamos que deixamos de lado os abraços, os amores, as alegrias, etc. "Tempus fugit" já diziam os latinos, e é exatamente para que o tempo não fuja que o Qohélet nos aponta para a nossa relação com o tempo. A circularidade do tempo aponta para a sua infinitude, mas ao mesmo tempo nos mostra que nós somos finitos e por isso precisamos ter em mente que há sempre tempo para todo propósito debaixo do sol mesmo sem um télos para dar sentido às nossas ações. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Postagens pascais





Nesse ano de 2017 resolvi fazer algumas pequenas reflexões sobre as celebrações pascais nas redes sociais. Como no FB tudo se perde rapidamente, e como recebi vários retornos positivos sobre as postagens, resolvi copiar e colar estas pequenas reflexões em um texto no blog como forma de divulgar para quem não teve a oportunidade de ver, e ao mesmo tempo, deixar salvo para leituras posteriores. 

Sobre o Lava pés

Hoje se celebra o lava pés na tradição cristã.

No lava pés, Jesus nos demonstra a dimensão do amor que  faz pelo outro sem esperar nada em troca, ou melhor, que faz pelo outro mesmo sabendo que algum dos próximos poderia o trair em algum momento. É uma atividade visando o bem do próximo.  Mesmo lavando os pés de seus discípulos, os alimentando, os escolhendo, os transformando em pessoas de destaque nas regiões vizinhas, trazendo uma dignidade maior a eles,  ainda assim um dentre eles o trairia. Ou seja, a gratuidade do nosso amor nem sempre leva o outro a me retribuir pelo que fiz, mas isso em nada invalida o meu amor pelo outro.O lava pés nos mostra que o amor cristão é também um amor que visa uma dimensão passiva e não apenas ativa. Deixar ser amado pelo outro para não polarizar a relação, esse é um grande ensinamento do dia celebrado hoje por nós cristãos.


Sobre a sexta-feira da paixão

Na sexta-feira da paixão comemoramos a entrega de Jesus por nós. Celebramos um amor que se mostra em um doar-se para que por meio do sacrifício do Cristo pudéssemos ter nova vida. O que importa nesse ato é o símbolo que ele carrega. Pouco importa se Jesus morreu ou não na sexta, se ele ressuscitou ou não no domingo. Isso pouco importa para a fé. O que importa é que por meio da entrega muito nos foi dado. A sexta-feira da paixão anuncia, portanto, esse ato último daquele que, por amor, foi capaz de dar a vida pelos seus amigos. "Em tuas mãos entrego o meu espírito", e nessa entrega de si por nós, nos entregou uma oportunidade de uma nova vida!

Sobre o sábado de aleluia

Hoje na tradição cristã celebramos o sábado de aleluia. O dia de hoje marca a confluência de dois momentos. Se por um lado Ainda é viva a presença da morte daquele que deveria ser o que poria fim às angústias e nos traria restauração, por outro lado começa surgir em nós a expectativa do cumprimento de uma promessa feita por aquele que foi crucificado de que a morte não é o grande final. O dia de hoje marca profundamente o cristianismo que desde sempre é a religião da espera. No dia de hoje aguardamos e começamos a tentar entender que a promessa do crucificado não dizia de algo apenas para o seu tempo, mas sim também para um tempo vindouro. Começamos a compreender que o reino de Deus anunciado se faz presente nesse paradoxo do "já, mas Ainda não".
O sábado de hoje é o sábado da espera. É o sábado de um balbuciar que ganhará os nossos corações e mudará as nossas vidas pra sempre.

Sobre a páscoa

Hoje celebramos a Páscoa. Sem dúvida uma das celebrações mais importantes da fé cristã. Naquele simples anúncio das mulheres ao chegarem no túmulo: "Ele não está aqui!" Reside o começo de um novo começo. É naquela manhã que se anuncia ao mundo uma nova esperança. Se ele ressuscitou então nós também ressuscitaremos. A morte que se fazia presente desde a sexta, a expectativa que permanecia no sábado se concretiza com a esperança trazida no domingo que hoje celebramos.
Ele ressuscitou! Há esperança. Há reconciliação! É esta a nossa celebração de hoje. Jesus como doador de sua vida por nós, como cordeiro imolado vicariamente, como sacrifício perfeito a nos reconciliar com Deus ressuscitou, e por isso podemos ter uma nova esperança. A Páscoa celebra o amor de Deus por nós, celebra a passagem da morte para a vida, trazendo com isso um novo começo.

Feliz Páscoa.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

O Realismo científico - Pequeno esboço






Dentro de uma visão realista sobre a ciência, o homem passa a ser um desbravador rumo a sua origem, rumo aos princípios básicos que constituem um mundo, uma galáxia, um universo etc.
O realismo científico nasceu em resposta a um anti-realismo principalmente depois das proposta de Carnap que afirmava que existe um excesso na linguagem que não consegue corresponder diretamente àquilo que é observável. Carnap adotava o modelo da ampla linguagem na qual dividia a linguagem em teórica e observacionais. A primeira compreendendo os termos teóricos mais as regras , e na segunda, contendo aquilo que é observável juntamente com as regras de linguagem. Entre a linguagem teórica e a linguagem observacional existe uma regra de correspondência, mas como é impossível uma interação completa entre a linguagem teórica e aquilo que é observado, a interpretação dos termos teóricos é imparcial.

Acontece então o que Carnap chama de excesso de significado. Isso acontece porque não é possível uma redução completa da linguagem teórica para uma linguagem observacional. Carnap adota uma idéia de negação de uma ontologia mediante uma análise da linguagem. Para ele, os termos teóricos são instrumentos de linguagem para falar de algo não observável, e este algo não observável não é uma entidade existente independente de uma certa teoria. Ele só existe e tem sentido dentro de uma teoria específica. Ele adota a ideia de um instrumentalismo semântico. Os conceitos teóricos possuem um significado mas não correspondem a uma entidade existente por si. O conceito só é real dentro de um sistema teórico de referência. Carnap tenta resolver a questão afirmando que o sentido de um termo não está ligado à uma referência. Ficando muito mais próximo de Russell do que de Frege na análise da linguagem.

O realismo científico nasce em resposta a esse movimento de Carnap. A pergunta que o realismo científico tenta responder é se os conceitos teóricos realmente existem enquanto uma entidade? É esta a questão que incomoda os realistas científicos. Segundo eles, as entidades realmente existem independente das teorias, e as teorias tentam compreender e explicar essa entidade da melhor forma possível. Para comprovar a ideia da existência das entidades científicas, os realistas científicos adotam alguns pontos de vista. Eles explicam o sucesso científico em detrimento de uma visão realista a respeito das entidades não observáveis; é preciso um comprometimento ontológico com as entidades científicas. O realismo científico postula que para uma teoria científica ideal da realidade é preciso ter alguns aspectos. Um aspecto interessante é o que diz de um compromisso metafísico que pode ser descrito mais ou menos assim:  "os inobserváveis descritos pela teoria científica existem independente da nossa mente."  

Sobre este ponto, gostaria de tecer alguns comentários sob os quais acho interessante pensar. O realismo científico coloca a questão da existência independente da nossa mente, e o homem como um desbravador que procura conhecer aquilo que existe de alguma forma. Ele não tem conhecimento se aquilo que ele postula é verdade ou não, mas a única coisa que ele sabe é que aquele algo que ele postula existe e é passível de uma teoria. Stephen Hawking em seu livro, “uma breve história do tempo” afirma que os buracos negros foram um caso raro na ciência. Foi a primeira vez onde um evento foi comprovado matematicamente sem nunca ter sido observado.

É curioso porque a ciência é algo empírico. Ela trata daquilo que é observado e postula a respeito daquelas coisas (pelo menos a princípio), no caso dos não observáveis com os termos teóricos, o processo se inverte. A experiência, no caso dos não observáveis comprova que existe algo lá que não se sabe o que é. Cria-se então uma teoria para representar e nomear aquilo que está ali de alguma forma. A partir desta nomeação o objeto desconhecido passa a ser conhecido sob certo nome. Não quer dizer que o objeto passou a existir a partir de sua nomeação, mas que a partir daquele momento, ele será entendido de tal forma. Nada impede que a teoria formulada para explicar aquele algo esteja errada, mas enquanto não surge uma teoria melhor, aquela que funciona, não tem porque não ser aceita. Este argumento remete ao senso comum, e ao funcionamento da teoria científica.

Se ela funciona , então temos boas razões para acreditar que ela é verdadeira. A utilidade de uma teoria científica em determinado tempo, dá a ela credibilidade . Temos na história das ciências alguns exemplos de postulações que foram consideradas erradas por muito tempo e que com o passar do tempo, comprovaram que a tal teoria era verdadeira, e também casos onde a teoria considerada verdadeira foi comprovadamente considerada falsa. Sobre este tipo de teoria, temos o exemplo da física de Newton que perdeu muito do seu mérito com a teoria de Einstein. A grande revolução dos vários tipos de delimitação do espaço como foi compreendido por Lobatchevsky, e Rienam marcaram uma grande revolução na compreensão do espaço. Foi algo usado por Einstein para a sua formulação de uma teoria da relatividade. 

Os realistas científicos também tem um argumento muito interessante para justificar a existência dos termos teóricos como entidades. É o que é chamado de “argumento do não-milagre” onde afirma que : se alguém não aceita que os termos teóricos existam como entidades, só lhe resta acreditar em um milagre ou então em algum tipo de coincidência cósmica. Para o realista científico não tem como o mundo ser ordenado da forma que é sem que existam entidades reais. Só se alguém acreditar em um milagre é que pode conceber que o mundo é da forma que é sem que algo realmente exista de fato. Se tudo fosse criação da nossa mente, assim como proposto pelos anti-realistas, tenderíamos a um solipsismo, ou então a uma aproximação muito grande ao pensamento de Berkeley. 

Essa questão com certeza recai sobre a discussão entre o criacionismo e o evolucionismo, onde na minha opinião o criacionismo se aproximaria de uma visão realista das coisas e o evolucionismo em uma visão anti-realista. É preciso ter muito mais fé para aceitar em uma visão evolucionista onde tudo se constitui pelo acaso do que crê que existe um ser superior que coordena todo o mundo para que ele funcione do jeito que ele funciona. 

Não há um milagre, ou como disse Einstein : Deus não joga dados. Se o mundo é como é, é porque há uma ordem substabelecida e esta não pode ser por acaso. Como podemos ver, o princípio da realidade dos termos teóricos possui uma relevância enorme nos dias de hoje, e implica também na aceitação ou pelo menos a consideração de alguns fatos que norteiam a nossa vida. Embora o princípio seja científico ele possui várias implicações na vida em sociedade como também na relação do homem com o mundo. Por exemplo; se adotamos que os termos teóricos realmente existem e não são meramente criação do homem, então temos que admitir que estamos em algum caminho rumo a tentativa de conhecer algo fora de nós. Isso enfraquece bastante a função da teoria Berkeleyana de que tudo o que existe, existe em nossa mente. Os termos teóricos assumindo uma existência, o próprio papel do ser humano dentro do mundo cai de uma posição central, para uma mera posição dentro de todo o cosmos. 

Estudos recentes em cosmologia afirmam que o universo está se expandindo cada vez mais e que este seria sem limites. Se considerarmos esta teoria como verdade, cada dia que passa nos tornamos mais insignificantes. Independente de considerarmos esta teoria como verdade ou não, para o realista científico, o que acontece é que a coisa denominada movimento do espaço existe, e pode ser teorizada porque existe. Esse movimento não é criado pela nossa mente e nem passou a existir depois que se teorizou a respeito. Essa é a visão adotada pelo realista científico. Para ele, as coisas existem independente de se teorizar a respeito de algo. Concluindo, o realismo científico é uma visão bastante interessante a respeito da realidade das coisas e postula que o papel do homem não é o de criar coisas através da linguagem, mas descobrir as coisas e nomeá-las. O trabalho do homem é portanto bastante reduzido. De criador, a conhecedor. 




quinta-feira, 23 de março de 2017

Teologia da violência - Uma busca necessária para tempos sombrios








Os tempos atuais não são dos melhores no Brasil. Os constantes desmantelamentos dos direitos, as perdas constantes de conquistas seculares dos trabalhadores e tudo isso regado com extremo cinismo por parte do congresso e por parte do governo ilegítimo que usurpou a presidência da frágil república brasileira.
Na minha opinião, depois das inúmeras tentativas de diálogo sem sentido, depois das inúmeras manifestações pacíficas que tomaram conta das ruas de todo o Brasil , depois de inúmeras análises feitas por sociólogos, filósofos, cientistas políticos todas elas sem nenhum efeito, a única forma viável de se conquistar, ou melhor não perder mais direitos e reconquistar os já perdidos será a luta armada encabeçada pelos trabalhadores que partirão novamente para as ruas, mas agora não mais pacificamente, mas dispostos a enfrentar diretamente um poder que não mais os representam. 

A democracia representacional, pelo menos no Brasil, tem se mostrado extremamente frágil e muito pouco representativa dos interesses da maioria dos trabalhadores brasileiros. O que se vê é um congresso cada vez mais se colocando contra o povo votando diversas medidas que prejudicam de forma acintosa a dignidade dos trabalhadores. Os exemplos mais recentes são a reforma da previdência e recentemente a lei da terceirização que precariza ainda mais as relações de trabalho e literalmente "rasga" a CLT em nome da agenda neoliberal. 

Diante de um quadro de completa desesperança em que a única coisa que se vê é a perda constante de direitos, apenas um último grito de esperança por meio da ação efetiva se coloca como opção para os trabalhadores em tempos tão hostis. No entanto, é óbvio que a classe trabalhadora não se coloca como uma classe homogênea. Os trabalhadores são muitos, são vários, são diversos e uma pauta geral que englobaria a todos eles seria extremamente difícil de ser adquirida, no entanto, penso que o momento não seja o da polarização estúpida que se vê incessantemente nas redes sociais, mas um momento de união dos trabalhadores em nome da luta que favorecerá a todos. Desde o trabalhador mais qualificado ao menos qualificado. A consciência de classe (da qual tanto falava Marx) se faz cada vez mais necessária em nossos dias. Afinal, é somente a partir dela que uma luta organizada e de peso pode surgir. Enquanto essa mobilização não se der de forma mais organizada os direitos dos trabalhadores continuarão sendo tomados. 

Dentro da ala cristã há sempre uma ressalva em se apelar para a violência, pois guarda-se ainda a ideia de que o "povo de Deus" deve se manter sempre pacífico, lutando apenas em esferas metafísicas, ou quando muito lutando de forma a evitar a violência em todas as suas esferas. No entanto essa posição tipicamente "cristã" se esquece que esse caráter agressivo faz parte da própria natureza humana e várias vezes ela será extravasada de diversas formas. Negar a agressividade do homem é negar a ele uma parte constitutiva de sua natureza. Dessa forma deve-se levar em conta a agressividade humana na hora de pensar a forma que esse sujeito deveria agir. 

Há um exemplo bíblico muito conhecido da passagem em que Jesus expulsa os cambistas do templo de Jerusalém os acusando de ter tornado a casa de Deus em um covil de salteadores. (Mt 21,12-13 e Jo 2,13-17) Algo que salta aos olhos nessa passagem é o fato de que Jesus faz um grande uso da violência em nome de uma causa que, em sua concepção, merecia que a violência fosse aplicada. Algo que esse episódio nos mostra é que às vezes o recurso à violência é legítimo quando o que está em jogo é um motivo maior que esteja sendo ameaçado. No exemplo de Jesus o "zelo da casa de Deus o consumia"( Sl 69,10) como relata João, de forma que em nome desse zelo a violência se mostrou legítima. Ao expulsar os vendedores de pombas, os cambistas do templo a violência que estava embutida no ato trazia consigo um grito pela restauração do sentido do templo no contexto judaico. Não foi uma ação destituída de sentido, mas um gesto de luta em favor dos que estavam sendo prejudicados pelo comércio exploratório que se fazia ali. 

A violência demonstrada por Jesus vai totalmente contra esse ideal pacifista adotado pelos cristãos em todas as situações. O que Jesus mostra é que em alguns momentos a violência é sim uma arma que deve ser usada, e no caso do texto em questão, ela foi usada quando a dignidade do outro estava em risco. Os cambistas no templo cobravam um valor absurdo para a compra dos animais que eram exigidos para os que iam sacrificar no templo e com isso exploravam os mais humildes em nome do "cumprimento da lei" por parte do pobre. Os vendedores do templo feriam a dignidade do pobre que iria ofertar o imputando um comércio em um lugar em que se deveria existir a misericórdia. Jesus indignado com tal situação se pôs a agir por meio da violência, pois apenas ela naquele momento seria capaz de resolver a situação. Jesus não tentou dialogar com os cambistas, não tentou negociar com eles uma forma para que eles diminuíssem o preço dos produtos, ou seja, não adotou uma postura pacífica e dialogal naquele momento, mas passou para o uso da violência derrubando as barracas e expulsando os cambistas. Esse ato de Jesus estranhou enormemente os líderes do templo que se perguntavam com que autoridade ele fazia aquilo, e Jesus prontamente respondeu em forma de parábolas afirmando que ele seria aquele que destruiria o templo e em três dias o reconstruiria, já apontando para a sua morte e ressurreição que aconteceria em breve e que refaria a estrutura do templo. 

A busca por uma teologia da violência se mostra talvez mais que necessária em nossa época no Brasil. Nós, cristãos, somos chamados a lutar contra todo aquele que visa ferir a dignidade humana, visa privar o homem da sua humanidade, visa diminuí-lo da sua condição de liberdade, e várias vezes isso deverá ser feito por meio da violência. O cristão não deve temer a violência quando a causa assim o exigir. Como dito acima, a agressividade é uma dimensão natural do ser humano e não pode ser esquecida em nome de uma postura que nada diz e nada faz enquanto tudo se perde no caminho. 
Jesus se coloca novamente como um paradigma de que às vezes a violência se faz necessária para que o reino de Deus que é justiça, paz, misericórdia, dignidade se faça presente entre nós. A consciência de classe da qual Marx fala se alia aqui à consciência cristã que se conscientiza de que a violência é sim um caminho legítimo (talvez o último a ser utilizado) para que o homem se mantenha humano.

Jesus no templo tipifica o homem contra a estrutura social já estabelecida, tipifica a luta para que a dignidade humana seja restabelecida. Ali Jesus mostra que nenhuma instituição está acima da dignidade humana, nenhuma ordem social se coloca acima do valor do homem em sua integridade e que em nome desse valor do homem a instituição deve ser destruída, se preciso for, por meio da violência. A proposta de Jesus no nosso exemplo está longe do pacifismo, está longe da proposta dialogal, pois naquele momento isso não é mais possível. A partir do momento que o status quo se coloca de forma inexorável contra a humanidade do homem, contra aquilo que o compõe enquanto humano, tal status quo deve ser combatido. A crítica de Jesus é radical, a proposta de Jesus neste episódio é o uso da violência e ele a usa sem medo, o que nos indica que também nós devemos ser capazes de utilizá-la quando a situação assim exigir. 

Que haja luta sempre. E que não nos esquivemos do uso da violência quando ela se fizer necessária. No meu modo de ver, o momento exige isso de nós, os trabalhadores.