quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Zizek, Veliq, Stories...






"Isso nos leva ao que somos tentados a chamar de antinomia da individualidade pós-moderna: a injunção para "ser você mesmo", desconsiderar a pressão do entorno e alcançar a autorrealização, afirmando plenamente seu potencial criativo singular, acaba esbarrando cedo o u tarde no paradoxo de levar quem o obedece a sentir-se completamente isolado daquilo que o circunda, sem absolutamente nada, lançado num vazio da mais pura e simples estupidez. O avesso inerente do "seja seu verdadeiro Eu" é, portanto, a injunção a cultivar uma remodelação permanente em conformidade com o postulado pós-moderno da plasticidade infinita do sujeito... Em síntese, a extrema individualização se transforma em seu oposto, levando à derradeira crise de identidade: os sujeitos experimentam a si mesmos como radicalmente incertos, sem nenhuma "expressão própria", trocando uma máscara (imposta) por outra, uma vez que, em última instância o que está por trás da máscara é nada, um tenebroso vazio que eles tentam freneticamente preencher com sua atividade compulsiva, ou se deslocando entre hobbies e maneiras de se vestir cada vez mais idiossincráticos, a fim de acentuar sua identidade individual. Podemos ver aqui como a individualização extrema (o esforço para ser fiel ao seu Eu, fora dos papéis sociossimbólicos impostos) tende a coincidir com seu oposto, com a estranha e angustiante sensação de perda de identidade - isso não é a confirmação definitiva do insight de Lacan de que só podemos alcançar um mínimo de identidade e "ser nós mesmos aceitando a alienação fundamental na rede simbólica?" (ZIZEK, Slavoj. O sujeito incômodo. 2016 p. 393,394)

Aqui reside a meu ver algo que sempre comento a respeito das novas formas de afirmação do sujeito contemporâneo, essa tentativa frenética de se autoafirmar constantemente acaba por demonstrar uma completa fissura neste sujeito. Ele oscila constantemente entre a autoafirmação de si e a autoafirmação simbólica, ora se apegando a um, ora se apegando a outro. Neste sentido, o drama do sujeito contemporâneo se encontra em sair desse círculo vicioso. Não é de fato curioso o fato de que as redes sociais seja o lugar onde esse círculo vicioso se mostra de forma muito nítida? Ali parece haver uma espécie de "suspensão simbólica" (afinal, as relações nas redes sociais são em grande medida imaginárias), mas ao mesmo tempo uma espécie de aposta no "real de si" (a ideia de que posso livremente expressar quem sou por meio dos meus posts). Nesta estranha economia a que o sujeito contemporâneo está submetido o que está em jogo é, dentre outras coisas, o tipo de persona que será construído pelo sujeito como forma de interação (em grande medida imaginária) com o outro.

Na dinâmica das redes sociais onde tudo é extremamente fluido o fenômeno do "stories" do Instagram ou "snapchat" ganha um contorno ainda mais interessante. A meu ver nada diz mais da nossa sociedade extremamente fluida do que o número de "stories" que são contadas todos os dias nos aplicativos. A ideia de que nem mesmo as minhas ações precisam perdurar, a ideia de que há sempre alguém interessado nos mínimos detalhes da minha vida, a ideia de que posso postar os detalhes mais ínfimos da minha vida e ao mesmo tempo encontrar espectadores para tal, mas com a garantia de que aquilo não ficará mais que 24 horas disponível coloca o sujeito em uma possibilidade de "exposição controlada", ou seja, ele se sente à vontade para compartilhar a sua vida, ("verdadeira", diária, etc.) pois tem plena consciência de que aquele "momento compartilhado" em breve não estará mais ali, mas ao mesmo tempo ele tem plena consciência de que "enquanto o momento está ali" há uma chance de uma parca interação com o outro que o responderá, verá a "stories", etc. Não precisamos dizer que o que é exposto possui um caráter extremamente imaginário, visando passar uma imagem para o outro que várias vezes não corresponde em nada à realidade vivida. Ninguém obviamente publica os remédios que toma, as desavenças que tem, os dramas familiares, etc. O "acordo silencioso" (para usar a expressão de Wittgenstein) é a de que só se deve postar coisas que excitará o desejo do outro, coisas que farão o outro desejar aquilo que possuo, ou no máximo "dificuldades corriqueiras" para tentar passar a ideia de que para além da idealização pretendida ainda se é um ser humano normal, com problemas, etc.

Dessa forma fica nítida que na realidade há apenas uma relação muito espectral do sujeito consigo mesmo e aqui há uma boa pista do porquê que hoje qualquer tentativa de um contato um pouco mais íntimo com o outro se mostra na maior parte das vezes "invasivo" para o sujeito contemporâneo.
Tão acostumado a se relacionar apenas consigo mesmo, tudo que vem do outro aparece como ameaça, como intrusão, como falta de respeito à minha esfera mais íntima. Não é extremamente curioso que hoje muitas pessoas achem o fato de receber um telefonema como algo extremamente invasivo? Ou que qualquer pergunta sobre o trabalho, sobre o relacionamento, etc. soe extremamente perturbadora?
Essa perda da dimensão do outro, ou da dimensão sociossimbólica que nos permeia não nos ajuda a pensar as demandas contemporâneas como a questão gay, ecológica, feminista, dentre várias outras? Não há aqui uma boa pista para encararmos a questão da identidade contemporânea permeada pelas redes sociais e ao mesmo tempo a demanda excessiva para o cuidado de si (alimentar de forma saudável, praticar exercício, ter uma vida espiritual, etc.)?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

" Se alguém quiser [...] renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me" Mateus 16:24







Uma das questões talvez mais interessantes em relação às diversas músicas cristãs que pregam uma espécie de abnegação do sujeito em relação a si seja o fato de que tais canções partem de pressupostos antropológicos extremamente estranhos do ponto de vista bíblico. 
A ideia de que o ser humano seria um sujeito marcado pelo pecado e que a conversão deveria ser o momento em que ele se assume como "nova criatura", deixando para trás o status de "pecador" e se tornando agora um "santo, raça eleita, etc." é algo extremamente difundido no meio cristão e ao mesmo tempo parte da noção de que, para se viver com Cristo seria preciso que o sujeito de alguma forma "eliminasse sua subjetividade", seu "eu pecaminoso", ou seja, "morresse para o pecado, para ressurgir com Cristo".

Primeiramente precisamos pensar que a proposta cristã trazida por Paulo, longe de propor a aniquilação da subjetividade do sujeito, propõe ao invés disso o assumir pleno de tal subjetividade. O cristão deve, para seguir a Cristo, se colocar como um sujeito capaz de escolher essa vida que lhe é oferecida, e o faz no gozo de suas plenas faculdades mentais. A decisão de viver essa nova vida não é algo que lhe é imputado de fora, mas deve partir de uma adesão íntima do sujeito que se sente movido a agir de tal forma. Interessante notar que no início do cristianismo um fator determinante para a conversão dos gentios eram os milagres feitos pelos apóstolos, depois, à medida que o cristianismo vai se espalhando, os milagres passam a ser menos importantes e o discurso/prática cristã ganha a proeminência que levará os gentios à conversão. Para um exemplo simples basta pegarmos o livro de Atos e perceber a diferença das primeiras conversões com o discurso de Pedro e as conversões advindas das cartas paulinas. Do elemento externo (milagres) ao elemento interno (convicção do sujeito) as conversões bíblicas no primeiro século dão a tônica do tipo de religião que o cristianismo será, ou seja, uma religião de foro íntimo, em o que está em jogo, em última instância não é nada além da intenção do sujeito. Neste sentido aqui é possível uma dura crítica à noção agostiniana de pecado original, coisa que o protestantismo se encarregou de fazer muito bem posteriormente. 

Essa mesma temática aparece em diversas parábolas de Jesus, que como sabemos, foram escritas em época posteriores à teologia paulina. Se pensarmos nas frases enigmáticas de Jesus, "Aquele que quiser vir após mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16,25) parece sugerir que de fato, o cristão, para ser seguidor de Cristo, deve de fato negar a si mesmo em uma espécie de supressão identitária para que só assim "Cristo possa de fato viver nele". No entanto, gostaria de chamar a atenção para o fato de que o contexto judaico no qual tais textos foram escritos mantém uma vinculação muito estreita entre o sujeito e sua comunidade. O sujeito é dentro da sua comunidade, ele se torna o que é, mediado pela sua comunidade. Neste sentido, negar a si mesmo tem muito mais a ver com negar a sua pertença à uma comunidade específica do que propriamente negar o núcleo da sua subjetividade. 

Neste sentido podemos entender as falas de Jesus quando propõe que os seus seguidores "deixem pai e mãe", "irmãos", etc. ou seja, o que Jesus traz consigo é uma proposta de supressão dos laços familiares em prol do Reino de Deus. Nem os laços familiares estão acima da proposta do Reino, nem a pertença à uma comunidade estão acima da proposta do Reino, neste sentido é que se pode entender que aquele que não é capaz desse tipo de renúncia não é digno de Jesus. Os laços familiares, comunitários não podem sobrepor ao Reino de Deus, Reino onde não há judeu, nem grego, nem gentio, etc. mas todos pertencem à uma comunidade universal. Para romper com esse tipo de vínculo é preciso que o sujeito se constitua independente destas estruturas, ou seja, negar a si mesmo pressupõe antes disso um assumir-se a si mesmo como sujeito disposto a aceitar a proposta do Reino. Em termos psicanalíticos, pressupõe que o sujeito assuma o seu desejo e a partir dele seja capaz de fazer sua escolha.  Basta repararmos que o próximo passo que Jesus propõe é uma escolha, ou seja, "tomar a sua cruz" é um ato de escolha do sujeito que, para tal, precisa ser antes de tudo um sujeito capaz de escolha. Se o "negar a si mesmo" fosse um abrir mão da sua subjetividade seria impossível que ele fizesse a escolha posterior de "tomar a sua cruz".

Um outro ponto que gostaria de ressaltar é o "tome a sua cruz". O "tomar a sua cruz", desde o início do cristianismo sempre foi visto como uma espécie de sacrifício que o cristão deveria fazer para que depois de sua jornada terrestre ele fosse capaz de receber a sua recompensa no mundo porvir. Diversos autores cristãos enfatizaram esse ponto e tais leituras remetem à teologia paulina em última instância. No entanto, a teologia posterior, (e talvez o nome principal aqui seja a figura de Kant) se encarregou de evidenciar o estranho mecanismo envolvido nesse tipo de "negociação". Afinal, é bastante óbvio que, se tomo a minha cruz no intuito de receber uma coroa no porvir, o que está em jogo é um mero jogo de barganha velada, ou seja, eu assumo os sofrimentos propostos pelo cristianismo, pois no final irei receber uma vida eterna, etc. Kant evidencia que esse procedimento é extremamente vinculado à lógica da retribuição, mas para além disso, tal procedimento evidencia que a própria estrutura de mundo que a proposta do Cristo visa romper não é rompida pelo cristianismo posterior. 

Mas qual é a estrutura do mundo que a proposta do Cristo visa romper? Ela nada mais é que a lógica da retribuição. Jesus, ao propor que "se dê a outra face", não está propondo aqui um mero masoquismo estúpido, mas sim evidenciando que a justiça não se dá por meio de um reequilíbrio entre as partes, mas se dá pela subversão do amor. No amor o que há é uma escolha vazia, ou seja, uma escolha que elege um objeto como coisa primordial mesmo que aquele objeto não tenha nada para lhe oferecer em troca. A justiça que se vincula ao amor neste sentido não parte da noção de retribuição, mas da noção de "doação". Daí que o "tomar a sua cruz" não deve ser visto como um "sacrifício", mas sim como "doação", evidenciando aquilo que Paulo nos advertia: "Haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo". (Fp 2,8) A cruz que o sujeito deve tomar é a sua responsabilidade diante do seu desejo. Apenas quando o sujeito é capaz de assumir o seu desejo ele pode dar o passo fundamental que envolve seguir a Cristo sem que seja necessário nenhuma recompensa. Interessante que a proposta de Jesus aos discípulos começa com uma grande condicional "Se alguém quiser vir após mim", ou seja, a proposta de Jesus nunca é de uma obrigação do sujeito, não é de um viés belicoso, mas é sempre um convite gentil que cabe ou não ao sujeito aceitar. 

Neste sentido podemos entender que o "negar a si mesmo" não se vincula à negar a sua vontade, não é nunca uma recusa ao desejo do sujeito, mas muito pelo contrário, é assumir de forma responsável o seu desejo que se vincula à doação por amor a Deus. Só aquele que é capaz de negar a si mesmo é capaz do ato de doação que se vincula à prática do amor. Apenas nesse sentido é que se é capaz de fazer a próxima proposta de Jesus que é "segui-lo".  Esse "seguir" não visa algo em troca, não visa uma "coroa no porvir", mas visa apenas se manter fiel ao seu desejo de doação em prol de alguém em quem se tem fé e é esse tipo de escolha que pressupõe um sujeito responsável, que não nega a sua subjetividade, mas a assume como única forma possível de amar. 




quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O absurdo e o suicídio - Albert Camus




"Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.

Se me pergunto em que julgar se uma questão é mais urgente do que outra, respondo que é com ações a que ela induz. Eu nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas. E como responder a isso? A respeito de todos os problemas essenciais, o que entendo como sendo os que levam ao risco de fazer morrer ou os que multiplicam por dez toda a paixão de viver, provavelmente só há dois métodos para o pensamento: o de La Palisse e o de Don Quixote. É o equilíbrio da evidência e do lirismo o único que pode nos permitir aquiescer ao mesmo tempo à emoção e à clareza. Em um assunto simultaneamente tão modesto e tão carregado de patético a dialética clássica e mais sábia deve, pois dar lugar - convenhamos - a uma atitude intelectual mais humilde e que opera tanto o bom senso como a simpatia.

O suicídio sempre foi tratado somente como um fenômeno social. Ao invés disso, aqui se trata, para começar, da relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto como este se prepara no silêncio do coração, da mesma forma que uma grande obra. O próprio homem o ignora. Uma tarde ele dá um tiro ou um mergulho. De um administrador de imóveis que tinha se matado, me disseram um dia que ele perdera a filha há cinco anos, que ele mudara muito com isso e que essa história “o havia minado”. Não se pode desejar palavra mais exata. Começar a pensar é começar a ser minado. A sociedade não tem muito a ver com esses começos. O verme se acha no coração do homem. É ali que é preciso procurá-lo. É preciso seguir e compreender esse jogo mortal que arrasta a lucidez em face da existência à evasão para fora da luz.

Há muitas causas para um suicídio e, de um modo geral, as mais aparentes não têm sido as mais eficazes. Raramente alguém se suicida por reflexão (embora a hipótese não se exclua). O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável. Os jornais falam freqüentemente de “profundos desgostos” ou de “doença incurável”. Essas explicações são válidas. Mas seria preciso saber se no mesmo dia um amigo do desesperado não lhe falou em tom indiferente. Este é o culpado. Pois isso pode ser o suficiente para precipitar todos  os rancores e todos os aborrecimentos ainda em suspensão.i

Mas, se é difícil fixar o instante preciso, o procedimento sutil em que o espírito se decidiu pela morte, é mais fácil extrair do próprio gesto as conseqüências que pressupõe. Matar-se é de certo modo, como no melodrama, confessar. Confessar que se foi ultrapassado pela vida ou que não se tem como compreendê-la. Mas não nos deixemos levar tanto por essas analogias e voltemos à linguagem corrente. É somente confessar que isso “não vale a pena”. Naturalmente, nunca é fácil viver. Continua-se a fazer gestos que a existência determina por uma série de razões entre as quais a primeira é o hábito. Morrer voluntariamente pressupõe que se reconheceu, ainda que instintivamente, o caráter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o caráter insensato dessa agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.

Qual é, portanto, esse sentimento incalculável que priva o espírito do sono necessário à vida? Um mundo que se pode explicar mesmo com parcas razões é um mundo familiar. Ao contrário, porém, num universo subitamente privado de luzes ou ilusões, o homem se sente um estrangeiro. Esse exílio não tem saída, pois é destituído das lembranças de uma pátria distante ou da esperança de uma terra prometida. Esse divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentimento da absurdidade. Como já passou pela cabeça de todos os homens sãos o seu próprio suicídio, se poderá reconhecer, sem outras explicações, que há uma ligação direta entre este sentimento e a atração pelo nada.

O assunto deste ensaio é precisamente essa relação entre o absurdo e o suicídio, a medida exata em que o suicídio é uma solução para o absurdo. Pode-se tomar por princípio que, para um homem que não trapaceia, o que ele acredita verdadeiro deve lhe pautar a ação. A crença na absurdidade da existência deve, pois, lhe dirigir o comportamento. É uma curiosidade legítima se indagar claramente, e sem falso pateticismo, se uma conclusão de tal ordem exige que se abandone o mais que depressa uma condição incompreensível. Refiro-me aqui, é claro, a homens dispostos a estarem de acordo consigo mesmos."

(CAMUS, Albert. "O absurdo e o suicídio" em "O mito de Sísifo - Ensaios sobre o absurdo". Tradução de Urbano Tavares Rodrigues. pp. 15-17. Disponível em https://static.fnac-static.com/multimedia/PT/pdf/9789723829358.pdf acessado em 17/01/2018)



i Não deixemos passar a oportunidade de assinalar o caráter desse ensaio. O suicídio pode, de fato, estar ligado a considerações muito mais honrosas. Por exemplo: os suicídios políticos ditos de protesto na revolução chinesa. [A edição original de O Mito de Sísifo é de 1942: o autor, portanto, certamente ainda não tivera conhecimento do fenômeno Kamikase, que lhe despertaria a atenção para outros, análogos, na civilização japonesa. Sua nota, porém, antecipa a consideração do auto-sacrifício dos bonzos na antiga Saigon, hoje Ho Chi Minh, durante a guerra do Vietnã (N. do T.)]

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Uma reflexão sobre o dia do Teólogo





No dia do teólogo que é hoje estava observando e vi que já escrevi diversos textos, artigos acadêmicos sobre Deus, o que é sempre um tema instigante para se ponderar. A minha visão sobre Deus tem mudado bastante ao longo desses anos em que venho estudando mais a fundo tais conceitos, mas acredito ser esse o trabalho teologal, o refletir para que a fé vá se aprimorando, para que os conceitos possam dançar e para que dessa dança possa sair alguma luz que ilumine os outros.

Pensar sobre Deus é sempre difícil, pois acaba mexendo com questões extremamente íntimas, estruturais, mas que precisam ser pensadas por aqueles que querem ter um relacionamento com Deus. Para que tal relacionamento não seja uma mera reprodução de conteúdos ensinados pelos nossos pais e avós no processo de crescimento, mas que seja algo construído pelo próprio sujeito a partir das suas experiências com Deus e com o conhecimento possível sobre Ele(a).

Neste sentido a Psicanálise, para além da Teologia e da Filosofia tem me sido de grande valia para pensar sobre Deus. As críticas de Freud, Lacan e diversos outros teóricos sobre tal conceito são críticas que todo teólogo deveria encarar seriamente, pois elas mostram como que várias vezes a ideia de Deus surge como uma promessa vã de conforto, surge como um engodo para a infantilização do sujeito, mas ao mesmo tempo a psicanálise também mostra a partir de outros autores que é possível um relacionamento "saudável" com Deus, com a fé, com a Religião.

Como alguém que estuda seriamente estas questões há mais de 10 anos, me incomoda tremendamente o ateísmo vulgar, aquele ateísmo panfletário que quer manter uma crítica tipicamente do século 19 ignorando completamente os avanços tanto do ateísmo contemporâneo, quanto até mesmo das formulações teológicas contemporâneas que passam totalmente despercebidas por diversos ateus quando vão criticar a religião do século 21. Vários insistem em criticar a religião a partir de Marx com a sua noção de "ópio do povo", mas desconhecem a Teologia da Libertação que longe de ser "ópio" foi e é um grande instrumento de mudança social em diversos lugares do Brasil e da América Latina.

Outros insistem em utilizar a crítica feuerbachiana (a meu ver muito mais consistente que a crítica marxista), mas se esquecem do limite de tal crítica no seu conceito de projeção que é visto de maneira um tanto quanto ingênua por Feuerbach e na mesma esteira por Freud e seu conceito de ilusão. Ao focarem nesse tipo de crítica esquecem de teólogos como Karl Rahner que fez questão de responder pontualmente a crítica feuerbachiana no século 20, se esquecem do esforço de Karl Barth contra a crítica de Feuerbach também no século 20, se esquecem de Oskar Pfister e sua seríssima reflexão sobre o diálogo entre Psicanálise e Religião, diálogo esse que manteve com Freud por mais de 30 anos, e que pensou de forma muito rica as possíveis relações saudáveis do sujeito para com a religião e para com a figura de Deus. Se esquecem até mesmo de Lacan e sua visão um pouco mais "positiva" para com a religião como "Sinthome" possível para o sujeito, isso para citarmos apenas alguns exemplos que mais saltam à vista.

Penso que o ateísmo é uma postura extremamente importante, extremamente rica e é uma forma de lidar com o mundo extremamente adulta, pois não espera nada de Deus, uma vez que ele(a) não existiria. Penso ao mesmo tempo que o ateísmo levanta diversas questões sérias à teologia. Questões essas que devem ser pensadas seriamente por nós, teólogos, se quisermos ter algo a dizer no mundo contemporâneo. Neste sentido acho extremamente interessante o debate que diversos ateus fazem no século 21 com a religião. Figuras como Slavoj Zizek, Heidegger, Laclau, trazem temas importantíssimos para o debate entre ateísmo e religião que não partem da ingenuidade que vários ateus panfletários insistem em manter.

Obviamente que falta à teologia e a diversos teólogos de hoje um debate um pouco mais honesto com a psicanálise e em várias medidas com a própria filosofia, mas é inegável o avanço que a Teologia tem feito no século 20 e 21. No dia do teólogo penso ser o nosso dever repensar o nosso diálogo com as diversas áreas do conhecimento e nos propormos manter uma relação de troca mútua e saudável sempre dispostos a aprender com outros campos do saber. Se a teologia tem avançado bastante nos últimos anos é por meio do esforço de diversos teólogos que não se contentam em apenas se fecharem nos seus gabinetes e refletirem sobre um Deus etéreo, mas se colocarem como agentes modificadores do mundo. Temos diversos exemplos destas figuras no Brasil, figuras como Leonardo Boff, Rubem Alves, Dom Helder Câmara e tantos outros às vezes desconhecidos, mas que auxiliaram, questionaram, lutaram e lutam contra as mazelas sociais revelando um Deus várias vezes desconhecido por outros, mas revelado diariamente nas ações que auxiliam o outro.

Hoje celebramos o dia do Teólogo e acredito que essa função tem se tornado uma função extremamente importante diante do mundo em que vivemos. Não apenas por trazer reflexões sobre temas cada vez mais importantes para nós, mas por se colocar como discurso extremamente libertador para o sujeito contemporâneo diariamente massacrado por discursos vazios. Acredito que a grande tarefa do teólogo hoje é se mostrar aberto aos outros discursos sem pretender ter a última palavra, sem pretender ser aquele que detém a verdade que apenas deve ser "espalhada" mundo a fora. Rubem Alves, teólogo protestante brasileiro, já nos dizia que a teologia é um grande brincar com "contas de vidro", ou seja, é um brincar com coisas extremamente frágeis, é brincar com palavras como se fosse uma grande feitiçaria, pois acredita no poder criador das palavras com as quais se brinca.

Que nós enquanto teólogos possamos brincar com cada vez mais alegria com nossas contas de vidro e que nessa brincadeira possamos encantar a outros, e encantando a outros possamos revelar um(a) deus(a) várias vezes desconhecido(a) de muitos.

PS: Fiquei muito feliz com as diversas felicitações recebidas hoje por diversas pessoas. Esse reconhecimento é sempre um estímulo para prosseguir com as pesquisas e as reflexões sobre temas tão necessários na atualidade.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Tentativa de um texto catártico.




Quem, se não os mais próximos, para suportar o pior de nós? Quem, se não os mais próximos, para suportar os momentos de fraqueza, os momentos em que nenhuma teoria funciona, os momentos em que todas as construções se mostram apenas mero balbuciar diante da angústia dilacerante? Quem, se não os mais próximos, se responsabilizará juntamente conosco diante do momento debilitante que assola o mais estóico dos homens? É sempre no momento da fraqueza, no momento em que as lágrimas escorrem, no momento que o coração palpita freneticamente que necessitamos desse auxílio mais do que nunca. 

Em uma sociedade imediatista como a nossa acabamos, no entanto, construindo uma ideia extremamente destrutiva para o sujeito de que os mais próximos devem estar sempre disponíveis o tempo todo, como uma espécie de "cola" que nos uniria em uma relação extremamente fantasiosa em relação ao outro. No mundo dominado pela tecnologia é muito fácil se perder nessa armadilha contemporânea do outro sempre presente, do outro como suplência permanente para qualquer falta, para qualquer problema, para qualquer situação. Paradoxalmente em uma sociedade individualista o que mais se percebe é uma espécie de demanda constante pelo outro virtual que se manifestará desde as conversas em aplicativos de comunicação até mesmo em posts nas redes sociais. Essa demanda constante, esse requerer sempre que o outro me veja, me curta, me retweete, me responda aponta, no entanto, para esse sujeito completamente desamparado, e não apenas do ponto de vista da psicanálise, mas desamparado das próprias estruturas que o ajudariam a lidar melhor consigo e com as outras pessoas. Há um "gap" aí que fica sempre vazio, que se resiste à simbolização e que por isso aponta para a angústia como grande sintoma contemporâneo. 

Não é que o outro falta, afinal, o outro não "faltou" em nada. Ao invés disso há um excesso do fantasma do outro onipresente que invade o sujeito e por isso ele sofre. Esse fantasma do outro onipresente impossível, desse outro "sempre ali" é o que acaba por aumentar a angústia do sujeito contemporâneo quando ele se mostra impossível. Essa saída ilusória se assemelha ao Godot de Beckett que nunca aparece, mas move muita coisa naqueles que o esperam. "Talvez amanhã" é o máximo de esperança que se pode ter da chegada disso que é esperado. Aqueles que esperam Godot se propõem a ir embora já que ele não virá, no entanto não conseguem ir embora. Godot é esse que pela sua ausência física, mas presença plena é o que os impede de se mover. A espera desse vazio capaz de dar sentido à espera dos dois homens se mostrou apenas como promessa frustrada apontando talvez uma crítica à sociedade da época do pós-guerra. 

Neste sentido, nós, os sujeitos contemporâneos, desprendidos, auto-suficientes, nos mostramos completamente desamparados, pairando sobre o vazio quando as coisas não seguem nossas expectativas imaginárias, quer elas sejam no trabalho, nos relacionamentos diversos, etc. Somos extremamente fragilizados diante de qualquer coisa que frustra as nossas expectativas, pois não vemos nada que seja capaz de nos sustentar diante do vazio hipermoderno. Como bem aponta Beck e Beck-Gernsheim (O caos totalmente normal do amor. Editora Vozes. 2017) talvez apenas o amor (caótico como ele é) seja capaz de subsistir como amparo nessas horas em que a dor extrema é a companheira mais frequente. Mas tal amor também só pode ser visto e lembrado pelo sujeito a partir de si mesmo. Visto nos atos que os outros manifestam de compaixão para conosco durante os momentos ruins, e lembrado quando tais manifestações não aparecem por diversos motivos diferentes. 

Curioso, no entanto, reparar que na hipermodernidade a própria noção de amor acaba por se tornar um único ponto de ancoragem que ainda subsiste à crise dos metarrelatos da modernidade, ou seja, por mais que atualmente as instituições como casamento, religião, política, etc. se encontrem em grande medida desacreditadas, ou até mesmo bastante reconfiguradas, o amor se mostra como algo capaz de transcender todas estas instituições e se mostra em grande medida subversivo por se manter  como firme elo entre as pessoas. É apenas esse amor que é capaz de tirar o homem hipermoderno do seu sentimento de angústia dilacerante. No entanto, como bem mostrou Simmel lá nos anos 50 do século passado a tendência de uma sociedade individualista é ir cada vez mais reduzindo os seus ciclos de amizades e relacionamentos, culminando naquilo que ele chamou de "tribalismo", ou seja, o mundo dos pequenos grupos, guetos, associações menores, etc. 

Agora, no século 21, podemos dizer que esses círculos se tornam ainda mais restritos de forma que nem mesmo a pertença a uma comunidade, ou a um "gueto", ou a um grupo é capaz de tirar o sujeito da angústia que o aflige. Tais grupos, por mais que funcionem como espécie de identificação para o sujeito, se mostram extremamente frágeis nas suas relações entre os membros muito por conta da própria dinâmica individualista a que estão submetidos de forma que em diversos dele o que une os participantes do grupo não é o vínculo de amor entre eles, mas a adesão à causa externa que os identifica um com os outros. Neste sentido chegamos ao ponto com o qual iniciamos o nosso texto, ou seja, no momento da angústia, da dor dilacerante, da dificuldade, quando o pior de nós se mostra serão apenas os mais próximos que serão capazes de nos ajudar. O desafio nosso é tentar se munir de cada vez mais "próximos" para que saibamos pulverizar nossas demandas sem sobrecarregar ninguém com elas. 

Aqui a alusão com Voldemort, o personagem de Harry Potter, pode ser interessante. Da mesma forma que, para sobreviver ele precisou dividir a sua alma em várias Horcruxes, nós também precisamos aprender a dividir a nossa libido sobre os diversos próximos para que possamos subsistir aos dias maus de forma que se um faltar, haja algum outro suporte para que o sujeito não se perca. (Obviamente que a comparação aqui é extremamente limitada, pois o próprio Voldemort se enfraquece à medida que se divide, ao passo que o sujeito que consegue "pulverizar sua libido" se fortalece na relação consigo e com o outro) O processo de deslibidinização do outro (que em grande medida pode ser associado à perda do objeto transacional winicottiano, uma vez que não há nenhuma restrição em pensar um outro indivíduo como esse objeto) pode várias vezes ser doloroso, pode ser complicado, pois não existe uma fórmula para tal, mas mesmo assim é preciso esse esforço de nossa parte para que a nossa vida seja mais saudável, assim como a vida daqueles poucos próximo a nós. Obviamente que este processo de deslibidinização será apenas uma saída provisória para a angústia, mas a meu ver ele se torna um processo cada vez mais necessário na hipermodernidade em que a fixação da libido em algum objeto/pessoa se mostra altamente destrutiva e não raras vezes leva o sujeito a agir de forma extremamente violenta para com tal fixação. Não estaria aqui uma possível pista para o ódio atual aos imigrantes, aos pobres, à esquerda e suas pautas ? 

No final o amor vencerá !

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Os 500 anos da Reforma Protestante






Uma coisa que sempre me chamou a atenção no movimento da reforma protestante iniciada por Lutero foi o fato de que Lutero parecia ter uma consciência muito interessante de que a palavra seria capaz de libertar o homem. A reforma proposta por ele era, além de teológica, pedagógica, afinal a grande aposta de Lutero era que os homens deveriam ser capazes de ler e compreender o texto bíblico naquilo que ele tem de mais importante, a saber, o texto em si. A partir do momento que Lutero se dispõe a traduzir o texto bíblico para o alemão, para a língua do povo, ele anuncia um movimento que instigará todo um país e ganhará o mundo como poucas coisas já fizeram até hoje. 

A palavra em seu poder transformador é crucial para entendermos o alcance da proposta luterana, embora podemos tecer ao mesmo tempo inúmeras críticas já nesse empreendimento. É bastante conhecida a obstinação luterana com o rigor do texto, com a ordem legal que paira sobre o texto bíblico. É também conhecida a tentativa luterana de "definir" os principais conceitos da fé cristã e até mesmo definir o próprio Deus. Quem evidencia estes episódios de forma bastante contundente é Erasmo de Rotterdam em sua grande querela com Lutero, no qual Erasmo insistia para que Lutero deixasse Deus ser bom e não tentasse circunscrevê-lo dentro de suas elaborações, principalmente a partir da doutrina da predestinação. Para Erasmo, o Deus cristão não seria um Deus que predestinaria os homens para a perdição ou salvação de antemão, mas era um Deus aberto e disposto para o amor. Lutero, no entanto, insistia para que Erasmo deixasse Deus ser Deus, ou seja, um Deus que predestina, que julga, etc. 

Querelas à parte, a proposta luterana ao mesmo tempo marca um aspecto interessantíssimo do que se tornou o protestantismo. Ao focar na ideia de que cada homem era capaz de dar uma livre interpretação ao texto bíblico por conta própria, sem necessitar do auxílio da igreja, ou mesmo da tradição da interpretação dos textos, Lutero marca de forma extremamente curiosa, e talvez até de forma inconsciente, o sentimento a-histórico que permeia todo o protestantismo. Algo interessantíssimo de se notar é a não adesão do protestantismo à tradição da Igreja Católica, a completa ausência de referência aos mártires e santos católicos em suas pregações, o completo rompimento com a estética nos templos, enfim, uma completa negação do seu passado histórico e do seu pertencimento à uma tradição milenar. É como se com Lutero se iniciasse um novo tempo, um novo gênesis na história cristã em que nada antes de 1517 importasse mais. 

A reforma pedagógica de Lutero liberta o sujeito moderno da pertença à instituição católica e o coloca isolado na sua relação com Deus de forma que entre ambos se encontra apenas o texto bíblico como verbo mediador. A partir da leitura e interpretação da Bíblia o fiel pode experimentar o poder de Deus sobre sua vida. Os cinco solas de Lutero marcam de forma definitiva a nova fé do homem moderno antecipando alguns temas plenamente atuais da nossa sociedade contemporânea. Lutero, ao insistir na predestinação, no poderio de Deus para salvar o sujeito que agora se vê "desgarrado" da instituição católica antecipa uma fé que não precisa de instituição, não precisa de história, não precisa de símbolos para se consolidar. A ideia protestante acaba por colocar o sujeito moderno diante de uma situação extremamente paradoxal, pois a partir da predestinação questiona-se enfaticamente a noção de livre-arbítrio do homem que apenas pela graça pode ser salvo, mas ao mesmo tempo a ideia protestante descola o sujeito de qualquer noção de pertença enfatizando a liberdade do cristão diante do texto bíblico e diante da sua própria fé. 

Hoje que se celebram os 500 anos da reforma se faz necessário repensar constantemente esse movimento protestante e toda a sua história no ocidente. História esta marcada por inúmeros acertos, mas também inúmeros erros. Se por um lado a reforma protestante possibilitou um acesso ao texto bíblico a todos os homens, possibilitou uma melhor compreensão da fé, aproximou o sujeito moderno do texto escrito e favoreceu o desenvolvimento da leitura no século 16, não podemos esquecer que este mesmo protestantismo e sua mentalidade que proporcionou uma antropologia de extrema negação do humano (basta lembrar da ideia de Calvino da depravação total), ao mesmo tempo não devemos esquecer de que o protestantismo e sua antropologia está na base da formação do capitalismo do século 16 como bem nos mostrou Weber em suas análises, etc. Ao mesmo tempo não podemos esquecer que a aposta luterana para o livre exame do texto bíblico é o que gera hoje as inúmeras interpretações espúrias, toscas em relação ao texto bíblico que é utilizado inúmeras vezes para escravizar e maltratar os outros. Se na época a proposta pedagógica de Lutero foi de fato reformadora, vemos que os frutos colhidos 500 anos depois são várias vezes podres.

A nossa época é uma época de extremas mudanças de concepções, visões de mundo, comportamento, etc. e nesse sentido o grande desafio do protestantismo hoje é conseguir ainda dizer algo para o mundo contemporâneo tão carente de referências e princípios norteadores. No entanto, tal tarefa não pode ser assumida como em 1517, pela força, com o auxílio dos príncipes, visando alguns interesses econômicos e influências políticas, etc., mas deve ser assumida dentro do espírito dialogal, a partir de uma prática diária de uma nova proposta de vida, cada vez menos ancorada em um texto rígido e leituras fundamentalistas e mais ancoradas em uma vivência que remete àquilo que Jesus nos ensinou em sua passagem por aqui, a saber, o amor. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A liberdade do outro





Liberdade e Outro são dois conceitos amplíssimos em diversas áreas do conhecimento. Desde a filosofia, passando pela teologia, pela psicanálise, a psicologia, todas elas refletiram e refletem bastante sobre esses conceitos formulando diversas definições para eles. Neste sentido esse texto não tem a pretensão de elucidar, nem mesmo aderir a uma linha específica em relação aos termos utilizados, mas apenas pontuar uma pequena reflexão sobre isso que chamamos "liberdade do outro."

Um ponto que sempre insisto com as pessoas e com a qual eu sofro sempre é a questão sobre a liberdade do outro. Tal liberdade, para mim, deve sempre ser respeitada em todas as situações, independente do quanto isso possa me fazer sofrer. 
A liberdade do outro consiste em levar em conta que aquilo que para você é imprescindível, para o outro é apenas um detalhe. É levar em conta que nem sempre o outro dará a mesma importância para as coisas que você dá suma importância, e isso em nada desqualifica ou diminui o que o outro sente por você ou o quanto ele te deseja o bem. 

A nossa tendência, no entanto, é querer transformar o outro em uma espécie de reflexo de mim mesmo, com as mesmas atitudes, dando importância para as mesmas coisas, fazendo tudo do jeito que eu faria, etc. Essa doce projeção de mim no outro para torná-lo mais fácil de ser amado. O abismo que me separa do outro, no entanto, solapa constantemente essa minha tendência narcísica e mostra que o outro é irredutível às minhas exigências, às minhas demandas, etc. 

Esse tipo de reflexão cabe em qualquer tipo de relacionamento. Desde o relacionamento matrimonial até as relações de amizade e camaradagem. Reconhecer a liberdade do outro em fazer o que lhe aprouver requer de nós uma certa maturidade que várias vezes nós ainda não temos. Não que isso não nos fará sofrer. Várias vezes a liberdade do outro nos fere, pois ele não cumpre com o que nós esperamos dele, ele faz as coisas de forma que nós não faríamos e isso pode várias vezes nos incomodar, mas se vamos respeitar tal liberdade é imprescindível que aprendamos a lidar com essas diferenças.

Para nós, os neuróticos, toda e qualquer alteração no ritmo normal das coisas já é um grande abalo na ordem interna. Temos a tendência, então, a criar para nós uma certa indiferença em relação às coisas para que não soframos com ela, e isso várias vezes ajuda a lidar com a liberdade do outro. No entanto, várias vezes essa dinâmica não funciona e a quebra da rotina traz um sofrimento enorme que só poderá ser restabelecido (em curto prazo) com o retorno da rotina, ou (em longo prazo) com um tratamento psicológico, psiquiátrico, etc. Mas nem mesmo esse fato, para mim, elimina a completa liberdade do outro de não estar preso às minhas neuroses, às minhas idiossincrasias. É sempre um longo caminho a ser percorrido entre o meu desejo e o desejo do outro. 

O outro é aquele abismo intransponível como nos alertava Levinas; ele é aquele que coloca um fim a mim mesmo, pois ele me mostra constantemente que eu não sou tudo, que eu não posso tudo. Ele me mostra que ele não pode ser reduzido a mim e por isso ele traz consigo uma condição de liberdade que é assustadora e traumatizante para mim. Lacan, nesse mesmo sentido, já nos advertia que o grande desafio para o sujeito é lidar com a pergunta sobre o desejo do outro. "O que o outro quer de mim?" é a pergunta que angustia o sujeito, pois o outro é aquele que me convoca a respondê-lo e responder a mim mesmo em relação ao meu desejo. 

A liberdade do outro envolve também a forma como ele vai lidar com as convenções sociais, com o seu papel social, etc. e isso, por mais estranho que possa parecer para nós, é algo que deve ser entendido como fruto dessa mesma liberdade que estamos lidando, ou seja, o outro é livre para se adequar ou não no papel que se espera dele. Obviamente que a sociedade cobrará desse sujeito algumas atitudes, algumas explicações, mas o fator determinante nessa relação será a forma como o outro lida com a sua liberdade de escolher ou não que papel exercerá e até mesmo a forma como o exercerá. Uma vez que os papéis sociais são também socialmente construídos a liberdade do sujeito se manifesta também na forma como ele irá aderir ou não à expectativa de um determinado papel social. Os acordos silenciosos falam muito alto nesse sentido, pois sempre se espera de um sujeito que ele vá cumprir à risca o que se espera de um determinado papel. No entanto, há uma certa fluidez na execução dos papéis sociais e isso também deve ser entendido por nós com fruto dessa mesma liberdade do outro. 

As visões definidas do que se deve ou não fazer, de como um papel deve ou não ser executado acaba sendo para nós uma grande proteção e um grande validador dos nossos comportamentos que massageiam nosso narcisismo e me faz ver como "boa esposa", "bom marido", "bom amigo", "bom profissional", etc. no entanto, a liberdade do outro novamente solapa essa organização que acaba se mostrando apenas ilusória, pois a partir dessa liberdade do outro novas significações podem ser feitas me fazendo várias vezes reconstruir essa visão que eu construí para mim. Afinal, o que é ser "bom" em alguma coisa? O que é ser um "bom marido", "uma boa esposa", "um bom amigo", "um bom profissional"? Exercer todos esse papéis da forma como se espera de nós a sociedade acaba sendo o que define o sujeito como "bom em alguma coisa", mas a partir do momento que reconhecemos que a própria noção desse sujeito bom em algo não é estanque, isso nos faz abrir os olhos para as diversas outras formas possíveis de se lidar com essas relações; e isso, a meu ver, implica sempre em respeitar a liberdade do outro.