quinta-feira, 21 de junho de 2018

"So love is the minimal form of communism." Alain Badiou sobre o amor



Os leitores do blog sabe que a questão do amor é algo recorrente nos textos por aqui  e por isso que este lindo do texto de Alain Badiou faz a sua entrada neste blog. Em grande medida Badiou coloca de forma bastante poética noções que ele desenvolve de forma mais filosófica em outros de seus vários livros. Para quem não conhece, Alain Badiou é um filósofo francês nascido em 1937, autor de vários livros e um dos principais pensadores contemporâneos vivos. Acesse aqui para conhecer um pouco mais sobre Alain Badiou. Segue abaixo o extrato do livro "In praise of love" publicado em 2012. 
“Love is not a contract between two narcissists. It’s more than that. It’s a construction that compels the participants to go beyond narcissism. In order that love lasts one has to reinvent oneself…Everybody says love is about finding the person who is right for me and then everything will be fine. But it’s not like that. It involves work. An old man tells you this!…I have only once in my life given up on a love. It was my first love, and then gradually I became so aware this step had been a mistake I tried to recover that initial love, late, very late – the death of the loved one was approaching – but with a unique intensity and feeling of necessity…There have been dramas and heart-wrenching and doubts, but I have never again abandoned a love. And I feel really assured by the fact that the women I have loved I have loved for always.
…Solving the existential problems of love is life’s great joy. There is a kind of serenity in love which is almost a paradise…’While desire focuses on the other, always in a somewhat fetishist[ic] manner, on particular objects, like breasts, buttocks and cock, love focuses on the very being of the other, on the other as it has erupted, fully armed with its being, into my life that is consequently disrupted and re-fashioned…’ The absolute contingency of the encounter takes on the appearance of destiny. The declaration of love marks the transition from chance to destiny and that’s why it is so perilous and so burdened with a kind of horrifying stage fright. Love’s work consists in conquering that fright…In love, fidelity signifies this extended victory: the randomness of an encounter defeated day after day through the invention of what will endure.
…In Paris now half of couples don’t stay together more than five years. I think it’s sad because I don’t think many of these people know the joy of love. They know sexual pleasure – but we all know what Lacan said about sexual pleasure…To an extent, I agree with him. If you limit yourself to sexual pleasure it’s narcissistic. You don’t connect with the other, you take what pleasure you want from them…I absolutely agree that sex needs to be freed from morality. I’m not going to speak against the freedom to experiment sexually like some old arse – ‘un vieux connard’ – but when you liberate sexuality, you don’t solve the problems of love. That’s why I propose a new philosophy of love, wherein you can’t avoid problems or working to solve them…But avoiding love’s problems is just what we do in our risk-averse, commitment-phobic society. [I] was struck by publicity slogans for French online dating site Méetic such as ‘Get perfect love without suffering’ or ‘Be in love without falling in love’. For me these posters destroy the poetry of existence. They try to suppress the adventure of love. Their idea is you calculate who has the same tastes, the same fantasies, the same holidays, wants the same number of children. Méetic tries to go back to organised marriages – not by parents but by the lovers themselves. Aren’t they meeting a demand? Sure. Everybody wants a contract that guarantees them against risk.
…Love isn’t like that. You can’t buy a lover. Sex, yes, but not a lover…I think that romanticism is a reaction against classicism. Romanticism exalted love against classical arranged marriages – hence l’amour fou, antisocial love. In that sense I’m neither romantic nor classic. My approach is that love is both an encounter and a construction. You have to resolve the problems in love – live together or not, to have a child or not, what one does in the evening…Simone de Beauvoir wrote that you are not born a woman, you become one. I would say you are not a subject or human being, you become one. You become a subject to the extent to which you can respond to events. For me personally, I responded to the events of ‘68, I accepted my romantic destiny, became interested in mathematics – all these chance events made me what I am…You discover truth in your response to the event. Truth is a construction after the event. The example of love is the clearest. It starts with an encounter that’s not calculable but afterwards you realise what it was. The same with science: you discover something unexpected – mountains on the moon, say – and afterwards there is mathematical work to give it sense. That is a process of truth because in that subjective experience there is a certain universal value. It is a truth procedure because it leads from subjective experience and chance to universal value…Real politics is that which gives enthusiasm. Love and politics are the two great figures of social engagement. Politics is enthusiasm with a collective; with love, two people. So love is the minimal form of communism.’”

Trecho do livro de Alain Badiou "in praise of love". Trecho originalmente publicado em https://brittlepaper.com/2012/09/love-contract-narcissists-alain-badiou-excerpt-praise-love/ acessado em 21/06/2018

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O que é filosofia para Montaigne ?


Infelizmente não achei o autor da foto.



Pequeno texto escrito em 2005 respondendo à questão: "O que é Filosofia para Montaigne?"

Michel de Montaigne nasceu na França em 28 de fevereiro de 1533 e faleceu em 13 de setembro de 1592 com 59 anos. Montaigne era um nobre francês que teve uma erudita educação e desde cedo aprendeu a falar latim e grego, línguas que o auxiliaram bastante no desenvolvimento do seu pensamento, pois lia bastantes textos nestas línguas. 


Montaigne dedicou grande parte de sua vida na política e exerceu vários cargos na administração francesa. Depois de um tempo na vida pública, Montaigne decide se afastar do cargo e dedicar um tempo para si mesmo. Neste momento, se abrigou em sua biblioteca e dedicou-se mais a leitura de textos que gostava e começou posteriormente a escrever seu ensaios. 


Nos ensaios de Montaigne ele define o que é filosofia para ele, e como que ela deve ser exercida, e aprendida. Ele mesmo não se denominava filósofo, mas sua obra influenciou bastante, vários filósofos famosos, dentre eles René Descartes . 


Montaigne sempre criticou a forma que a filosofia era praticada pelos “filósofos” de sua época, ele criticava o uso excessivo de palavras que não querem dizer nada na maioria das vezes, ou que apenas servem para ludibriar as grandes massas, pois são bonitas de serem ouvidas. ‘Segundo ele essa palavras são de “ nenhum uso e de nenhum valor”  e essa crítica ele as estica aos filósofos que assim fazem, e não se preocupam primeiramente com a verdade. 


Para Montaigne, a filosofia deve ser um reflexo de uma vida, e não simplesmente palavras soltas ao vento. A filosofia para ele, começa com a idéia de “digestão”, segundo ele a partir da quilo que se aprende de fora, devemos digeri-lo e a partir daí criarmos algo que seja nosso, segundo ele, filosofa-se para viver, ou para aprender a viver, e apenas isso é filosofia de verdade. A filosofia é portanto algo que não tem uma idade para iniciar, ela pode ser aprendida desde criança, e é o que Montaigne recomenda a Diane de Foix, a quem é dedicado o capítulo XVI do Ensaio I . 


Montaigne propõe a Diane que estimule o seu filho a pensar por si só, até um certo ponto, Montaigne recomenda a leitura de livros, como Aristóteles , mas não, como seu exemplo próprio indica, gastar muito tempo para entender aquilo que parece obscuro a primeira vista. Para ele, a filosofia é algo simples e deve ser falado de forma simples, e quando se fala de forma muito difícil, é porque não há uma idéia bem firmada em sua cabeça. Para ele, quando se pensa bem, se fala bem como conseqüência. 


Os ensaios de Montaigne são reflexões próprias, acerca de si mesmo, e a sua pretensão, é passar uma idéia de quem ele era . É interessante notar que Montaigne era muito reservado, e é algo que ele coloca em seu ensaio III quando fala que aquilo que não mostrava a ninguém decidiu ele mostrar o povo. Pois quando escreve, ele procura tornar-se conhecido a partir de sua obra. 


Fica aqui a sugestão dos Ensaios de Montaigne para quem quiser conhecer mais sobre o filósofo. A Martins Fontes publicou tais ensaios e outras editoras também. 








segunda-feira, 14 de maio de 2018

O céu estrelado e o inconsciente - Pensamentos esparsos








Kant já dizia que o céu estrelado sobre ele era algo que ele admirava enormemente. Como ele mesmo dizia em sua crítica da razão prática: "Duas coisas que me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento dela se ocupa:o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim." Hoje com todo conhecimento que temos sobre o espaço, as estrelas, etc. para mim me faz maravilhar ainda mais com o céu estrelado. Pensar que quando olho para uma estrela estou contemplando algo que pode nem mais estar ali, que na realidade o que vejo é sempre o brilho do passado que aparece para mim agora sempre me deixa maravilhado. É intrigante pensar que aquilo que vejo às vezes já morreu há bilhões de anos atrás, mas apenas agora mostra a sua face. Como não lembrar do inconsciente freudiano que faz isso acontecer dentro de nós o tempo todo? Aquilo que julgávamos morto reaparece trazendo suas implicações em diversas áreas da nossa vida, e quando olhamos atentamente percebemos que na realidade aquilo que agora se mostra sempre esteve lá de alguma forma e está constantemente se atualizando em nós a cada dia. 
Como a luz da estrela que chega até nós vindo de tão longe, mostrando a nossa pequenez diante do universo, nos apontando para a memória do que um dia já foi, mas que nunca conheceremos, assim talvez nós estamos condenados a ter de nós mesmos apenas vislumbres, nunca nos sendo permitido conhecer o que, ou onde tudo começou em nós. Se Kant equiparava o céu estrelado à lei moral que estaria dentro dele, eu prefiro comparar o céu estrelado ao inconsciente que eu sou, ex-timo, sempre se atualizando e brilhando, mas por isso mesmo apontando apenas para uma parcela de mim, mas nunca a minha/sua totalidade.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Pós-Doutorado: O que é? O que está em jogo?








Uma das modas atuais no mundo acadêmico é o chamado "Pós-Doutorado". Acho importante explicar para quem não sabe o que é isso. Um Pós-Doutorado nada mais é que um estágio; Isso mesmo, um estágio específico em que alguém que terminou o doutorado se propõe a continuar a sua pesquisa sendo supervisionado por algum outro professor vinculado a um departamento de alguma Universidade/Faculdade. Nada mais que isso. Pós-Doutorado não é título acadêmico, mas apenas um estágio. Tanto que o nome oficial é "Estágio Pós-Doutoral".

Se pensarmos bem, a noção de Pós-Doutorado é uma noção extremamente contemporânea para tentar dar conta do excesso de doutores que se formam sem conseguir inserção no mercado de trabalho. Embora a prática de pesquisa pós-doutorais seja algo que aconteça desde sempre nas universidades contemporâneas, a ideia de transformar isso em uma prática "em massa" no meio acadêmico é extremamente recente. Até algum tempo atrás era bastante comum entrar como professor efetivo em alguma universidade possuindo apenas o título de Mestre. (Aqui devo ressaltar que falo especificamente da área de humanas que é a grande área da minha formação. Tenho plena consciência de que em algumas áreas como "saúde", "engenharias" e outras isso nem sempre se aplique por uma questão meramente mercadológica.)

Na área de humanas hoje em dia é praticamente impossível o sujeito conseguir entrar em alguma universidade possuindo apenas o título de mestre, embora saibamos que aconteça. Talvez a grande exceção nessa área de humanas seja a pedagogia em que várias vagas são ofertadas dado o excesso de oferta de cursos em faculdades e universidades. Nas outras áreas das humanas a situação é completamente diferente. Como o mercado para a área de humanas se restringe basicamente às licenciaturas nas quais os salários são baixíssimos (O piso salarial dos professores para 2018 está previsto para ser R$ 2.455,35) e as condições de trabalho nem sempre são das melhores, a maioria das pessoas que formam nessas áreas preferem seguir a pesquisa acadêmica no mestrado, e caso ainda haja fôlego seguir para a pesquisa no doutorado. Do ponto de vista econômico na área de humanas, a promessa de um salário melhor ensinando nas universidades cria a ilusão de que compensa investir 6 anos a mais de estudo (2 anos de mestrado e 4 de doutorado). Neste sentido há um estudo muito interessante que associa a vida acadêmica ao mundo das drogas publicado por Alexandre Afonso no site da LSE (London School of Economics).

Apenas a título de comparação basta vermos quanto que um médico, um engenheiro ganha assim que forma na graduação. Se pegarmos o exemplo da engenharia, no site do SENGE é possível ver que o piso salarial para o engenheiro formado na graduação deveria ser o correspondente a 8,5 salários mínimos, o que em 2016 daria, em uma jornada de 8h diárias, o valor de R$ 7480,00. Para o caso da medicina a questão ainda é mais assustadora, pois como pode ser consultado no site da FENAM o piso pleiteado para 2017 era de R$ 13.847,93 para 20h semanais. Estes pisos salariais nos dão a dimensão do quão mais escassa é a procura por pós-graduações, mestrados, doutorados nessas áreas. Venhamos e convenhamos, para que alguém que com uma graduação ganha no mínimo R$ 7480,00 ou R$ 13.847,93 vai se dedicar a mais 6 anos de estudo (2 anos de mestrado mais 4 de doutorado) para pleitear uma vaga como professor universitário cujo salário inicial é de R$ 9.585,67 para 40h semanais? A não ser que seja um desejo particularíssimo do sujeito dessas áreas, do ponto de vista econômico não faz nenhum sentido investir na pós-graduação nessas áreas.

É importante ressaltar que dentro da própria academia se parte de uma espécie de homogeneização em que em vários momentos parte-se do pressuposto que "Todos devem fazer mestrado e doutorado" de forma que até mesmo a graduação é transformada em algo "menor", de "valor nenhum" dentro da academia. Nesse discurso velado (mas nem sempre tão velado assim) se esconde uma opressão enorme sobre os estudantes que várias vezes entram no caminho da pesquisa e isso se torna algo extremamente sofrido. É interessante observar como que o nível de stress, depressões, crises são bastante comuns entre os estudantes de pós-graduação. Chego a arriscar que muitos entram na pós-graduação por conta dessa opressão velada que sentem já durante a graduação e várias vezes tem pouca coisa a ver com o desejo do sujeito. Entre diversos professores é visto esse desprezo com a graduação como algo "menor", pois as aulas na graduação não pontuam no currículo Lattes e por isso "atrapalham" a produção de artigos, capítulos de livros, etc. que são cruciais para o professor caso queira solicitar uma bolsa de pesquisa junto às agências de fomento, etc. Dedicar-se à graduação acaba se tornando uma espécie de "fardo" para diversos professores universitários que prefeririam pesquisar ou lecionar na pós-graduação em que a chance de produção de artigos sobe vertiginosamente, o que propiciaria para ele mais pontuação no currículo, o que geraria mais dinheiro, mais renda, etc.


Voltando ao Pós-Doutorado, penso que já fica claro onde se encontra a questão. De um lado temos um excesso de novos doutores se formando todos os anos nas áreas de humanas sem ter onde trabalhar, pois os concursos para essas áreas são cada vez mais escassas. Por outro lado temos diversos professores efetivos que não estão muito afim de darem aula nas graduações pelos motivos expostos acima nesse texto. Dessa forma podemos entender porque atualmente os estágios pós-doutorais estão em alta não só nas universidades brasileiras, mas no mundo todo.

Via de regra um Pós-Doutorado, para quem já está contratado em alguma universidade/Faculdade, é uma boa oportunidade para dar um tempo no trabalho e focar em alguma pesquisa que queira, além de geralmente ser uma boa oportunidade para viajar e conhecer outros lugares, conhecer outros pesquisadores, etc. Para quem ainda não está contratado em alguma universidade/Faculdade o Pós-Doutorado é uma forma de se manter vinculado à universidade/Faculdade e tentar fazer algum network para alguma vaga de trabalho. Além de ser várias vezes A ÚNICA fonte de renda do recém-formado Doutor.

Na maioria das vezes os alunos de Doutorado recebem bolsa de pesquisa durante o doutorado como forma de se dedicar "exclusivamente" à pesquisa. O valor da bolsa de doutorado hoje é de R$ 2.200,00. O bolsista, para receber a bolsa, não pode possuir vínculo empregatício (salvo raríssimas exceções) e deve se dedicar exclusivamente à vida acadêmica participando de simpósios, dando aulas, etc. Quando termina o doutorado a bolsa de pesquisa acaba e o sujeito agora está sem nenhuma renda e sem nenhuma perspectiva de trabalho na sua área. O que resta para ele? Buscar uma bolsa de Pós-Doutorado para conseguir se manter ou iniciar algum trabalho que não tem nada a ver com sua área de formação para se sustentar.

Neste sentido percebemos que o Pós-Doutorado se torna algo extremamente interessante para os dois lados envolvidos. O Recém-Doutor desempregado e a Universidade. Para a Universidade é um negócio excelente porque ela terá uma mão de obra super qualificada (afinal o sujeito é um doutor em sua área de conhecimento) fazendo basicamente o mesmo trabalho que um professor efetivo, mas recebendo metade do valor e sem vínculo empregatício (O valor da bolsa hoje é R$ 4100,00 enquanto o salário inicial de professor Adjunto nas universidades federais é de 9.585,67 ) e para o pós-doutorando também é um negócio relativamente viável, pois em sua maioria ele terminou o seu doutorado e agora não tem mais renda alguma, uma vez que a bolsa das agências de fomento se encerraram e as vagas para trabalhar como professor em alguma universidade/faculdade simplesmente não aparecem.

Assim podemos entender o porquê dos pós-doutorados estarem em moda. Ele acaba se tornando a única forma de um Recém-Doutor obter renda, além de ser uma boa oportunidade para viajar (sem gastar nada) para quem já está empregado em alguma universidade. Obviamente que o discurso de ambos os lados se torna extremamente ideológico, pois justificam isso a partir de noções como "amor à pesquisa", "disseminar o conhecimento", "contribuir com o avanço da área", etc., no entanto, no fundo da questão o que realmente está em jogo é uma questão financeira totalmente aliado à dinâmica do capital. A produção acadêmica na maior parte das vezes tem muito pouco a ver com conhecimento e muito mais a ver em como tal conhecimento gerará dinheiro para quem produz esse conhecimento. De alguma forma isso é triste, mas não podemos ser ingênuos acreditando ainda em uma espécie de "pureza" da busca pelo conhecimento. A lógica da produção acadêmica é mercadológica; o que está em jogo em última instância é apenas a dinâmica do capital na sua forma ideológica mais pura, no entanto o produto vendido e oferecido é "conhecimento" e a máscara ideológica utilizada é a ideia de "produção de conhecimento".

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A solitária resistência dos professores - Artigo de Massimo Recalcati




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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Star Wars, Zen Budismo e Cristianismo: Um diálogo inter-religioso







O cristianismo é em si uma religião muito interessante, talvez uma das mais interessantes do ponto de vista do ocidente e porque não dizer, talvez a única religião possível no ocidente. Não me entendam mal quando digo "a única religião possível no ocidente", o que tenho em vista não é uma espécie de visão de superioridade da religião cristã em detrimento de outras religiões, mas o que tenho em mente é que a própria mentalidade ocidental está baseada em noções cristãs. 

Um aspecto interessante do nosso tempo, no entanto, é o constante esvaziamento dos diversos relatos que sustentam de alguma forma a nossa realidade; é como se de alguma forma, a nossa hipermodernidade tivesse que ser capaz de enfrentar o vazio que a assola sem nenhum tipo de discurso capaz de nortear definitivamente o sujeito. O discurso religioso perdeu sua autoridade, a política perdeu sua autoridade, a ciência perdeu sua autoridade, a própria razão perdeu a sua autoridade, ou seja, o que restou para o sujeito hipermoderno é apenas um "si-mesmo" fragmentado diante de uma realidade extremamente multifacetada com a qual o sujeito não dá conta de lidar. Aqui podemos entender o pipocar de novas religiões, novas formas de espiritualidades, novas propostas de diálogos inter-religiosos que, a meu ver, perdem um pouco o foco da questão. 

De uma certa forma podemos dizer que os chamados "novos espiritualismos", ou se preferirem o movimento da Nova Era entram no cenário ocidental exatamente no momento em que os discursos reguladores entram em declínio. É deste momento uma ênfase em uma espécie de espiritualidade autêntica capaz de sobrepujar a ilusão da realidade em nome de uma realidade superior, de alguma forma inacessível e que apenas mediante um esforço hercúleo do sujeito seria capaz de ser alcançado. Não é nem um pouco curioso que o budismo tenha alcançado diversos adeptos no ocidente pós-década de 60. A sabedoria oriental acaba funcionando como uma espécie de sutura no buraco aberto pela perda dos meta-relatos reintegrando a fragilidade humana na ordem cósmica. Nada melhor que uma visão holista do mundo para recolocar a questão do sentido perdido e restaurar a noção de vazio, mas agora sob um aspecto "ontológico", enquanto organizador de sentido para além de qualquer sentido.

Esse "nada" almejado pelo Zen budismo a partir da noção do Nirvana se mostra como uma tentativa, no ocidente, de reintegrar o sujeito perdido da hipermodernidade em um universo de sentido, ou seja, o sujeito desbussolado encontra um possível norte se reintegrando à ordem das coisas por meio da compreensão do seu lugar no mundo, da condição da sua alma, do seu corpo, etc. É como se numa curiosa torção a razão ocidental em declínio precisasse voltar para o Oriente na busca de algo que a há sobrepusesse, uma espécie de "racionalidade 2.0" capaz de reintegrar a ordem do cosmos perdido.

Mas não seria a proposta cristã no Ocidente o anverso desta visão holista proposto pelos orientais? No cerne da mensagem cristã não estaria exatamente o oposto de uma visão holista, mas apenas o abraçar do caos tipificado no exemplo do Cristo que é abandonado por Deus na cruz? 

Neste sentido entendemos porque que Star Wars se encontra completamente alheio ao universo cristão. Para além da questão moral envolvida, (onde geralmente a questão se coloca, a meu ver de forma completamente equivocada) o que está em jogo no mundo de Star Wars é muito mais uma visão holista em relação à necessidade da "força" como organizadora do mundo, como ela sendo algo que penetra em todos e ao mesmo tempo é responsável por uma espécie de "equilíbrio do mundo", do que a proposta de ruptura que o cristianismo propõe. Um ponto interessante é a vinculação que se tenta fazer no universo de Star Wars entre a propriedade metafísica da força e seu aspecto biológico. Basta lembrar que Anakin Skywalker possui um número de células específicas em quantidades absurdamente maiores que a média das crianças de sua idade, o que já aponta para uma tentativa de biologização das capacidades do uso da força. Em última instância é como se o uso da força fosse possível a partir de uma espécie aleatória de combinação genética. Não estaria aqui exatamente o ponto em que a ciência contemporânea insiste em tentar reduzir o sujeito a apenas um conjunto de sinapses e interações neuronais? Neste sentido podemos pensar que Star Wars funciona como uma espécie de "grito de socorro pop" em um mundo onde não há mais discurso organizador; talvez aí podemos entender o sucesso da saga que até hoje arrebata milhões ao cinema. Michael Heim, em seu interessante livro "The metaphisical of virtual reality" (1993) chega a afirmar que toda metafísica contemporânea seria uma espécie de resposta a Star Trek. Embora não fosse tão longe assim, acredito que a ideia é interessante para o ponto que estamos colocando aqui, ou seja, a tentativa do ocidente de retornar a uma visão holista de mundo diante da quebra dos meta-relatos. 

Neste mesmo contexto que entendemos aquilo que chamamos de "religião light", ou seja, uma tentativa de reintegrar no universo do capitalismo tardio uma tentativa de espiritualidade. E aqui é interessantíssimo pensar em que medida o budismo ganha muita força na nossa sociedade do capitalismo tardio funcionando como suporte ideológico para tal capitalismo. Hoje em dia é bastante comum vermos diversos lugares oferecendo práticas de meditação para executivos, Yoga para produzir melhor, a proposta de um auto-conhecimento como forma de expandir seus relacionamentos e contatos, etc. É como se para produzir melhor a sensação de pertencimento a um mundo de sentido holista precisasse estar presente, e ao mesmo tempo, o suporte ideológico do budismo funciona como uma espécie de ontologização desse nada como forma de garantir ao sujeito um novo pertencimento. O que se perde de vista nesse budismo vulgar é a noção de que o Zen Budismo não defende um fortalecimento do Self, mas sim a consciência de que na realidade não há Self, a consciência de que até mesmo o Self é ilusório. A proposta do Zen budismo é muito mais estrutural do que o capitalismo tardio quer fazer parecer na sua apropriação dessa religião. 

A reforma protestante de uma certa forma inaugura a modernidade ocidental e ali está o que aqui chamo de ruptura provocada pelo protestantismo que em grande medida é o anverso do Zen Budismo. Quando no protestantismo o homem pode ter acesso direto a Deus por meio da Bíblia, não mais precisando da mediação da instituição, abre-se caminho para o que se tornará a tônica desse sujeito que visará mais do que nunca se aproximar de Deus por si mesmo. No entanto, a ruptura maior trazida pelo protestantismo é a responsabilização plena do sujeito diante da realidade do mundo sem a possibilidade de nada além dessa responsabilidade. É aqui que a noção de predestinação é importante para o protestantismo. Como não tem como saber se sou ou não predestinado à salvação ou à perdição cabe a mim agir de forma a ter sempre o bem como meta. O que acontece é que não há uma dinâmica de "troca" (lembremos toda a crítica de Lutero às indulgências, etc.) entre Deus e homem, mas há apenas a responsabilização do sujeito por todo o bem que ele pode fazer. Aqui percebemos o cerne da questão Weberiana em "A ética protestante e o espírito do capitalismo", é só a partir do momento que a salvação não mais depende do homem, não mais depende de trocas é que é possível agir de maneira a querer sempre mais, a produzir sempre mais, etc.

O protestantismo neste sentido marca o nosso ocidente de uma forma tal que é impossível retornarmos a uma visão holista da realidade. O Deus que morre na cruz evidencia que aquela visão antiga de um Deus que habita os céus e está pronto para intervir no mundo também morre ali, ou seja, o cristianismo atesta para o mundo que há apenas o mundo e mais nada, mas notem que esse Nada não é o Nada do Zen Budismo, mas uma ausência até mesmo de sentido que antes se ancorava no próprio Deus que precisou morrer. Ao invés de uma ordem holista do mundo, o cerne da mensagem cristã está na realidade plena do mundo, não como aparato ilusório da realidade. A realidade é o que ela é, por mais que seja impossível conhecê-la de fato. (Aqui não tem como não lembrar da distinção kantiana entre númeno e fenômeno). A realidade não é algo para além do fenômeno, como um lugar que teríamos um acesso privilegiado de alguma forma, mas a realidade é puro fenômeno, assim como Jesus é Deus que se revela e é essa a ruptura que torna o cristianismo a única religião possível no ocidente. O próprio ocidente é marcado por essa noção de ruptura que de tempos em tempos ocorre e a Nova Era e o movimento Zen Budista dentro do capitalismo tardio é uma tentativa de retomar um mundo perdido a partir do momento que Deus se fez homem e habitou entre nós. 

sexta-feira, 30 de março de 2018

Idealizações e decisões.







Às vezes o caminho será árduo, vislumbraremos apenas pequenos raios de luz. A neblina encobrirá o nosso caminho, e cada passo que tentarmos dar será sempre um ato de fé. Nesses momentos é preciso muito mais que confiança em nós mesmos, é preciso que para além da confiança em nós haja um algo a mais, uma força que nos permitirá agir de forma que cada passo se transforme não apenas em uma continuação da caminhada, mas sim uma decisão.

O lugar para onde caminhamos será sempre incerto. Quem dera de antemão tivéssemos a ciência do exato lugar para onde iríamos. Várias vezes isso pode ser considerado uma benção, mas não raras vezes ficamos como os ciclopes enganados por Zeus vislumbrando apenas o dia da nossa morte, o futuro que se abriria para a esperança se fecha para o fim de todos em um vislumbre que é pura ilusão sem sentido. Não seria isso uma forma interessante de idealização? Não estaria no cerne de toda idealização apenas o vislumbrar da morte da própria idealização impossível na crueza da realidade? Nós, os hipermodernos, que não acreditamos em mais nada ainda mantemos em nós diversas idealizações sobre as nossas realizações. 

Idealizamos o trabalho como o lugar em que de alguma forma eu serei reconhecido, farei algo útil, darei sentido à minha vida e a dos outros. Idealizamos o nosso relacionamento afetivo na esperança que ele seja sempre o melhor relacionamento possível, de que seremos capazes de sobreviver a qualquer tormenta, contando que exista amor entre as partes. Idealizamos um mundo em que não haja a necessidade da guerra, da desordem, mas que tudo se harmonize dentro da melhor concepção de mundo possível. Em última instância podemos dizer que todos nós idealizamos as coisas. Aquele que caminha vislumbra que quando chegar até à sua casa estará a salvo de todas as intempéries, e por isso segue caminhando mesmo contra toda a prova. O risco que ele corre é enorme, afinal, não há nenhuma garantia que dentro da casa haverá o conforto que ele procura, nem mesmo se a casa resistirá às intempéries que lhe serão acometidas. No entanto, a única coisa que se pode fazer é caminhar em direção à casa e torcer que tudo dê certo.

O mundo contemporâneo acaba demandando de nós que tenhamos todo o controle sobre todas as coisas o tempo todo, no entanto, essa demanda se mostra impossível pela própria condição do homem e a condição da natureza que se mostra alheia a toda tentativa de padronização. Neste sentido o mesmo mundo que gera em nós a tara pela idealização, pelas causas que "podem ser diferentes" provoca em nós a culpa por não podermos atingi-las. Nesta espiral crescente cada vez mais o sujeito se sente como quem anda sozinho, como que em meio às suas relativizações constantes o único abrigo que encontra é a si mesmo. Quem dera, no entanto, que esse sujeito fosse pelo menos "senhor na sua própria casa" (para usar a expressão de Freud), se se sentisse de fato no controle de suas ações, mas nem isso hoje mais é acreditado pelo sujeito contemporâneo esclarecido. Curiosamente em uma sociedade em que cada vez mais a noção de responsabilidade é alargada (responsabilidade pelo que come, pelo que veste, pelo que fala, pelo a forma como deve agir, etc.), mais o sujeito se mostra na tentativa de se eximir de tal responsabilização por meio de constantes determinismos a que se impõe (social, econômico, teológico, etc.). Neste tortuoso caminho em direção a um lugar onde possa descansar, o sujeito não sabe mais o que o espera. 

Um triste diagnóstico desse homem que caminha sozinho em meio a neblina na esperança de alcançar um lugar seguro. Às vezes é hora de aceitar o fato de que não existe mais lugar seguro, não existe mais um meta-relato que sustentará o seu mundo, não existe mais um discurso totalizador que organizará tudo em um universo de sentido, mas o que existe é apenas um caminhar, um ato, uma decisão do sujeito que insiste em criar diariamente o seu caminho em meio à neblina; e nesse caminho vai se descobrindo e descobrindo outros que assim como ele caminha na busca de um lugar onde possa se abrigar para resistir às intempéries. Quem sabe não encontrará um sentido provisório naquela casa que tanto visa alcançar? 

A foto que ilustra esse texto foi tirada por um meteorologista russo que viveu em uma expedição no Ártico por 30 anos. Dele não se sabe o nome, não se sabe onde está. Se sabe apenas das fotos. Não seria ele o protótipo do funcionário padrão da atualidade em que a única coisa que importa é o seu produto e nunca a sua identidade?