sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O hábito da Filosofia: ou Sobre a arte de lidar com minhocas.




Foto da Glowworm caves na Nova Zelândia. As luzes são emitidas pelas minhocas que habitam a caverna.  
Disponível em https://paraondefor.com.br/glowworm-caves-caverna-das-minhocas-brilhantes/


Nós, os filósofos, temos uma certa "tara" por minhocas. Cultivamos diversos tipos delas nos mais diversos solos e nas mais diversas condições climáticas. Para mim, uma condição necessária para se ser um bom filósofo é meio que gostar de cultivar minhocas. 
No entanto, nossas minhocas são um pouco diferentes daquelas do pescador, daquelas das pessoas que aram a terra, adubam, etc. As nossas minhocas passam por questões que várias vezes nem sequer existem, mas passam a se colocar como problemas porque nós as elegemos como tais. 

Obviamente que todos nós, não somente os filósofos, cultivamos minhocas de vez em quando. Aquela sensação de algo vai dar errado, aquela sensação de que alguma coisa não está certa quando tudo está normal, aquela sensação de que somos feios, gordos, desinteressantes, que ninguém nos amará, que somos barrigudos, que somos uma farsa ambulante, que somos o pior dos seres humanos sobre a face da Terra, que não somos bons em nada, que nossa profissão não é o que gostaria de fazer, que minha vida não tem sentido, etc. tudo isso é o que aqui chamo de minhocas e que tenho certeza que qualquer leitor desse texto já cultivou alguma em algum período da vida. 

Claro que algumas dessas minhocas são mais frequentes em épocas pontuais da nossa vida. A questão da aparência é típica da adolescência e todos os traumas advindos dessa fase nebulosa; as questões referentes aos laços mais sólidos é típica da fase infantil, em que as relações basilares da vida do sujeito estão sendo construídas, etc. A questão do se sentir uma farsa tem muito a ver com a idade adulta e o discurso do capitalismo tardio em que nunca se está com conhecimento suficiente, nunca se é bom o bastante, etc. Não preciso dizer, entretanto, que isso não é "rígido"; ou seja, dependendo da vivência de cada pessoa, algo que seria comum acontecer durante a infância passa a acontecer na adolescência, na fase adulta, etc. Cada caso é um caso quando se trata de criação de minhocas. 

No caso específico de nós filósofos, as minhocas desempenham  um papel crucial para o exercício da nossa função, afinal, é com elas que trabalhamos. Não nos aventuramos a mexer com quase nada que não sejam minhocas. No entanto, nossas minhocas são várias vezes criadas e cultivadas por nós mesmos e debatidas e compartilhadas entre nós mesmos. Quem mais sofre quando se convive com um cultivador profissional de minhocas são os mais próximos. Afinal, são eles que tem que nos lembrar diversas vezes que nossas minhocas nem sequer existem na realidade, e que se caso fôssemos cultivar minhocas seria muito mais proveitoso cultivar minhocas reais do que minhocas imaginárias. Não é raro vermos os próximos de nós propor uma espécie de "giro wittgensteiniano" para nos dizer que na realidade o que estamos tratando são falsos problemas e trazer a questão para o plano da "realidade". Nem sempre esse giro resolve o problema, mas tem sido uma prática bastante utilizada por pessoas próximas a cultivadores de minhocas. 

No entanto, nem tudo são ônus para os que convivem com cultivadores de minhocas. Como cultivamos vários tipos de minhocas e como as cultivamos por muito tempo e em diferentes solos, somos experts em identificar as minhocas quando elas aparecem naqueles que nos são próximos. Neste sentido, os amigos dos cultivadores de minhocas se beneficiam bastante dos nossos saberes, pois as identificamos muito facilmente e somos capazes de arrancar as minhocas dos solos alheios com certa destreza. Eu na minha experiência de vida já transitei por diversas terras cheias de minhocas e fui capaz de arrancá-las de maneira bastante hábil. Ainda hoje retiro minhocas de terrenos quase que semanalmente e de diversas pessoas. 

Mas como diz aquele velho ditado (talvez o meu segundo ditado preferido, pois o primeiro é "enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé") "em casa de ferreiro, o espeto é de pau", ou seja, nós, tão hábeis em arrancar minhocas alheias, encontramos uma dificuldade assombrosa em arrancar as minhocas em nossa própria propriedade; pelo contrário, ao invés de arrancá-las, nós as cultivamos, alimentamos, as transformamos em verdadeiros monstros que quase nos dominam de forma assombrosa. O grande desafio para nós, os cultivadores de minhocas profissionais, é de fato não deixar que as minhocas dominem o nosso terreno, mas que nós as dominemos. Obviamente que nem sempre somos capazes de fazer isso sozinho, e é exatamente nessas horas que os amigos aparecem, pois eles são capazes de (talvez por já nos ter visto atuando em algum momento) retirar habilmente as minhocas de nossas terras. Os métodos variam de amigo para amigo. Alguns são mais incisivos e as retiram a machadadas no melhor estilo nietzscheano e sua filosofia do martelo, outros procuram um viés um pouco mais sutil, cercando o terreno, vislumbrando o deslocamento delas para depois as retirarem de forma bastante delicada; os estilos são tão variados quanto são os amigos que lidam com isso conosco. Nesse contexto também temos outros profissionais que lidam especificamente com minhocas alheias (embora acredite que eles também possuem certas dificuldades em lidar com suas próprias minhocas) que são os psicólogos, psicanalistas, professores, etc. 

Como já deve ter ficado claro, lidar com minhocas é algo que todos nós fazemos e podemos dar nomes clínicos para diversos dessas minhocas com as quais lidamos. Algumas são reais e demandam remédios, outras são imaginárias, outras são meio que reais, meio que imaginárias, mas em todo caso sabemos que nem toda minhoca é "em si" um problema, mas o problemático é a forma como resolvemos lidar com elas, o espaço que deixamos elas ocuparem em nosso terreno, o que as deixamos fazer em nossa terra. Saber cultivar e arrancar minhocas é uma tarefa árdua até para os profissionais, quem dirá para o leigo.  De toda forma, caso necessite de alguém que trabalhe com minhocas, lembre-se que nós, os filósofos, somos experts nesse tipo de problema e somos capazes de resolver uma boa parte dos problemas com minhocas em terras outras, mas temos muitas dificuldades para resolver em nossas próprias terras. Para resolver em nossas próprias terras sempre precisamos de amigos, psicólogos, psicanalistas, professores, etc. etc. etc. 

Caso você esteja enfrentando sérios problemas com minhocas procure ajuda. Um psicólogo, um psicanalista, um psiquiatra, um filósofo, cada um com seu método de tratamento. No caso do filósofo será muito mais um auxílio por meio de uma boa conversa do que propriamente um "tratamento". No caso de tratamento recomendo mais um psicólogo, um psicanalista, talvez um psiquiatra, tudo dependendo sempre do tipo de minhoca que anda transitando em suas terras. E claro, às vezes um amigo da Letras, um amigo da Música, um amigo das Artes também podem ser de grande valia, pois te ajudará a perceber facetas que nem sempre você foi capaz de perceber enquanto cultivador de minhocas profissional.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A doçura de caráter - O ceticismo de Pirro



Fonte da imagem: https://veja.abril.com.br/revista-veja/a-licao-de-pirro-para-2018/



Pirro de Élida, foi um dos grandes filósofos da antiguidade, que trouxe uma novidade no pensamento grego antigo. Mesmo sendo considerado um cético pelos escritores posteriores à sua época como exemplo de Cícero, Sexto Empírico, dentre outros , a sua filosofia pode ser considerada como cética no sentido em que aquilo que Pirro defendia era a suspensão do juízo e a busca da ataraxia através da adiaforia. Pirro por si só não escreveu nada, a não ser uma poesia dedicada a Alexandre . O que nos chegou de Pirro foi escrito por seu discípulo mais próximo Timão, que fez um relato das idéias e dos ensinamentos de seu mestre.

Pirro, viajou com Alexandre pelo Oriente, e isso fez uma grande diferença em seu pensamento, uma vez que entrou em contato com o pensamento do Oriente, especialmente com os gnosofistas, (ordem de provável origem indiana que se dedicavam ao estudo da ética e da física como prática da virtude)  e segundo se falam, Pirro presenciou a morte de Cálamo, que mesmo enquanto estava sendo queimado, mostrava-se tranqüilo em relação a situação que estava vivendo. Claro que não podemos esquecer da influencia de Demócrito de Abdera e de Anaxarco que o ensinaram muitas coisas e influenciou bastante seu pensamento como também Brison, do qual Pirro foi discípulo.

A principal característica de Pirro, era duvidar de tudo e ser indiferente a tudo, (adiaforia) esse era o ceticismo de Pirro. Para Pirro a epoché ( suspensão do juízo) é caminho que o sábio deve fazer para alcançar a paz de espírito ou ataraxia. A dúvida cética não se referiria às aparências ou fenômenos que são evidentes, mas em relação às coisas que nos são ocultas. A Pirro é também atribuída os dez tropos, ou razões da dúvida, dos quais neles se inserem as contradições do sentido.

A vida de Pirro se caracterizou pela sua total indiferença em relação às coisas, o seu principal propósito era a ataraxia e a busca de uma boa regra de conduta. Segundo Pirro, para que essa ataraxia fosse alcançada, o sábio deveria suspender seu juízo sobre as coisas. A epoché e adiaforia são as principais características de Pirro e que ele tentou passar a seus discípulos. Pirro se negava a discutir com os filósofos de sua época; a sua única resposta é que ele não sabia nada, e assim o fazia para viver uma vida isenta de preocupações, e viver tranqüilo e feliz. Pirro fez da dúvida, um instrumento de sabedoria, moderação e firmeza.

Os relatos sobre a vida de Pirro, mostram que ele vivia com seu espírito inabalável, mesmo quando as situações adversas lhe aconteciam. Sua uniformidade de alma era inalterada e praticava com serenidade a indiferença que ensinava. Era venerado por seus discípulos por viver de acordo com aquilo que pregava, e era isso que dava autoridade a seu discurso.

Concluindo, ao contrário das religiões em sua forma mais comum, nos quais se abandonam as coisas da vida na espera de uma recompensa, (quer tal recompensa seja pensada como reencarnação, lei de causa e efeito, vida eterna, etc.) a vida de Pirro era de indiferença, não por causa dessa espera, mas porque via nisso uma forma de viver feliz, era como se fosse algo de sua própria natureza essa indiferença. Algo que fica bem notado é a influência que o pensamento oriental e gnosofista teve na vida de Pirro juntamente com os pensamentos de Buda. A vida de Pirro foi portanto um exemplo para os seus seguidores, podemos afirmar que em Pirro se manifesta a ideia de que a doçura de caráter é a última palavra do ceticismo. 

terça-feira, 27 de novembro de 2018

José e Maria indo para Belém.







O individualismo político como grande paradoxo do mundo globalizado nos mostra que a proposta de uma aumento da liberdade no domínio do capitalismo não passa de uma ideia abstrata e falaciosa. Quanto mais se advoga liberdade, mais se vê o recuo do sujeito contemporâneo alheio a qualquer forma de empatia para com o próximo.  Este cenário se tipifica de maneira visível no excesso de protecionismo econômico e no excesso de muros que cada vez mais cercam os territórios como forma de proteção contra o próximo visto como ameaça. É neste contexto que se coloca a questão dos imigrantes na Europa, a questão mexicana nos Estados Unidos, os Venezuelanos no Brasil e vários outros exemplos mundo afora. 

Talvez aqui esteja o cerne da proposta de Jesus tipificada nos evangelhos, uma liberdade que não passa pelo individualismo contemporâneo, mas uma liberdade que tem na comunidade a sua única condição de possibilidade. É talvez por isso que podemos dizer sem sombra de dúvida que a proposta comunitária de Jesus e dos discípulos no início do cristianismo vai na contramão da proposta do capitalismo tardio do individualismo exacerbado. Trava-se uma luta entre uma visão comunitária do humano e uma visão individualista em que nada além do sujeito importa. O que fica claro para nós é que esta dinâmica são totalmente relacionadas.  De um lado a aposta em uma possibilidade da vida comunitária para além da lógica do capital, do outro lado o individualismo como resposta última que esvazia o sujeito de todo vínculo para além de si. Claramente uma se coloca como grande antítese da outra, em que a primeira é esvaziada em seu núcleo mais íntimo e o que sobra seria apenas a sua face performática tipificada nas novas agremiações, pseudo-pautas, etc.  

Neste contexto podemos perceber porque hoje os novos espiritualismos chegam com força no nosso meio, pois eles apenas reforçam o individualismo numa busca incessante de reforçamento do eu e um esquecimento do outro.  Da mesma forma percebemos porque o discurso neopentecostal encontra grande repercussão social, pois ele apenas reflete de maneira material aquilo que os espiritualismos contemporâneos manifestam do ponto de vista majoritariamente performático.  A lógica da performance é a lógica do capitalismo tardio, e por isso que é fácil de perceber como que as duas facetas que mais crescem na religião contemporânea são facetas também performáticas, afinal essa  é a lógica defendida pelo capitalismo tardio da produção incessante. O que se produz incessantemente neste contexto é a busca de si, a visão econômica, quantitativa, performática do sujeito em que ele é avaliado pela própria dinâmica da produção incessante de si, da busca incessante do "mistério", do "novo", etc. 

Não dizemos mais que a religião é o "ópio do povo" ou "o suspiro da criatura oprimida" como Marx gostava de falar, mas dizemos que hoje a religião (pelo menos a institucionalizada) [sobre esta diferenciação crucial, leia aqui] é o sintoma do sujeito desbussolado dominado pelo capitalismo tardio. Restaurar o núcleo duro da religião talvez seja a tarefa mais árdua para os dias atuais, pois uma religião que se alia ao poder advindo do modo de produção já perdeu em grande medida a sua condição de possibilidade de alterar o status quo. O que resta para ela é apenas a reprodução cega da desigualdade, ou medidas paliativas que em nada atingem a estrutura social.  E aqui percebemos de forma fundamental a falácia do discurso da liberdade. De certa forma se é livre para se adequar ao modo de produção, mas nunca para o subverter. A partir do momento que a própria religião institucionalizada funciona como modo de perpetuação dessa dinâmica, percebemos claramente como que uma coisa se une a outra na contemporaneidade. 

Se observarmos os evangelhos percebemos que Jesus nos ensina a construir casas, nos ensina a plantar, nos ensina a dividir, mas em hora nenhuma ele propõe a construção de muros, pois a proposta cristã em seu núcleo mais íntimo nunca foi a proposta da segregação, da separação, do "nós contra eles", mas sempre foi a do acolhimento, da hospitalidade e do amor para com o próximo. Este é talvez o núcleo esquecido do cristianismo que, quando relembrado, poderá restaurar a sua importância em um mundo secularizado. 


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Camarotização, Individualismo. De Lipovetsky de volta para Marx.





Para entendermos o tema da camarotização acho que seria muito legal pegar a ideia do Gilles Lipovetsky que ele trabalha no livro Felicidade paradoxal (2007) no qual ele define as três grandes fases do consumismo no ocidente.

A primeira fase seria aquela do início da revolução industrial em que apenas uma pequena parcela tinha acesso aos bens de consumo porque todos eram muito caros. É a época que segundo ele iria de 1870 a 1930, e se caracterizava pelo pequeno acesso da população aos bens do consumo.
A partir da década de 1930, Lipovetsky aponta que houve uma melhora na economia e pelo menos nos EUA o surgimento de um revitalizar econômico (que no brasil é o período de Getúlio e o ganho de renda e questões trabalhistas, se quiser contextualizar) que permitiu que mais pessoas pudessem consumir. Esse período iria dos anos 1930 a 1960 e caracterizaria a segunda fase do consumismo na visão de Lipovetsky. Nesse período há uma maior possibilidade de consumo por parte de uma camada maior da sociedade. Dessa época é que surgem os Wallmarts da vida e as grandes lojas de departamento para tentar dar conta das novas demandas das camadas mais baixas da população. O corolário desse processo é o conhecido “American way of life” típico das décadas de 1950 e 1960.

Após da década de 1970 com os movimentos contestatórios e a queda dos chamados metarrelatos (LYOTARD, 1984), o que se começa a perceber é que o consumismo começa a ganhar novas formas e novos produtos. Essa seria a terceira fase para Lipovetsky que culminaria naquilo que vivenciamos hoje de forma extremamente visível. Nesta fase, segundo ele, o que se consome é extremamente “tudo”, ou seja, o consumismo passou a dominar todas as esferas da vida, e isso se dá a partir do momento em que o que se almeja consumir não é mais apenas um produto, mas sim uma “experiência”. O que importa mais não é tanto a aquisição de uma mercadoria, mas muito mais a “experiência diferenciada” ao lidar com aquela mercadoria. E neste sentido, para além de querer uma mercadoria, o que se quer é em última instância a experiencia. Daí que hoje em dia estar em voga a aquisição de viagens, noites em spas, suítes personalizadas, voos em cabines executivas, etc.

É neste contexto que acho interessante colocar a camarotização. Ela só é possível com o avanço do capitalismo de forma que tudo vira objeto de consumo. Ao mesmo tempo em que se perde a noção de “comum”, uma vez que tudo passa a adquirir um preço em que apenas uma pequena parcela da população seria capaz de ter acesso. Na promessa da camarotização o que está em jogo é que se é possível comprar uma experiência diferenciada. Esta proposta só é possível dentro de um individualismo ferrenho em que vivemos na contemporaneidade. Neste sentido, uma das formas de sair disso é reinventar o conceito de algo “comum” (e aí a proposta do Pierre Dardot e do Christian Laval em seu livro com o título “Comum. Ensaio sobre a revolução no século XXI se torna extremamente interessante). Para esses autores é reinserindo no ocidente a noção de comunidade (quer seja de interesses, quer seja de afeições físicas, etc) que será possível sair da noção de que tudo pode ser objeto de consumo, sair da dinâmica individualista mortificadora do sujeito e restaurar a dimensão do “Bem público” como algo ao qual devemos zelar por ele.

O efeito da camarotização representa esse cenário de um individualismo crescente aliado à diferença estrutural que sempre houve no Brasil entre ricos e pobres. No entanto, percebemos a partir dos textos motivadores que isso não é uma questão meramente brasileira, mas mundial. À medida que o capitalismo avança (E isso é interessante uma vez que o capitalismo hoje não seria tanto de consumo, mas muito mais de especulação) a ideia de que será possível consumir de forma diferente atrai a elite na tentativa de se diferenciar das classes mais pobres. Neste sentido podemos encontrar vários fatores psicológicos envolvidos nessa tentativa de diferenciação por parte da elite. Se por um lado a camarotização aponta para uma questão social/estrutural no contexto brasileiro, ela também aponta para ausência de referências sólidas para o sujeito contemporâneo que acaba se definindo por sua posição social, ou acesso às coisas.

Aqui comprovamos o que Marx já colocava lá no seu “O capital” de que o fetichismo da mercadoria sempre traz consigo “artimanhas teológicas” de forma que se é enfeitiçado por elas constantemente, a sacralizando. Neste sentido evidenciamos que a era do capitalismo tardio (especulativo, do consumo desenfreado) é a época do fetichismo da mercadoria de forma extremamente sutil, mas poderosa.

Referencias:

Gilles lipovetsky - Felicidade paradoxal (2007)
Jean-Luc Lyotard - A condição pós-moderna (1984)
Pierre Dardot e Christian Laval - Comum. Ensaio sobre a revolução no século XXI (2017)
Slavoj Zizek - Em defesa das causas perdidas (2011)




quinta-feira, 1 de novembro de 2018

[...] mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede." Lucas 5:5





"Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede." Lucas 5:5

Uma das passagens bíblicas que gosto muito é esta passagem de Lucas em que depois de pescarem à noite toda sem conseguirem nada, os pescadores vêem entrar no barco um rabi que estava ensinando próximo ao mar. Jesus então pede para que os pescadores afastem os barcos para o mar para que as pessoas ouçam a palavra que ele proferirá. As pessoas ficaram na praia e Jesus ensinava a elas do barco.
Depois de ensinar, Jesus vira para Simão e diz para ele ir para o alto mar e lançar novamente as redes, e é nesse contexto que aparece o versículo que inicia esse texto. Simão um pouco já desanimado depois de trabalhar a noite toda sem pescar nada expressa a sua confiança na palavra do rabi. 

Esse versículo sempre me faz pensar o quanto é necessário ter em nossas vidas pessoas que se apresentam para nós e nos dizem uma palavra capaz de modificar toda uma prática que construímos ao longo da vida. Estarmos prontos para ouvir essa palavra pode trazer surpresas grandes para nós, como por exemplo trouxe para aqueles pescadores que, depois de lançarem as redes seguindo a instrução do rabi que entrou no barco, tiveram uma grande surpresa com a pescaria. Um dado que sempre me chama a atenção nesse episódio é que Jesus era apenas mais um rabi de Israel, ali nem mesmo Simão era um dos discípulos de Jesus, mas se tornará "pescador de homens" após esse episódio narrado. 

"Sobre a tua palavra lançarei a rede" aponta para mim a confiança demonstrada no outro que se mostra como alguém digno de tal confiança. Não lançamos as redes sobre "qualquer palavra", mas apenas sobre as palavras de alguns que julgamos querer o melhor para nós, sobre as palavras daqueles que nos conhecem, etc. Estar pronto para "lançar as redes" mesmo quando toda a situação parece desanimadora é um desafio diário para nós. Tem pessoas que possuem grande dificuldade em se abrir para o novo, se abrir para outras perspectivas, e isso se dá por diversos motivos, no entanto, apesar de difícil, tal mudança pode ser extremamente recompensadora, assim como foi para aqueles pescadores. 

De alguma forma a proposta de Jesus sugere uma repetição, uma espécie de "mais do mesmo", mas se pensarmos bem, a proposta de Jesus aqui se mostra extremamente subversiva do ponto de vista da prática dos pescadores. Uma espécie de corte na circularidade da situação. Se tinha alguém que poderia dizer qual o melhor horário para pescar, qual a tática correta, onde pescar, etc. não seria Jesus, mas sim os próprios pescadores. Simão, nesse sentido, abre mão do seu "suposto saber" em nome dessa nova palavra que surge para ele; evidenciando que nem sempre o nosso saber sobre as coisas nos fará ter sucesso repetindo aquilo que sabemos. 

Um grande ensinamento que acredito podermos tirar desse texto é que devemos estar sempre dispostos a lançar as nossas redes sobre as palavras daqueles em quem confiamos, daqueles que nos conhecem, daqueles que querem o melhor para nós, mesmo que isso signifique se colocar para além do cansaço da noite toda de trabalho, mesmo que isso signifique nos colocar como "não sabendo tudo" sobre a nossa área de atuação. No fundo a proposta subversiva de Jesus aponta para a humildade que devemos ter diante do que fazemos, reconhecendo que às vezes o outro pode trazer uma nova palavra. Palavra essa que realizará um milagre em nós e nos fará reencontrar a alegria de uma boa pescaria. 


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O Brasil é um oximoro



https://olhares.sapo.pt/oximoro


Há no Brasil coisas que desafiam nossa compreensão

O traficante evangélico!
O Liberal que vota em Estadista!
O Patriota entreguista!
O Batista que guarda sábado!
O evangélico que defende tortura!
O pobre de direita!
O negro neonazista!
O pobre liberal!
O funcionário público que defende estado mínimo!
O imigrante ilegal contra a corrupção!
O infiel a favor da família!
O psicanalista lacaniano pedindo retorno do pai da horda primeva!
O candidato democrático que defende o fim da democracia
A Igreja evangélica que apóia fascista
O morador no exterior que defende saída autoritária para o Brasil
O protesto a favor do retorno de um governo militar
A mídia comprada pela esquerda


O Brasil é um oximoro !



quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Nós, a esquerda ...







Como recentemente pontuou o Safatle, nós da esquerda ainda temos uma espécie de complacência com o outro na medida em que ainda acreditamos que o outro apenas "não entendeu" o nosso ponto, de que a questão é apenas de falta de elucidação. Pensamos que se explicarmos melhor, talvez seremos capazes de convencê-lo por meio da argumentação. No entanto, não é isso que acontece. O debate político nunca foi o lugar da argumentação, mas sempre dos jogos de poder. Lembremos de Sócrates com sua brilhante defesa na ágora que não adiantou de nada, pois a elite grega estava contra ele. Um dado curiosíssimo a ser ressaltado é que as duas acusações que fizeram a Sócrates foram exatamente sobre Deus (blasfemar contra os deuses da cidade) e sobre a família (perverter a juventude ateniense). Sócrates poderia argumentar ad infinitum que todos já tinham decidido sua sentença, pois o jogo de poder ali já estava mais que acertado entre as elites da época.
A política sempre se fez com luta permeado pelas condições materiais de existência dos sujeitos que são sobre-determinados por estruturas muito maiores que eles. Com advento da psicanálise ficamos conhecendo que vários desses processos se dão de maneira inconsciente, o que coloca a questão em um lugar ainda mais árido. Já não bastasse a estrutura cerceante, agora ainda se tem dinâmicas sobre as quais não há domínio, mas se é dominado por elas.
Dessa forma que hoje em dia, no cenário atual, não adianta tentar elucidar o sujeito, não é uma questão de elucidação. É questão de luta efetiva, luta política na mais autêntica acepção do termo, pois por meio de uma pretensa "comunicação universal", a la Habermas, nunca se mudou absolutamente nada. A questão é saber se a esquerda estará preparada para tal luta ou se continuará com o seu viés de "esquerda festiva" promotora de "diálogos" e "rodas de conversas" que resolvem muito pouco a vida prática das pessoas. A identificação com o discurso de ódio do sujeito é um processo inconsciente, não é um processo que se resolverá por uma elucidação. Não é um processo que uma espécie de "iluminismo ingênuo" resolverá.

O momento é delicado. É preciso pensar, mas é preciso agir !