sexta-feira, 26 de maio de 2017

Pascal - A miséria e a grandeza humana




Blaise Pascal nasceu em Clermont-Ferrand em 19 de junho de 1623, e era filho de Étienne Pascal e Antoinett Bégon. Pascal desenvolveu bastante seu lado religioso e escreveu várias coisas que defendiam o cristianismo. Sua obra filosófica mais conhecida são “os pensamentos” onde Pascal faz uma apologia ao cristianismo, e expõe suas idéias sobre vários assuntos que vão desde o homem até Deus. Ele foi bastante influenciado pelo pensamento de Descartes, pensamento esse, que foi um pouco contestado em sua obra. Pascal possuía também um conhecimento extenso da filosofia grega antiga e as de sua época. Sobre a filosofia grega, Pascal cita Epiteto e a filosofia estóica. Sobre a filosofia de sua época, ele cita Montaigne e Descartes como citado acima. Pascal se preocupava muito com o homem e sua relação para com Deus.
A questão da antropologia pascaliana é um tema de muito estudo para aqueles que  se dedicam a estudar os pensamentos de Pascal, pois ele trata a questão de uma forma bem particular dentro do contexto de sua obra. O problema da miséria e grandeza do homem é o que será tratado neste trabalho usando como base  os próprios pensamentos de Pascal.
Para ele, a questão da miséria e da pobreza está inteiramente ligada com a natureza humana. Segundo Pascal, o homem possui duas naturezas. A primeira natureza seria aquela que o homem teria antes de sua queda no Paraíso. Pascal considera o homem como um ser criado por Deus e que pela cobiça foi condenado a sair do Jardim do Éden e com isso perdeu o convívio direto com Deus. Para Pascal , com essa queda, o homem passou a agir de acordo com sua segunda natureza, que é totalmente corruptível e capaz de fazer tudo aquilo que é mal. A queda do homem gera nele uma insatisfação por ter perdido o seu contato íntimo com Deus. Pascal considera o homem destituído de Deus, e só pode retornar a Ele por meio da graça salvadora de Deus.
Pascal difere de forma bastante clara a primeira e a segunda natureza. Para ele a marca da primeira natureza é o conhecimento do dever e o da segunda natureza é o fato de ele não conseguir realizar isso por ele mesmo, somente pela graça.
A questão da grandeza do homem está em reconhecer sua miséria sem Deus. O homem tenta preencher esse vazio que é sua vida sem Deus através das vaidades, criando com isso uma realidade que não é real. Pascal não chega a negar a vida terrena, mas ele coloca em vários de seus pensamentos que a eternidade, que é uma busca do homem é mais importante do que o curto espaço de tempo a que estamos destinados a viver. Nisso também reconhece-se a nossa miséria, no fato de sermos limitados em nossa justiça e em nossa moral.
Para Pascal, a nossa miséria, nos faz dar mais importância a coisas que não são tão importantes assim, segundo ele, queremos ser justos, mas como seres miseráveis que somos, nossa justiça não passa de trapos de imundícia.
Pascal intercala a miséria com a grandeza. O homem é grande porque pensa, e através deste pensamento ele consegue  se compreender e compreender o mundo que o cerca. Conhecer-se miserável, é ser grande. O pensamento torna o homem grande, e por esse pensamento podemos entender conhecimento.
Para Pascal aquilo que é natureza dos animais, no homem é o símbolo de sua miséria, pois o homem decaiu de uma natureza melhor e vive em uma natureza inferior. O homem só se sente infeliz  porque um dia já foi feliz. Por isso a insatisfação do homem. O homem está sempre insatisfeito porque busca sua união com Deus que foi perdida com a queda. Essa queda provocada pelo orgulho  e desobediência de Adão. Pascal se apropria de muitos textos bíblicos para justificar suas proposições a respeito do ser humano; essa posição mostra sua preocupação em colocar Deus acima do homem e esse homem totalmente dependente de Deus. O homem não possui uma “razão” mas que tudo o que ele possui vem de Deus, e que só ele pode fazer com que o homem possa alguma coisa.
Segundo Pascal, o homem sempre esta em busca de Deus, e é isso que o torna insatisfeito, ele por si só não consegue alcançar a Deus. Mas Deus pela sua graça, se revela ao homem e o faz vê o quanto o homem é miserável. O paradoxo da grandeza se estabelece nesse momento, pois o fato do homem reconhecer que ele por si só não consegue alcançar a Deus, se vendo assim, como um ser miserável, o torna grande; pois os animais não possuem essa consciência. Segundo Pascal, o homem que não conhece sua miséria, em nada difere do animal.
O homem, portanto, para preencher esse vazio deixado da queda no qual ele perdeu o seu contato com Deus, começa a se ater em coisas vãs, as quais Pascal cita como vaidade. A vaidade, é em si algo que não tem nenhum valor, e por isso ela é fácil de ser usada como máscara, o preenchimento se baseia em se encher de algo, que no caso do homem geralmente é preenchido por algo sem valor que não passa simplesmente de uma busca por Deus, no sentido em que , tudo que o homem quer é voltar para Deus. Pascal coloca essa questão de forma bem clara, quando afirma que a segunda  natureza do homem é totalmente dependente de Deus, por ser corruptível.
O problema da miséria e da grandeza do homem é uma assunto de várias abordagens de Pascal, e ele coloca isso de várias maneiras. Segundo Pascal, o homem é um meio termo entre o nada e o infinito; pois se comparado ao nada, ele é tudo; se comparado ao grande ser universal, ele é nada, ele é portanto um meio termo nessa relação que ele estabelece com Deus e com a natureza.
Tendo visto essas coisas, podemos definir a grandeza do homem como a consciência de sua miséria, é isso que o faz diferente dos animais. O homem insensato para Pascal é aquele que ainda não teve ainda a consciência de sua miséria, e busca no divertimento, ou na imaginação uma fuga de seus problemas, ficando dessa forma, alheio de sua real condição e tenta viver uma falsa felicidade que no final das contas verá que não passa de mera fascinação com aquilo que não o deveria preocupar tanto, que é essa vida terrena. O homem deve portanto através do pensamento atingir a consciência de sua miséria, e só assim ele poderá ser feliz e viver bem.

Essa vida só tem sentido, quando aquilo que se faz, é feito por amor a Deus e a ninguém mais. Pascal, afirma que o homem precisa de Deus, e só pode fazer as coisas que ele faz se Deus o estiver agraciando. O homem é, portanto, um ser que ao mesmo tempo tem uma diferença singular dos outros animais, pois é o único que pode ter a consciência daquilo que ele realmente é, tornando-se assim grande, e não passa também de um ser que em vários aspectos se assemelha aos animais, pois ele é perecível por causa da sua desobediência. O homem devido a sua antiga natureza torna-se insatisfeito e busca preencher essa falta de várias formas, e geralmente em coisas vãs. A única solução para o ser humano, segundo Pascal é refugiar-se em Deus. Vemos aqui uma forte influência do pensamento agostiniano, que afirma que o homem deve se refugiar em Deus. Fonte de vida e esperança; segundo Pascal, o homem só busca a Deus porque ele ainda não o encontrou, e é isso que dá sentido a vida do homem, essa busca pelo infinito onde realmente somos o que somos.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Eclesiastes 3,1-8. Com tempo, sem télos !





No capítulo 3 de Eclesiastes há os conhecidíssimos versículos em que o Qohélet nos afirma que há tempo para todo propósito debaixo do sol e por meio de vários ciclos de morte e renascimento nos conduz a repensar a nossa relação com o tempo. Relação essa cada vez mais tumultuada, cada vez mais difícil de aprender dadas as inúmeras coisas que arrumamos para fazer durante o dia, durante a semana. Na maior parte das vezes nem temos tempo para refletirmos sobre como usamos o nosso tempo. 

As coisas seguem como uma grande avalanche levando consigo todas as coisas e nos levando juntamente com ela. Refletir sobre o tempo é um exercício que deveríamos fazer com mais frequência. Como diz o Eclesiastes, há tempo de nascer e morrer, plantar e arrancar o que se plantou, etc. Entender o ciclo das coisas, o ciclo da natureza é primordial para que no entendamos também. O ciclo da natureza do versículo 1 se liga às nossas ações no versículo 2, que se liga às nossas emoções tratadas no versículo 3, etc.  

O que o Eclesiastes nos mostra nesses 8 versículos em que nos elucida a questão do tempo é que por mais que tentemos abarcar todas as coisas, a circularidade do tempo é algo que nos manterá para sempre preso a ele. Não há uma finalidade em si para as coisas que acontecem debaixo do sol. Elas funcionam em ciclos que vão e vêm.  Talvez não seja fácil perceber, mas aqui há uma crítica grande à noção de linearidade tão comumente aceita pela tradição judaica. O fato do texto ter sido escrito no século 2 a.C aponta para uma possível influência de algumas escolas helênicas tais como o estoicismo e o ceticismo. O autor do texto aponta para um constante devir das coisas que acontecem debaixo do sol, tanto que logo após tal reflexão o versículo 9 nos aponta: "Que proveito tem o trabalhador naquilo que trabalha"? 

Não há a dimensão de um "télos" (finalidade) na passagem do tempo segundo o autor do texto; o que vemos são as coisas acontecendo em ciclos de nascimentos e mortes, ações e des-ações e compreender isso nos coloca em uma posição mais tranquila diante do mundo. Primeiramente porque nos ensina a não nos perturbarmos em querer fazer coisas desesperadamente, em segundo lugar por mostrar que o tempo que temos é sempre o ideal para fazermos tudo aquilo que é importante para ser realizado. Se todas as ações do homem não encontram um "télos", todas elas podem ser executadas no tempo que temos debaixo do sol. Até a guerra e a paz se encontram nesta circularidade temporal. Nada escapa ao passar do tempo e todas as coisas se complementam à medida que o tempo passa. 

O Qohélet aponta que o tempo é aquilo que rege as ações debaixo do sol e debaixo do sol é o tempo para fazer todas as nossas ações já que depois dele nada mais haverá para fazer. Para além de toda moralidade simplória o ciclo do tempo coloca para nós que há o "tempo de matar", "o tempo de odiar", etc. i.e, a vida que ocorre debaixo do sol é uma vida muito ampla, difusa, complexa de forma que toda tentativa de um "télos" pré-ordenado se mostra comprometida. Esta conclusão está em total consonância com o teor do livro do Eclesiastes que será capaz de, apesar de toda ausência de finalidade da vida, afirmar a alegria e a crença na figura de Deus. 

A reflexão sobre o tempo proposta pelo Qohélet é essencial para os nossos dias, para que não nos deixemos levar pelas dinâmicas da vida contemporânea que nos sugam o tempo e nos fazem perder as pequenas alegrias do "tempo de abraçar", "tempo de dançar", "tempo de amar". Se há tempo para todo propósito debaixo do sol, que nos esforcemos para que as pequenas alegrias encontrem tempo em nossas vidas e nos façam viver melhor com os outros e conosco. A grande tentação do nosso tempo é que sempre precisamos estar para além do tempo que temos debaixo do sol. Sofremos pelo passado que não fizemos, pelo futuro do qual não temos nenhum controle e enquanto isso o momento fugaz do presente vai passando sem que nos apercebamos que deixamos de lado os abraços, os amores, as alegrias, etc. "Tempus fugit" já diziam os latinos, e é exatamente para que o tempo não fuja que o Qohélet nos aponta para a nossa relação com o tempo. A circularidade do tempo aponta para a sua infinitude, mas ao mesmo tempo nos mostra que nós somos finitos e por isso precisamos ter em mente que há sempre tempo para todo propósito debaixo do sol mesmo sem um télos para dar sentido às nossas ações. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Postagens pascais





Nesse ano de 2017 resolvi fazer algumas pequenas reflexões sobre as celebrações pascais nas redes sociais. Como no FB tudo se perde rapidamente, e como recebi vários retornos positivos sobre as postagens, resolvi copiar e colar estas pequenas reflexões em um texto no blog como forma de divulgar para quem não teve a oportunidade de ver, e ao mesmo tempo, deixar salvo para leituras posteriores. 

Sobre o Lava pés

Hoje se celebra o lava pés na tradição cristã.

No lava pés, Jesus nos demonstra a dimensão do amor que  faz pelo outro sem esperar nada em troca, ou melhor, que faz pelo outro mesmo sabendo que algum dos próximos poderia o trair em algum momento. É uma atividade visando o bem do próximo.  Mesmo lavando os pés de seus discípulos, os alimentando, os escolhendo, os transformando em pessoas de destaque nas regiões vizinhas, trazendo uma dignidade maior a eles,  ainda assim um dentre eles o trairia. Ou seja, a gratuidade do nosso amor nem sempre leva o outro a me retribuir pelo que fiz, mas isso em nada invalida o meu amor pelo outro.O lava pés nos mostra que o amor cristão é também um amor que visa uma dimensão passiva e não apenas ativa. Deixar ser amado pelo outro para não polarizar a relação, esse é um grande ensinamento do dia celebrado hoje por nós cristãos.


Sobre a sexta-feira da paixão

Na sexta-feira da paixão comemoramos a entrega de Jesus por nós. Celebramos um amor que se mostra em um doar-se para que por meio do sacrifício do Cristo pudéssemos ter nova vida. O que importa nesse ato é o símbolo que ele carrega. Pouco importa se Jesus morreu ou não na sexta, se ele ressuscitou ou não no domingo. Isso pouco importa para a fé. O que importa é que por meio da entrega muito nos foi dado. A sexta-feira da paixão anuncia, portanto, esse ato último daquele que, por amor, foi capaz de dar a vida pelos seus amigos. "Em tuas mãos entrego o meu espírito", e nessa entrega de si por nós, nos entregou uma oportunidade de uma nova vida!

Sobre o sábado de aleluia

Hoje na tradição cristã celebramos o sábado de aleluia. O dia de hoje marca a confluência de dois momentos. Se por um lado Ainda é viva a presença da morte daquele que deveria ser o que poria fim às angústias e nos traria restauração, por outro lado começa surgir em nós a expectativa do cumprimento de uma promessa feita por aquele que foi crucificado de que a morte não é o grande final. O dia de hoje marca profundamente o cristianismo que desde sempre é a religião da espera. No dia de hoje aguardamos e começamos a tentar entender que a promessa do crucificado não dizia de algo apenas para o seu tempo, mas sim também para um tempo vindouro. Começamos a compreender que o reino de Deus anunciado se faz presente nesse paradoxo do "já, mas Ainda não".
O sábado de hoje é o sábado da espera. É o sábado de um balbuciar que ganhará os nossos corações e mudará as nossas vidas pra sempre.

Sobre a páscoa

Hoje celebramos a Páscoa. Sem dúvida uma das celebrações mais importantes da fé cristã. Naquele simples anúncio das mulheres ao chegarem no túmulo: "Ele não está aqui!" Reside o começo de um novo começo. É naquela manhã que se anuncia ao mundo uma nova esperança. Se ele ressuscitou então nós também ressuscitaremos. A morte que se fazia presente desde a sexta, a expectativa que permanecia no sábado se concretiza com a esperança trazida no domingo que hoje celebramos.
Ele ressuscitou! Há esperança. Há reconciliação! É esta a nossa celebração de hoje. Jesus como doador de sua vida por nós, como cordeiro imolado vicariamente, como sacrifício perfeito a nos reconciliar com Deus ressuscitou, e por isso podemos ter uma nova esperança. A Páscoa celebra o amor de Deus por nós, celebra a passagem da morte para a vida, trazendo com isso um novo começo.

Feliz Páscoa.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

O Realismo científico - Pequeno esboço






Dentro de uma visão realista sobre a ciência, o homem passa a ser um desbravador rumo a sua origem, rumo aos princípios básicos que constituem um mundo, uma galáxia, um universo etc.
O realismo científico nasceu em resposta a um anti-realismo principalmente depois das proposta de Carnap que afirmava que existe um excesso na linguagem que não consegue corresponder diretamente àquilo que é observável. Carnap adotava o modelo da ampla linguagem na qual dividia a linguagem em teórica e observacionais. A primeira compreendendo os termos teóricos mais as regras , e na segunda, contendo aquilo que é observável juntamente com as regras de linguagem. Entre a linguagem teórica e a linguagem observacional existe uma regra de correspondência, mas como é impossível uma interação completa entre a linguagem teórica e aquilo que é observado, a interpretação dos termos teóricos é imparcial.

Acontece então o que Carnap chama de excesso de significado. Isso acontece porque não é possível uma redução completa da linguagem teórica para uma linguagem observacional. Carnap adota uma idéia de negação de uma ontologia mediante uma análise da linguagem. Para ele, os termos teóricos são instrumentos de linguagem para falar de algo não observável, e este algo não observável não é uma entidade existente independente de uma certa teoria. Ele só existe e tem sentido dentro de uma teoria específica. Ele adota a ideia de um instrumentalismo semântico. Os conceitos teóricos possuem um significado mas não correspondem a uma entidade existente por si. O conceito só é real dentro de um sistema teórico de referência. Carnap tenta resolver a questão afirmando que o sentido de um termo não está ligado à uma referência. Ficando muito mais próximo de Russell do que de Frege na análise da linguagem.

O realismo científico nasce em resposta a esse movimento de Carnap. A pergunta que o realismo científico tenta responder é se os conceitos teóricos realmente existem enquanto uma entidade? É esta a questão que incomoda os realistas científicos. Segundo eles, as entidades realmente existem independente das teorias, e as teorias tentam compreender e explicar essa entidade da melhor forma possível. Para comprovar a ideia da existência das entidades científicas, os realistas científicos adotam alguns pontos de vista. Eles explicam o sucesso científico em detrimento de uma visão realista a respeito das entidades não observáveis; é preciso um comprometimento ontológico com as entidades científicas. O realismo científico postula que para uma teoria científica ideal da realidade é preciso ter alguns aspectos. Um aspecto interessante é o que diz de um compromisso metafísico que pode ser descrito mais ou menos assim:  "os inobserváveis descritos pela teoria científica existem independente da nossa mente."  

Sobre este ponto, gostaria de tecer alguns comentários sob os quais acho interessante pensar. O realismo científico coloca a questão da existência independente da nossa mente, e o homem como um desbravador que procura conhecer aquilo que existe de alguma forma. Ele não tem conhecimento se aquilo que ele postula é verdade ou não, mas a única coisa que ele sabe é que aquele algo que ele postula existe e é passível de uma teoria. Stephen Hawking em seu livro, “uma breve história do tempo” afirma que os buracos negros foram um caso raro na ciência. Foi a primeira vez onde um evento foi comprovado matematicamente sem nunca ter sido observado.

É curioso porque a ciência é algo empírico. Ela trata daquilo que é observado e postula a respeito daquelas coisas (pelo menos a princípio), no caso dos não observáveis com os termos teóricos, o processo se inverte. A experiência, no caso dos não observáveis comprova que existe algo lá que não se sabe o que é. Cria-se então uma teoria para representar e nomear aquilo que está ali de alguma forma. A partir desta nomeação o objeto desconhecido passa a ser conhecido sob certo nome. Não quer dizer que o objeto passou a existir a partir de sua nomeação, mas que a partir daquele momento, ele será entendido de tal forma. Nada impede que a teoria formulada para explicar aquele algo esteja errada, mas enquanto não surge uma teoria melhor, aquela que funciona, não tem porque não ser aceita. Este argumento remete ao senso comum, e ao funcionamento da teoria científica.

Se ela funciona , então temos boas razões para acreditar que ela é verdadeira. A utilidade de uma teoria científica em determinado tempo, dá a ela credibilidade . Temos na história das ciências alguns exemplos de postulações que foram consideradas erradas por muito tempo e que com o passar do tempo, comprovaram que a tal teoria era verdadeira, e também casos onde a teoria considerada verdadeira foi comprovadamente considerada falsa. Sobre este tipo de teoria, temos o exemplo da física de Newton que perdeu muito do seu mérito com a teoria de Einstein. A grande revolução dos vários tipos de delimitação do espaço como foi compreendido por Lobatchevsky, e Rienam marcaram uma grande revolução na compreensão do espaço. Foi algo usado por Einstein para a sua formulação de uma teoria da relatividade. 

Os realistas científicos também tem um argumento muito interessante para justificar a existência dos termos teóricos como entidades. É o que é chamado de “argumento do não-milagre” onde afirma que : se alguém não aceita que os termos teóricos existam como entidades, só lhe resta acreditar em um milagre ou então em algum tipo de coincidência cósmica. Para o realista científico não tem como o mundo ser ordenado da forma que é sem que existam entidades reais. Só se alguém acreditar em um milagre é que pode conceber que o mundo é da forma que é sem que algo realmente exista de fato. Se tudo fosse criação da nossa mente, assim como proposto pelos anti-realistas, tenderíamos a um solipsismo, ou então a uma aproximação muito grande ao pensamento de Berkeley. 

Essa questão com certeza recai sobre a discussão entre o criacionismo e o evolucionismo, onde na minha opinião o criacionismo se aproximaria de uma visão realista das coisas e o evolucionismo em uma visão anti-realista. É preciso ter muito mais fé para aceitar em uma visão evolucionista onde tudo se constitui pelo acaso do que crê que existe um ser superior que coordena todo o mundo para que ele funcione do jeito que ele funciona. 

Não há um milagre, ou como disse Einstein : Deus não joga dados. Se o mundo é como é, é porque há uma ordem substabelecida e esta não pode ser por acaso. Como podemos ver, o princípio da realidade dos termos teóricos possui uma relevância enorme nos dias de hoje, e implica também na aceitação ou pelo menos a consideração de alguns fatos que norteiam a nossa vida. Embora o princípio seja científico ele possui várias implicações na vida em sociedade como também na relação do homem com o mundo. Por exemplo; se adotamos que os termos teóricos realmente existem e não são meramente criação do homem, então temos que admitir que estamos em algum caminho rumo a tentativa de conhecer algo fora de nós. Isso enfraquece bastante a função da teoria Berkeleyana de que tudo o que existe, existe em nossa mente. Os termos teóricos assumindo uma existência, o próprio papel do ser humano dentro do mundo cai de uma posição central, para uma mera posição dentro de todo o cosmos. 

Estudos recentes em cosmologia afirmam que o universo está se expandindo cada vez mais e que este seria sem limites. Se considerarmos esta teoria como verdade, cada dia que passa nos tornamos mais insignificantes. Independente de considerarmos esta teoria como verdade ou não, para o realista científico, o que acontece é que a coisa denominada movimento do espaço existe, e pode ser teorizada porque existe. Esse movimento não é criado pela nossa mente e nem passou a existir depois que se teorizou a respeito. Essa é a visão adotada pelo realista científico. Para ele, as coisas existem independente de se teorizar a respeito de algo. Concluindo, o realismo científico é uma visão bastante interessante a respeito da realidade das coisas e postula que o papel do homem não é o de criar coisas através da linguagem, mas descobrir as coisas e nomeá-las. O trabalho do homem é portanto bastante reduzido. De criador, a conhecedor. 




quinta-feira, 23 de março de 2017

Teologia da violência - Uma busca necessária para tempos sombrios








Os tempos atuais não são dos melhores no Brasil. Os constantes desmantelamentos dos direitos, as perdas constantes de conquistas seculares dos trabalhadores e tudo isso regado com extremo cinismo por parte do congresso e por parte do governo ilegítimo que usurpou a presidência da frágil república brasileira.
Na minha opinião, depois das inúmeras tentativas de diálogo sem sentido, depois das inúmeras manifestações pacíficas que tomaram conta das ruas de todo o Brasil , depois de inúmeras análises feitas por sociólogos, filósofos, cientistas políticos todas elas sem nenhum efeito, a única forma viável de se conquistar, ou melhor não perder mais direitos e reconquistar os já perdidos será a luta armada encabeçada pelos trabalhadores que partirão novamente para as ruas, mas agora não mais pacificamente, mas dispostos a enfrentar diretamente um poder que não mais os representam. 

A democracia representacional, pelo menos no Brasil, tem se mostrado extremamente frágil e muito pouco representativa dos interesses da maioria dos trabalhadores brasileiros. O que se vê é um congresso cada vez mais se colocando contra o povo votando diversas medidas que prejudicam de forma acintosa a dignidade dos trabalhadores. Os exemplos mais recentes são a reforma da previdência e recentemente a lei da terceirização que precariza ainda mais as relações de trabalho e literalmente "rasga" a CLT em nome da agenda neoliberal. 

Diante de um quadro de completa desesperança em que a única coisa que se vê é a perda constante de direitos, apenas um último grito de esperança por meio da ação efetiva se coloca como opção para os trabalhadores em tempos tão hostis. No entanto, é óbvio que a classe trabalhadora não se coloca como uma classe homogênea. Os trabalhadores são muitos, são vários, são diversos e uma pauta geral que englobaria a todos eles seria extremamente difícil de ser adquirida, no entanto, penso que o momento não seja o da polarização estúpida que se vê incessantemente nas redes sociais, mas um momento de união dos trabalhadores em nome da luta que favorecerá a todos. Desde o trabalhador mais qualificado ao menos qualificado. A consciência de classe (da qual tanto falava Marx) se faz cada vez mais necessária em nossos dias. Afinal, é somente a partir dela que uma luta organizada e de peso pode surgir. Enquanto essa mobilização não se der de forma mais organizada os direitos dos trabalhadores continuarão sendo tomados. 

Dentro da ala cristã há sempre uma ressalva em se apelar para a violência, pois guarda-se ainda a ideia de que o "povo de Deus" deve se manter sempre pacífico, lutando apenas em esferas metafísicas, ou quando muito lutando de forma a evitar a violência em todas as suas esferas. No entanto essa posição tipicamente "cristã" se esquece que esse caráter agressivo faz parte da própria natureza humana e várias vezes ela será extravasada de diversas formas. Negar a agressividade do homem é negar a ele uma parte constitutiva de sua natureza. Dessa forma deve-se levar em conta a agressividade humana na hora de pensar a forma que esse sujeito deveria agir. 

Há um exemplo bíblico muito conhecido da passagem em que Jesus expulsa os cambistas do templo de Jerusalém os acusando de ter tornado a casa de Deus em um covil de salteadores. (Mt 21,12-13 e Jo 2,13-17) Algo que salta aos olhos nessa passagem é o fato de que Jesus faz um grande uso da violência em nome de uma causa que, em sua concepção, merecia que a violência fosse aplicada. Algo que esse episódio nos mostra é que às vezes o recurso à violência é legítimo quando o que está em jogo é um motivo maior que esteja sendo ameaçado. No exemplo de Jesus o "zelo da casa de Deus o consumia"( Sl 69,10) como relata João, de forma que em nome desse zelo a violência se mostrou legítima. Ao expulsar os vendedores de pombas, os cambistas do templo a violência que estava embutida no ato trazia consigo um grito pela restauração do sentido do templo no contexto judaico. Não foi uma ação destituída de sentido, mas um gesto de luta em favor dos que estavam sendo prejudicados pelo comércio exploratório que se fazia ali. 

A violência demonstrada por Jesus vai totalmente contra esse ideal pacifista adotado pelos cristãos em todas as situações. O que Jesus mostra é que em alguns momentos a violência é sim uma arma que deve ser usada, e no caso do texto em questão, ela foi usada quando a dignidade do outro estava em risco. Os cambistas no templo cobravam um valor absurdo para a compra dos animais que eram exigidos para os que iam sacrificar no templo e com isso exploravam os mais humildes em nome do "cumprimento da lei" por parte do pobre. Os vendedores do templo feriam a dignidade do pobre que iria ofertar o imputando um comércio em um lugar em que se deveria existir a misericórdia. Jesus indignado com tal situação se pôs a agir por meio da violência, pois apenas ela naquele momento seria capaz de resolver a situação. Jesus não tentou dialogar com os cambistas, não tentou negociar com eles uma forma para que eles diminuíssem o preço dos produtos, ou seja, não adotou uma postura pacífica e dialogal naquele momento, mas passou para o uso da violência derrubando as barracas e expulsando os cambistas. Esse ato de Jesus estranhou enormemente os líderes do templo que se perguntavam com que autoridade ele fazia aquilo, e Jesus prontamente respondeu em forma de parábolas afirmando que ele seria aquele que destruiria o templo e em três dias o reconstruiria, já apontando para a sua morte e ressurreição que aconteceria em breve e que refaria a estrutura do templo. 

A busca por uma teologia da violência se mostra talvez mais que necessária em nossa época no Brasil. Nós, cristãos, somos chamados a lutar contra todo aquele que visa ferir a dignidade humana, visa privar o homem da sua humanidade, visa diminuí-lo da sua condição de liberdade, e várias vezes isso deverá ser feito por meio da violência. O cristão não deve temer a violência quando a causa assim o exigir. Como dito acima, a agressividade é uma dimensão natural do ser humano e não pode ser esquecida em nome de uma postura que nada diz e nada faz enquanto tudo se perde no caminho. 
Jesus se coloca novamente como um paradigma de que às vezes a violência se faz necessária para que o reino de Deus que é justiça, paz, misericórdia, dignidade se faça presente entre nós. A consciência de classe da qual Marx fala se alia aqui à consciência cristã que se conscientiza de que a violência é sim um caminho legítimo (talvez o último a ser utilizado) para que o homem se mantenha humano.

Jesus no templo tipifica o homem contra a estrutura social já estabelecida, tipifica a luta para que a dignidade humana seja restabelecida. Ali Jesus mostra que nenhuma instituição está acima da dignidade humana, nenhuma ordem social se coloca acima do valor do homem em sua integridade e que em nome desse valor do homem a instituição deve ser destruída, se preciso for, por meio da violência. A proposta de Jesus no nosso exemplo está longe do pacifismo, está longe da proposta dialogal, pois naquele momento isso não é mais possível. A partir do momento que o status quo se coloca de forma inexorável contra a humanidade do homem, contra aquilo que o compõe enquanto humano, tal status quo deve ser combatido. A crítica de Jesus é radical, a proposta de Jesus neste episódio é o uso da violência e ele a usa sem medo, o que nos indica que também nós devemos ser capazes de utilizá-la quando a situação assim exigir. 

Que haja luta sempre. E que não nos esquivemos do uso da violência quando ela se fizer necessária. No meu modo de ver, o momento exige isso de nós, os trabalhadores. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Sobre a existência de milagres







"O milagre seria apenas um erro de interpretação? Uma falta de filologia?" Já nos perguntava Nietzsche em seu livro "Para além do bem e do mal", ou seja, a questão dos milagres é algo que há muito tempo se pensa sobre ela e várias vezes com certas doses de suspeita.
A primeira coisa que precisamos entender é o que geralmente se chama ou se acredita por "milagres". 

Uma definição muito comum do conceito de milagre é que o milagre seria uma intervenção divina na ordem natural das coisas fazendo com que algo aconteça de outra forma que não aquela esperada por nós. Tal definição é bastante útil em diversos casos e é usado por várias pessoas que acreditam na existência de milagres. No entanto, essa definição de milagre soa um tanto estranha se a analisarmos um pouco mais detidamente.

Primeiramente teríamos que questionar o que estaríamos chamando de "ordem natural das coisas". Hume, lá no século XVIII, no seu "Tratado sobre o entendimento humano" já levantou um grande problema para as teorias do conhecimento que ficou conhecido como problema da indução, ou seja, pelo fato de uma coisa sempre acontecer de uma determinada forma sobre a qual atribuímos uma causa específica, nada nos garante que ela continuará acontecendo em situações semelhantes mesmo se a ela fosse atribuída a mesma causa novamente. O grande problema que Hume coloca é exatamente o problema da relação entre causa e efeito que seria muito mais fruto do nosso hábito do que propriamente uma relação natural. Exemplifico para ficar mais claro. 
Suponhamos que eu aqueça a água a 100 graus celsius no nível do mar. O que esperamos que aconteça é que ela ferva, pois o ponto de ebulição da água são os 100 graus no nível do mar. No entanto, Hume nos coloca que é perfeitamente possível, e perfeitamente racional pensarmos que em um determinado dia eu possa aquecer a água a 100 graus no nível do mar e ela não ferver; ou seja, a relação entre a causa (ferver a água) e o efeito (ebulição da água) é apenas fruto do hábito e não uma relação necessária. Isso ficou conhecido como "problema da indução". 

Da mesma forma Nancy Cartwright em seu livro "Why the laws of physics lie" aponta para nós um problema muito semelhante ao problema humeano. Na proposta de Cartwright as leis da física apontariam apenas para relações ideais que nunca seriam passíveis de dizer como o mundo de fato é mas apenas estabelecer relações ideais em relação às variáveis das fórmulas. Ela toma como exemplo a própria lei da gravitação universal de Newton que diria que dois corpos seriam atraídos entre si  proporcionalmente em relação às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre elas. Quanto mais massa possuísse um corpo, mais ele atrairia um outro corpo com outro valor de massa e isso tudo variando de acordo com a distância entre os dois objetos. 
O que Cartwright aponta é que nunca no universo nós teríamos apenas dois corpos em relação entre si para que a lei da gravitação universal de Newton pudesse ser um reflexo do que o mundo de fato é. No espaço sempre há outros corpos envolvidos e nunca apenas dois corpos envolvidos, de forma que a situação que a lei da gravitação de Newton colocaria seria apenas ideal, mas nunca aconteceria de fato no mundo. O que se faz é ignorar, ou desconsiderar, as outras relações para que a lei possa ser aplicada. Cartwright está aqui apontando para o abismo que haveria entre a teoria física e o mundo factual tentando mostrar que as teorias físicas não descreveriam o mundo como ele é, mas apenas descreveria situações ideais criadas pela própria física. 

Esse dois exemplos servem para apontarmos um pressuposto de que no mundo natural não existiria algo que poderíamos chamar de "ordem natural", mas que a ordem do mundo é colocada nele pelo próprio homem na tentativa de explicar os diversos fenômenos naturais. A natureza não tem preocupação nenhuma em seguir tais leis, pois de fato elas não existiriam, mas seriam apenas artifícios usados pelos homens para tentar entender a natureza. A natureza pode perfeitamente agir da forma aleatória que quiser, e isso o tempo todo.

Se não há ordem natural das coisas e o milagre é defendido como uma interferência divina na ordem natural das coisas, se conclui muito facilmente que dada essas definições, não há o que chamamos de milagre. As coisas acontecem no mundo de forma aleatória e as supostas intervenções divinas seriam na realidade apenas uma aleatoriedade que desconheceríamos e por isso soaria como advinda de fora. Aqui a pergunta inicial de Nietzsche se coloca na sua forma crua, ou seja, reduzindo a questão dos milagres a uma questão filológica, ou no caso específico, hermenêutica.
Pensar dessa forma elimina diversos problemas no campo religioso, pois nos priva da questão do porquê Deus faria milagres para alguns e não para outros; ou ainda por que Deus interviria em alguns casos e não em outros. Atribuir a resposta a essas questões em um plano invisível de Deus que conhece todas as coisas de antemão é uma saída, mas traz juntamente consigo questões difíceis de resolver tais como questões quanto a livre-arbítrio do homem, responsabilidade dele diante da vida, etc.

Do ponto de vista da vida ordinária essas questões não fazem diferença nenhuma, pois a pessoa pode atribuir a qualquer fato inesperado da vida o conceito de milagre. Ele pode achar que encontrar dinheiro na rua quando ele precisava pagar uma conta é um milagre de Deus, ou acreditar que determinada pessoa que não gosto no meu serviço ter sido despedido como milagre de Deus, fruto de oração, etc. No entanto, se paramos para pensar nessas coisas percebemos que algumas dessas nossas crenças soam extremamente complicadas do ponto de vista teórico. 

Que Deus é esse que para realizar um milagre para uma pessoa precisa que outra perca seu dinheiro? Ou que Deus é esse que para realizar um milagre para uma pessoa faz com que a outra perca o emprego? Deus teria "preferidos" para quem faria milagres em nome da desgraça de outros? E o que dizer das inúmeras pessoas que pedem constantemente por milagres e nunca são atendidas em suas orações? Será que Deus não faria os milagres para essas pessoas? Ou será que a ideia de um plano divino para todos implicaria que para algumas pessoas os milagres não deveriam acontecer para que o plano específico de Deus possa se cumprir na vida delas? Essa visão de Deus traz apenas um Deus sádico que nunca poderia nos salvar e ainda ignora as condições materiais de existência que determinam várias coisas na vida das pessoas.
Percebemos que acreditar em milagres dessa forma como definimos acima só pode trazer juntamente consigo um Deus sádico intervencionista que teria preferidos para interferir em alguns casos e não em outros de acordo com um plano pré-estabelecido por Ele mesmo. 

Deve ter ficado claro até agora que defendo aqui que aquilo que chamamos milagre é uma tentativa nossa de delimitar tanto o que entendemos por ordem do mundo e ao mesmo tempo tentar compreender o que acontece conosco por um viés narcísico em que Deus seria capaz de se importar mais comigo do que com as outras pessoas transformando novamente Deus em um "Deus à mão" que está sempre pronto a me atender nos meus desejos e intenções.

Criar para nós uma explicação pelo viés do milagre não é sem sentido, mas muito pelo contrário traz consigo um clamor pelo sentido das coisas. Diversas vezes nós que viemos de situações vulneráveis, difíceis e conseguimos sobreviver a elas afirmamos que isso só pode ser fruto de um milagre de alguém que usou de misericórdia para conosco e nos permitiu sair de situação tão penosa que passávamos. Podemos pensar que tal misericórdia se estende a todas as pessoas, mas as nossas construções sociais fazem com que tais milagres nunca aconteçam para algumas delas. Isso tudo não aponta para a existência do milagre, mas aponta para a nossa tentativa de dar sentido às coisas do mundo e às nossas situações. 

Podemos considerar um milagre o simples fato de estarmos vivos, respirando, termos nascido em meio a tanta aleatoriedade da vida em uma galáxia tão imensa e cheia de tantas possibilidades, mas para considerarmos o milagre dessa forma não precisamos acreditar em um Deus sádico. Dessa forma o milagre se torna a própria vida que em meio a aleatoriedade resolve acontecer. A noção de milagre aponta, portanto, para a nossa pequenez diante do mundo, diante do divino; aponta para a nossa total não compreensão das coisas e como salto no escuro é capaz de apostar no sentido das coisas. Dessa forma a noção de milagre perde o seu caráter narcísico e se coloca disponível a todos os viventes. 
O que cabe a nós é mudar as nossas condições materiais de existência para que a vida abundante alcance a todos e não apenas a alguns. Tiramos do Deus sádico a função de conceber milagres a uns e não a outros e nos tornamos responsáveis tanto pelas nossas escolhas quanto pelas consequências advindas delas sem precisar para isso atribuir tal escolha à "vontade de Deus".

domingo, 12 de março de 2017

A bênção de Deus sobre nós.







Fabiano, você acredita que Deus te abençoou quando você foi comprar seu novo apartamento?
Fabiano, você acredita que Deus abençoa as pessoas?

Essas duas questões foram um tema de um debate curiosíssimo que tive hoje na casa de Mams durante o fim da noite e início da tarde. 
A minha resposta à primeira pergunta foi negativa, enquanto a resposta à segunda questão é positiva. O que possibilita que tais respostas sejam diferentes é a nossa concepção sobre Deus. 
Diversas vezes nesse blog já mencionei a forma como compreendo Deus. e isso sempre é alvo de contínuas perguntas dirigidas a mim. 

Ao responder negativamente à primeira pergunta fui compreendido como alguém que se mostrava extremamente auto-suficiente que teria conseguido tudo com a força do meu braço sem precisar da ajuda de ninguém. Essa impressão, no entanto, está longe da forma com o que a resposta negativa à pergunta quer dizer. Quando respondo negativamente à primeira pergunta, quero dizer apenas que não acredito que Deus esteja preocupado com os mínimos detalhes da vida das pessoas. Pensar em um Deus assim nos traz muito mais problemas que soluções, pois transforma Deus em um ser muito "à mão", ou seja, um Deus do qual posso me valer na hora que eu quiser, do jeito que eu quiser. Um Deus que se preocupasse com os mínimos detalhes da minha vida, ou que definisse planos para a minha vida já seria um Deus que de alguma forma estaria cerceando a minha liberdade e a minha responsabilidade diante do mundo. Esse Deus pensado dessa forma seria a completa antítese da proposta do Deus anunciado por Jesus que, longe de ser um Deus infantilizado, é amor que se estende a todos e a tudo. Ao mesmo tempo, ao responder negativamente à primeira pergunta não implica que me considero alguém que seja o único responsável por adquirir às coisas. Basta um olhar rápido para toda a natureza para percebermos a nossa pequenez, a nossa humilde condição, ou apenas perceber que somos como "uma neblina que passa". 

Da mesma forma que posso me compreender tão pequeno diante da Natureza, posso me colocar como extremamente pequeno dependendo da relação que estabeleço com a noção de Deus. A visão de um Deus cristão nunca propõe a anulação do sujeito, ou ainda a transformação do sujeito em um nada para que Deus possa ser tudo. A proposta do Cristo traz em si uma visão sobre Deus que nos trata não como "vermezinhos de Jacó", mas como "amigos", que implica uma relação madura com Deus e não infantilizada. Ao invés de reduzir o sujeito à nada, a proposta do Cristo eleva o sujeito à condição de se relacionar com Deus, ou seja, conserva a dignidade do homem. 
Reconhecer a pequenez diante do mundo que nos rodeia, ou até mesmo nos considerar pequenos diante de Deus depende da forma como concebemos Deus no mundo. O ser humano nunca foi, nem nunca será auto-suficiente. Ele sempre depende de um Outro que o acolha e lhe traga um mundo no qual possa habitar. 

É nesse sentido que posso responder afirmativamente à segunda pergunta, ou seja, acredito que Deus abençoa as pessoas, mas não em casos especialíssimos, mas a benção de Deus que está sobre todos é apenas aquela que nos permite viver, nos permite respirar, e nos permite experienciar as belezas do mundo que nos faz reconhecer a nossa total pequenez e ignorância diante de várias coisas que nos rodeiam, que faz chover sobre justos e injustos, como traz o sol sobre justos e injustos. Desde a mais ínfima bactéria até as galáxias mais distantes de nós apontam para a nossa pequenez. Daí talvez possamos entender a admoestação que o Deus de Israel dá ao povo pouco antes de entrarem na Terra prometida na história do Êxodo:

"Não aconteça que, havendo comido e estando plenamente saciado, havendo construído casas confortáveis e habitando nelas, havendo-se multiplicado teu gado e o número de tuas ovelhas tendo aumentado, e também se multiplicado tua prata e teu ouro, e tudo o que tiveres, que teu coração se ensoberbeça e venhas a te esquecer do Eterno, o teu Deus, que te fez sair livre da terra do Egito, da casa da escravidão; que te conduziu através daquele imenso e perigoso deserto, cheio de serpentes e escorpiões mortais; e que numa terra seca e hostil, tirou água da rocha para te saciar a sede; que no deserto te sustentou com maná que teus antepassados não conheciam; para te humilhar, e para te provar, com o objetivo de proporcionar o melhor para ti no futuro. Portanto, não digas no teu íntimo: ‘A minha força e o poder do meu braço me conquistaram estes bens e riquezas’. Antes, te recordarás de Yahweh teu Deus, porque é Ele o que te dá força e capacidade para gerar riqueza, confirmando a Aliança que jurou a teus pais, conforme hoje se constata claramente. " (Dt 8, 12-18)

Ou seja, compreender a nossa pequenez diante do mundo, diante da natureza ou diante de Deus faz parte da nossa compreensão do mundo e toda a natureza aponta para isso. O autor do Deuteronômio traz a nossa atenção exatamente para esse ponto, ou seja, o fato de que devemos sempre lembrar de Deus, daquilo que é superior a nós, e perceber que somos muito pequenos diante das coisas. No caso do texto citado ainda há o fato de lembrar que foi Yahweh que deu ao seu povo todas as coisas. O texto nos aponta, portanto, para essa relação que podemos criar para com Deus, sempre lembrando que a sua bênção está sobre todos proporcionando a possibilidade da vida. Mas a partir do momento que transferimos essa bênção de Deus que nos capacita e transformamos esse Deus em algo apenas "à mão", abrimos mão da nossa responsabilidade diante das coisas. 

E o que quer dizer quando atribuímos à Deus bênçãos sobre as nossas vidas? O que queremos com isso? Queremos apenas atribuir um sentido às coisas transitórias que acontecem no mundo e em nossas vidas. Nesse sentido posso ler o mundo como um lugar em que a bênção de Deus está sempre diante de nós e nos permite fazer todas as coisas. Se de fato a coisa é assim ou não é assim isso tudo depende da aposta no sentido ou não-sentido das coisas no mundo. Quando digo: "Isso me aconteceu e é bênção de Deus", o que quero dizer é que resolvo ler o mundo como um lugar em que Deus está constantemente interferindo nele para fazer as coisas de um jeito específico. E isso não é pouca coisa. O que não devemos fazer é querer que Deus se responsabilize por coisas que são decisões nossas, mas podemos atribuir a ele uma bênção diante da nossa escolha, mas isso dirá apenas que há uma crença envolvida e não que de fato houve uma bênção em casos especialíssimos.  

Nesse sentido, acredito que fica claro porque a resposta para a primeira questão seja negativa (pois isso implicaria na concepção de um Deus "à mão"), e a resposta seja positiva à segunda questão (pois a nossa pequenez diante do mundo nos faz tentar dar um sentido às coisas, que podemos  atribuir à Deus).

quinta-feira, 2 de março de 2017

A Religião light ou Religião "à la carte"








Na relação do homem com a religião na contemporaneidade acontece o que aqui chamarei de uma espiritualização instrumental da vida. Um movimento crescente de pessoas que nas redes sociais e às vezes até mesmo na vida diária adotam agora "novas posturas", "novas formas de vida", que agora afirmam se dedicar à yoga, alimentação saudável, cultura da paz, práticas exotéricas, mapas astrais, lemas budistas, práticas milenares de meditação, etc.

Esse fato mesmo parecendo ser recente é algo que já acontece há algum tempo em nossa sociedade totalmente permeada pelo individualismo e pela ausência de referenciais. Esse novo tipo de "espiritualidade" é o que chamamos de  "religião light", ou "religião a la carte", ou até mesmo "religião portátil". Todos esses os conceitos trazem em si a noção de que a apropriação que um indivíduo faz de preceitos religiosos é, diversas vezes,  meramente instrumental e aliada às demandas do próprio capitalismo. Não é raro vermos pessoas que afirmam que assim que começaram a meditar se sentem mais dispostas para o trabalho, afirmar que rendem mais em suas atividades, etc. A prática espiritualizada servindo em grande parte para a exacerbação da produção. 

A religião light se evidencia principalmente entre os mais jovens que na ânsia de encontrar algum sentido diante das diversas sensações que o mundo oferece começam a ver em práticas religiosas uma possível saída para o estado de anomia. Assim, o sujeito encara de forma muito tranquila o fato de seguir preceitos budistas e fazer coaching para produzir melhor. Ou então ele se sente muito bem praticando yoga, mas trabalhando freneticamente porque tem no acúmulo financeiro um objetivo inegociável de vida. Para esse sujeito é muito tranquilo participar de festas consumistas em que a dinâmica efêmera da vida está toda estampada contando que a proposta apareça com o nome de "Krishna" ou alguma outra entidade oriental. Esse sujeito da religião light é ele mesmo um indivíduo light, descomprometido com tudo, que tem na ausência de conflitos a sua razão de viver.

A religião à la carte é exatamente esse movimento de se servir de preceitos religiosos em uma espécie de self service onto-metafísico em que o "cliente" (afinal a sua apropriação na maior parte das vezes é para se aliar à dinâmica do capital) é livre para se apropriar do que achar mais interessante para a sua vida. Com o seu prato ele se serve da mística cristã, da sabedoria budista, dos tambores africanos, da serenidade das religiões orientais, da yoga, da meditação e monta o seu prato pronto para ser devorado durante o horário de almoço da sua vida em busca de dinheiro. Essa relação do indivíduo com a religião marca uma tendência contemporânea no mundo da ausência de referenciais. A sociedade líquida (Como Bauman gostava de chamar) traz consigo essa liquidez nas relações que o homem estabelece com a religião. A religião light é uma religião descomprometida, sem afeto, sem amarras metafísicas, sem compromissos ontológicos; ela se torna simplesmente um instrumento para o sujeito se sentir melhor. E esse "sentir melhor" pode ser simplesmente um "comer comida orgânica", "meditar algumas vezes por semana" e se sentir "transcendendo a efemeridade da vida" por alguns minutos em silêncio.

A religião light ou "à la carte" é ao mesmo tempo uma "religião portátil", ou seja, aquela que o indivíduo tem "sempre à mão" para pegar o que precisar, quando precisar, para a tarefa que precisar. Se em um determinado momento ele precisa justificar uma determinada prática que pode ter alguma pega com algum preceito budista, o sujeito simplesmente se apropria daquilo e utiliza sem precisar conceituar ou colocar tal preceito dentro do arcabouço teórico a que tal conceito pertence. Ele é simplesmente utilizado pelo sujeito segundo seu bel prazer e o mesmo acontecendo com os diversos rituais das diversas religiões.

As religiões orientais são talvez as que mais são apropriadas pelo ocidente devida a sua forma bastante diferente de ver a relação do homem com o mundo. Daí muito facilmente vermos os mais diversos praticantes de yoga, meditação, práticas alimentares que simplesmente estão fazendo estas determinadas coisas para otimizar a sua vida financeira, ou sua vida profissional, enfim, para render melhor na dinâmica do capital. Isso marca uma deturpação curiosíssima da função consagrada da religião que em sua dinâmica está totalmente alheia à noção de "produção". A religião light permite ao sujeito se sentir melhor, mas mantendo a mesma dinâmica neurótica que o aprisiona dentro da estrutura do capitalismo. Nesse sentido podemos dizer sem nenhuma dúvida que a religião light é o fenômeno que marca a apropriação da religião pelo capital.

A religião, de doadora de sentido para a existência, se transforma em um meio para otimizar a produção do sujeito na dinâmica capitalista; e quando ela se torna isso, há muito tempo já perdeu o seu sentido de ser. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Teologia Apofática - A chamada Via Remotionis







A teologia negativa, ou teologia apofática é um campo da teologia iniciado por Dionísio Pseudo-Areopagita que afirmava que sobre Deus não haveria discurso possível, ou seja, sobre Deus não há nada que possa ser dito, e para tentar explicar isso a filosofia medieval cunhou o termo que ficou conhecido como "Via Remotionis".

A via remotionis é o modo de falar negativamente a respeito de Deus o que difere do conceito de negação. A função da negação é excluir determinado objeto de um campo predicativo podendo com isso definir determinada coisa a partir do que ela não é. A diferença entre a negação e a via remotionis é ilustrada a partir da figura do escultor que trabalha com um bloco; o trabalho do escultor é feito de forma a possibilitar que o material trabalhado crie a forma desejada, e essa forma é dada a princípio, ou seja, toda escultura é em si uma imitação de um objeto. O que há ali é a "remoção" daquilo que não é a escultura e ao remover o que sobra da pedra algo ali vai se delimitando.

A música, por exemplo, não pode ser esculpida por não ter uma forma que se adeqüe a um bloco de mármore . A função da via remotionis é mostrar que nada pode ser dito a respeito de Deus. A via remotionis mostra que não existe campos predicativos aos quais Deus e seus atributos se encaixem. Se tentamos colocar Deus dentro de campos predicativos através de negações sucessivas o que se segue é o esgotamento de todos os campos predicativos inteiros. Falar de um objeto, é colocá-lo dentro de um campo predicativo. Com Deus isso é impossível. E é exatamente isso que a via remotionis vem mostrar. 

Deus não é um objeto dizível, e por isso qualquer tentativa de explicação Dele deve obrigatoriamente levar ao silêncio, pois podemos falar de objetos que estão no mesmo plano do dizível, e dentro de um campo de predicação, e Deus não está neste plano e nem em nenhum outro pois está acima de todas as coisas e por isso o dizível não se aplica a Ele. Portanto, assim como para esculpir algo, o escultor precisa de um objeto a ser imitado, para falarmos algo a respeito de alguma coisa, precisamos ter um campo de predicação desse objeto que lhe seja pertinente. Deus não está em nenhum campo de predicação, por isso assim como uma música não pode ser esculpida em um bloco de mármore, não podemos falar nada a respeito de Deus pois Deus não é um objeto dizível.

A mesma ideia de uma teologia apofática é evidenciada muitos séculos depois na proposta de Wittgenstein em seu famoso "Tractatus logico-philosophicus" que se encerra com as palavras: "Sobre o que não se pode falar, deve-se calar", ou seja, a via proposta por Wittgenstein acaba por se resumir ao silêncio sobre o místico, incluindo aí a figura de Deus. Na mesma esteira podemos também colocar o pensamento de Mariah Corbi em que o que restaria a respeito de um discurso sobre Deus seria apenas o silêncio. A teologia apofática também é bastante comum nos textos de teólogos ortodoxos advindos do antigo império bizantino tais como Nikolai Berdiaev e mais recentemente Mikhaill Epstein e sua proposta de Religião mínima. 

A teologia apofática até hoje continua inspirando diversos autores e a sua fecundidade aponta para os limites da nossa linguagem ao tentar dizer algo sobre Deus. Nessa impossibilidade se evidencia a possibilidade de uma mística e de uma postura diferente em relação a isso que chamamos Deus que estaria para além de toda predicação. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Édipo sem complexo - Pequena reflexão sobre o Édipo Rei de Sófocles



A história do Édipo Rei de Sófocles é um clássico da tragédia grega e foi muito utilizado por Freud para expor sua teoria, embora muito contestada a forma como ele utiliza este mito. O mito do Édipo Rei de Sófocles, se insere dentro do cenário da tragédia grega antiga e reflete exatamente como que ela era vista pelos gregos dessa época. A tragédia grega se destaca por colocar o herói em uma situação que lhe é contrária àquilo que se espera, deslocando portanto o foco da trama. Segundo aponta Jean Pierre Vernant em seu livro o herói na tragédia grega é tipo como pego pela palavra, assim como acontece na história do Édipo Rei.

Algo que é identificado no facilmente é a questão da ambigüidade e da reviravolta, que  é algo que todos os trágicos gregos recorriam como meio de expressão e modo de pensamento. Essa ambigüidade reflete-se segundo uma tensão de valores que se tornam inconciliáveis a despeito de sua igualdade. Segundo Vernant em  seu livro "Mito e tragédia na Grécia Antiga." (1999 p. 75) a ambiguidade se refletia em cada herói em seu universo próprio, e ele era como que pego na palavra que proferiu, e isso era algo recorrente e ele o chama de ironia trágica. Essa ironia, consistia no fato de que àquilo que era dito pelo herói acabava retornando para ele mesmo, como uma forma de punição dos deuses, pela falta de conhecimento por parte do herói sobre o que era a verdade dos fatos. Isso é muito bem visto na história do Édipo, quando àquilo que ele deseja que aconteça ao personagem central da trama volta-se a ele mesmo no decorrer da peça.  A mensagem trágica torna-se-lhe inteligível na medida em que arrancado de suas incertezas e de suas limitações antigas percebe a ambigüidade das palavras, dos valores, da condição humana.

Vernant trata também dos subentendidos utilizados de forma consciente, e isso depende de um certo conhecimento anterior por parte dos espectadores da peça, que já iam para o teatro com todo um conjunto de informações que seriam necessários para a compreensão da tragédia.
A verdade na tragédia grega, está sempre presente, só que na maior parte dela de forma oculta, de forma que, só os espectadores que no caso de estar assistindo os dois lados da história se assemelham aos deuses, que conseguem conhecer todos os discursos e prevê o que vem à frente. A diferença é que ao contrário dos deuses, os espectadores não interferem no desenrolar da peça, já os deuses, sempre são recorrentes nas tragédias gregas. Édipo mesmo atribui aos deuses o seu afortunado destino. Quando Édipo fala o que será feito ao assassino de Laio, ele se coloca como juiz de si mesmo, pois o que ele deseja ao malfeitor, irá acontecer a ele também. Essa é a forma como a tragédia se desenvolve normalmente, mas no Édipo- Rei ela não acontece como uma oposição dos valores nem em uma duplicidade de personagens , mas diverte-se com a vítima. No caso de Édipo, é ele quem é o joguete em toda a trama. É a sua vontade de descobrir o assassino e desmascarar o culpado, mesmo tentando ser impedido por Jocasta, Tirésias e o pastor , achando com isso que está cumprindo seu papel diante da cidade é o que o leva de herói para vilão, pois ao descobrir o assassino de Laio, Édipo se descobre na trama. 

Essa atitude Édipo faz parte de sua personalidade. Ele não é homem de desistir das coisas, gosta de ir até o final mesmo que com isso possa descobrir algo que não lhe agrada que é o fato de saber que é ele mesmo o joguete do início ao fim. Édipo é portanto duplo, quando ele fala, acontece-lhe dizer outra coisa contrária ao que ele está dizendo. Ele é portanto um enigma que só se resolve quando ele mesmo descobre que o que ele tinha por verdade não o é mais. Édipo portanto não escuta o discurso que ele mesmo diz sem saber, e é exatamente essa a verdade que está oculta; a única coisa autêntica.

Essa verdade oculta só é compreendida por quem tem o dom da dupla escuta ou da dupla visão como é o caso do adivinho Tiréisias. O discurso de Édipo se distingue entre o humano e o divino que irão se encontrar no final da peça, quando o problema estará resolvido e o enigma desfeito. É nessa hora que se dá a “reviravolta” da ação em seu contrário.
Quando Édipo soluciona o enigma, ele encontra ele mesmo, e esta identificação do herói provoca uma reviravolta completa da ação. A atitude de Édipo inverte as posições dentro da tragédia formulada por Sófocles.
Ao final da pesquisa feita por Édipo o justiceiro se identifica com o assassino e portanto descobrir quem matou Laio, é também descobrir quem é Édipo. A pesquisa por justiça por parte do rei de Tebas, torna-se uma pesquisa sobre quem realmente é o rei de Tebas. Essa reviravolta e ambigüidade é bem destacada por Vernant quando cita que o estrangeiro de Coríntio é, na realidade nativo de Tebas; o decifrador de enigmas, um enigma a ser descoberto, o justiceiro, um criminoso; o clarividente um cego; o salvador da cidade, sua perdição. Édipo que para todos era o maior dos homens, e o melhor dos mortais, se torna o mais infeliz e pior dos homens, um criminoso, e objeto de horror aos seus semelhantes, odiados pelos deuses reduzidos à mendicância e ao exílio.

A tragédia grega usava palavras gregas semelhantes para dizer coisas que no contexto da peça eram contrárias. A situação de Édipo depois de sua descoberta se torna a de um miserável que não merece o convívio com a cidade. A sua descoberta o expulsa do mundo visível e o coloca no mundo de Tirésias o vidente que pagou com seus olhos o dom da dupla visão. Considerando o ponto de vista humano Édipo é o chefe clarividente, igual aos deuses, mas considerando do ponto de vista dos deuses ele aparece cego e igual ao nada. A reviravolta da ação, como a ambigüidade da língua, marca a duplicidade de uma condição humana, que, à maneira do enigma, se presta a duas interpretações opostas. A linguagem humana se inverte quando os deuses falam através dela.

O Sentido da tragédia como concebida pelo gregos passava pelo enigma sobre a qual a peça estava escrita. Essa é a reviravolta consiste no fato do positivo se tornar negativo e vice-versa . Algo interessante de ressaltar é que Édipo não queria fazer o que fez, pois nutria um sentimento de filho para com quem considerava seus verdadeiros pais e condenava tal ato que fez, como sendo algo indigno de qualquer comiseração. Segundo marca Vernant, outra forma de reviravolta é o fato de que sua glória vai se afastando dele aos poucos para fixar-se sobre personagens divinas, Édipo vai se colocando cada vez mais na posição de homem sujeito a vontade dos deuses.

Um exemplo de ambigüidade é o seu próprio nome que em sim mesmo é de caráter enigmático e que marca toda a tragédia. Édipo é o homem dos pés inchados ( oîdos) , uma enfermidade que lembrava a criança abandonada e maldita; mas Édipo é também o homem que sabe (oîda) e foi esse saber que o colocou onde estava agora, como rei da cidade de Tebas por derrotar a Esfinge por seu próprio conhecimento. Todo enigma de Édipo se encontra contida no jogo ao qual o enigma que o seu nome contém. A descoberta do segredo da Esfinge já o coloca de certa forma diante do enigma sobre quem é ele próprio.

Diante da descoberta da verdade dos fatos, Édipo se coloca na figura do pharmakós o qual é preciso ser expulso da cidade para que a peste cesse. A figura de Édipo se inverte de Sábio para poluição da cidade, ele é o criminoso que precisa ser expulso. Édipo assume também a figura de bode expiatório sobre o qual irá repousar toda a culpa da cidade de Tebas. De Týrannos para pharmakós, Édipo sofre essa reviravolta. Enquanto no primeiro momento , ele é venerado por todos como a um deus, ele agora é odiado por todos e é visto como um mal da cidade que precisa ser expulso. A figura do týrannos como herói exposto e salvo, rejeitado e que volta como vencedor se prolonga até o século V no mundo grego. Como herói, o tirando acede à realeza por uma via indireta, fora da descendência legítima; como aquele, ele se qualifica para o poder por seus atos, sua proezas. Ele reina não pela virtude de seu sangue, mas por suas próprias virtudes; ele é filho de suas obras ao mesmo tempo que o é da Boa Sorte.

Tebas estava sofrendo com a esterilidade dos rebanhos e das mulheres, enquanto uma peste dizimava os vivos. Para se acabar com essa peste era preciso que o mal da terra fosse expulso, e como Édipo é esse mal, ele deve assumir a função de pharmakós.
Essa noção de pharmakós que deve levar o mal da cidade era um rito em Atenas que visava expulsar periodicamente a poluição acumulada durante o ano, e portanto instituiu-se o costume de uma purificação constante pelos pharmakói. O pharmakói era geralmente escolhido entre os povos pobres da cidade, entre os malfeitores condenáveis, os feios , de baixa estatura que por seus atos se tornavam o estolho da sociedade. Libertar a cidade era expulsar o pharmakós.

A figura do týrannos que Édipo representa o põe diante de uma reviravolta, pois enquanto o suporte da cidade não for expulso, a cidade continuará a sofrer. Ele mesmo é o mal da cidade; ele que a princípio foi o salvador da praga da Esfinge, torna-se agora a própria praga que precisa ser expulsa, aquele que outrora trouxe a paz, é agora quem provoca a peste. Rei divino-pharmakós : tais são portanto, as duas faces de Édipo que lhe conferem seu aspecto de enigma, reunindo nele, como numa fórmula de duplo sentido, duas figuras que são o inverso uma da outra. O herói era o modelo da condição humana, e Sófocles em sua peça se aproveita desse consenso entre os gregos e se apropria disso para colocar o týrannos como um pharmakós para ilustrar o tema da reviravolta, é porque na sua oposição essas duas personagens aparecem simétricas e, em certos aspectos, permutáveis, um e outro são responsáveis pela saúde da cidade. Toda a cidade pagaria pelo erro de um só.

O pharmakós é o inverso do rei, é como uma réplica ao contrário, que de igual forma é responsável pelo destino da cidade, e, por ser o mal, deve ser expulso para que o verdadeiro rei assuma sua posição e estabeleça a paz. Esta é, portanto a ambigüidade e a reviravolta que se encontra na peça de Sófocles. De týrannos, para pharmakós, Édipo se encontra nos dois lados da moeda, enquanto a princípio ele é o responsável pela paz, em um instante seguinte, se encontra precisando ser expulso por ser a causa da peste que assola a cidade que outrora ele teria salvo.

Caso queira se inteirar mais do tema sugiro o excelente livro do Vernant - 

VERNANT, Jean Pierre, VIDAL-NAQUET, Pierre, Mito e Tragédia na Grécia Antiga., São Paulo , Editora Perspectiva, 1999.