segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Funk Gospel como discurso moralizador sobre o sexo na igreja evangélica






Uma das coisas mais empolgantes de se dar aula é o fato de se aprender constantemente com seus alunos. A dinâmica da sala de aula é extremamente interessante e muito boa para estarmos sempre diante de novidades, diante de coisas que nem imaginávamos que poderia existir. Neste sábado estava dando aula para uma turma muito querida e falávamos um pouco sobre o pensamento de Habermas e a sua distinção entre ação comunicativa e ação estratégica para mostrar a diferença entre ambas concepções no pensamento habermasiano.  

Os alunos sabem da minha área de atuação enquanto pesquisador na área de filosofia da religião e teologia e sabem do meu interesse por temas relacionados à religião de maneira geral, etc. Por conta disso, um aluno, durante a exposição sobre Habermas me pergunta: Fabiano, você já ouviu falar do "crentezilla", um canal do youtube de funk gospel? 

Eu nunca tinha ouvido falar do "crentezilla" e fiquei tão curioso para saber do que se tratava que pedi para alguém acessar o site para ver o que tinha lá. Os alunos então acessaram o site, e a primeira música que aparece é uma música chamada "crente é crente né, pai", em que o autor da música exalta as supostas vantagens de ser crente em nossa sociedade. (Posteriormente fui informado pelo meu irmão formado em música que a música seria paródia de uma outra música de funk chamada "chefe é chefe né, pai"). 

Fiquei curioso e à noite fui ouvir outras músicas do chamado "funk gospel" e algo muito interessante me chamou a atenção que foi o fato da maioria das músicas do chamado funk gospel possuir um caráter extremamente conservador do ponto de vista moral e apontar para uma leitura extremamente simplista e moralista da vida cristã e do texto bíblico. Esse dado em si já seria curioso apenas por si só, mas além disso percebi que os temas relativos à sexualidade são tratados de forma extremamente reservada e de forma muito conservadora também. 

Sempre podemos notar que as chamadas propostas mais liberais no meio evangélico na maioria das vezes vem acompanhadas de uma moralidade muito rígida. Nem precisamos ir muito longe para perceber esse tipo de prática. Igrejas como "bola de neve", as chamadas "igrejas inclusivas", ou igrejas que caminharam rumo ao neo-pentecostalismo mais recentemente como "Batista Getsêmani" ou "Batista da Lagoinha", todas elas adotam uma postura extremamente conservadora em relação à moralidade e principalmente em relação à sexualidade. Mesmo quando querem se mostrar com propostas de vanguarda (por exemplo as igrejas inclusivas), na hora de abordar temas mais espinhosos da fé cristã abordam de maneira extremamente conservadora. Onde isso se manifesta de forma mais nítida é a forma como se lida com a questão da sexualidade.  O tema do sexo é restrito apenas ao âmbito do casamento e toda prática fora dessa instituição é vista como pecaminosa. 

Já falamos aqui sobre o tabu da igreja evangélica em relação ao sexo e qualquer pessoa familiarizada com o meio evangélico pode constatar a dificuldade com a qual a igreja lida com essa questão. É extremamente interessante pensar que a forma de dominação exercida pelas igrejas evangélicas se dá exatamente do ponto de vista da sexualidade, uma das dimensões mais substanciais do sujeito. Ao domesticar a relação sexual e condicioná-la ao discurso aceito institucionalmente o que se consegue é incutir no sujeito uma culpa plena, que por mais que individualmente a questão se resolva, o ambiente social representado pela instituição funciona como agente repressor.

O que o funk gospel mostra para nós é essa mesma dominação do ponto de visa moral que se mostra liberal do ponto de vista do ritmo (todos os ritmos são criados por Deus), mas muito conservador do ponto de vista da visão de mundo e visão da sexualidade. Diversas músicas no canal evidenciam a santidade do funkeiro pelo fato dele não beber, não transar fora do casamento, não "ficar com as novinhas", etc. Além disso diversas músicas apontam para uma visão retributiva da parte de Deus que concederia bênçãos àqueles que seguissem estritamente a moralidade da abstenção em suas diversas modalidades, além de uma visão metafísica extremamente tradicional de uma divisão entre céu e inferno. Esse tipo de abordagem evidencia uma visão infantilizada em relação aos temas da fé e em relação à proposta do amor cristão, etc. 

O funk gospel se mostra como uma espécie de funk ostentação moral em que o sujeito ostentaria a sua suposta santidade em meio a um mundo mal no qual o seu testemunho será a chave para a sua salvação pessoal e ao mesmo tempo um instrumento para evangelização de uma esfera da sociedade que viriam a conhecer o evangelho a partir do fato da mensagem ser transmitida de forma inovadora. Ao mesmo tempo as músicas procuram deixar claro que a apropriação do funk por parte do funkeiro gospel não é em si uma atitude pecaminosa, mas cumpre uma função "questionadora" do status quo evangélico. Se por um lado tal atitude se mostra interessante do ponto de vista questionador, ao mesmo tempo evidencia toda a sua superficialidade por manter de forma intacta o rigorismo moral evangélico. 

O funk gospel também se coloca como uma tentativa de expressar a sexualidade do sujeito que é constantemente reprimida dentro do meio evangélico por meio das danças e coreografias feitas a partir das músicas. Não é preciso dizer que tal tipo de expressão corporal é visto como algo completamente inapropriado do ponto de vista evangélico. Pode-se até "aturar" o ritmo contando que as letras enfatizem o caráter moralizante do cristianismo, mas a expressão do corpo deve ser tolida de forma rigorosa, pois tal expressividade corporal apontaria para a lascívia da carne. O funkeiro gospel fica entre a palavra e a expressão. A primeira aceita por sintomatizar a relação problemática do discurso evangélico com o sexo, a segunda completamente tolida por apontar para o núcleo traumático do discurso evangélico que é a relação do sujeito com o seu corpo sexual. 

Obviamente que há algo de extremamente positivo nesse tipo de expressão, pois é uma forma de alguns jovens expressarem sua crença e se aproximarem de uma vivência cristã a partir dos seus gostos musicais, afinal, em diversos momentos os jovens dentro da igreja são tolidos em suas dimensões mais simples, como por exemplo o âmbito musical e a carência de ritmos diferentes dentro dos cultos. Ao se propor a expor a sua fé por meio de um ritmo de sua preferência o jovem pode se identificar melhor com a sua forma de crer e se sentir mais parte de uma determinada religião. O fato das letras das músicas assumirem um tom moralizante é apenas um sintoma que evidencia como o evangelho e os temas referentes à sexualidade são  ensinados dentro da igreja. 

A meu ver urge que a igreja evangélica brasileira converse mais sobre sexualidade dentro das instituições entre os jovens, adolescentes, e até mesmo entre os adultos, mas não no sentido de trazer uma visão limitante e limitadora do fenômeno sexual, mas para trazer a proposta cristã em relação ao sexo que deve ser pensada como uma relação Eu-Outro que deve se dar sempre em amor. Neste sentido não é o sexo fora do casamento, ou o sexo homo-afetivo que seria "pecado", mas sim o sexo sem amor, sem respeito em que o outro entra na relação apenas como objeto e não em sua singularidade. O sexo que transforma o outro em um objeto, que é feito sem amor, que é feito de maneira predatória, isso poderia ser chamado de "pecado" dentro de uma visão cristã sobre o sexo, pois fere de maneira íntima a singularidade do sujeito e o transforma em objeto a ser consumido. Tal sexo predatório, sem amor, consumista pode acontecer dentro do casamento e por isso que não é a instituição que garante o sexo dentro do modo cristão de pensar a questão, mas sim, o amor entre as partes envolvidas na relação sexual.