sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz ano novo !



Nietzsche já nos falava há algum tempo atrás do "Eterno retorno do mesmo". Uma idéia bastante interessante muito assimilada desde tempos imemoriais por diversas religiões orientais.

Idéia esta que envolve a existencia de um universo eterno, que não teria um início, nem teria fim, mas seria cíclico. (um retorno aos primeiros pré-socráticos para os quais esta idéia é central)
A idéia de um universo eterno que depois da hipótese do Big Bang ficou tão desacreditada começa a ganhar força novamente dentro do cenário físico com diversos experimentos sendo feitos para tentar mostrar diversas falhas do modelo do Big Bang.
Uma espécie de choque em algumas correntes cristãs que suam até hoje para tentarem conciliar a "existencia do Big Bang com a existencia da criação", afinal, "Deus poderia ter criado tudo a partir do Big Bang" dizem alguns mais liberais.

No entanto, a idéia de um "início" para todas as coisas acaba partindo de um pressuposto de causa não causada, isto é, todas as coisas devem ser causadas por outra, e se assim for, é necessária (e aqui dizemos logicamente) que haja uma causa não causada de todas elas. Uma das 4 causas de Aristóteles que assimilamos tão bem sem nem mesmo saber que a idéia remonta ao estagirita.

Esta idéia de causa não causada foi assimilada pelo cristianismo principalmente por São Tomás de Aquino que definiu tal causa à pessoa de Deus. O primeiro motor aristotélico, se transforma em Deus criador de todas as coisas. A ciclicidade do universo se transforma em linearidade. As coisas antes eternas, precisam de um começo, e assim teorias como o Big Bang tem seu pressuposto fundamentado.

O "eterno retorno" que antes era a "teoria" mais aceita, passa a ser algo completamente marginal para a sociedade ocidental, mas ela permanece sendo defendida por alguns. Com o declínio da religião na época do renascimento, novas formas de ver o mundo vem à tona. A revolução científica do Século XVII dá ao homem novas formas de ver o mundo, para além da física aristotélica e permite a formulação de novas teorias que não mais pautassem na linearidade do estagirita.

Giordano Bruno foi queimado por propor a existencia de mútliplos universos, Galileu teve que se retratar perante a igreja por conta das novas descobertas que iam contra a metafísica aristotélica aceita até o momento... Estas idéias, mesmo que incipientes possibilitam uma espécie de "renascimento" de uma nova forma de ver o mundo.

Após a filosofia de Hegel, sabemos que há um questionamento muito forte sobre Deus. O ateísmo de Feuerbach aparece como explicação "final" para a "crítica da religião" como nos diria Marx. O materialismo ganha força novamente, a explicação das coisas não mais precisam passar por Deus, e ele não precisa existir para que nossas explicações façam sentido. Pode-se (e deve-se) explicar as coisas sem Deus, afinal, a crítica o eliminou das "coisas que podem ser conhecidas". Tendo retornado ao materialismo a idéia de "eterno retorno" aparece de forma muito mais tentadora que a idéia linear baseada em um início inteligente. O materialismo aleatório de Althusser acaba por remeter novamente a Epicuro e a idéia de Clínamem. Um retorno àquilo que era tão caro aos gregos.

Na pós-modernidade, Nietzsche exarceba esta posição tomando a idéia de eterno retorno um ponto alto de sua filosofia. Mesmo que Heidegger tenha visto em Nietzsche um último "defensor" de uma metafísica, podemos ver como que a idéia de eterno retorno do mesmo se vincula a uma visão mais materialista que propriamente "metafísica". (Claro que se fôssemos entrar nesta discussão, o post ficaria enorme).

Mas onde queremos chegar com esta "revisão" na história da filosofia sobre circularidade ou linearidade?

Acredito que para o último dia do ano, a reflexão é bastante importante, afinal, podemos encarar o novo ano como por um viés de "eterno retorno do mesmo" ou em uma espécie de "linearidade".

Para os que veem da primeira forma, o ano novo significa o início de um novo ciclo, uma nova oportunidade para realizar aquilo que ainda não se realizou no ano que passou. Morte e ressurreição. Finda-se o velho, renasce o novo. A esperança que aparece a cada último dia do ano. Sempre há aqueles que veem o eterno retorno como forma de desalento, como mesmice, como indício de que "nada vai mudar", apenas os desespernaçosos são capazes de assimilar a coisa desta forma. O eterno retorno não remete ao tédio, mas sim à esperança.

Para quem ver o ano novo como linearidade, acaba tendo a idéia de que a cada dia que passa estamos mais próximos do fim, mais próximos de "cumprirmos" nosso papel no mundo, e há ainda os que acreditam que o fim terreno levará a uma vida eterna, longe da linearidade, um início sem fim, uma imortalidade.

O ano novo acaba por nos remeter a esta dinamica tão cara a filosofia, tão cara a nós enquanto humanos, mas infelizmente "esquecida" pela dinamica da sociedade atual.

Muitas coisas poderiam ser ditas sobre isto, vários detalhes da história da filosofia caberia aqui, mas se fôssemos fazer isto, teríamos que escrever um livro para mostrar como que a idéia de linearidade e ciclicidade se entrelaçam na história do pensamento ocidental. Talvez este seja um bom projeto para levar a cabo, embora várias coisas já tenham sido escritas sobre o tema, inclusive uma obra muito interessante sobre isto seria o livro do Koyré "Do mundo fechado ao universo infinito". O intuito desta reflexão é apenas nos fazer refletir sobre a forma como vemos o mundo, como vemos a vida para que a partir disso, possamos ser humanos melhores...

Que este texto sirva de reflexão para este novo ano que se inicia...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Pensando em teologia...







"Pelo fato de representar o ente enquanto ente é a metafísica em si a unidade destas duas concepcoes de verdade do ente, no sentido geral e do supremo. De acordo com sua essencia ela é, simultaneamente ontologia no sentido mais restrito e teologia. A essencia ontoteológica da filosofia propriamente dita (prótete philosophia) deve estar, sem dúvida, fundada no modo como lhe chega ao aberto o ón, a saber, enquanto ón. O caráter teológico da ontologia nao reside, assim, no fato de a metafísica grega ter sido assumida mais tarde pela teologia eclesial do cristinaismo e ter sido por ela transformada. O caráter teológico da ontologia se funda, muito antes, na maneira como, desde a antiguidade, o ente chega ao desvelamento enquanto ente. Este desvelamento do ente foi o que propiciou a possiblidade de a teologia cirsta se apoderar da filosofia grega"

Heidegger em seu livro "Que é Metafísica? p. 261


"A metafísica pensa o ente na sua totalidade conforme seu ser, mas pensando este ser, mas pensa este ser platonicamente como idéia, modernamente como representacao de objetos e finalmente como vontade de poder. Assim a metafísica é a doutrina do ser-do-ente (ontologia). Esta ontologia aceita como evidente para o fundamento do ser a presenca constante. O ente pode ser fundado no ser como presenca constante, e por isso, também disponível. mas o ser precisa de fundamento para que possa ser o ser constantmente presente. Assim, a metafísica acaba por procurar aquele ente que de modo especial, preenche a exigencia da presenca constante. Ela encontra esse ente no divino subsistente em si, no denominado “theion”. Com isso, a metafísica nao é só a fundamentacao do ente no ser, mas também fundamentacao do ser no ente supremo, no “theion”, portanto teologia. Justamente porque fundamentada, ela é uma “-logia”.
Assim ela é onto-teo-logia."

Poeggeler sendo citado por Ernildo Stein no livro "O abismo entre Ser e Deus"


sábado, 3 de dezembro de 2011

Sobre Liquidez




Pensando e conversando outro dia sobre as relações afetivas na pós-modernidade, chegamos a afirmar que a própria dinamica afetiva se encontra muito influenciada pelas dinamicas do capital.
Coisas simples que fazemos ou falamos acabam por refletir a "vacuidade" dos nossos relacionamentos que atualmente por qualquer motivo se "desmancham no ar".

Pelo que conversávamos, parece que a própria dinamica do acúmulo é visto nas relações interpessoais.
Várias vezes ouvimos pessoas contando "quantas" ou "quantos" pegaram numa festa ou numa saída. Em uma sociedade regida pelas regras do capitalismo até mesmo os valores e a humanidade do homem são pevertidos pela dinamica do acúmulo. Talvez daí a "descartabilidade" dos nossos relacionamentos tão bem tipificadas na idéia do "pegar alguém". Se a lógica regente é a do acúmulo, quanto mais melhor, logo, quanto mais relacionamentos vazios conseguir durante o ano, melhor, o que não se pode é ficar para trás enquanto todos tem alguém.

A própria idéia do "pegar alguém" já me parece estranha uma vez que a meu ver desumaniza o outro que é transformado apenas em objeto para um prazer imediato, que de vez em quando dura alguns meses, mas não passará disso. A idéia de "pegar alguém" acaba por remeter a ausencia de compromisso, a recusa de laços mais fortes. Prática esta que já deveríamos estar acostumados numa sociedade tão hedonista como a nossa.

Mesmo assim, tal dinamica ainda me parece estranha. Enquanto "se está pegando alguém" a idéia de um compromisso com o outro se insere apenas em um plano estritamente imediato que dura apenas enquanto ambos estão "juntos" (diga-se de passagem, acabo tendendo a acreditar que ambos não estão juntos no sentido strictu da palavra, apenas estão ali no mesmo ambiente, mas falta a cumplicidade, falta o diálogo , falta o acordo que permita que ambos andem e caminhem juntos como bem nos referiu certo boiadeiro nos tempos proféticos). A falta de um interesse em um relacionamento de fato pode ser encarado sob vários aspectos, quer psicológicos, sociais, filosóficos e com certeza este texto não daria conta de transitar por tantas variantes.
Constato um incômodo. Longe de mim querer fazer qualquer apelo a uma sociedade puritana ou retrógrada, não é isto que passa pela cabeça deste que vos fala. Ressalto apenas a vacuidade das relações que várias vezes passa desapercebida pelos participantes.

O "amor sólido" se torna impraticável em uma "sociedade líquida" para usarmos a expressão do Zygmund Bauman que veio a tona enquanto conversávamos. Neste tipo de sociedade não há muito espaço para coisas sólidas, estas são vistas como subversão e não são incentivadas uma vez que acabam se tornando um protesto contra o status quo onde a vacuidade dos relacionamentos prevalece. Nesta sociedade líquida tudo é constantemente reinventado só que sem raízes, sem forma. Nossos quadros de referencia mudam muito rapidamente sem que tenham tempo de solidificar em costumes e hábitos e a mesma dinamica vemos hoje em dia nos relacioamentos que assumem o que o mesmo Bauman chamou de "amor líquido".

Confesso que acho esta vacuidade das relações algo muito estranho, talvez devido a minha criação, talvez ao meu jeito de ver o mundo, não sei, mas acredito que alguma coisa do que disse aqui faz sentido e merece ser pensado com certa urgencia para que não tornemos os humanos tão descartáveis como temos tornado as coisas, e não invertamos a lógica agostiana que já nos dizia que devemos amar as pessoas e usar as coisas e não amar as coisas e usar as pessoas.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sobre antropologia teológica

O lava-pés de Leszek Forczek





Lauda entregue ao professor da matéria de Antropologia teológica que pediu para que avaliássemos o conteúdo da aula.

Como a proposta é fazer uma reflexão livre sobre a temática abordada, vai como se segue.
A princípio achei bastante interessante a temática da antropologia teológica e os pontos de partida para se pensar o problema.
Diante do exposto em aula, várias coisas podem ser pensadas e refletidas.

O pressuposto que se partiu na aula foi a de que o ser humano seria necessariamente criado por Deus, e qualquer outra visão que saísse deste ponto de vista acabaria sendo pensado como que “fugindo” do escopo da antropologia teológica para se cair em uma espécie de antropologia filosófica.
No entanto, entendo que não necessariamente seja preciso partir deste pressuposto para que a proposta continue sendo teológica.
Claro que para isso teríamos que repensar toda a questão do como entendemos Deus para a partir daí podermos dar um novo lugar para a antropologia teológica.

É um debate recorrente na teologia atual a questão entre Deus enquanto Ser (Ens realissimun) e Deus enquanto um sentido para a existencia, evidenciado principalmente a partir do existencialismo e que não pode ser descartada como forma de pensar o problema.


A partir do debate recorrente da teologia citado, a proposta para se pensar a antropologia teológica se abre a uma nova perspectiva. O pressuposto de um ser criado por Deus talvez não seja tão necessário assim para que se possa ainda assim fazer teologia, e pensar o homem teologicamente. Este é um problema que seria interessante ser pensado na antropologia teológica, e acredito que não seja um “pressuposto inegociável” a alternativa adotada no desenvolver da matéria até o momento, a saber, a existencia do ser criado por Deus.

A princípio penso ser interessante abordar a questão do ponto de vista estritamente cristão a respeito da antropologia. Tal recorte epistemológico pode ser um importante recurso pedagógico, embora espere que tal recorte não seja visto como único possível para se fazer antropologia teológica, uma vez que podemos ter outras teologias que não necessariamente a cristã e outras "antropologias" que não necessariamente as ocidentais.

Sobre os 3 pontos necessários ao homem para desenvolver uma antropologia teológica e para se relacionar com Deus apresentados na aula, ou seja, o relacionamento, a liberdade e a finitude, acredito que apenas o primeiro seria passível de uma demonstração a partir do pressuposto que se partiu.

O ser humano seria aquele que foi criado por Deus e anseia por voltar a Ele, ou nas palavras do bispo de Hipona no primeiro livro das Confissões: “porque tu nos fizeste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti”. Neste sentido, o ser humano é um ser em constante busca de um relacionamento com Deus uma vez que perdeu tal relacionamento na queda. Tal carência de relacionamento com Deus fica evidente e é inerente ao homem caído. Embora seja problemático postular a relação com Deus tomando apenas como "ser transcendente".
No entanto, os outros dois pressupostos, a liberdade e a finitude, fica extremamente difícil de serem justificados.

Sobre a questão da liberdade a primeira dificuldade encontrada seria um outro pressuposto que é o da onisciencia de Deus. Mesmo Agostinho tendo dado passos importantes na resolução do problema a partir da noção do tempo, a liberdade do homem em relação ao seu “destino final” ainda fica em aberto tanto no caso de Agostinho quanto na abordagem dada na aula. A liberdade se torna algo restrito ao campo da atuação “terrena”, mas pouco efetiva do ponto de vista “sobrenatural”, o que torna esta liberdade um problema a ser tratado.
A liberdade vista enquanto “submissão à vontade de Deus” também seria algo complicado uma vez que como Feuerbach bem nos salientou “um ser sem vontade seria um ser sem existencia”, e o homem, ao ter de abrir mão de sua vontade para se submeter à vontade de Deus teria que abrir mão de sua existencia, e da sua humanidade.
Curiosamente tal negação da vontade em nome da vontade de Deus é algo extremamente incentivado em várias igrejas evangélicas nos dias atuais. Um problema da sociologia da religião que carece ser mais discutido.
O problema da finitude a meu ver também se torna bastante complicado adotando-se o pressuposto evidenciado na aula. A questão da finitude é encarada de forma meramente instrumental. Se postulamos que existe uma alma no homem que é eterna, ou uma consciencia que seria para além do homem, a finitude fica extremamente mitigada e não encarada de frente. Se o ser continua após o perecimento do corpo (como desejaria Platão) sob uma forma diferente, então a finitude não se apresentaria como problema uma vez que o homem seria “infinito”.

O problema da finitude fica restrito ao aspecto corporal, e como o corpo não é o mais importante para a visão cristã ortodoxa (novamente sob pressupostos platonicos), a finitude não se coloca como problema uma vez que se tem a noção de vida eterna, da continuação da vida, ou da consciencia.
Feuerbach muito bem enfatizou este problema e mostrou que a doutrina da vida eterna seria uma tentativa do homem lidar com esta finitude, mesmo que dessa forma crie uma fantasia de que continuará vivendo após sua morte. Na mesma esteira Freud mostrou que o desejo de eternidade se vincularia ao desejo infantil de onipotencia e dessa forma é algo a ser superado pelo homem e não deve portanto ser a forma de lidar com o problema.
A nosso ver, ou se aceita a doutrina da vida eterna, ou se aceita a finitude humana. Ambas são inconciliáveis.
Estes são alguns apontamentos que faria sobre a aula sempre no interesse de que isso gere um diálogo interessante do ponto de vista teológico e ciente que várias questões apresentadas aqui merecem diálogos talvez intermináveis.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Email enviado ao sindicato durante negociação salarial




Depois de passeatas e mais passeatas, em 10 de julho o sindicato envia um email falando que seria melhor aceitar a proposta da empresa, em resposta, escrevi este email que segue abaixo



11 de Julho de 2011

No final então, muito barulho por nada.

Deveríamos termos sido mais honestos e aceitado a proposta de uma vez assim que ela foi feita. Tudo acaba por se esvair em mais 2 anos. Se a empresa não incluiria mais nada, e quanto a isso não faríamos nada, pq então nao aceitamos isso na semana passada?

Novamente, o sindicato se mostrou sem força para negociação. O discurso do sindicato não deveria ser o da resignação, afinal, o próprio lema do sindicato é "um sindicato de luta". Percebemos que esta luta não acontece de forma efetiva. E isto apenas corrobora o que a maioria diz do sindicato, que está mais "patronal" que pelo proletariado.

Toda a luta, as paralisações, quer do atendimento da GECOP que parou várias vezes na íntegra, quer do CCO que comprou a briga tb vai por água abaixo sem contar os demais setores da empresa que também se dispuseram a lutar. Aparentemente todos já sabiam que assim que ameaçassem cortar os benefícios o movimento acabaria. Aparentemente sempre foi assim, e não parece que mudará durante muito tempo. Quando finalmente o "arrocho" reincidira sobre a gerencia e a supervisão - uma vez que o corte dos benefícios se aplicam a todos os empregados- o movimento é dissolvido. Se nem nós mesmos nos valorizamos e estamos dispostos a enfrentar as sanções que nos são impostas, quem dirá a prefeitura que em nada é afetada pelo nosso movimento que se mostrou vazio e sem sentido? Por isso que cada ano que passa, o sindicato se torna mais desacreditado por parte dos funcionários.

Aceitemos então a suposta "desumanização" - que foi a palavra muito usada em vários discursos durante as paralisações - que nos é imposta mais uma vez, e aceitemos os benefícios, novamente como moeda de troca.
E tudo continua na mesma. Pra que ir pra porta da Nossa Sra de Fátima se a idéia do movimento já se perdeu? Qual o sentido de ir lá ouvir que em nada progredimos e ouvir o próprio sindicato falar que é melhor se render do que enfrentar sanções??

Este email que vc me mandou é um atestado de óbito do movimento, então neste sentido, não tem porque manter os aparelhos ligados.
Fico triste com a situação, mas tenho que concordar com a maioria ao afirmar que o sindicato não tem força pra lutar. O discurso que "o sindicato somos todos nós" realmente é verídico, mas se votamos por uma representação, ela tem que ser feita com pulso forte, e não se eximir de se posicionar quando chamada. Tal falta de posicionamento é visto no discurso que se esconde por trás da fala "o sindicato somos todos nós", afinal, por trás dele está toda uma dinâmica que não quer ser responsabilizada pela perda. Afinal é muito simples atribuir a culpa da falha do movimento à falta da participação de vários empregados, no entanto, há de ressaltar que se não há a participação dos empregados que se sentem desumanizados é porque eles não veem que aquele que os representaria comprou a briga.

Se a liderança do movimento é fraca, o que vai restar é o proletariado desanimado de reinvidicar seus direitos. Há de se responsabilizar sim o sindicato, e não imputar esta culpa ao proletariado. Claro que se não há a representação de forma efetiva é porque provavelmente o sindicato não vê a causa como sua. Isto é visível. E se o problema não é encarado como sendo meu, não tem porque lutar. É indiferente, e percebe-se claramente que para o sindicato, é indiferente, talvez pra maioria dos empregados também seja indiferente.

Se meu trabalho é algo alheio a mim - dinâmica esta já evidenciada por Marx em seu discurso sobre o trabalho na sociedade capitalista - toda esfera do trabalho aparecerá como algo estranho e por isso a desumanização não será percebida. De que adianta o discurso que afirma a "desumanização" se o próprio trabalhador, o próprio sindicato não se veem desumanizados ? Aceitar os benefícios como moeda de troca é atestar que a desumanização não nos incomoda, e esta talvez seja a maior constatação que chegamos após analisar este movimento infrutífero que fizemos.

domingo, 2 de outubro de 2011

Περὶ Ἑρμηνείας *


http://www.gocomics.com/peanuts/2011/10/02/

Aprendamos com Linus, para que quando formos falar de algo bíblico, não usemos textos isolados na tentativa de fundamentar nossas convicções. A idéia de Lutero de "Sola Scriptura" não significa "sola mea scriptura".

* Περὶ Ἑρμηνείας,(Peri hermeneias) significa "da interpretação" título de uma maravilhosa obra de Aristóteles. E ao contrário do que talvez gostaria Ricouer, não pressupõe a existência de um "espírito" a ser encontrado no texto durante o trabalho de interpretação.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sobre a homossexualidade (via Facebook)








Em conversas pelo Facebook com algumas pessoas que comentaram meu status, surgiu este texto. Fiz um apanhado dos meus posts no assunto em questao e coloquei aqui. Resolvi deixar o texto sem os nomes das pessoas com quem falo para nao expor ninguém, a não ser eu mesmo. O texto pode parecer meio desconexo, mas resolvi deixar dessa forma para manter a fidelidade do exposto.

É exatamente esta a questão. Evidenciar a "hipocrisia evangélica" atual. Curiosamente, muito se mata em nome do "evangelho", haja visto a própria guerra iraquiana, ou até mesmo outras ações "políticas" patrocinadas por evangélicos.

No entanto, em relação à sexualidade, o protestantismo se vê absolutamente taxativo e nesse sentido, evidencia toda a hipocrisia da que falo. "Algumas coisas são claras" ? Mas o que está por trás dessa clareza? É claro que vc deve saber que não temos acesso ao texto de fato, mas sempre o interpretamos de acordo com nossas vivencias, fraquezas, etc. Apenas uma interpretação fundamentalista da Bíblia possibilita uma leitura simplista que não está disposta a dialogar com o seu tempo. Como diria Rubem Alves, o problema do fundamentalismo não é "o que se fala", mas sim "o como se fala", ao falar "do ponto de vista da verdade", o fundamentalista encerra toda possibilidade de diálogo, afinal, se já se está com a verdade do seu lado, pra que o debate? A tarefa será simplesmente a de tentar trazer o outro para o lado da verdade. A mesma tentação do jardim se evidencia novamente.

A questão homossexual é algo que merece um enfoque não-simplista. Afinal, se a bíblia não é um livro normativo neste sentido, haja vista que muito pouco se fala sobre sexo no texto bíblico, pq então esta "sina" com a questão? De onde veio esta sina cristã para com a questão da homossexualidade, se nem entre o judaísmo, nem mesmo nos textos do NT vemos este tipo de coisa? Talvez - e aqui tendo a acreditar que sim - a influencia tenha vindo de fora, e concordo com vários que dizem que esta influencia teria vindo do estoicismo e do gnosticismo que como sabemos, muito entusiasmados com Platão, viam o corpo como algo desprezível em relação a alma. Talvez a influencia nos primeiros séculos do cristianismo tenha dado "o tom" da completa negação sexual, e principalmente na questão homossexual.

As coisas "claras" nas escrituras talvez não seja assim tão claras, igual as que vc mesmo citou como "não pode matar"; no próprio texto bíblico vemos que isto não é tão claro, a própria inquisição "matou" muito em nome de Deus, "Deus" mandou matar muitos "infiéis" para que o povo não se corrompesse em meio a outras tribos. Se a coisa fosse tão simples assim, talvez o texto bíblico teria que ser reescrito. O que quero ressaltar, é que o "espírito" vale mais que a "letra", e talvez a "liberdade" do espírito que sopra onde quer, seja o que mais incomoda a grande maioria que prefere lidar com as questões de forma simples do que lidar com a liberdade.

A proposta não é convencer ninguém de nada. Coloco aqui coisas sobre as quais penso, idéias que giram em minha cabeça. O fato de ter pensado na questão do homossexualismo não quer dizer que quero colocar algo na cabeça de alguém. Em hora nenhuma coloco minhas posições como "certezas". Apenas tento argumentar para embasar aquilo que estou pensando.

Se fosse pra convencer alguém de alguma coisa, o último lugar que iria fazer isso seria pelo facebook. Iria pra algum púlpito por aí, diria um discurso eloquente, comoveria muitos com pura retórica e pronto. Não é uma questão de convencer ninguém de nada. É pensar sobre as coisas. Pode rever todos os posts, e se achar algo que ao menos pareça com tentativa de colocar algo na cabeça das pessoas a força, me mostre. Tenho certeza que não encontrará nada neste sentido. A questão nao se coloca nesse nível que vc colocou. é uma tentativa de (re)pensar as coisas.

Só isso. Pensar dar trabalho, e se a boca fala do que tá cheio o coração, vários posts vão parecer repetidos, várias incursões serão feitas, vários textos serão colocados, lidos, relidos para tentarmos nos aproximar de alguma posição que seja defensável e embasada. Não como algo "vindo de fora", mas como algo que nasceu de dentro, fruto da reflexão, fruto do diálogo. Esta é a intenção.

Pena encontrar poucas pessoas dispostas a pensar honestamente sobre o tema, ou, no meio evangélico, sobre praticamente qualquer tema. Se contenta-se com muito pouco, e por isso acabam a maioria ficando como folhas secas levadas por qualquer vento.

Qualquer exame tosco da realidade evangélica evidencia isso que digo aqui, no entanto, nem essa avaliação a grande parte quer fazer. Resta ficar sozinho, talvez na cia de alguns poucos nesta empreitada.

Existem vários tipos de preconceitos. Agora, o fato de me ater a este específico não evidencia que ele seja "melhor" ou "mais importante" que outros. Sei que há muita discriminação com relação aos mendigos, e todos outros que não tem "parte na terra". A questão das prostitutas acaba caindo na mesma questão que é mais ampla que é a questão do "cristão e a sexualidade", esta grande "ferida narcísica" no cristianismo que até hoje se trata cheio de melindros.

Realmente a questão homossexual está em voga, e não só aqui, não sei se sabe, mas na alemanha vários bispos da igreja católica se reuinram pra conversar com o papa sobre o assunto na visita que ele fez recentemente lá. É uma questão que tem ganhado corpo, e nós enquanto cristãos, protestantes, não podemos simplesmente usar o discurso esteriotipado que afirma que "deus ama o pecador, mas não ama o pecado" quando na realidade evidenciamos o contrário.

Penso sim que TODOS devem ser amados como são, e como seus "estilos de vida' são. Isso estaria para além das discriminações, e isso em qualquer nível social, profissional, etc.

Todo filósofo que se preze precisa pensar a partir da realidade em que vive.

Como diria Feuerbach, sou fruto do meu tempo, penso as coisas do meu tempo, e se vivo num tempo onde a questão homossexual está sendo debatida, eu enquanto filósofo, tenho que pensar nesta situação. E eu enquanto filósofo e protestante preciso pensar nestas coisas. Claro, preciso pensar tb em outras coisas. Com certeza, as prostitutas (que agora já é uma profissão regulamentada) tb sofrem discrimianções, os mendigos também (embora geralmente o discurso capitalista acaba falando que eles estão assim pq lhes faltou animo, ou então por qualquer empenho na profissão).

Estes outros casos tb precisam de investigação e acho super válido se começassem a pensar nisso também.

A questão homossexual é um dos temas que precisam ser seriamente debatidos no meio cristão, e isto deve ser feito com urgencia. Vários encontros já tem sido realizados para dialogar esta causa, no entanto, na prática, a questão ainda está longe da proposta do amor ao próximo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sobre algumas relações de trabalho






Prezados (as)
Como a idéia do email é propor uma reflexão, acho interessantíssimo que reflitamos seriamente sobre o assunto tratado. Deixo aqui minha contribuição.

Com certeza, sei que as questões solicitadas no abaixo assinado receberão toda a atenção por parte da supervisão e sei que com certeza a supervisão fará o melhor que pode para sanar esta demanda que é extremamente antiga.

Gostaria de salientar que a melhora do maquinário não é algo a ser feito "para os atendentes" ou "para as meninas da triagem", mas sim algo que zelaria pela proposta global da prefeitura que é "oferecer um atendimento de qualidade".

Ao melhorar o maquinário em nada isso remete a alguma melhoria direta na vida do atendente ou da triagem. Ajuda na execução de seu trabalho, mas o que realmente precisa ser mudado não o é, isto é, as condições de trabalho para a boa execução deste.

Concordo quando fala dos relacionamentos interpessoais, que eles são importantes e devem mesmo ser incentivado por parte da supervisão e da gerência.

Mas como medir isso? Será que há algum parâmetro para sabermos se todos merecem o mesmo tipo de tratamento?
Será que há algum "incentivo" na boa convivência entre os funcionários da gerencia?
Que é bom, realmente o é, no entanto sempre se esbarram em abismos práticos que vão desde o descumprimento de coisas acordadas em reuniões anteriores, até posturas que em nenhuma empresa privada seriam aceitas.

Concordo também que algumas práticas listadas cooperam para um mal atendimento no setor, no entanto, antes de pensarmos de forma genérica sobre o assunto, acho que seria interessante perguntarmos o "porque" desse tipo de atitude, e nisto, se fossemos fazer uma análise mais pormenorizada, acabaríamos por chegar na questão salarial e no problema da identificação do trabalhador com seu trabalho.

É bem sabido de todos que, em mundo de uma dinâmica capitalista, o que incentiva o trabalhador é o salário que ele recebe. De fato, colocando a coisa desta forma há uma boa justificativa para entendermos o porque do atendimento ruim. Claro que se ficássemos apenas nesse nível estaria cometendo o mesmo erro de colocar a coisa de forma simplista.

Penso que a não-identificação do trabalhador com seu trabalho gera a indiferença quanto ao caminhar das coisas. Claro que em um trabalho como o atendimento, que a meu ver, várias vezes poderia ser feito por qualquer pessoa, a questão da identificação raras vezes se coloca. O trabalho a ser executado passa a ser algo completamente mecânico, onde a exigência de "pensamento" tende a zero. Uma vez que é assim, o reino da indiferença tem mecanismos para se perpetuar.


A meu ver, algumas destas propostas implicam mais em uma tentativa de limitação da liberdade do que propriamente o pensar no operador.

Em toda a empresa apenas os atendentes trabalham com tamanha ausência de liberdade quanto às suas práticas. Em nenhum outro setor há um "guichê" que precisa saber tudo que é feito, como uma espécie de "deus opressor" que exige atenção exclusiva e nada pode fugir do seu controle. Se este guichê se coloca como "limitador da liberdade", o atendente tentará usar de todos os subterfúgios para que a sua liberdade se sobressaia enquanto algo que o define. O homem por definição deve ser livre. Mas se o dever-ser do homem é limitado pelo sistema, claro que o homem quererá dar vazão a liberdade que, como sabemos, não pode ser reprimida pra sempre.

A proposta proibitiva de acesso às redes sociais, ou qualquer outro tipo de "assunto que não tenha vinculação direta com o trabalho" (para citarmos a lei) parece mais uma atitude no sentido de controle para gerar alienação do funcionário do que propriamente uma preocupação com o usuário. Na era da informação sabemos que uma pessoa bem informada sempre se constitui um "perigo". Afinal, é muito mais fácil dominar aos que simplesmente se colocam como massa de manobra ao invés de lidar com pessoas que pensam a sua real situação diante das novas diretrizes. Ao proibir o uso da internet para fins não trabalhísticos, apenas corrobora a não-identificação entre o trabalhador e seu trabalho que aludimos mais acima. Não penso que limitar a liberdade seja o passo para quem quer "comprometimento" com o trabalho, mas sim um passo na direção da alienação que veríamos, acaba prejudicando mais ainda o trabalho.

Acredito que as pessoas sempre são mais importantes que as máquinas, e também penso que uma atitude melhor por parte dos atendentes e triagistas realmente melhoraria em muito o atendimento. No entanto, esta responsabilidade não pode cair sobre os atendentes e o povo da triagem. Sobre nós não pode cair a idéia de que "se mudarmos nossas atitudes as coisas serão melhores", porque sabemos que não é assim. Há algo que foge ao domínio dos atendentes e da triagem.

Querer responsabilizar a classe que menos ganha dentro da empresa por uma falha que é institucional é no mínimo descabida.



É de conhecimento de todos que um bom salário, um bom local de trabalho, boas condições físicas para desempenho de suas funções estimulam o funcionário a fazer um bom trabalho. Agora, como já demonstrado anteriormente em outras reuniões, se recebemos um valor de R$ 6,45 por hora, e nesta hora atendemos em média 5 pessoas, quer dizer que recebemos menos de 2 reais por atendimento, ou seja, alguns meros centavos por minuto gasto com o operador. Assim como não se pode esperar muita coisa de um celular de R$ 59,90, não se pode esperar um atendimento qualificado por "centavos-por-minuto". Trabalhamos de acordo com o salário.

Embora se queira fazer pensar por parte da direção de qualquer empresa, a questão é sempre colocada de forma inversa.

Fazer um trabalho para o qual não sou correspondido é mitigar a minha condição de humano.

Pensa a que ponto chegamos. O trabalhador já não se vê refletido no seu trabalho, este já aprece como algo exterior a ele, além disso, lhe pagam um salário muito aquém do que deveria receber ( a contar pela suposta responsabilidade que recai sobre os ombros dos atendentes e triagistas) por suas responsabilidades, e quando solicita melhorias a questão recai novamente sobre este mesmo atendente e triagista que tenta fazer um trabalho com todas estas precariedades? Isto me parece um contrassenso que deve ser evitado.

Penso que não há formas melhor de estimular o funcionário que dando a ele condições e pagamento digno para exercer sua função.

O final do email muito me preocupou também. Esta dinamica evidenciada nesta empresa de que "se não estiver satisfeito, saia" apenas mostra o caráter "maligno" que atingiu esta instituição. Colocar a coisa desta forma é dizer com todas as letras que o funcionário não é importante, que o trabalho realizado por ele pode ser feito por qualquer um, que ele não passa de mais uma peça para o mau-funcionamento da máquina, e o pior, mesmo sendo considerado desta forma, o atendente ou triagista ainda deve fazer um bom serviço. Que tipo de bom serviço pode sair de uma dinâmica desse tipo?

Onde não há valorização do funcionário (e isso em todos os âmbitos) não tem como exigir uma "postura de um ser-valorizado".

Chegamos ao incrível paradoxo de mostrar que a própria estrutura que condena a prática é a responsável pela prática, e com isso, ela perde todo o direito de exigir uma postura diferente. A "qualidade e dedicação" exigida se vê inexequível a não ser que estejamos dispostos a uma desumanização maior do que a que vivemos.

Em relação ao item 6, particularmente não tenho problemas com ele. Penso que chegar no horário é uma questão de educação e isso não passa pelo tema exposto aqui.

A indiferença chega a tal ponto por estas bandas que provavelmente a maioria das pessoas nem responderão ao email, mas ao mesmo tempo comentarão entre si e continuarão fazendo as coisas que faziam. Talvez estejamos reproduzindo no micro a mesma estrutura do macro. Basta olharmos para a política brasileira para termos um exemplo do que falo aqui.

O padecimento de uma pouca memória para as coisas ajuda muito nestas horas. Afinal, é muito fácil esquecer o combinado em outras reuniões. Tanto que vemos que nas reuniões, tudo funciona, mas ao sair delas, é como se nunca tivessem acontecido. Questões banais como "horários de lanche de 15 minutos" são facilmente esquecidos e a coisa volta a ficar da mesma forma que antes da reunião. Ao entrarmos na reunião o "dever-ser" impera, ao sairmos o que "é" se mantém. E ficamos como quem oscila entre as duas posições. Se aderimos ao que "é" vem sobre nós a culpa de não estarmos fazendo o combinado, se aderimos ao "dever-ser" não somos valorizados pelo trabalho prestado.

Sobre um ser tão fragilizado não pode recair culpabilidade.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

I had a dream







Hoje sonhei com você.

Foi um bom sonho, voltávamos a nos ver depois de um longo tempo. Longo pra mim talvez, nem tanto pra você.
No sonho voltávamos a agir como crianças, envoltos em conversas inúteis, mas por isso mesmo carregadas do essencial de cada um de nós.
No sonho apareceu um "problema de adulto" que assolava nossos momentos infantis de descoberta, confiança, reciprocidade.
Mas o problema logo foi embora e continuamos nossa conversa inútil.

Há duas formas de vermos os sonhos. "a la Homero" e "a la Freud".

Em Homero os sonhos são entendidos como preságio dos deuses. Os sonhos mostram que uma realidade metafísica quer se comunicar conosco para nos alertar, admoestar, dar dicas do que fazer, montar estratégias em caso de batalha, enfim, o sonho é um bom ou mau preságio de algo que virá. É o ponto de contato com o futuro ainda inexistente para nós, mas já de alguma forma "forjado" num plano eterno. Vemos isso na Ilíada, na Odisséia... Homens sendo avisados pelos deuses, e estes o fazendo através do sonhos.

Sonhar podia ser extremamente enriquecedor ou perturbador dependendo do sonho e suas implicações. Às vezes só os mais sábios eram capazes de interpretar a "mensagem dos deuses". Vemos esta temática aparecendo várias vezes no texto bíblico também, isto não é um privilégio dos gregos, o que mostra um aspecto interessante dessa forma de ver o sonhos. E é importante ressaltar que esta visão perdurou durante vários séculos e só mesmo com Freud que os sonhos foram "desmistificados".

Outra forma de vermos os sonhos é "a la Freud". Para ele, os sonhos são manifestações de desejos inconscientes que "escapam", durante a noite, das barreiras forjadas pelo ego e pelo superego e vêem à tona enquanto dormimos.
Estes desejos são, por definição, amorais. Não há "pudor" no inconsciente. Por isso que as vezes sonhamos com coisas tão estranhas. No sonho, deste ponto de vista, o que está em jogo não é uma realidade metafísica tentando nos falar alguma coisa, mas existe apenas nós mesmos tentando nos dizer alguma coisa.
Para Freud, assim como um carro é movido pela gasolina, o homem é movido pelo desejo. Somos seres desejantes, e é isto que nos constitui enquanto seres humanos.

O que realmente somos, onde realmente somos não está nos nossos domínios. Está escondido em nossas profundezas e talvez por isso não nos conhecemos várias vezes.
Os sonhos nos mostrariam esta dimensão nossa que desconhecemos, eles manifestariam os nossos desejos mais escondidos.

Se o sonho que tive hoje foi uma mensagem dos deuses ou manifestação de um desejo inconsciente de estar contigo não tem como dizer. Embora acredite mais "a la Freud", quem sou eu para negar a possibilidade metafísica?

Sei que quando acordei não gostaria de ter acordado. Estava tão boa a sua companhia em meus sonhos. Estava tão bom reviver com você tão bons momentos.

Voltar ao passado e novamente ter momentos felizes ao seu lado me fez muito bem.

sábado, 10 de setembro de 2011

Resposta à Bara

Alguns textos surgem de reflexões a sós, outros de conversas entre amigos, este é fruto do segundo tipo.

Realmente a lideranca eclesial hoje passa por maus momentos em sua grande maioria.

Claro que como todo lugar, há os bons lideres e os maus líderes.
Infelizmente, tenho que concordar com você, e afirmar que os maus líderes realmente afloram a cada dia.

Práticas irrefletidas, falas levianas, e tudo isso ainda supostamente ancorados na "palavra de deus".

Realmente é triste a realidade que vemos hoje.
Acredito que a igreja enquanto instituicao, se nao retomar as bases de onde saiu, tenderá a cada dia mais ser objeto de escárnio por parte da maioria das pessoas.

Penso que, se é pra ser empresa, que seja direito, que pague os impostos, que faça propaganda, faça marketing, agora, esconder detrás de uma ideologia religiosa no intuito de vincular suas práticas a ordens ontológicas, metafisicas aí realmente nao dá.

Seria a mesma coisa que se o mc donalds disesse que o Big Mac custar 16 reais é uma ordem divina, ou dizer que o dono do mc donalds ora a deus antes de dar o preco ao big mac.

A analogia pode parecer estranha, ou inusitada, e até parecer falácia, mas no meio do "evangelho fast food" que vivemos hoje em dia, o que vemos em várias igrejas evangélicas é uma palhacada desse tipo.

O pastor (dono da franquia) toma uma decisao arbitrária, remete esta decisao a uma "ordem divina" ou "fruto de oracao" e a partir daí a coisa continua. Este remeter a uma ordem divina legitima a prática arbitrária.

Se você for ao "procon" e tentar fazer a queixa contra a arbitrariedade, o pastor (dono da franquia) vai remeter a ordem a algo metafísico, e como o ônus da prova tem que recair sobre o acusador, como que ficam as coisas? Afinal, o membro na maioria das vezes não passa daquele que simplesmente se alimenta do fast food.

Resta confiar nas palavras do cristo que afirma que pelos frutos conheceremos a árvore e esperar que o machado que já está ao pé da figueira corte tudo aquilo que é ostentação.

Mas penso que não devemos apenas esperar que a justiça seja feita como algo divino, mas nós enquanto pessoas preocupadas com este caminhar das coisas, devemos nos colocar contra tal prática e exigir que isto acabe.

Penso que o primeiro passo para isso é se importar. Enquanto não nos importarmos com isso, nada faremos para melhorar. Depois disso devemos conhecer o que queremos, conhecer o texto bíblico para que possamos ver o quão distante se está da proposta do reino, e depois disso devemos agir no intuito de mudar efetivamente esta realidade. Enquanto estes 3 passos não forem dados, penso que o caminho será de mal a pior, e as franquias continuarão a abrir.

Em cada esquina com uma promoção diferente.






quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sobre a liderança evangélica atual




Foi-me proposto um “comentário” sobre a liderança evangélica atual. Escrevi este pequeno texto com o propósito mais de “abrir questões” que fechá-las. Segue o comentário:

Os problemas evidenciados na atual liderança evangélica são vários e seria impossível abarcar tudo em um pequeno texto como este. No entanto, algo que salta aos olhos é primeiramente um afastamento dos preceitos bíblicos. Este distanciamento talvez provocado por uma ignorancia em relação ao texto, por uma formção que prima mais pelo quantidade que pela qualidade. Se consideramos que o número de seminários e faculdades teológicas quase triplicou nos últimos anos segundo várias fontes de pesquisa. Era de se esperar que tal aumento, verificasse um aumento na qualidade do ensino, gerando com isso pastores mais preparados. No entanto, isto não aconteceu e não vem acontecendo.

Ao invés de serem ensinados nos preceitos bíblicos, os pastores são ensinados em "táticas de manipulação", "hermeneuticas escusas" que simplesmente favorecem uma leitura geralmente fundamentalista e paradoxalmente mal-fundamentada. Coisa que parece comum aos "fundamentalismos".

Tais táticas acabam por perverter ao grande publico a noção do que é ser "evangélico", tanto que o próprio termo já caiu em associações diretas a práticas evidenciadas em várias igrejas neo-pentecostais como "petição de dinheiro", "dízimo" "pagar o pastor", dentre outras.

Ao mesmo tempo, esta falta de preparo do líder gera uma completa dicotomia no seio do próprio meio evangélico. Afinal, não podemos tomar a parte pelo todo. Sabemos que há pastores e líderes evangélicos bastante compromissados com a propagação do reino e estes devem sim ser trazidos a tona. Talvez até mais que os que praticam coisas das quais o evangelho se envergonha.
Acompanhada da falta de preparo e talvez como consequencia direta dela, aparece o "abuso pastoral" que até onde podemos ver, se evidencia nos "psicopatas da fé". Este abuso se reveste de uma carapuça onto-teológica para se fundamentar.

O poder do pastor é tomado como "dádiva de Deus" que faz com que os membros destas igrejas se sintam quase que de volta aos terrores dos absolutismos europeus. A figura do líder exaltada a quase "segundo deus" favorece e fortalece o abuso evidenciado por tais líderes. Aliado a isso o baixo conhecimento teológico evidenciado na maioria dos membros das igrejas evangélicas, principalmente as neo-pentecostais (uma vez que a prática da reflexão bíblica é muito pouco incentivada nesse meio, dando-se uma ênfase enorme na "operação de milagres", "visões", "revelações", ou seja, um cunho extremamente estético) o cenário fica perfeito para a propagação de um "código de conduta" muito rígido para os membros, mas muito flexível para o líder.

Sob a égide de "ungido de Deus" se permite ao líder o fazer o que quiser sendo que várias vezes, apenas responderá pelo seus feitos diante dos tribunais dos homens, mas nunca diante da congregação.
A impunidade favorece e fortalece a prática. A onto-teologia a legitima. Com isto o membro se enfraquece e o líder se absolutiza.

Os vislumbres do líder então passam a ser adotados como "as visões de Deus para a congregação", a "vontade de Deus" e várias outras coisas das quais o líder nunca será o responsável.

Afinal, se o projeto der certo, fala-se que "Deus direcionou, e por isso deu certo", e junto a esta fala se promove o marketing pessoal do líder. Mas se o projeto der errado, a culpa é dos membros que são "homens de pequena fé" e por isso Jesus não operou o milagre. E como base para esta afirmação ainda utilizam textos bíblicos tais como Mt 13:58 "E não fez ali muitas maravilhas, por causa da incredulidade deles". A culpa do fracasso recai sobre o membro, mas a glória do sucesso recai sobre o líder.

Como podemos ver, o assunto é extremamente extenso e carece de muitas pesquisas para que possamos diagnosticar e principalmente mudar a prática evidenciada em várias igrejas que se dizem evangélicas. Existem várias pesquisas interessantes sobre o tema, várias delas em níveis de mestrado e doutorado. No entanto, é um ramo que exige ainda muita pesquisa.

Este pequeno texto é apenas uma tentativa de abrir a questão que merece e deve realmente ser bastante discutida se quisermos que o evangelho volte a ser "boa-nova".

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Sobre o pique-esconde e salvação





Conversando ontem com duas amigas, contávamos sobre as brincadeiras que fazíamos quando crianças. As diversas brincadeiras várias vezes sem sentido, mas permeadas de alegrias que só aqueles tempos tinham.

Várias brincadeiras eram comuns e algumas outras variavam de região para região.

Uma que todos nós brincávamos era a de pique-esconde. Todos nós brincávamos desta quando pequenos e todos nós gostávamos.

A brincadeira era muito simples. Um contava de olhos fechados até 50 ou 100 enquanto os outros escondiam. No final da contagem, este que contava saía procurando os escondidos, e caso visse algum deles, tinha que correr até o pique (lugar onde se contava), bater, e falar o nome da pessoa encontrada.

Surgiu uma divergência sobre o "salve todos". Alguns achavam muito estranho brincar com a regra do "salve todos".

(Para quem não sabe, a regra do "salve todos" dizia que quando faltasse apenas um escondido, este poderia salvar a todos que tinham sido encontrados antes dele para que quem estivesse contando continuasse contando).

O primeiro a ser encontrado torcia para que o último não o fosse para que pudesse "salvar todos" no final.

A esperança da redenção se manifestava em todos os que foram pegos. A apreensão, a torcida por aquele último estava muito presente no final, quando apenas um faltava. Todos depositavam a confiança naquele único homem que poderia salvar a todos e fazer com que ninguém fosse punido e tivesse que ser aquele que procura.

A brincadeira muito ilustra a esperança da salvação proposta pelos evangelhos. Todos aguardando a redenção que vem através de um homem. Do ponto de vista de uma cristologia, Cristo é a redenção de Deus vinda aos homens e efetivada na cruz. Do ponto de vista escatológico, a questão da redenção final adquire várias posições.

A regra do "salve todos" tem até nome teológico e é fruto de inúmeros debates nesta área do conhecimento. Será que Deus salvará todos no final? Será que há salvação pra sempre? Será que "uma vez salvo, salvo para sempre"? Aquele que foi pego primeiro está condenado a ser o próximo a contar e procurar os outros? Ou há a esperança da redenção, do "salve todos"? O último poderia apenas "escolher" quem ele salvaria ou na ação dele de salvar a todos não há lugar para "escolhidos" ou "predestinados"? Será que a salvação é por mérito? Eu mesmo posso me salvar, ou dependo sempre em última instancia daquele que "salvará a todos no final" ? O "salve todos" serve apenas para quem não tem o mérito de se salvar sozinho, ou é válido para todos enquanto "possíveis-pessoas-encontradas"?

Questões teológicas fulcrais são presenciadas na brincadeira do pique-esconde, mas quando crianças não pensamos muito nisso, e talvez por isso podemos aproveitar a brincadeira de forma mais light, sem preoucupações desnecessárias. A brincadeira não precisa ter explicação, ela simplesmente está ali para ser brincada.

Algo a se aprender com o pique-esconde. Tanto ponderar sobre estes assuntos teológicos-existenciais, quanto também pensar na leveza com a qual a vida deve ser vivida. Se no final Deus resolver "salvar todos" ou não, isto não fará diferença para nossa vivência. Só fará diferença se pautarmos nossa vida nisso, um eterno "imperativo hipotético" um "fazer para ser salvo no final" que deveríamos saber, está longe da proposta do reino.

Talvez o prazer da brincadeira estivesse no fato de não termos que pautar a brincadeira pelo seu final, mas simplesmente brincar, sabendo que podemos mudar de brincadeira a qualquer momento. No texto Sejamos homo ludens falo um pouco sobre isso. E porque não mudar a regra do "salve todos"?

E a esperança não se manifestaria apenas na salvação do último, mas se manifestaria na mera brincadeira, tentando fazer dela momentos de eterna alegria enquanto o dia brilha e a noite não vem...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Reflexos e Reflexões







Reflexo e reflexões foi um novo nome que pensei para o blog e isto talvez por uma questão muito óbvia.
Todo escrito meu, por mais simples que seja, sempre tem um pouco dos dois. A reflexão que como todos sabem faz parte do trabalho do filósofo de maneira fulcral.

Não existe filosofia sem reflexão, embora o contrário seja bem comum.

E o reflexo talvez não se mostre com tanta obvieidade, mas permeia tudo o que fazemos.

Ao fazermos coisas refletimos o que nos foi ensinado em nossa própria existência. Na maior parte das vezes nossas ações não passam de reflexos, hora límpidos, hora turvos.

Claro que há um problema subjacente em agirmos como meros seres-que-refletem-coisas
que é o problema da identidade.
Se apenas refletimos, ficamos como grande espaço vazio, no entanto todas nossas ações sempre serão reflexos de nós mesmos.
Será que é possível vermos o mundo sem nossos olhos? Com olhos de outro?

Afinal, todo mundo visto por mim é o meu mundo.

Algumas vertentes místicas colocam como objetivo a quebra do vidro que gera o reflexo pelo qual vemos o mundo para contemplarmos a realidade das coisas sem o vidro que nos impede e nos reflete antes de vermos algo.
Mas será isto possível? Enquanto possibilidade isto aparece, talvez o problema seja a exequibilidade.

Esta dinâmica do ver já está presente em Platão. Algo muito interessante a notar é a diferença da ascesse à verdade entre o grego e o judeu. Enquanto para o primeiro o sentido mais louvado é a visão, para o segundo é o ouvido. ( A fé vem pelo ouvir, Maria engravida pela palavra). Até que ponto estas representações não estão condicionadas socialmente?

Sobre toda hermeneutica sempre há um ser-hermeneuta. Não há hermeneutica isenta, livre, e talvez aí resida todo fracasso de uma tentativa a encontrar a "verdade" escondida no texto, (típico de algumas posições fundamentalistas), ou até mesmo a proposta mística de uma verdade metafísica existente além de qualquer coisa.

Claro que com boas doses de metafísica, as duas posições são possíveis. Talvez o que algumas escolas místicas propõem como objetivo último do ser humano em nada difere da posição fundamentalista de encontrar a "verdade atemporal" descrita no texto. No entanto, a postura mística, já de saída assume sua metafísica, ao passo que várias posições fundamentalistas não o fazem, o que acaba colocando tal posição numa "falta de sinceridade epistemológica."

A posição que defendo é que nossas reflexões são sempre reflexos nossos, reflexos da nossa sociedade, reflexo do mundo que crescemos e vivemos. Claro que admito como possibilidade uma ascesse a algo para além do reflexo, no entanto penso ser uma via mais complicada de se defender epistemológicamente e talvez por isso tenho a tendencia de deixá-la em suspenso.

As vezes a contemplação mística seja a saída para tal impasse, no entanto, como sabemos tal contemplação se torna inefável, uma vez que as palavras não a consegue descrever. Chegamos quase que ao impasse de Górgias. Este afirmava que "nada existe, se existir não pode ser dito a ninguém, se puder ser dito, ninguém compreenderá", se ao invés do nada colocarmos o "sentido" ou "tudo" ficamos próximos das tentativas místicas, e o mesmo impasse permanece, só que agora não mais com a existencia de um nada, mas com a presença do todo que nos permeia no entanto nos escapa pois as palavras não o atinge. Condição humana por excelencia, o limbo entre o todo e o nada buscando, na corda bamba, achar um caminho para a morte feliz.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Palavras jogadas



Eu sempre achei que um bom sinal de saber
se vc tem um relacionamento bacana com outra
pessoa é vc conseguir ficar calado perto dela e
isso nao incomodar. alcancar a incomunicacao...
um silencio que nao incomoda é sinal de cumplicidade e isso demora muito para se conseguir.

Em um mundo onde tudo deve ser rapidamente comunicado, o silencio vira quase que um tesouro perdido.

E na maioria das vezes sobre o que falamos?

Falamos trivialidades, coisas corriqueiras, assuntos fúteis, besteiras que qualquer pessoa além de nós mesmos seria capaz de falar.

Na maioria das vezes nossas palavras não trazem vida a ninguém. Um todo fútil. Palavras jogadas ao vento e que nunca recolheremos nem mesmo as veremos produzindo algum fruto.

Desperdiçamos como quem tem de sobra, como quem não precisa dar contas das palavras que se dizem. Palavras contra palavras, nada além disso.

Palavras vaizas, mas que por algum motivo insistimos em dizer. Parece que há um senso comum em achar que o silêncio é sinal de fraqueza, que as pessoas devem sempre falar alguma coisa.

Não sou desta opinião. Valorizo o silêncio. Valorizo as palavras que edificam.

Se a boca fala do que está cheio o coração, como já dizia o cristo, e nosso falar remete apenas a futilidades, podemos dizer que nosso coração está cheio de futilidade. E se ao mesmo tempo, o nosso tesouro está onde está o nosso coração, podemos falar que o nosso tesouro está em futilidades. (Isto deduzido por mero silogismo)

talvez por isso falamos futilidades, gastamos com futilidades e a vida fútil vai seguindo como uma espécie de "dever-ser". Uma dinamica típica do capitalismo, da dinamica de consumo onde até mesmo as palavras se tornam futilidades.

A palavra cria e destrói mundos, mas também pode ser usada como nada além que palavras jogadas ao vento, e infelizmente é o que mais vemos hoje em dia.