sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Reflexos e Reflexões







Reflexo e reflexões foi um novo nome que pensei para o blog e isto talvez por uma questão muito óbvia.
Todo escrito meu, por mais simples que seja, sempre tem um pouco dos dois. A reflexão que como todos sabem faz parte do trabalho do filósofo de maneira fulcral.

Não existe filosofia sem reflexão, embora o contrário seja bem comum.

E o reflexo talvez não se mostre com tanta obvieidade, mas permeia tudo o que fazemos.

Ao fazermos coisas refletimos o que nos foi ensinado em nossa própria existência. Na maior parte das vezes nossas ações não passam de reflexos, hora límpidos, hora turvos.

Claro que há um problema subjacente em agirmos como meros seres-que-refletem-coisas
que é o problema da identidade.
Se apenas refletimos, ficamos como grande espaço vazio, no entanto todas nossas ações sempre serão reflexos de nós mesmos.
Será que é possível vermos o mundo sem nossos olhos? Com olhos de outro?

Afinal, todo mundo visto por mim é o meu mundo.

Algumas vertentes místicas colocam como objetivo a quebra do vidro que gera o reflexo pelo qual vemos o mundo para contemplarmos a realidade das coisas sem o vidro que nos impede e nos reflete antes de vermos algo.
Mas será isto possível? Enquanto possibilidade isto aparece, talvez o problema seja a exequibilidade.

Esta dinâmica do ver já está presente em Platão. Algo muito interessante a notar é a diferença da ascesse à verdade entre o grego e o judeu. Enquanto para o primeiro o sentido mais louvado é a visão, para o segundo é o ouvido. ( A fé vem pelo ouvir, Maria engravida pela palavra). Até que ponto estas representações não estão condicionadas socialmente?

Sobre toda hermeneutica sempre há um ser-hermeneuta. Não há hermeneutica isenta, livre, e talvez aí resida todo fracasso de uma tentativa a encontrar a "verdade" escondida no texto, (típico de algumas posições fundamentalistas), ou até mesmo a proposta mística de uma verdade metafísica existente além de qualquer coisa.

Claro que com boas doses de metafísica, as duas posições são possíveis. Talvez o que algumas escolas místicas propõem como objetivo último do ser humano em nada difere da posição fundamentalista de encontrar a "verdade atemporal" descrita no texto. No entanto, a postura mística, já de saída assume sua metafísica, ao passo que várias posições fundamentalistas não o fazem, o que acaba colocando tal posição numa "falta de sinceridade epistemológica."

A posição que defendo é que nossas reflexões são sempre reflexos nossos, reflexos da nossa sociedade, reflexo do mundo que crescemos e vivemos. Claro que admito como possibilidade uma ascesse a algo para além do reflexo, no entanto penso ser uma via mais complicada de se defender epistemológicamente e talvez por isso tenho a tendencia de deixá-la em suspenso.

As vezes a contemplação mística seja a saída para tal impasse, no entanto, como sabemos tal contemplação se torna inefável, uma vez que as palavras não a consegue descrever. Chegamos quase que ao impasse de Górgias. Este afirmava que "nada existe, se existir não pode ser dito a ninguém, se puder ser dito, ninguém compreenderá", se ao invés do nada colocarmos o "sentido" ou "tudo" ficamos próximos das tentativas místicas, e o mesmo impasse permanece, só que agora não mais com a existencia de um nada, mas com a presença do todo que nos permeia no entanto nos escapa pois as palavras não o atinge. Condição humana por excelencia, o limbo entre o todo e o nada buscando, na corda bamba, achar um caminho para a morte feliz.