quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Sobre o pique-esconde e salvação





Conversando ontem com duas amigas, contávamos sobre as brincadeiras que fazíamos quando crianças. As diversas brincadeiras várias vezes sem sentido, mas permeadas de alegrias que só aqueles tempos tinham.

Várias brincadeiras eram comuns e algumas outras variavam de região para região.

Uma que todos nós brincávamos era a de pique-esconde. Todos nós brincávamos desta quando pequenos e todos nós gostávamos.

A brincadeira era muito simples. Um contava de olhos fechados até 50 ou 100 enquanto os outros escondiam. No final da contagem, este que contava saía procurando os escondidos, e caso visse algum deles, tinha que correr até o pique (lugar onde se contava), bater, e falar o nome da pessoa encontrada.

Surgiu uma divergência sobre o "salve todos". Alguns achavam muito estranho brincar com a regra do "salve todos".

(Para quem não sabe, a regra do "salve todos" dizia que quando faltasse apenas um escondido, este poderia salvar a todos que tinham sido encontrados antes dele para que quem estivesse contando continuasse contando).

O primeiro a ser encontrado torcia para que o último não o fosse para que pudesse "salvar todos" no final.

A esperança da redenção se manifestava em todos os que foram pegos. A apreensão, a torcida por aquele último estava muito presente no final, quando apenas um faltava. Todos depositavam a confiança naquele único homem que poderia salvar a todos e fazer com que ninguém fosse punido e tivesse que ser aquele que procura.

A brincadeira muito ilustra a esperança da salvação proposta pelos evangelhos. Todos aguardando a redenção que vem através de um homem. Do ponto de vista de uma cristologia, Cristo é a redenção de Deus vinda aos homens e efetivada na cruz. Do ponto de vista escatológico, a questão da redenção final adquire várias posições.

A regra do "salve todos" tem até nome teológico e é fruto de inúmeros debates nesta área do conhecimento. Será que Deus salvará todos no final? Será que há salvação pra sempre? Será que "uma vez salvo, salvo para sempre"? Aquele que foi pego primeiro está condenado a ser o próximo a contar e procurar os outros? Ou há a esperança da redenção, do "salve todos"? O último poderia apenas "escolher" quem ele salvaria ou na ação dele de salvar a todos não há lugar para "escolhidos" ou "predestinados"? Será que a salvação é por mérito? Eu mesmo posso me salvar, ou dependo sempre em última instancia daquele que "salvará a todos no final" ? O "salve todos" serve apenas para quem não tem o mérito de se salvar sozinho, ou é válido para todos enquanto "possíveis-pessoas-encontradas"?

Questões teológicas fulcrais são presenciadas na brincadeira do pique-esconde, mas quando crianças não pensamos muito nisso, e talvez por isso podemos aproveitar a brincadeira de forma mais light, sem preoucupações desnecessárias. A brincadeira não precisa ter explicação, ela simplesmente está ali para ser brincada.

Algo a se aprender com o pique-esconde. Tanto ponderar sobre estes assuntos teológicos-existenciais, quanto também pensar na leveza com a qual a vida deve ser vivida. Se no final Deus resolver "salvar todos" ou não, isto não fará diferença para nossa vivência. Só fará diferença se pautarmos nossa vida nisso, um eterno "imperativo hipotético" um "fazer para ser salvo no final" que deveríamos saber, está longe da proposta do reino.

Talvez o prazer da brincadeira estivesse no fato de não termos que pautar a brincadeira pelo seu final, mas simplesmente brincar, sabendo que podemos mudar de brincadeira a qualquer momento. No texto Sejamos homo ludens falo um pouco sobre isso. E porque não mudar a regra do "salve todos"?

E a esperança não se manifestaria apenas na salvação do último, mas se manifestaria na mera brincadeira, tentando fazer dela momentos de eterna alegria enquanto o dia brilha e a noite não vem...