quinta-feira, 16 de maio de 2019

Ética contemporânea - Um relato de aula








Recentemente, em uma das minhas aulas estávamos falando sobre ética contemporânea. A princípio propus um recorte mais histórico para entendermos uma espécie de "quando" poderíamos propor uma espécie de "virada ética" no ocidente e resolvemos tomar como marco o pós-guerra e o declínio dos discursos iluministas/positivistas e os discursos religiosos institucionais, o que daria origem, em grande medida, à ascensão de um existencialismo de cunho mais ateu. (Lembrando que o existencialismo já existia desde o século 19 com Kierkegaard, mas ainda muito vinculado à religião cristã). A partir desse marco precisávamos também analisar as mudanças sociais advindas do mundo pós-guerra e o impacto do início da globalização na vida desse sujeito ao mesmo tempo que precisávamos entender o avanço do capitalismo no pós-guerra, o que com certeza geraria impactos cruciais na vida dos sujeitos. 

No meio desse debate um aluno faz uma pergunta que a princípio não tem muita coisa a ver com a discussão, mas ele pergunta: "professor, qual a diferença entre "esquerda" e "direita"?" A pergunta que aparentemente soava sem sentido foi um excelente complemento para o nosso debate. Na hora me lembrei do texto de Hannah Arendt "As origens do totalitarismo" em que ela faz uma excelente análise de como que um movimento totalitário pode ser apropriado tanto por governos ditos de esquerda e governos ditos de direita. A partir desse texto comecei respondendo que a noção de "direita" e "esquerda" tem origem na França em que as alas mais conservadores ficavam à direita, enquanto a ala mais progressista ficava à esquerda, o que deu origem ao termo, mas que no entanto, hoje ninguém se referia mais a essa diferenciação quando usavam o termo.

Em seguida, seguir de perto a proposta de Deleuze que sempre afirmou que não há governo de esquerda, pois o máximo que pode haver são governos favoráveis a pautas da esquerda, mas nunca um governo de esquerda, pois para isso seria preciso que toda uma estrutura de poder fosse desfeita, o que até hoje não aconteceu. A partir disso propus uma categorização primeira de afirmar que a proposta da direita envolveria um aspecto mais conservador enquanto a esquerda propunha um aspecto mais progressista. O aluno então propõe uma pergunta pertinentíssima que coloca em xeque essa primeira categorização que é o fato de alas ditas de direita são extremamente a favor de um liberalismo econômico, liberdade do indivíduo, etc., enquanto alas mais à esquerda não raras vezes se mostravam mais a favor de um Estado mais forte, etc. Esse novo questionamento nos levou a uma segunda categorização, que talvez seja até mais interessante para pensar tal dinâmica dentro do capitalismo tardio.

Propus que para termos uma definição mais interessante poderíamos falar que dado o avanço do capitalismo no pós-guerra ter sido de maneira global, o mercado se transformou em grande medida em um grande déspota que sobrepõe às categorizações antes vigentes entre "esquerda" e "direita", e por isso seria interessante pensar uma outra forma de pensar essa diferenciação e até mesmo checar se tal diferenciação não teria se tornado anacrônica do ponto de vista da categorização. Propus então a diferenciação de que enquanto a direita propõe uma ênfase sobre o indivíduo, o elegendo como critério máximo na escala de valores de forma que tudo que contrarie o indivíduo deve ser visto como forma de limitação da sua liberdade (um neoliberalismo na sua forma mais hard), a esquerda propõe que o indivíduo não é esse critério máximo, mas sim a sociedade em seu conjunto que deve ser eleita como tal critério, de forma que é por isso que enquanto a direita defende um estado mínimo (pois o Estado nessa visão seria um limitador da liberdade do sujeito), a esquerda propõe um Estado mais amplo de forma a garantir um acesso a um número maior de pessoas à coisas que o indivíduo não consegue por si só dada a uma série de fatores. 

Como esses fatores são dados pelo sistema econômico, uma vez que eles determinam em grande medida a forma como o sujeito vai se relacionar no mundo, é interessante percebermos que acima dessa divisão entre esquerda e direita há um mercado global que transcende em grande medida tais divisões. Neste sentido, em época de capitalismo global podemos pensar em outra forma de categorização de direita e esquerda, de forma que talvez aqui aponte para algum anacronismo nessa categorização. Direita e esquerda teriam a ver com o quanto essas visões estariam dispostas a ceder ao mercado. A direita disposta a ceder muito (daí a proposta de um estado mínimo e o indivíduo eleito a critério último de valores), enquanto a esquerda disposta a ceder menos (daí a noção de um Estado mais forte capaz de garantir à sociedade, e não apenas ao indivíduo possibilidades, em suma, a sociedade eleita como critério último).

No entanto, algo que percebemos aqui é que nem a direita (por motivos óbvios) e nem a esquerda (por motivos não tão óbvios) estão dispostos a romper com a lógica do mercado, mas no máximo proporem uma espécie de "capitalismo humanizado" (outro anacronismo) capaz de atender as demandas sociais em segundo plano enquanto primam pelo lucro de um número cada vez menor de pessoas. A meu ver uma proposta de uma esquerda "true" deveria ser a proposta de um novo sistema econômico capaz de dar contas dos disparates criados pelo capitalismo. A primeira aposta da esquerda em um socialismo/comunismo de Estado não deu certo, pois muito rapidamente a ideia se perdeu em nome de uma maximização estatal que acabou funcionando como "novo detentor dos meios de produção" mantendo as mazelas que visava combater. No entanto, não é pelo fato da primeira tentativa ter dado errado que isso signifique a esquerda deva abrir mão de propor novos modelos de funcionamento da economia em que a sociedade e a humanização do sujeito sejam as prioridades. 

Um aluno então comenta algo que encerrou a aula com chave de ouro, pois tínhamos estudado antes o texto "homo sacer" do Giorgio Agamben em que o filósofo define o homo sacer e explora o conceito para o nosso tempo. A fala do aluno foi: "então, professor, vc está dizendo que no atual cenário mundial, ou você está no mercado, ou você é um homo sacer?" Eu respondo: "É exatamente isso. Você entendeu exatamente o ponto, e a meu ver, um sistema econômico que condena mais da metade da população mundial à condição de homo sacer não pode ser algo que podemos ver como algo que "funciona". É preciso de alguma forma pensar e repensar modelos econômicos capazes de re-humanizar o sujeito e ter neste e na sua vida em conjunto o critério último para uma ética e não o mercado. É a partir desse contexto que podemos pensar uma ética contemporânea que tentaremos iniciar na próxima aula.