sábado, 3 de dezembro de 2011

Sobre Liquidez




Pensando e conversando outro dia sobre as relações afetivas na pós-modernidade, chegamos a afirmar que a própria dinamica afetiva se encontra muito influenciada pelas dinamicas do capital.
Coisas simples que fazemos ou falamos acabam por refletir a "vacuidade" dos nossos relacionamentos que atualmente por qualquer motivo se "desmancham no ar".

Pelo que conversávamos, parece que a própria dinamica do acúmulo é visto nas relações interpessoais.
Várias vezes ouvimos pessoas contando "quantas" ou "quantos" pegaram numa festa ou numa saída. Em uma sociedade regida pelas regras do capitalismo até mesmo os valores e a humanidade do homem são pevertidos pela dinamica do acúmulo. Talvez daí a "descartabilidade" dos nossos relacionamentos tão bem tipificadas na idéia do "pegar alguém". Se a lógica regente é a do acúmulo, quanto mais melhor, logo, quanto mais relacionamentos vazios conseguir durante o ano, melhor, o que não se pode é ficar para trás enquanto todos tem alguém.

A própria idéia do "pegar alguém" já me parece estranha uma vez que a meu ver desumaniza o outro que é transformado apenas em objeto para um prazer imediato, que de vez em quando dura alguns meses, mas não passará disso. A idéia de "pegar alguém" acaba por remeter a ausencia de compromisso, a recusa de laços mais fortes. Prática esta que já deveríamos estar acostumados numa sociedade tão hedonista como a nossa.

Mesmo assim, tal dinamica ainda me parece estranha. Enquanto "se está pegando alguém" a idéia de um compromisso com o outro se insere apenas em um plano estritamente imediato que dura apenas enquanto ambos estão "juntos" (diga-se de passagem, acabo tendendo a acreditar que ambos não estão juntos no sentido strictu da palavra, apenas estão ali no mesmo ambiente, mas falta a cumplicidade, falta o diálogo , falta o acordo que permita que ambos andem e caminhem juntos como bem nos referiu certo boiadeiro nos tempos proféticos). A falta de um interesse em um relacionamento de fato pode ser encarado sob vários aspectos, quer psicológicos, sociais, filosóficos e com certeza este texto não daria conta de transitar por tantas variantes.
Constato um incômodo. Longe de mim querer fazer qualquer apelo a uma sociedade puritana ou retrógrada, não é isto que passa pela cabeça deste que vos fala. Ressalto apenas a vacuidade das relações que várias vezes passa desapercebida pelos participantes.

O "amor sólido" se torna impraticável em uma "sociedade líquida" para usarmos a expressão do Zygmund Bauman que veio a tona enquanto conversávamos. Neste tipo de sociedade não há muito espaço para coisas sólidas, estas são vistas como subversão e não são incentivadas uma vez que acabam se tornando um protesto contra o status quo onde a vacuidade dos relacionamentos prevalece. Nesta sociedade líquida tudo é constantemente reinventado só que sem raízes, sem forma. Nossos quadros de referencia mudam muito rapidamente sem que tenham tempo de solidificar em costumes e hábitos e a mesma dinamica vemos hoje em dia nos relacioamentos que assumem o que o mesmo Bauman chamou de "amor líquido".

Confesso que acho esta vacuidade das relações algo muito estranho, talvez devido a minha criação, talvez ao meu jeito de ver o mundo, não sei, mas acredito que alguma coisa do que disse aqui faz sentido e merece ser pensado com certa urgencia para que não tornemos os humanos tão descartáveis como temos tornado as coisas, e não invertamos a lógica agostiana que já nos dizia que devemos amar as pessoas e usar as coisas e não amar as coisas e usar as pessoas.