quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sobre antropologia teológica

O lava-pés de Leszek Forczek





Lauda entregue ao professor da matéria de Antropologia teológica que pediu para que avaliássemos o conteúdo da aula.

Como a proposta é fazer uma reflexão livre sobre a temática abordada, vai como se segue.
A princípio achei bastante interessante a temática da antropologia teológica e os pontos de partida para se pensar o problema.
Diante do exposto em aula, várias coisas podem ser pensadas e refletidas.

O pressuposto que se partiu na aula foi a de que o ser humano seria necessariamente criado por Deus, e qualquer outra visão que saísse deste ponto de vista acabaria sendo pensado como que “fugindo” do escopo da antropologia teológica para se cair em uma espécie de antropologia filosófica.
No entanto, entendo que não necessariamente seja preciso partir deste pressuposto para que a proposta continue sendo teológica.
Claro que para isso teríamos que repensar toda a questão do como entendemos Deus para a partir daí podermos dar um novo lugar para a antropologia teológica.

É um debate recorrente na teologia atual a questão entre Deus enquanto Ser (Ens realissimun) e Deus enquanto um sentido para a existencia, evidenciado principalmente a partir do existencialismo e que não pode ser descartada como forma de pensar o problema.


A partir do debate recorrente da teologia citado, a proposta para se pensar a antropologia teológica se abre a uma nova perspectiva. O pressuposto de um ser criado por Deus talvez não seja tão necessário assim para que se possa ainda assim fazer teologia, e pensar o homem teologicamente. Este é um problema que seria interessante ser pensado na antropologia teológica, e acredito que não seja um “pressuposto inegociável” a alternativa adotada no desenvolver da matéria até o momento, a saber, a existencia do ser criado por Deus.

A princípio penso ser interessante abordar a questão do ponto de vista estritamente cristão a respeito da antropologia. Tal recorte epistemológico pode ser um importante recurso pedagógico, embora espere que tal recorte não seja visto como único possível para se fazer antropologia teológica, uma vez que podemos ter outras teologias que não necessariamente a cristã e outras "antropologias" que não necessariamente as ocidentais.

Sobre os 3 pontos necessários ao homem para desenvolver uma antropologia teológica e para se relacionar com Deus apresentados na aula, ou seja, o relacionamento, a liberdade e a finitude, acredito que apenas o primeiro seria passível de uma demonstração a partir do pressuposto que se partiu.

O ser humano seria aquele que foi criado por Deus e anseia por voltar a Ele, ou nas palavras do bispo de Hipona no primeiro livro das Confissões: “porque tu nos fizeste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti”. Neste sentido, o ser humano é um ser em constante busca de um relacionamento com Deus uma vez que perdeu tal relacionamento na queda. Tal carência de relacionamento com Deus fica evidente e é inerente ao homem caído. Embora seja problemático postular a relação com Deus tomando apenas como "ser transcendente".
No entanto, os outros dois pressupostos, a liberdade e a finitude, fica extremamente difícil de serem justificados.

Sobre a questão da liberdade a primeira dificuldade encontrada seria um outro pressuposto que é o da onisciencia de Deus. Mesmo Agostinho tendo dado passos importantes na resolução do problema a partir da noção do tempo, a liberdade do homem em relação ao seu “destino final” ainda fica em aberto tanto no caso de Agostinho quanto na abordagem dada na aula. A liberdade se torna algo restrito ao campo da atuação “terrena”, mas pouco efetiva do ponto de vista “sobrenatural”, o que torna esta liberdade um problema a ser tratado.
A liberdade vista enquanto “submissão à vontade de Deus” também seria algo complicado uma vez que como Feuerbach bem nos salientou “um ser sem vontade seria um ser sem existencia”, e o homem, ao ter de abrir mão de sua vontade para se submeter à vontade de Deus teria que abrir mão de sua existencia, e da sua humanidade.
Curiosamente tal negação da vontade em nome da vontade de Deus é algo extremamente incentivado em várias igrejas evangélicas nos dias atuais. Um problema da sociologia da religião que carece ser mais discutido.
O problema da finitude a meu ver também se torna bastante complicado adotando-se o pressuposto evidenciado na aula. A questão da finitude é encarada de forma meramente instrumental. Se postulamos que existe uma alma no homem que é eterna, ou uma consciencia que seria para além do homem, a finitude fica extremamente mitigada e não encarada de frente. Se o ser continua após o perecimento do corpo (como desejaria Platão) sob uma forma diferente, então a finitude não se apresentaria como problema uma vez que o homem seria “infinito”.

O problema da finitude fica restrito ao aspecto corporal, e como o corpo não é o mais importante para a visão cristã ortodoxa (novamente sob pressupostos platonicos), a finitude não se coloca como problema uma vez que se tem a noção de vida eterna, da continuação da vida, ou da consciencia.
Feuerbach muito bem enfatizou este problema e mostrou que a doutrina da vida eterna seria uma tentativa do homem lidar com esta finitude, mesmo que dessa forma crie uma fantasia de que continuará vivendo após sua morte. Na mesma esteira Freud mostrou que o desejo de eternidade se vincularia ao desejo infantil de onipotencia e dessa forma é algo a ser superado pelo homem e não deve portanto ser a forma de lidar com o problema.
A nosso ver, ou se aceita a doutrina da vida eterna, ou se aceita a finitude humana. Ambas são inconciliáveis.
Estes são alguns apontamentos que faria sobre a aula sempre no interesse de que isso gere um diálogo interessante do ponto de vista teológico e ciente que várias questões apresentadas aqui merecem diálogos talvez intermináveis.