quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Um pouco sobre o pecado





Algo bem interessante que reparei nessas eleições nas redes sociais, principalmente no Facebook, (pois várias pessoas desconhecem a maravilha que é o Twitter) é que a maioria dos evangélicos da minha timeline estão se propondo a votar no candidato do PSDB apontando como motivo principal uma espécie de "conserto para o Brasil". Com a hashtag  #ForaPT querem afirmar inúmeras coisas e não raras vezes os vários escândalos de corrupção envolvendo o PT durante esses últimos 12 anos de governo. Algo curioso é que muito facilmente são esquecidos os inúmeros escândalos envolvendo o PSDB, tanto em Minas Gerais durante o governo do presidenciável Aécio Neves, quanto durante o governo tucano no Brasil. Exemplos como a compra de votos para a reeleição, a já tão falada "pasta rosa, o aeroporto na fazenda do tio, o mensalão mineiro, etc. etc. etc. ad nauseaum.

Há algum tempo atrás deixei bem claro em um post também no Facebook a minha opção por votar em Dilma nessas eleições por tudo o que o governo do PT tem feito pelo Brasil nos últimos 12 anos, que é sem dúvida inegável. O combate à fome que tirou o Brasil pela primeira vez do ranking mundial dos países onde esse problema é muito grave, os diversos programas sociais que o PT vem consolidando ao longo do seu governo tais como o Bolsa família, os investimentos na área da educação que permitiu a criação de várias universidades federais, criação e consolidação do Pronatec em todo Brasil, etc. Todas estas ações estão aí escancaradas para qualquer um que queira ver, e para mim estes são programas que devem ser mantidos e aprimorados, coisa que acredito, será algo que a Dilma continuará fazendo se reeleita.

A meu ver, o apoio quase que maciço dos evangélicos da minha timeline à candidatura de Aécio Neves demonstra algo bastante sintomático que é a adesão deles a um discurso mais conservador. Com certeza a maioria dessas pessoas são contra o aborto, são contra a legalização das drogas, são contra a causa homossexual, etc. Ou seja, assumem um discurso extremamente conservador e ainda colocam o texto bíblico como aliado para justificar suas posições, caracterizando como "pecado" todos esses exemplos que acabei de citar. Esse conservadorismo e essa "tara" pela classificação do que é ou não pecado, a meu ver contribui bastante para a adesão a um tipo de discurso que quer se afirmar como possível "moralizador da nação". Ou seja, a dinâmica se dá de uma forma muito simples. "O atual governo, além de corrupto ainda quer corromper os nossos valores, logo incentivam o pecado." Dessa forma tem-se obrigatoriamente que se colocar contra tal dinâmica, e o fará votando no candidato que demonstra não admitir todos esses progressismos que vão "contra a lei de Deus".

A meu ver, nessa tentativa de polarizar o mundo entre o certo e errado, há um desejo bastante infantil, talvez até de cunho narcísico, de querer que o mundo seja da forma como eu o idealizo. Ao polarizar as coisas entre certo e errado, opressor e oprimido de forma tão rápida e com uma certeza tão firme, pretende-se com isso organizar o mundo de forma a afirmar exatamente qual o meu lugar e qual o lugar do outro. Essa mesma dinâmica, a meu ver, justifica a "tara evangélica" para definir "o que é pecado" a qualquer custo.

João, que gostava muito de definições sucintas, nos dá uma rápida definição de pecado como "transgressão da lei" (I Jo 3,4). Sem dizer muito sobre o que está entendendo por lei, já prontamente procura tirar do seu interlocutor a ideia de que a coisa seja tão simples como parece. Logo em seguida no texto, ele vincula a noção de transgressão da lei a uma prática por parte do sujeito, ou seja, aquele que pratica o pecado está em transgressão da lei, ou seja, o pecado se relaciona sempre a uma prática do pecado. Não existe pecado se não há alguém que pratique o pecado, ou falando de forma mais clara, não há pecado se não há pecador. Dessa forma, é o sujeito da ação que se torna o mais importante, pois é na sua relação com a lei que se determinará se há ou não pecado. A lei por si só não é capaz de dizer o que é ou não pecado, mas apenas a transgressão da lei por parte do sujeito.

A relação do sujeito com a lei é sempre uma relação singular, isso já nos ensina a psicanálise desde Freud. O sujeito apenas se torna sujeito a partir do momento que a lei da palavra entra em seu corpo e ele é jogado na comunidade dos falantes. A lei que interdita o sujeito é a mesma que o humaniza, pois sem lei é impossível haver desejo. Dessa forma, a transgressão da lei aparece sempre de forma individualizada, sempre marcada por uma relação extremamente subjetiva entre o sujeito e a lei.

Se o pecado é transgressão da lei, ele é sempre singular, e se trata sempre de uma resposta que o sujeito dá em relação à lei. Daí que podemos afirmar que o pecado se assemelha nesse aspecto ao Reino de Deus. Da mesma forma que não podemos dizer sobre o Reino de Deus "ei-lo aqui, ou ei-lo ali, pois está dentro de nós (Lc 17,21) também não podemos dizer do pecado "ei-lo aqui, ou ei-lo ali" pois depende da relação singular do sujeito em relação à lei. Por isso que a meu ver toda tentativa de classificar o que é ou não pecado se torna uma tentativa vã, pois há nessa tentativa apenas um interesse narcísico de que o mundo seja de acordo com os meus valores.

Sabemos que a palavra nos é transmitida sempre por um Outro que nos insere no campo da cultura nos humanizando e nos fazendo entrar em contato com uma dimensão para além do nosso aspecto animal. A forma como entro no mundo da cultura é determinado pela própria cultura onde vivo, e a forma como isso me será passado será completamente condicionado pelo meio em que serei ensinado. A própria noção de pecado como transgressão da lei será dada sempre culturalmente. Isso é facilmente visível se compararmos as diversas culturas que nos cercam. O que seria considerado "pecado" em uma determinada cultura não é considerado "pecado" em outra. E isso apenas garante que a relação do homem com a lei, mesmo sendo sempre singular, é sempre mediada pela palavra do Outro.

Assumir o pecado como uma entidade válida para qualquer cultura é não querer enxergar o relação singular do sujeito com a lei, é querer uniformizar o mundo de forma a conseguir polarizar muito claramente o certo e o errado, tarefa hoje fadada ao fracasso. Mas isso nos levaria a um completo relativismo? A meu ver tal proposta não nos leva a um relativismo, pelo menos não obrigatoriamente. O relativismo entendido como "tudo é relativo" já se mostrou uma grande falácia e, a meu ver, nesse pretenso relativismo não se encontra uma matriz libertadora, mas muito pelo contrário, uma matriz opressora que visa igualar os diferentes pontos de vista sob um só. O que isso gera não é o respeito pelo diferente, mas a absorção do diferente dentro do mesmo, e aqui claramente se perde a dimensão do Outro.

Dessa forma, ao assumirmos o pecado como uma relação sempre singular do sujeito em relação à lei, de forma a não sermos capazes de dizer ao certo o que é ou não pecado, não estamos propondo um relativismo, mas exatamente o seu inverso. É por ser uma relação singular do sujeito para com a lei que todo sujeito se torna extremamente responsável pela resposta que dá a ela. Aqui que entra o papel do Outro como o grande limitador da ação humana. Se a lei é sempre me dada por um Outro que me coloca no mundo da linguagem e me humaniza esse Outro aparece como a quem endereço sempre uma resposta. Esse Outro aparecerá para mim como aquele que encarna a lei e exige que eu o responda. Por isso que a lei é sempre a lei do Outro.

O pecado, portanto, é sempre em relação a um Outro e nunca em relação a mim mesmo. Se fosse em relação a mim, seria uma relação meramente imaginária, onde o Outro não entra na equação, mas como se dirige ao Outro, sou capaz de responder e me colocar de forma singular em relação à lei me tornando extremamente responsável pela minha resposta a esse Outro.

Talvez esteja aí algo que Agostinho já nos dizia no seu comentário ao evangelho e à primeira epístola de São João. "Aquele que cumpre a lei não está sob a lei, mas com a lei. Aquele que ao invés é sob a lei não está aliviado pela lei, mas opresso por ela." (2004 p. 47)