sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Sobre a homoafetividade e a igreja evangélica (parte 1)







Algo que sempre achei curioso dentro da igreja evangélica é a forma como ela se posiciona de forma, várias vezes, muito simplista diante de temas extremamente complexos e como complexifica temas extremamente simples. Um exemplo de uma complexificação de um tema simples pode ser visto na forma como a igreja lida com os dízimos. Algo que foi instituído no Antigo Testamento visando o dom da partilha, como uma espécie de igualação dos meios de subsistência, como forma de dividir igualmente o produto da terra entre quem produz e não produz é transformado pela igreja evangélica em um imposto que facilmente condena todos os que não contribuem. Já falei bastante sobre o dízimo aqui

Um exemplo de um tema complexo que é tratado de forma extremamente simplista pela igreja evangélica é a questão homossexual. Dentro dela facilmente a questão se resolve colocando a ação como pecado e citando versículos bíblicos que condenam a prática homoafetiva. Qualquer pastor ou líder evangélico que vá falar sobre a questão já tem na ponta da língua os versículos da carta de Paulo aos Romanos capítulo 1, alguns textos de apocalipse, e alguns mais extremistas recorrem a algumas passagens do livro de Levíticos para mostrar o quanto a Bíblia se mostra contra tal prática, sendo, portanto, pecado praticá-las. A meu ver, o simples recurso a citação de versículos nunca se mostrou profícuo para justificar questões de comportamento, embora para alguns isso funcione muito bem. Obviamente que para isso funcionar é preciso que se parta de uma visão do texto bíblico que não compartilho, ou seja, a ideia de que a Bíblia é a palavra de Deus e que tudo que está escrito lá descreve a vontade atemporal de Deus. A minha posição em relação a Bíblia é outra. 

Para mim, o texto bíblico é um texto que deve ser compreendido tendo em vista a época de sua escrita, os seus diversos autores, as configurações culturais da época da escrita de determinado livro, etc. Da mesma forma que nossas concepções sobre o mundo muda com o passar do tempo, as concepções de mundo de um povo muda a partir da sua história. Se quisermos observar apenas um desses conceitos podemos observar o conceito de justiça que vai se alterando com o passar do tempo. De uma justiça retributiva a uma justiça mais graciosa. Da mesma forma, qualquer tema, para ser bem tratado à luz do texto bíblico, precisa ser inserido dentro do contexto de sua aparição para que não olhemos com lentes erradas algo que é claramente definido a partir de uma demanda social. 

Tendo dito isso, acredito que a questão da homoafetividade deve ser lida também da mesma forma, ou seja, ela deve ser entendida à luz do contexto em que os diversos textos foram escritos, o "por quem" foi escrito, com que propósito foi escrito, etc. Fica bem claro a partir do que falamos que uma análise atemporal de um determinado tema não funciona se quisermos realmente entender como lidar com a questão na contemporaneidade. Ao invés de simplesmente citarmos versículos, acho que seria muito mais prudente se pensarmos em que medida o que a Bíblia diz sobre a questão homoafetiva pode nos indicar não um caminho de julgamento, mas um caminho para o amor, pois como nos disse Jesus, "o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado" (Mc 2,27), ou seja, o homem é sempre mais importante que a lei. O acento recai sobre o homem e é exatamente sobre esse ponto que pretendo focar nessa pequena introdução ao debate, pois se colocarmos o acento sobre a lei corremos o sério risco de  perdemos a humanidade do homem, mas se colocarmos o acento sobre o homem daremos à lei um estatuto vivo para além de uma mera norma. 

É bem claro para qualquer leitor atento do texto bíblico que ele fala muito pouco sobre sexo, ou sobre as diversas possibilidades de relacionamento entre os sexos. O porquê o cristianismo desde o seu início fixou tanta a sua atenção sobre essa questão é algo interessante e se isso não está tão presente no texto bíblico é bem provável que essa fixação sobre o tema venha de fontes exteriores ao ambiente judaico. Sabemos que o cristianismo do primeiro século sofreu uma grande influência do platonismo e do gnosticismo e nessas filosofias percebemos um desprezo muito grande pelo corpo e uma predileção pela alma, ou seja, tudo que é corporal deve ser deixado de lado pois atrapalharia o desenvolvimento da alma. Esse tipo de dicotomia é bem assimilado pelos primeiros cristãos e se fixa muito cedo no cristianismo. 

O ser humano é um ser sexual. A sexualidade faz parte da natureza humana e isso nos comprova a medicina, a psicologia, e principalmente a psicanálise que traz a sexualidade para o centro do seu discurso propondo uma nova forma de se enxergar tal conceito. Freud nos propôs que a sexualidade é algo que vai muito além da relação sexual em si, e vai também muito além dos órgãos genitais masculinos e femininos. A partir de Freud começa-se a pensar a sexualidade de forma mais ampla, de forma que ele mesmo afirma que a sexualidade já se encontra na própria criança desde o seu nascimento. Quem tiver interesse sobre o tema recomendo a leitura dos "Três ensaios sobre a sexualidade" de 1905 onde tal ideia é desenvolvida. 

Freud trabalha com a noção de pulsão, que seria  o "processo dinâmico que consiste numa pressão ou força que faz o organismo tender para um objetivo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal; o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir suas metas (Laplanche e Pontalis,1995, P.394)  e o conceito de libido que  é definida por Freud como energia dessa pulsão. (Por se tratar de dois temas centrais da teoria psicanalítica que perpassa toda a sua história fica impossível dar uma definição mais pormenorizada desses conceitos. Quem tiver mais interesse sobre os dois conceitos recomendo a leitura do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis)

Algo que a psicanálise vai nos mostrar é que a pulsão pode ser dirigida a qualquer objeto, inclusive ao próprio eu, e basicamente, o que determina o objeto a que a pulsão se destinará dependerá de diversos fatores. Segundo o próprio Freud, 

"O objeto de uma pulsão é a coisa pela qual ele atinge a sua finalidade. O objeto não é necessariamente algo estranho: poderá igualmente ser uma parte do próprio corpo do indivíduo. Pode ser modificado quantas vezes for necessário no decorrer das vicissitudes que a pulsão sofre na sua vida, sendo que esse deslocamento da pulsão desempenha papéis altamente importantes "(Freud,1915, p. 143)

Dessa forma,  a pulsão pode encontrar diversos caminhos para se satisfazer, desde um objeto, uma outra pessoa, ou até mesmo o próprio eu, tendo sempre como objetivo descarregar e aliviar a pressão interna, e de alguma forma complementar aquilo que falta ao ser humano.  Essa falta, a psicanálise a trata como sendo algo estrutural, algo que nunca será satisfeita plenamente; é a falta provocada pela lei da palavra que humaniza o sujeito e faz nascer o desejo. Por isso que a pulsão nunca encontra o objeto que a satisfaz completamente e sempre está buscando novas formas de satisfazer. 

Mas para que essa digressão pelo campo da psicanálise? Para mostrar que a questão da sexualidade não é algo simples, e mostrar que a noção de sexualidade deve ser entendida para além da questão meramente sexual. Afirmar que a sexualidade é algo inerente ao ser humano é propor uma antropologia que parte do pressuposto de que o homem é um ser relacional, desvinculando o sexo do seu caráter meramente "reprodutor" ou normativo, integrando-o a uma dimensão mais holista. Através do conceito de pulsão rapidamente evidenciado aqui, podemos propor que, se o objeto da pulsão varia de acordo com o que acontece na vida, o que deve reger a sexualidade não é uma norma, mas a noção de complementariedade enquanto possibilidade de satisfação do desejo. 

Dessa forma, definimos nossos pressupostos de forma mais clara.
Nosso primeiro pressuposto é que o texto bíblico deve ser lido contextualmente e não como uma verdade atemporal.
Nosso segundo pressuposto é de que o ser humano é um ser sexual, mas essa sexualidade remete a uma noção de complementariedade, ou seja, a pulsão visa satisfazer o desejo através de objetos que podem ser desde um objeto qualquer, ou uma outra pessoa, ou o próprio eu.  No entanto, tal satisfação da pulsão é sempre parcial, pois o objeto capaz de preencher a falta está para sempre perdido e não pode mais ser encontrado. 

A partir desses pressupostos o diálogo entre fé cristã afirmada pela igreja evangélica e a homoafetividade pode se dar de uma forma mais profícua para além dos simplismos que ouvimos sempre que esse tema é tratado em uma igreja evangélica.  

Ao invés do simplismo, pensemos a partir da simplicidade da cruz.