quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre Pinheirinhos



Junto dos rios de babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião.
Sobre os salgueiros que há no meio dela, penduramos as nossas harpas.
Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião.
Como cantaremos a canção do SENHOR em terra estranha? Salmos 137:1-4

Estranho como vários problemas que acontecem no Brasil e no mundo nao vira alvo da crítica evangélica. O cristianismo que surgiu como forma de protesto, na heranca dos profetas do Antigo Testamento se ve agora do lado dos opressores, se ve do lado de quem detem o poder e por isso, na maioria das vezes se cala ao invés de protestarem. Ao invés de ir a luta tentam entoar canticos enquanto o mundo vai sendo oprimido.

Até no salmista houve mais compaixao quando canta no Salmo 137.

Como entoar canticos em Terra estranha? Como permanecer indiferente diante da opressao que acomete nossos irmãos que sofrem na maos dos opressores? Um protestantismo que não protesta perde a sua função. Se o mundo em que vivemos não aparece a nós como "terra estranha", há algo de errado na forma como nos relacionamos com o mundo.

Os opressores pedem que nos alegremos, os opressores pedem que não alcemos nossas vozes contra o que fazem, e passivamente se aceita isto com muita facilidade dentro da igreja evangélica. Ao invés de encararem os problemas, na maioria das vezes o que se vê é uma afirmação de que "este é o plano de Deus" "Deus tem algo a ensinar", no entanto não é isto que nos demonstra o Salmo citado acima. Os últimos versículos dele afirmam "Ah! filha de babilônia, que vais ser assolada; feliz aquele que te retribuir o pago que tu nos pagaste a nós.
Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras.".


Ao invés de "cobrir as correntes com flores" o salmista faz uma crítica e expressa o desejo de vingança contra os opressores. Um lidar com a ira de forma muito humana (condição esta várias vezes esquecidas pelo meio evangélico), um não negligenciar do desejo de ver o mal sendo vingado. Não há passividade na fala do salmista, aquele que oprime deve ser punido, o opressor não deve viver como se nada acontecesse.


Esta apatia evangélica diante dos problemas do mundo é bastante sintomática, pois demonstra uma visão ainda muito recorrente neste meio da idéia de "peregrino". A noção de que somos "peregrinos em terra estranha" ainda aparece muito forte para vários setores da igreja evangélica. Enquanto peregrino, não se deve preocupar com o que acontece no mundo, afinal, "vós não sois deste mundo". Esta ideologia da indiferença em relação ao mundo está longe de ser a proposta evidenciada pelos profetas do Antigo Testamento, assim como pelo próprio Cristo que sempre se colocou contra toda forma de injustiça social.

O caso de Pinheirinhos deveria mobilizar a igreja evangélica muito mais que os "eventos" promovidos pela rede Globo. Veria-se o "poder de Deus" se o povo que se diz evangélico, agisse como agentes do reino no mundo. O reino de Deus é um reino de paz, justiça e amor, e nós, enquanto humanos aqueles responsáveis por trazer o reino de Deus a terra. Afinal, "vem a nós o vosso reino" evidencia a dinamica do reino que desce e não de um povo que sobe.

Como entoar canticos em uma terra tão estranha? Como falar de "atos profeticos" se negligencia a dinamica dos profetas que tinham como mote de suas falas as críticas à sociedade de sua época, a crítica a opressão, a crítica a supressão dos direitos dos que não tinham parte na terra? Como dizer que se é cristão se o mundo humano não o toca ? Claro que é extremamente mais fácil buscar o sobrenatural a tentar mudar o material. Se a questão é meramente sobrenatural, o principal agente deve ser Deus e a ele cabe a responsabilidade de mudar tudo no tempo dele; agora, se a relação é material, cabe a nós enquanto seres materiais mudarmos o que pudermos mudar; "tirar a pedra" (Jo 11:39) para que algo aconteça.

Pinheirinhos é uma destas pedras que precisam ser removidas, e só será removida se houver o protesto. Protesto este que é o mote do protestantismo. O protestantismo não pode se calar diante do que temos visto e ouvido nestes dias, coisas que não acreditaríamos se nos fossem contadas. A opresão, a injustiça, a sociedade dominada pelas dinamicas do capital, a infração dos direitos humanos, etc, contra tudo isto o protestantismo deveria levantar a sua voz, para que realmente possa ser chamado de protestantismo. Só a partir desta ação efetiva no mundo é que se é capaz de "levar as boas novas".

A ausencia de responsabilidade pelo mundo material acaba por reduzir a nada o campo de atuação do crisianismo no mundo. Enquanto o cristianismo se mantiver apático em relação a questões como Pinheirinhos, os conflitos na áfrica, dentre outros, e ficar pensando apenas na "vida porvir",( incerteza que tenta passar por certeza) muito das críticas de Marx, Nietzsche e Freud se aplicarão a eles.

Só mesmo quando o cristianismo assumir seu papel de agente modificador do mundo, não ideologicamente, mas materialmente será possível ve-lo como um avanço da humanidade e não como ideologia opressora.