terça-feira, 9 de outubro de 2012

Psicanálise e Religião. Pequenos pensamentos esparsos






No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por ele e sem ele nada do que foi feito se fez. João 1.1-3

Qualquer mundo que queiramos criar pressuporá o uso das palavras que serão significativas em nossa arquitetura. Estas mesmas palavras serão usadas por nós como tijolos da construção deste mundo no qual fiaremos todas as nossas certezas e incertezas, onde buscaremos abrigos quando os dias forem maus, onde gostaremos de estar quando a paz nos faltar. Tudo isto construído por palavras.

No princípio era o verbo.

Nas profundezas de nós mesmos, lá no princípio, tudo é sem forma e vazio,  como se fosse um extremo caos onde a palavra ainda não tem acesso, onde não há tempo, mas que de alguma forma há o que realmente somos. Pulsões e mais pulsões querendo de alguma forma vir a tona, mas sem exito porque o que há é apenas caos. Apenas quando o verbo é dito tudo se transforma. O outro traz o verbo, ele se instaura em nós, ilumina, ordena, canaliza este turbilhão de pulsões. Com o verbo dito, algo se transformou e só então começamos a nos construir. Este verbo criador passa então a fazer parte de nós. Tudo será feito a partir dele, e sem ele nada do que for feito se fará.

Toda nossa busca posterior será na tentativa de decifrar este verbo presente em nós. Através das palavras passamos a revelar para nós o que antes não sabíamos, desvelamos as sendas obscuras que habitam em nós e que na maioria das vezes nem sabemos que estão lá. Do inconsciente ao consciente na tentativa de reviver o verbo que passou a fazer carne em nós. Esta tentativa quando bem executada nos traz ao conhecimento de nós mesmos e a partir daí podemos caminhar em nova direção.

Tudo criado e construído pela palavra. o verbo se instaura  e depois passamos a vida buscando palavras para tentar dizer o verbo encarnado em nós, várias vezes incompreendido, várias vezes obscurecido e não raras vezes escondido por nós mesmos.

Não seria esta a tarefa principal da psicanálise em seu trabalho de escuta entre analista e analisando? Este trazer a tona os segredos obscuros do homem de forma que ele veja quem ou o que ele realmente é e a partir daí consiga seguir em frente lidando com o sofrimento e o desamparo que o constitui? Nao seria a psicanálise a procura do verbo entendido como algo a ser buscado através de um método científico? Uma tentativa de cura pela palavra?

 "Diga-me uma só palavra e eu ficarei curado", talvez seja este o sonho de todo analisando com seu analista que geralmente não tem esta palavra de forma a precisar que o analisando fale, diga o que lhe vier a mente para então o analista tentar montar o quebra-cabeça provocado pela livre associação.
É óbvia aqui a presença da fé. Fé do analisando para com o analista, sem fé é impossível haver análise, pois o analisando precisa acreditar que o analista o entende, o acolhe, para então falar. Só a partir da fé começa a análise, começa-se a busca psicanalítica pelo verbo encarnado.

Dito dessa forma, fica claro que tanto a psicanálise quanto a religião buscam cada um a seu modo curar o homem de seu desamparo e buscar fornecer a ele um auxílio para lidar com o sofrimento. A religião para tal cura propõe um sentido último, um transcendente para o homem, a psicanálise propõe um mergulhar no inconsciente para que a partir do próprio conhecimento o homem lide melhor com seu desamparo estrutural, sem transcendente, sem um sentido último, sem promessas. Até que ponto a religião e a psicanálise podem se ajudar para livrar o homem do seu desamparo é algo a ser estudado com muito afinco e acredito que a dicotomia proposta por vários psicanalistas e vários religiosos não seja sadia. Não se deve pensar em uma dinâmica de "ou psicanálise, ou religião", mas vejo que o que deve ser buscado é uma proposta mais integradora e quanto a isso vários esforços tem sido feitos e é motivo de felicidade poder fazer parte deste diálogo tão profícuo.