sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sobre Vasti




Outro dia estava pensando sobre Vasti, a esposa do rei Assuero descrito no texto bíblico como uma mulher muito formosa e que se recusa a cumprir uma ordem do rei durante uma festa. O rei, muito furioso e ouvindo o conselho dos seus conselheiros, abre uma espécie de concurso para que outra mulher assuma o lugar de Vasti. Depois disso nada mais se fala sobre ela.  Esta história está descrita no primeiro capítulo do livro de Ester.

O que me chamou a atenção é que o ato de transgressão de Vasti a fez perder seu lugar de companheira do rei Assuero, que na época seria o rei mais poderoso da Terra. O texto bíblico não diz o porquê Vasti se negou a ir à presença do rei, mas fala apenas que ela se negou. Isso com certeza espantou a todos na festa e aí está talvez a coisa mais interessante deste pequeno relato.

Vasti se colocou contra todo o status quo da época que ditava que a mulher deveria fazer o que o homem mandasse, e no caso do rei, sob penas severas. (o que no caso de Vasti foi a expulsão da convivência com o rei). Esta postura fica clara a partir da fala dos próprios conselheiros que ficaram com medo de que o exemplo de Vasti fosse seguido por outras mulheres e a partir daí viesse a desordem, a bagunça, a falta de controle por parte do homem.

Vasti é colocada pelos príncipes como um mau exemplo a ser seguido e os príncipes fazem de tudo para impedir que tal coisa aconteça. Esta história é interessante uma vez que trata de um ato de protesto feminino frente a dominação e ao modo como as coisas aconteciam no império de Assuero. Ao se colocar contra a ordem do rei, Vasti dá voz às outras mulheres; i.e, o ato de Vasti a coloca como transgressora e como modelo.

Vasti se coloca como um sujeito que escolhe e não apenas que obedece. O ato de Vasti nos leva a pensar que várias vezes a transgressão  precisa ser feita para que a sua voz seja ouvida. E esta transgressão às vezes será feita contra uma figura de autoridade, que no caso específico seria autoridade tanto política quanto familiar. Vasti vai contra o rei e contra o marido. Ela está disposta a lutar contra a ordem do rei e ao mesmo tempo contra a ordem do "chefe da casa". A transgressão de Vasti adquire um caráter político que faz surgir a necessidade de uma nova promulgação real. Este ato jamais aconteceria se Vasti se visse como "apenas mais uma entre mulheres e concubinas". Foi preciso que a condição de sujeito aparecesse para que ela se colocasse como alguém capaz de negar um desejo da autoridade. Este ato a coloca como livre e não submetida a ninguém a não ser ela mesma. O ato transgressor de Vasti a liberta da dinâmica do palácio e implica em uma nova época no reino de Assuero. Há toda uma mobilização posterior para que se escolha a nova rainha que reinará no lugar de Vasti.

Hoje em dia várias manifestações estão em voga. A luta contra o status quo, a luta pelos direito das mulheres, homossexuais, etc. tudo isso aparece na pauta do dia e cada vez mais outras demandas vão surgindo, o que nos leva a pensar e repensar diversas posições que adotamos.
O que aprendemos com Vasti é que é preciso coragem para se levantar contra o status quo, mesmo que isso gere conseqüências que a princípio nos serão danosas, mas que não podem deixar de serem feitas e depois nos mostra que a mulher pode e deve exercer o seu papel em nome de sua própria liberdade, se fazendo ouvir e se colocando como sujeito que não apenas se submete, mas que luta por aquilo que acredita ser correto.

Ainda hoje vivemos em um mundo extremamente machista onde a mulher é tratada de forma diferente do homem em diversos aspectos, tanto socialmente, economicamente, etc. No entanto, acredito que Vasti seja um bom exemplo de como é possível às mulheres se fazerem ouvidas, e isso a  partir do protesto, a partir da tomada de posição frente ao mundo tão machista em que vivemos. Questões em relação ao próprio corpo, em relação ao direito de gerirem o seu tempo, de fazerem ouvidas e tantas outras demandas atuais.

Que o ato transgressor de Vasti possa servir de exemplo para os nossos dias em que o reino de Assuero se mostra cada vez mais opressor, e o assujeitamento se mostra cada dia mais veemente. Que tenhamos a consciência de que o ato de uma pessoa tem muito valor para a mudança do status quo, e que aprendamos com Vasti que nos mostra que às vezes é preciso se colocar contra o opressor para que a liberdade seja adquirida e a dignidade mantida.