segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Ainda sobre Isaías 41:10 - Um pouco sobre o conceito de justiça aplicado a Deus.





Ainda pensando no texto de Isaías 41:10 percebemos que o deus que fortalece e ajuda, o faz, fazendo uso da justiça. O conceito de justiça é bastante complicado , pois traz a tona uma série de discussões tanto filosóficas quanto teológicas.  Ainda mais sabendo que a justiça de deus não é a justiça dos homens, tal conceito entra em um terreno árido e o diálogo se torna bastante complicado. Obviamente que o intuito aqui não é definir o que seria justiça, nem muito menos abordar a questão do ponto de vista nem teológico e muito menos filosófico.

O que podemos dizer da justiça de Deus? Geralmente o que vemos é puro antropomorfismo aplicado à Deus. Esquecemos que o relato mais claro da justiça de Deus se faz presente na fala do Cristo que nos diz: "Nem eu tão pouco te condeno, vá e não peques mais". Esta justiça que não visa nada em troca, que perdoa os pecados gratuitamente, que não gera débito e que ainda é oferecida universalmente, é algo raramente associado como ideal de justiça divina. A imagem que geralmente ouvimos por aí é de um Deus que cobrará todo o bem e todo o mal no final fazendo com que a vida do "servo" seja realmente a vida de um "servo sofredor", para usarmos a paráfrase de Isaías 53. A vida do homem passa a ser a vida de um eterno devedor que nunca terá como pagar aquilo que deve.

A justiça vinculada à graça subverte o nosso conceito de justiça e por isso é melhor pensarmos em um Deus que no final será o justo juiz. Coisa interessante que ouvimos por aí é a aquela história de "Deus é amor, mas também é justo". A noção de adversidade é tão nítida que parece ser impossível vincularmos de forma aditiva a noção de amor e justiça. É como se a idéia de "Deus corrige a quem ele ama", fosse a regra para pensarmos a noção de justiça para com Deus.

Mas não será a correção de Deus uma atitude de graça para com a pessoa que permite que ela faça de forma diferente aquilo que ela fez?

É como se naquele "vá e não peques mais", estivesse o auge da justiça divina que vê o homem como falho, mas ao mesmo tempo permite uma nova chance, não encerrando cada ação como última, mas abrindo a possibilidade para o novo sempre. A justiça aqui se liga ao amor, se liga à liberdade, se liga à autonomia do homem de fazer e refazer suas ações.

Deus é amor e é justo, e só é justo porque ama. Prefiro pensar a justiça de Deus mais vinculada ao amor do que à punição. Prefiro pensar em um Deus que nos dá outra chance do que pensar em um que anota os erros e acertos em um caderno para depois cobrar tudo no final.
Um deus que possui um caderninho onde anota as dívidas e os acertos é um deus capaz de barganha. Talvez por isso esta ideia deste deus "dono do armazém" seja tão aclamada por vários pregadores em tantos lugares. Se este deus é capaz de barganhar, então é possível que eu possa fazer algo para que ele me conceda o que peço, ou quem sabe Ele verá que eu fui um "bom menino" e me dará aquilo que eu preciso.

As palavras do Eclesiastes que diz "há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade" (Ec. 7:15) soam estranhas a um sujeito que lida com um Deus que barganha.  O que o Eclesiastes evidencia neste pequeno fragmento é algo que vemos todos os dias, ou seja, que as coisas nem sempre funcionam como achamos que elas deveriam funcionar, e nem por isso elas estariam "fora" da justiça divina, embora seja  muito mais simples pensar em um Deus que recompensa quem faz o bem e pune quem faz o mal.

Curiosamente, por mais que se fale de "graça" "redenção" e outros termos tão caros ao discurso do novo testamento, a lógica de pensamento sobre a questão da justiça continua sendo o deuteronômio. O capítulo 28 então é o preferido de todos que querem tornar Deus um juiz que tem a lei em uma mão e o desejo incontrolável de punir os outros na outra mão. A grande condicional com o qual o deuteronômio inicia sua lista de "bençãos" e "maldições" é sempre evocado para que o homem se sinta responsável pelas bençãos ou pelas maldições que sobrevierem sobre ele. Nunca ouvi ninguém comentando sobre o papel de Deus nesta história do Deuteronômio, e acredito que a maioria das pessoas não prestam muita atenção a isso quando leem o texto.

A doutrina da retribuição como teologia vigente da época deuteronômica impede que Deus seja visto para além desta teologia, ou seja, o deus de Israel tem que ser o Deus que retribui ou que pune para que a coisa funcione. Se não for assim a coisa desanda. Apenas com o passar do tempo, com o desenrolar da história do povo de Israel, com as diversas críticas feitas à esta teologia (como exemplo podemos citar os livros de Jó e Eclesiastes que fazem severas críticas à doutrina da retribuição) é que é possível entendermos o discurso do Cristo e posteriormente o discurso de Paulo sobre a graça de Deus que subverte o conceito de justiça como retribuição. Um longo caminho teve que ser trilhado para que a noção de amor se fizesse sobressair sobre a noção de retribuição. Obviamente que já vemos nos Salmos, Provérbios, e vários profetas do antigo testamento este Deus de amor se revelando, o que vai contra a ideia muito difundida que o Deus do antigo testamento seria um Deus punidor e o Deus do novo testamento um Deus de amor.

O conceito de justiça perpassa todo o texto bíblico e é bastante interessante pensarmos em seu desenrolar à medida que o povo de Israel vai enfrentando novos desafios, novos exílios, novas batalhas. Assim como qualquer conceito é fruto do seu tempo, o conceito de justiça vai sofrendo uma grande mudança no texto bíblico. Esta transição é várias vezes negligenciada por alguns que insistem em fazer de Deus um sujeito carrasco que apenas quer coisas para nos dar outras. Presos à uma visão arcaica de Deus esquecem do desenvolvimento do conceito de justiça que tem no amor o seu vínculo último.

Talvez só assim possamos pensar como que Deus nos fortalece com a destra da sua justiça. Ou seja, ele nos permite refazer nosso caminho quantas vezes for necessário, pois ele sabe que neste refazer o nosso caminho está envolvida a nossa liberdade, a nossa autonomia, e o mais importante, o seu amor que é fonte da sua justiça. E durante o caminho, por mais escuro que seja, ele está sempre dizendo para nós: "Não temas porque eu sou contigo".