quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

"Outra coisa me apavora: que o homem em mim ressuscitado possa me abandonar !"




Dimitri chegou emocionado para Aliócha e lhe deu um beijo. Seus olhos começaram a brilhar e em seguida ele diz:

"Irmão, nesses dois últimos meses senti em mim um novo homem, renasceu em mim um novo homem ! Ele estava enclausurado em mim, mas nunca apareceria se não viesse essa tormenta. É terrível ! Mas que me importa que eu venha a passar vinte anos arrancando minério a marretadas numa mina, não tenho nenhum medo disso, mas agora outra coisa me apavora: que o homem em mim ressuscitado possa me abandonar ! Até lá nas minas, debaixo da terra, posso encontrar a meu lado um coração humano num galé e assassino como eu e fazer amizade com ele, porque lá também se pode viver, e amar, e sofrer ! Nesse galé pode renascer e ressuscitar um coração congelado, pode-se cuidar dele por anos a fio e, por fim, arrancar desse antro para a luz uma alma já elevada, uma consciência sofrida, pode-se fazer renascer um anjo, ressuscitar um herói ! E eles são muitos, são centenas, e todos nós culpados por eles ! Por que sonhei com o "bebê" justo nessa circunstância? "Por que o bebê é pobre?" Essa profecia me aconteceu naquele instante ! Pelo "bebê" eu vou. Porque todos são culpados por todos. Por todos os "bebês", porque há crianças pequenas e crianças grandes. Todos são "bebês". É por todos eles que eu vou, porque alguém tem de ir por todos. Não matei meu pai, mas preciso ir. Aceito! Tudo isso me veio à mente aqui... entre essas paredes descascadas. Mas eles são muitos, lá eles são centenas debaixo do chão, empunhando marretas. Ah sim, estaremos acorrentados e privados de vontade, e então, em nossa grande aflição tornaremos a ressuscitar na alegria sem a qual já não é possível ao homem viver nem Deus existir, porque Deus traz a alegria, este é o seu privilégio, grande... Que o homem se consuma na oração, Senhor ! Como ficarei sem Deus lá debaixo do chão? Rakítin mente: se expulsarem Deus da face da Terra, nós O acharemos debaixo dela ! Para um galé é impossível passar sem Deus, mais impossível ainda do que para quem não é galé ! E então nós, homens do subterrâneo, cantaremos das entranhas da terra um hino trágico a Deus, em quem está a alegria ! Viva Deus e sua alegria ! Eu O amo !"   (Dostoiévski, Fiódor.  Irmãos Karamázov  p. 767,768)