segunda-feira, 12 de maio de 2014

Reflexões a partir do Getsêmani






Hoje pela manhã conversando com a Laurinha falávamos sobre a experiência de Jesus no Getsêmani pouco antes de iniciar sua prisão e todo o processo que culminou na sua crucificação. Momentos difíceis encarados por Jesus, que precisou enfrentar momentos de tão grande angústia sem o auxílio dos seus próximos. Para exemplificar, basta lembrarmos que os discípulos estavam dormindo enquanto ele orava, que Pedro o negou enquanto ele era julgado, que o povo que o seguiu durante algum tempo foi a voz decisiva que gritava "crucifica-o!" em alto e bom som.

Aquilo que enfrentou Jesus nesse período tão curto, mas tão derradeiro de sua vida, se mostra paradigmático para pensarmos a nossa condição humana, várias vezes extremamente solitária, sem socorro e sem perspectiva de nada. Jesus, como todo homem, sentiu em sua pele a experiência do abandono e o sofreu como quem "chora gotas de sangue". É geralmente nesta hora que a maioria das pessoas acabam por se voltar à uma visão  infantil a respeito de Deus.

Claro que não há nada de errado em clamar a Deus nos momentos de angústia, clamar a Ele durante a solidão, quando todos nos abandonam e ver Nele o auxílio bem presente na hora da angústia. Isso é algo que o próprio Jesus fez. A sua oração no Getsêmani exemplifica este ponto. "Passe de mim este cálice", pediu Jesus. Mas ao invés do alívio veio apenas o silêncio de Deus. Entender o silêncio de Deus é algo que muita gente não consegue. Acostumados a ver a Deus como um pai que sempre está presente, o silêncio de Deus incomoda, e o simples fato de pensar que Deus pode se fazer ausente já atemoriza os mais infantilizados.

Se Deus aparece apenas como a projeção do pai, realmente ele não passa de uma ilusão que deve ser abandonada com o desenvolvimento do homem. É a esta conclusão que Freud chegou ao tratar a questão religiosa. Por isso que para ele era muito fácil considerar a religião como uma grande ilusão, pois o crente se coloca como criança diante de um pai que tudo pode e se recusa a encarar a realidade do mundo de forma adulta. É como se precisasse que o pai estivesse sempre presente pois não consegue andar sozinho. Estabelece-se sempre uma relação ambivalente em relação a Deus para o crente infantil. Ele ama a Deus pois ele o protege, o guarda, etc. mas ao mesmo tempo ele odeia e teme ao pai porque ele o pune e está sempre o vigiando. Deus aparece então como esse ser que não passa das projeções mais infantis do ser humano em relação aos pais.

Jesus nos mostra uma outra relação com o pai. Para além do drama edípico, para além de toda ambivalência em relação ao pai, Jesus encara a Deus como um Outro que não precisa ser temido, que não precisa ser pensado dentro de uma estrutura punitiva, mas também que não precisa ser visto como alguém que sempre está lá. O Deus de Jesus é um deus que é amor, mas por ser amor, é capaz de silenciar diante da dor para que o homem possa experienciar a realidade do mundo por si só. O Deus de Jesus não é um deus sempre presente, mas um Deus que aparece como grande ausência para além de toda projeção. Apenas um deus que ama é capaz de permitir a vivência do outro sem interferência; é capaz de permitir que o homem se responsabilize para com suas decisões sem aparecer como "muleta psicológica" (para usarmos a expressão de Bonhoeffer).

O silêncio de Deus é talvez o grande paradigma desse Deus que é  presença de uma ausência. Um deus que não responde, mas permite a dor, o sofrimento, mas também permite a alegria e o riso sem interferências de nenhum tipo, sem milagres, sem metafísica. Um deus que se faz enquanto "sentido para a existência" e por isso mesmo, amor para além de toda ambivalência. O deus de Jesus se mostra talvez como um grande vazio, mas que por isso mesmo é sempre buscado como "a corça anseia por água".

Diante do silêncio de Deus,  Jesus  poderia simplesmente se negar a continuar o seu martírio, poderia voltar atrás sem precisar sofrer tudo o que sofreu, mas resolveu seguir pois acreditava a ponto de morrer por aquilo. Acreditava tanto, que mesmo diante da morte, da hora mais sofrida de sua vida, foi capaz de dar o salto de fé e dizer "em tua mão entrego o meu espírito", ou seja, mesmo nada ouvindo, mesmo sem nenhuma intervenção, mesmo sem nenhum milagre, mesmo no abandono, Jesus é capaz de se render àquele Deus em que acreditava,  um Deus que não via dentro de uma estrutura ambivalente de amor e ódio, a quem podia chamar Aba Pai, pois não era simplesmente uma projeção paterna, mas um Aba Pai que transcendia uma estrutura edípica e culminava em um amor que não se manifesta enquanto representação, mas enquanto ação para com o outro.

Jesus nos mostra que a relação com Deus deve ser uma relação adulta e não uma relação infantil. Que nossa relação com Deus deve ser capaz de compreender que mesmo no abandono de Deus somos capazes de dar o salto de fé e nos lançarmos em direção a esse Deus, que por ser amor, nos acolherá. Mesmo que nada garanta esse acolhimento, Jesus nos ensina que vale a pena nas mãos de Deus entregar o nosso espírito.