terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Dostóievski e a Graça







"- Ter pena! Por que haviam de ter pena? - exclamou, de repente, Marmieládov, levantando-se de mão estendida, tomado de uma firme exaltação, como se estivesse apenas à espera daquelas palavras. - Mas por que teriam pena de mim? Digam! É assim mesmo. Não há motivo. O que devem fazer é me cravar numa cruz e sem pena de mim. E então eu mesmo irei procurá-lo para sofrer o suplício, pois não é de alegria que tenho sede, mas de tristeza e de lágrimas! 

Imaginas tu, taberneiro, que esta meia garrafa me trouxe a felicidade? Sofrimento, o sofrimento é que eu procurava no fundo dela; tristeza e lágrimas, e encontrei-as, realmente; quanto à piedade, há de ter piedade de nós Aquele que de todos se apiedou e tudo compreendeu; Ele, que é o amigo e também é o juiz. Nesse dia Ele há de aparecer e perguntará: "Onde está essa pobre moça que se vendeu por uma madrastra má e tísica e por umas crianças que lhe são nada? Onde está essa pobre moça que teve compaixão pelo pai, bêbado inveterado, sem se assustar com seu embrutecimento?" E depois dirá: "Anda, vem cá! Eu já te perdoei uma vez. Já te perdoei uma vez. Perdoados sejam agora os teus muitos pecados, porque amaste muito." [...] E há de julgar a todos e a todos perdoará, tanto aos bons como aos maus, aos prudentes e aos pacíficos... E depois de julgar todos, se inclinará também para nós: " Vinde cá", dirá, "vós outros, também, vós os bêbados, vinde cá, desavergonhados; vinde cá, porcalhões!" E nós nos aproximaremos, sem nos envergonharmos, e nos deteremos. E ele dirá: "Meus filhos! Imagem bestial é a vossa e tendes a sua marca; mas aproximai-vos também." E intervêm os castos, e intervêm os prudentes: "Senhor! Mas vais admitir estes também?" E ele dirá:
"Pois eu os admito, ó castos! Aqui os acolho, ó prudentes! Porque nunca um só deles se julgou digno de tal mercê..." E nos estenderá as suas mãos, e nós nos entregaremos nelas e romperemos em pranto e compreenderemos tudo... Então, havemos de compreender tudo! E todos hão de compreender... [...] Senhor, venha a nós o vosso reino..."


DOSTOIEVSKI, Fiodor. Crime e Castigo. 2008 p. 33-34