quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O servo impiedoso e flutuabilidade do poder: Uma reflexão de Mt 18,23-34 a partir de Foucault






Jesus nos conta uma pequena parábola em que um servo devia ao rei um determinado valor e quando o rei lhe foi cobrar o servo suplicou para que a dívida lhe fosse perdoada e o rei concedeu tal perdão. No entanto, ao sair da presença do rei, o servo encontra um conservo que lhe deve um valor extremamente menor e o manda prender porque não pagou a dívida. O rei que havia perdoado o servo fica sabendo do ocorrido e pergunta: Por que não usou de misericórdia para com seu conservo da mesma forma que eu fiz contigo? E diante de tal atitude mandou prender o servo até que este lhe pagasse tudo o que devia. (Mt 18,23-34)

Uma noção cara à Foucault é de que o poder possui uma flutuabilidade, ou seja, o poder age em uma microfísica específica que impede a sua polarização estanque. A microfísica do poder (título de um dos livros do Foucault) evidencia que as relações de poder são constantemente construídas e reconstruídas nas diversas relações que estabelecemos diariamente, daí a sua "flutuabilidade". Ao invés de funcionar de forma homogênea e polarizada em que seríamos capazes de identificar sempre de que lado está o poder, Foucault proporá que o lugar do poder se desloca de um lugar para outro dependendo das relações estabelecidas. Ele funciona em redes e por isso deveríamos compreender como se dão as relações de poder em determinadas relações.

Na parábola contada por Jesus, podemos pensar que da mesma forma que o perdão é recebido ele deve ser passado. Aquele que é perdoado também tem ele mesmo a capacidade e o poder de perdoar, evidenciando que as relações de poder não se polarizam, mas flutuam, e talvez seja essa um valioso ensinamento de Jesus nessa pequena parábola. O servo perdoado também tem o poder de perdoar, e assim deve fazer uma vez que entende a flutuabilidade das relações de poder envolvidas em nosso dia a dia. Quando esquecemos, ou não nos damos conta dessa flutuabilidade do poder assumimos o mesmo papel do servo que é perdoado e não perdoa. Tal servo vê o poder de forma estanque, totalmente polarizada, que deve ser exercido pelo uso da força. Ao sair da condição de perdoado e passar à condição daquele que perdoa ele vai reproduzir a mesma noção de um poder estanque. Jesus mostra que tal postura evidencia um desconhecimento de como as relações de poder funcionam, pois na própria parábola rapidamente a relação de poder novamente se inverte para o servo. Ele foi perdoado, passou à condição daquele que podia perdoar, não perdoou, e voltou à condição anterior. Não estaria aqui também uma boa chave para compreendermos a famosa inversão proposta por Jesus de que o senhor é aquele que serve?

A história contada por Jesus talvez seja um excelente conselho para nós ainda hoje. Ou seja, por que não fazemos para com os outros aquilo que reclamamos sua ausência no outro? Por que não somos também tão críticos conosco mesmos a ponto de vermos que estamos apenas reproduzindo o que condenamos? Talvez tão próximo a nós alguém esteja sofrendo pelo mesmo motivo que o nosso e mesmo cabendo a nós alterarmos tal situação fechamos os olhos e concentramos apenas em nós mesmos sendo incapazes de ver que na realidade o sofrimento do qual reclamamos infringimos ao outro na mesma medida.

Na maioria das vezes achamos que já fazemos demais pelo outro, acreditamos piamente que estamos sendo sempre o melhor que poderíamos ser para o nosso próximo, mas diversas vezes falta-nos a sensibilidade de perceber os inúmeros sinais que o outro nos endereça. Sempre me ocorre que a forma como o outro age comigo dá inúmeras pistas sobre a forma que ele gostaria que eu o tratasse. É como se fosse um grande jogo de imitação, mas que várias vezes esquecemos de jogar e acabamos proporcionando no outro um sentimento várias vezes ruim que poderia ser evitado se prestássemos atenção aos pequenos sinais. Obviamente que não é tudo mera imitação, afinal as particularidades do outro devem ser levadas em consideração; sua forma de lidar com as questões da vida, sua forma de encarar os compromissos, ou a ausência deles, etc. Nessa curiosa dinâmica vamos aprendendo a lidar com o outro e crescendo junto com ele.

O servo que demanda o perdão do rei, mas logo em seguida demanda o pagamento do seu conservo mostra essa dissimetria que várias vezes cometemos, afinal é muito simples assumir o lugar de poder em uma determinada relação e esquecer que há pouco tempo atrás éramos nós mesmos aqueles que clamavam por perdão ansiando por sermos perdoados. O rei que perdoa é o mesmo que espera que o perdoado faça o mesmo quando a relação de poder se inverter. Da mesma forma, aquele que foi perdoado deve compreender que o poder de perdoar não está apenas em um lugar específico, mas também está disponível a ele por conta das novas relações estabelecidas.

À medida que compreendemos as diversas possibilidades das relações de poder envolvidas em nosso dia-a-dia somos capazes de compreender melhor as nossas relações e, consequentemente, somos capazes de nos aproximarmos do outro de coração aberto sabendo que constantemente temos a possibilidade de perdoar e sermos perdoados. A noção de que o poder flutua maximiza a liberdade do sujeito na medida em que o coloca constantemente diante de uma nova relação de poder a ser sempre estabelecida diante do outro que o invoca. Talvez por isso Jesus inicia a parábola afirmando que o reino de Deus pode ser comparado a tal parábola. No reino de Deus há sempre a possibilidade da liberdade em relação a demanda do outro, mas constantemente somos chamados a ver na demanda do outro um pouco da nossa própria situação.