sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Lenin e a religião. Pequeno comentário a um texto de Lenin.






Recentemente, a partir da leituras de alguns livros do filósofo esloveno Slavoj Žižek, tive o interesse de ler um pouco da obra de Lenin pelo fato deste autor influenciar bastante àquele. Um livro que achei muito interessante, e refere-se diretamente à minha área de estudos foi o livro "acerca de la religion" escrito por Lenin em 1905. O livro de Lenin é um apanhado de diversos textos, cartas, palestras proferidas por ele durante o longo processo de revolução russa da qual ele foi um dos principais líderes. É um livro muito interessante e traz considerações boas sobre a possível relação entre a religião e o socialismo. No entanto, Lenin nesse livro não fará grandes avanços frente à crítica marxiana sobre o tema da religião, embora possamos ressaltar algumas diferenças entre Lenin e Marx sobre o tema da religião.

Marx parte do princípio de que não é a consciência que determina a sociedade, mas é esta que determina aquela. Segundo ele, “O homem não é um ser abstrato, agachado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o estado, a sociedade.” Portanto, ao se falar sobre o homem, deve-se falar sobre o mundo do homem. O fenômeno religioso deve ser compreendido, portanto, dentro dessa nova perspectiva, não mais como objetivação de uma essência, como propõe Feuerbach, mas como produção social humana. Segundo Marx, “este estado, esta sociedade, produzem a religião, uma consciência invertida, porque eles são um mundo invertido.” 

Sendo uma consciência invertida do mundo, a religião é considerada basicamente falsa, pois nela só encontramos ilusão, não sendo necessário, um processo hermenêutico de interpretação da mesma, já que ela deve ser superada. Nota-se que a interpretação feuerbachiana de religião enquanto objetivação de uma essência humana também é abandonada e adquire em Marx o status de uma nova forma de mistificação. Se não há essência humana, o discurso sobre a religião enquanto objetivação desta essência não passa de mera ilusão. 

Para Marx, a religião é a realização, na fantasia, da essência humana, porque a essência humana não tem realidade alguma. Se a religião é apenas expressão de um mundo invertido, ela não contém nenhuma verdade a ser recuperada. Ela não fala acerca de uma realidade a ser recuperada porque ela nada mais é que o resultado de um mundo a ser aniquilado. Podemos notar que Marx preserva a relação entre religião e “expressão” humana, no entanto, para ele, aquela expressa não o homem, mas a situação do homem sob as condições de repressão. Ela é o suspiro das criaturas oprimidas, e, portanto, o discurso religioso não é sobre a “essência humana”, mas sim sobre as correntes que aprisionam essas criaturas. O que se encontra em tal discurso não é o ser humano, mas as forças que o escravizam e o fazem gritar por religião.

Por isso Marx afirma na  "Introdução a crítica da filosofia do direito de Hegel" que "o sofrimento religioso é ao mesmo tempo a expressão de sofrimento real e o protesto contra um sofrimento real. Ela é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, da mesma forma como ela é o espírito de uma situação sem espírito. Ela é ópio do povo" (MARX & ENGELS, 2008, p. 6.) Acontece no discurso religioso uma inversão, pois as correntes que limitam o indivíduo são cobertas por flores e a dor real é esquecida pelo ópio. O homem, ao invés de tentar se livrar das amarras religiosas que o escravizam, transforma tais correntes em canções de amor. Em Marx não existe nenhum trânsito epistemológico da religião para a realidade. Aquela é inevitavelmente falsidade porque a sua função social é ser ópio. Isso permite defini-la funcionalmente como o discurso que reconcilia o homem com o mundo que o oprime. 

Esse filósofo, portanto, reconhece a religião apenas como um sintoma de uma enfermidade social. E esse ponto vai ser referido por Lacan ao dizer que Marx teria sido aquele que inventou o sintoma. A religião para Marx não contém nenhuma significação epistemológica, é apenas efeito de uma causa diversa de si mesma. Por isso, Marx passa a investigar qual seria a causa geradora da religião. Em vez de uma hermenêutica do discurso religioso, ele propõe uma crítica, a qual seria necessária para que a felicidade ilusória do povo possa ser substituída pela felicidade autêntica. “A abolição da religião como a felicidade ilusória do povo é exigida para a sua verdadeira felicidade. A exigência de que se abandonem as ilusões sobre as suas condições é a exigência para que se abandonem as condições que necessitam de ilusões.” (MARX & ENGELS, 2008, p. 6.)

Tal crítica feita por Marx à religião será a mesma utilizada por Lenin em seu livro.  Dentre diversos outros temas tratados no livro de Lenin, um que gostaria de ressaltar é a instigante pergunta que ele faz sobre se um cristão poderia se unir ao partido socialista. Sua resposta é afirmativa nesse sentido, mas ao mesmo tempo procura ressaltar que a religião se trata de um assunto privado, i.e, não tem problema algum um membro do partido socialista ser cristão, contando que ele não tente encarar o partido socialista como uma extensão de sua religiosidade. Mas sob essa pretensa isenção a respeito da prática cristã logo se evidencia que para Lenin a religião seria um grande perigo, pois ela era capaz de minar os interesses do partido comunista. A religião para Lenin não era, portanto algo "marginal" como para Marx, mas era algo que exigia uma atenção grande por parte do socialismo. Para Lenin, o partido socialista deveria se ater fielmente ao materialismo proposto por Marx e isso era algo que talvez uma pessoa que professasse uma fé encontraria problemas para assimilar. 
O socialismo para Lenin deveria ter na prática a sua primazia, mas sem abrir mão da reflexão sobre seus pressupostos e por isso ele se empenha em uma reflexão sobre a religião. O livro também tem um grande ensaio sobre o papel da educação na formação da juventude socialista que é bastante interessante. 

É sabido que entre nós da América Latina esse tipo de associação foi feita com bastante êxito na chamada "Teologia da Libertação" que, dentre outras coisas, propôs uma leitura bíblica pautada por diversas influências marxistas. Diversos autores muito conhecidos do povo brasileiro encabeçaram o movimento conhecido como Teologia da Libertação, dentre eles podemos citar a figura de Rubem Alves no meio protestante e Leonardo Boff no meio católico, ambos muito influentes na consolidação de tal teologia no Brasil e no mundo. 

Mesmo sendo um livro que traz apenas uma retomada das principais teses de Marx sobre o tema da religião ainda assim é um livro interessante para quem quer ter um primeiro contato com um autor profícuo e muito pouco conhecido pelas suas obras, como é o caso de Lenin.