terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Reflexões sobre Deus a partir de um inseto







Ontem um inseto entrou em minha casa enquanto assistia televisão. Depois do susto provocado por uma entrada tão súbita, a primeira reação que tive foi a de pegar o chinelo no intuito de matar tal invasor. Foi o que fiz. No entanto, enquanto pegava o chinelo e o lançava em direção ao inseto indefeso diante da minha onipotência circunstancial uma imagem me veio à cabeça e me imaginei como se eu fosse aquele inseto diante de um Deus que teria todo poder para me esmagar a qualquer momento que ele quisesse sem que eu de nada soubesse sobre isso. 

Esse Deus todo poderoso teria todas as coisas ao seu dispor, ou seja, assim como eu, ele também teria um chinelo, um tênis, ou qualquer outro objeto para me esmagar a qualquer momento, e fiquei pensando: - Mas por que razão ele não me esmaga sem misericórdia alguma? Com certeza eu nunca saberia que teria sido esmagado por aquele Deus e minha vida simplesmente acabaria ali, sem sentido algum, fruto de uma vontade desconhecida, que talvez por nada melhor pra fazer resolvesse matar um inseto que adentrou em sua casa.

Nessa hora me veio à mente duas referências bíblicas. A primeira foi aquela  referência bíblica de Isaías 41,14 que chama o povo de Israel de "vermezinho de Jacó", ou seja, algo insignificante diante do poder de Deus que supostamente poderia fazer qualquer coisa para com aquele ser desprezível. E a segunda referência que me veio foi a referência de Lamentações 3,22 que afirma que "As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque a sua misericórdia não tem fim", ou seja, se Deus não me esmaga como eu fiz com o inseto é porque a sua misericórdia para comigo é sem fim, e para ele, de alguma forma, há um interesse na minha existência, ou até mesmo um desinteresse passivo quanto a eu existir ou não. 

Agora a tarde tive outra experiência interessante. Como estou de férias, dei uma cochilada na parte da tarde e quando acordei, acordei com fome e então fomos à padaria para comprar coisas. Eu queria comer pão com queijo e por isso fomos à padaria e compramos pão com queijo, pois esse era o meu desejo no momento. Ao mesmo tempo eu fiquei pensando que diversas pessoas tem o desejo apenas de "comer" e nem isso lhe é dado, pois diversas vezes elas simplesmente não tem o que comer, enquanto eu posso escolher e ter acesso àquilo que quero. 

Se pensarmos que Deus seria responsável para com isso cairíamos naquele velho debate despropositado que coloca a culpa de todas as coisas em Deus como aquele que seria uma espécie de sádico brincando com os desejos e as condições de vida das pessoas. Particularmente não penso que estas questões sejam da alçada de Deus, mas se vinculam muito mais à dinâmicas estruturais dos modos de produção capitalista. Deus não tem absolutamente nada a ver com isso, mas sim as condições materiais de existência que geram um disparate que permite que enquanto alguns tenham muito e acesso a qualquer que seja o seu desejo, outros nada tenham e por isso mendigam e até morram por não conseguir comer. 

Para mim é bem claro que a visão que temos sobre Deus condiciona de forma cabal a forma como nos relacionamos com ele. Se eu vejo  Deus como esse ser sádico que pode me matar a qualquer momento, mas não o faz simplesmente porque não quer ou está desinteressado em minha existência, mas ao mesmo tempo seria o responsável por alguns poderem comer o pão com queijo quando querem enquanto outros não podem nem mesmo escolher se comerão ou não, então a minha relação com ele será extremamente ambivalente, como já mostrou Freud em diversos textos. Vou amá-lo porque a sua misericórdia me mantém e me permite escolher o que quero comer e ter aceso a isso, mas ao mesmo tempo vou temê-lo porque a qualquer momento ele pode resolver me matar sem me dar nenhuma explicação. Essa ambivalência fará com que a minha relação com ele sempre esteja oscilante; e diante das perguntas da vida eu ficaria completamente sem resposta, pois não teria como escolher entre o Deus de amor e o Deus sádico. 

A minha proposta é que Deus deva ser visto para além dessa dimensão ambivalente. Deus não é o responsável por eu ter o que comer e beber, nem mesmo responsável por eu estar vivo, mas posso ser sempre grato a Ele por isso. A ideia que coloco aqui é a de que Deus pode ser entendido como um sentido que organiza o mundo sem fazer com que o mundo dependa dele e nos excusemos da nossa responsabilidade. Se sou grato a Deus por eu ter o que comer e o que vestir isso não quer dizer que tudo venha Dele, mas apenas quer dizer que eu resolvo ler o mundo de uma forma em que me vejo não como causa de mim mesmo, mas dependente de uma esfera de ação que me ultrapassa. Posso até mesmo significar o mundo dizendo que "tudo vem de Deus", mas significando por Deus não um ser todo poderoso, mas um Sentido para a minha existência.  Dessa forma perseveramos a dimensão do mistério, perseveramos a dimensão de Deus e eliminamos a dimensão sádica daquele Deus todo-poderoso que brinca com meus desejos, ora possibilitando satisfações, ora não e que poderia me esmagar a qualquer momento.

Finalmente percebemos que as coisas no mundo dependem de relações que são determinadas internamente e não por Deus que esteja coordenando todas as coisas, no entanto, eu, quando vou ler o mundo, procuro dar um significado para esses acontecimentos e para isso eu escolho ler o mundo a partir da dimensão do Sentido. Esse Sentido me coloca de uma maneira diferente diante do mundo, encarando todo o vazio e sem sentido de diversos acontecimentos, mas sem esquecer que a aposta é sempre a do Sentido para além do mero vazio e acaso. Acredito que isso nos coloca em um meio termo entre um materialismo cego e ingênuo que é incapaz de apostar no sentido, e uma explicação completamente metafísica que faz tudo depender de um Deus todo poderoso colocando o homem apenas como um verme diante de um poder pleno. A proposta aqui faz com que encaremos a nossa responsabilidade na construção de um mundo melhor, encaremos a nossa responsabilidade diante das nossas vidas, e permite ao mesmo tempo admitir a possibilidade do aparecimento de Deus, mas um Deus fraco, vazio, que se mostra apenas em pequenas gotas de esperança diante do mundo caótico. Esse Deus visto como esse Sentido é o que nos faz lutar para que todos tenham o que comer, que todos tenham o que vestir, que tenham o que beber, onde morar, etc. Deus se esvazia de metafísica e se transforma em horizonte para onde todos navegamos.