domingo, 20 de dezembro de 2009

Crescimento ou proliferação?






Crescimento ou Proliferação? Desafio da Igreja Evangélica Brasileira


Quando se faz um diagnóstico da igreja brasileira de hoje o que vem à tona é a forma como essas igrejas têm aumentado tanto em número, quanto em ostentação e como tem se conduzido essa hipertrofia. (no presente texto não será tratado a questão da ostentação, mas apenas o problema do crescimento numérico como alvo principal dentro das igrejas evangélicas.)

A pergunta do título deve incomodar a todos aqueles que se preocupam com a igreja brasileira.

O dicionário Larousse define os termos crescimento e proliferação, cujos significados poderemos perceber uma nítida diferença.

A definição de crescimento é:

“Ato de crescer, aumento da dimensão principal de um ser, animal ou vegetal, sob o efeito da nutrição, até chegar a um estado adulto, quando cessa esse aumento. Aumento de um rebanho pelo nascimento de filhotes. Ganho de peso vivo dos animais. Desenvolvimento, progressão”. E o significado de proliferar é: “multiplicar-se rapidamente, ter prole reproduzir-se, crescer em número.”

Será que a igreja brasileira tem crescido ou proliferado?


O que se vê hoje no Brasil é que as igrejas evangélicas brasileiras têm proliferado e não crescido.

Segundo a definição de crescimento dada acima, Infelizmente o que se vê na igreja evangélica brasileira é que na maioria delas não há o principal da definição que é o efeito da nutrição. Não há a preocupação com a nutrição no processo, e por isso a maioria dos seus membros nunca chega a se tornar adultos. Eles não progridem, não desenvolvem, que são outras características do crescimento. Há sim o aumento de meninos como descritos em Ef. 4:14,15 e I cor. 3:1-5. Meninos levados por todo vento de doutrinas, meninos que não conseguem comer comida sólida, ficando apenas a base de leite.

No entanto, o processo de proliferação é muito mais simples. É simplesmente crescer em número e se reproduzir rapidamente.

A igreja evangélica brasileira, hoje, está em um largo processo de proliferação e num período de um crescimento decadente

Algo interessante sobre o conceito de proliferação é a reprodução. O próximo ser advindo na proliferação será sempre igual ao que lhe deu origem. Portanto, qual o resultado se o ser de origem for de má qualidade? Cada vez se produzirão mais rapidamente, originando seres de má qualidade. Sob esse ponto de vista é melhor para a igreja o meio que esse crescimento proliferativo cesse. O estrago será menor no meio se este processo terminar.

O crescimento é um processo complicado. Ele exige nutrição e essa nutrição não pode ser qualquer coisa mas tem que ser um tipo de alimento específico que fará com que o ser em questão se desenvolva e progrida no desempenho de sua função e o mais importante é que, no final do processo, esse ser possa se tornar adulto.

Paulo passou pela experiência de observar que a igreja não crescia. Ele diz na sua primeira carta aos Coríntios que queria oferecer ao povo uma comida sólida, mas que eles ainda estavam tomando leite. (I cor. 3:1-5). O processo de crescimento passa primeiro pela qualidade e só depois passa pela quantidade. Quando Paulo fala aos coríntios ele está se queixando de que aquela igreja não cresceu. Ela não chegou a se tornar adulta, que é o fim do processo de crescimento.

O tornar-se adulto é ser capaz de tomar decisões, raciocinar para ver qual a melhor diretriz, ter responsabilidade sobre seus atos. Esse é o objetivo final do crescimento. Quando se está apto a tomar tais decisões com conhecimento de causa e com consciência do efeito dessa, daí pode-se dizer que se chegou à idade adulta.

Mas como chegarão a ser adultos sem nutrição? A palavra de Deus que deveria ser dada diariamente para que se cresça é negligenciada aos que têm fome, ou quando é dada, é dada de forma relapsa por meio de líderes que na maioria das vezes não sabem preparar a comida. Líderes despreparados que não manejam bem a palavra da verdade, que carecem de instrução para instruir o povo, líderes que não têm noção da responsabilidade que tem nas mãos, e, finalmente, líderes que guiam os pequeninos diretamente para a boca dos lobos.

O processo de crescimento tem outra característica muito marcante que é o tempo gasto para que o processo se conclua. O crescimento é demorado, exige esforço, e exige empenho. Ninguém espera que uma árvore cresça de um dia para o outro. O processo de crescimento da árvore é lento, exige o cuidado de quem plantou e toda uma série de procedimentos para que ela cresça da melhor forma possível. No entanto, o fruto colhido dessa árvore, ou a sombra que ela fornece quando chega a sua idade adulta não tem preço. Todo esforço é compensado no final do processo.

A proliferação já é um processo rápido e que não exige cuidado algum. O importante é que o ser gere outro igual a si independente de ser de boa qualidade ou não. O quantitativo é o importante e não o qualitativo. Por exemplo, as amebas se comportam dessa maneira. Elas simplesmente se reproduzem. Elas proliferam a cada segundo de forma exponencial, gerando seres idênticos a si mesmas.

Propostas como a idéia do G12 ilustra muito bem esse tipo de visão. Na maioria das igrejas onde esse sistema foi implantado o que se vê é uma enorme preocupação com a quantidade e muito pouca preocupação com a qualidade. O objetivo da célula é crescer e multiplicar, ela tem que proliferar. (Não é nossa intenção aqui criticar o sistema do G12, apenas tomo o exemplo por ilustrar muito bem o tipo de proliferação a qual o texto se refere. Sabemos que existem igrejas que trabalham com o sistema G12 que primam pelo conhecimento e amadurecimento na palavra, prática essa que não é muito comum na maioria das igrejas que adotam esse sistema.)

Independente do estágio que ela estiver, quando der o tempo certo ela terá que gerar outra célula igual a ela. Quer dizer, se a célula está somente preocupada em proliferar, a próxima célula herdará esse objetivo. Uma vez esse objetivo assimilado a nova célula tende a espalhar mais mal do que a célula de origem. Esse é um dos principais processos de proliferação que se vê hoje em dia.

Cada vez mais se abrem igrejas e mais igrejas com o suposto idealismo de se “pregar o evangelho a toda criatura”, mas que por trás disso se encontra nada mais do que um egocentrismo do líder que originou tal igreja.

Na maioria das vezes não se vê a igreja fazendo esforços no sentido de cooperar para que seus membros cresçam, pelo contrário, incentiva-se a proliferação.

A igreja evangélica brasileira passa por um dilema no qual ela tem que decidir se quer proliferar como as amebas ou crescer como as árvores.

Infelizmente até o momento tem se decidido pela primeira opção.


Fabiano Veliq – 13/03/2008 00:30

Não posso deixar de falar que a Michelle me ajudou na revisão do texto...