segunda-feira, 7 de maio de 2012

Pós-Teísmo e honestidade Teo-Filosófica





Toda filosofia tem que ser honesta consigo mesma. Não se pode apenas "fingir" que se questiona, fingir que se está colocando algo em dúvida porque isso compromete o filósofo e a filosofia. Qualquer filósofo que se preze estará disposto a colocar as suas mais profundas crenças em xeque em algum momento de sua vida. Este colocar em dúvida em nada o afasta de suas crenças enquanto estão sendo elaboradas, muito pelo contrário, várias vezes, estas dúvidas servem para que de alguma forma um firme fundamento seja encontrado. Mas não um fundamento vindo de fora, mas de dentro, entranhado no mais profundo da alma e do intelecto. Se no final do percurso (se houver algo nesse sentido) a crença primeira for negada, isso em nada é um prejuízo, mas sempre um ganho para o filósofo e para a sociedade.

Geralmente aceitamos estas conclusões quando em nada é afetada as coisas que tomamos como as mais importantes, as que são indiferentes para nós. Pode-se debater o "Ser", o "Nada", se existe de fato vida em outros planetas, etc... Coisas que a  maioria achará até interessante, mas no fundo tem para si que estas questões são meras "viagens filosóficas" e devem ser admiradas por ser uma tentativa intelectual que poucos estão dispostos a fazer.

Agora, quando se questiona o que é fulcral para os outros, aí a situação muda completamente de figura. O método filosófico, a honestidade filosófica deve ser abandonada pois se está querendo tocar o "intocável". Como se existisse algo intocável para o pensamento.

Recentemente quando me propus a pensar a questão de Deus fora de uma estrutura teísta, vivi exatamente esta situação. É como se esta questão de Deus não pudesse ser questionada, como se o cristianismo em sua construção histórica não pudesse ser colocada em xeque na busca de uma fé autentica. Como se "fé autentica" fosse sinonimo de "fé heteronomica", como se fosse possível uma fé que não esteja disposta a pensar sinceramente sobre estas questões. Como se fosse possível uma fé que fosse meramente passiva diante da "revelação" do texto.  Como se o dogma fosse mais importante que a reflexão sobre ele. Não nos esqueçamos que foi a própria reflexão que possibilitou o dogma e não o contrário.

A tentativa de resignificação de Deus para além de uma estrutura teísta não é ateísmo, mas uma tentativa de um pós-teísmo. Não é uma negatio Dei, mas uma affirmatio Dei. 


Para quem não sabe, há 3 formas consagradas de se falar sobre a ação de Deus no mundo. Há o deísmo que em linhas gerais afirma que Deus criou o mundo com suas leis naturais e deixou que ele seguisse seu caminho não interferindo nele.

Há o teísmo que em linhas gerais afirma que Deus criou o mundo e interfere neste mundo de acordo com sua vontade.

E há o ateísmo que na sua elaboração mais simples nega a existencia de Deus enquanto criador.

A tentativa de um pós-teísmo parte da tentativa de resignificar o que se entende por Deus e desvinculá-lo da idéia de Ser, e passar a tomá-lo a partir da noção de Sentido.  (Claro que não dá pra explicar esta desvinculação neste texto, mas sugeriria a quem interessar, buscar os textos de Bonhoeffer, Paul Tillich, Schilebeeckx entre os teólogos, e Feuerbach, Heidegger entre os filósofos para situar a discussão)


Para além do teísmo, mas não para além de Deus para usar a expressão do John Shelby Spong.
Ao colocar em xeque o teísmo enquanto única construção possível de Deus não estou me colocando ao lado de um ateísmo, ou negando uma fé cristã. Não nos esqueçamos que o próprio Jesus propõe uma resignificação da lei que há muito havia sido perdida pelos judeus de sua época. Esta resignificação que possibilitava Jesus chamar a Deus de Abba Pai também soava muito estranha aos fariseus de sua época, mas nem por isso ele deixou de faze-la, pois via que só assim seria possível uma relação adulta com seu pai. Com certeza muitos o acusaram de herege, pecador que "expulsava os demonios por meio de Belzebu" (Mt 12), mas nem por isso o nazareno voltou atrás em sua resignificação. E tudo isso pra que? Para que pudesse viver uma vida que se relacionava com pai de uma forma sincera, náo mediada apenas pela estrutura da lei que colocava uma separação transponível apenas pelo sacerdote uma vez ao ano. 

Na minha opinião é possível um cristianismo não teísta. Não deixo de ser cristão porque procuro pensar o cristianismo fora da estrutura teísta, muito pelo contrário, acredito que tento voltar talvez àquele significado de cristianismo do Cristo que se importa mais com a vida que qualquer outra coisa. Uma vida em abundancia e não apenas uma vida que visa algo para além dela como se tornou comum a partir de algumas leituras das cartas de Paulo. 

Sou protestante, nascido e criado na igreja protestante. Deus sempre foi objeto de meus pensamentos, desde muito cedo me interessei pela leitura bíblica, e tão logo ia lendo os textos, tão logo as perguntas surgiam. Minha professora de escola dominical me dizia que deveria fazer filosofia porque questionava demais. Perdi as contas de quantas vezes fui chamado de herege, dissimulado, questionador, aquele que estava "atrapalhando o mover de Deus", e recentemente afirmaram que "deixei de ser cristão" porque me propus a pensar o cristianismo pósteísticamente. Curiosamente estas afirmações a meu respeito acabam por me instigar a pensar mais sobre estas coisas; talvez por ser filósofo e ver isso como algo que deve ser feito, talvez pra manter a honestidade para comigo mesmo, talvez por acreditar que seja possível pensar a religião e a religiosidade com uma carga metafísica muito menor que a habitual no meio protestante, talvez por acreditar que o diálogo interreligioso só será possível se estivermos dipostos a debater todo o arcabouço de nossas religiões, sem reservas. Afinal, um diálogo interreligioso onde há mais reservas que aberturas é um diálogo infrutífero. Dialogar não é "negociar princípios", é tentar entende-los sob um novo prisma e talvez ver que aquele a quem eu tentava de toda forma salvar, foi quem me salvou de um dogmatismo cego.

Talvez a resignificação de Deus, vendo-o não mais como Ser, mas como Sentido seja um bom caminho para viver uma vida autentica, não mais como criança que depende de um pai (haja vista a pertinente crítica de Freud), mas como alguém que é capaz de manter um relacionamento autentico com a vida tendo neste Sentido o "alvo da verdadeira vocação a que fomos chamados".

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