terça-feira, 17 de julho de 2012

Da exclusão à estrutura - Olhar crítico







E então, finalizando um processo que perdura por mais ou menos 4 anos, finalmente a igreja Betania de Venda Nova me excluiu do rol de membros daquela instituição. O Motivo alegado foi o pior possível, ou seja, infrequencia. Como se realmente expulsassem todos os infrequentes daquela institiuição, como se realmente a infrequencia fosse um motivo para tirar qualquer pessoa de uma instituição que se diz igreja. Claro que ao colocar o motivo da exclusão como "infrequencia" a instituição se livra da responsabilidade de ser "aquela que exclui" e joga toda a responsabilidade para o membro (afinal, ele que deixou de frequentar os cultos) evidenciando assim toda uma dinamica reperssora por parte da instituição.

Não estou chateado, não estou surpreso, nem muito menos espantado com a notícia, só achei que os motivos seriam explicitados corretamente. Qualquer pessoa que me conhece sabe que há muito tempo várias restrições à minha pessoa foram sendo impostas pela instituição Betania; desde de proibições de lecionar na escola dominical (na época me acharam como que "defensor" do hinduísmo), reuniões do conselho da igreja onde propuseram explicitamente minha exclusão alegando dentre outras coisas que eu estava sendo mau exemplo para os outros jovens da igreja, ou nas palavras de um dos membros presentes, que eu "havia sido uma benção, mas agora não era mais", reuniões com o atual pastor presidente que tacidamente disse que não queria ver-me lá a não ser como visitante, e se caso eu quisesse participar de qualquer atividade da instituição eu estava proibido de antemão, dentre outras coisas.

Seria muito mais honesto por parte da instituição Betania de Venda Nova se expusessem como o motivo da exclusão um destes episódios, sei lá, daria mais credibilidade ao conselho em questão pois daria um ar de conselho que "enfrenta os problemas de frente".

Isso se olharmos a coisa na esfera do micro, agora se olharmos o quadro grande, o que perceberemos é nada mais nada menos que uma dinamica empresarial, onde o membro (entenda-se funcionário) deve prestar serviços (geralmente voluntários) de forma a poder se manter dentro do quadro institucional, do contrário, ele será demitido (entenda-se excluído) do quadro da empresa.

A dinamica é bem simples se olhada do ponto de vista empresarial, mas como sabemos, a instituição igreja não aceita ser chamada de empresa, ela advoga pra si o status de "casa de Deus", ou "templo do Senhor" ou qualquer coisa que possa ser transposta para uma dinamica metafísica onde os líderes possam ter suas ações legitimadas por meio de orientações divinas, ou momentos de oração, revelações, ou qualquer tipo de "ajuda externa". Tal legitimação requerida pela instituição igreja se torna paradoxal, uma vez que o suposto legitimador da decisão (no caso, o Deus cristão que se revela para nós na pessoa do Cristo) deixou de antemão uma proposta que desaconselha tal prática, e para isso não faltam textos bíblicos que propõem o amor ao próximo, o cuidado para com os membros, a idéia de corpo, culminando na definição de Deus como um Deus de amor e não "Deus de milagres" como alguns insistem em afirmar por aquelas bandas de lá.

Se a exclusão de um membro se torna uma prática legitimada pelo Deus que "proibe" tal prática, tem-se um grande problema da legitimidade da ação, o que a meu ver leva a instituição a decidir-se por outro legitimador, que nesse caso deveria ser o próprio conselho da igreja, ou seus líderes e nesse caso cai-se de novo na dinamica empresarial evidenciada mais acima, onde o membro é apenas um funcionário (voluntário, friso novamente) que está passível de ser demitido caso cause muitos problemas à diretoria, ou caso seja "infrequente" ao "serviço". É interessante notar que em várias igrejas o membro é entendido como "obreiro" (claro que "a obra" nunca será a instituição, mas é vendida a idéia de "obra enquanto reino" e o obreiro não é obreiro da instituição, mas sim do reino, reino este entendido como "metas da instituição" legitimadas sob a égide divina).

Geralmente a diretoria da igreja prefere não ser a legitimadora de suas próprias decisões, afinal desde Adão a transferência de responsabilidade é uma prática comum àqueles que "vivem perto de Deus e com Ele conversam no Jardim" (traduzida hoje como instituição igreja) que dessa forma atribuem ao jejum e oração a causa do modus operandi da ação, que sempre é feita como sendo orientada por Deus e quanto a isso os exemplos em diversas instituições se repetem ad nauseaum...

Curiosamente, a prática da exclusão de membros que nem deveria fazer parte do repertório da igreja cristã é uma prática mais que comum e disso não faltam exemplos desde os nossos irmãos católicos até nossos irmãos protestantes que em vários setores deixaram de ser protestantes há algum tempo e passaram a ser apenas "evangélicos", ou seja, anunciam a boa nova (não tão boa assim hoje em dia) entendida atualmente como prosperidade financeira, "agir do espírito", etc. É óbvio que aqui não pretendo colocar todos os setores evangélicos no mesmo bojo e falar que são todos iguais, isso seria um contrassenso terrível, mas é algo visível que os grupos que se mostram mais preocupados com o ensino do texto bíblico, uma reflexão crítica da sociedade contemporanea se tornaram "outsiders" e estão longe de ser maioria. O senso do IBGE mostrou (embora um pouco questionável o método de pesquisa) que as igrejas neo-pentecostais são as que mais crescem hoje no Brasil, enquanto as igrejas ditas históricas mesmo tendo um pequeno crescimento no último ano, ainda estão bem atrás das "irmãs" neo-pentecostais.

Claro que o crescimento das igrejas históricas nos revelam talvez uma espécie de "saturação" do evangelho vendido atualmente associada a isso toda a dinamica do consumismo fruto da dinamica do capital onde tudo é adquirido de forma quase que instantanea, bastando para isso "ter fé". Desta forma, fé e capital se unem tendo Deus como legitimador do status quo e o fiel como aquele que deve consumir o melhor desta terra. (este tópico é interessante e talvez seja objeto de outro texto aqui no blog)

A meu ver, se uma igreja considera a proposta de excluir um membro, por qualquer motivo que seja, já evidencia o quão distante ela está da proposta cristã de "amai-vos uns aos outros", "suportai uns aos outros" e muito mais próximas da dinamica do "tirai dentre vós, o iníquo" (ou no caso, o infrequente, o problemático, o polemico, etc.) ICor: 5,13 que só faz sentido se dermos primazia à instituição e não ao membro. Prefere-se "passar de largo" como o judeu e o levita na parábola do bom samaritano do que parar e perguntar o que se passa com o membro, o porque ele está infrequente, o que o assola, etc. Enfim, ser igreja para o membro.

Mas o que torna tal dinamica possível e até mesmo necessária para a manutenção da instituição? A meu ver tal possibilidade só é viável quando a instituição é pensada como empresa e neste caso a ela se aplicará toda a dinâmica do capital que rege as empresas, isto é, o mais importante é o "bom funcionamento" da instituição, é saber se ela está dando lucro ou não, se os "clientes" estão satisfeitos ou não, tanto que não é raro vermos os líderes sendo "cobrados" por resultados, números de membros, receita que entra, que sai da instituição, enfim, o domínio implacável da dinamica capitalista, onde o trabalhador (neste caso o membro) é um mero meio para os objetivos da instituição. A desumanização passa a fazer parte desta dinamica e se torna o motor do status quo institucional que não medirá esforços para cumprir as "metas" propostas. Aliada a isso surge a legitimação metafísica que tenta fazer com que tudo o que acontece visando a dinamica do capital seja colocada sob a fórmula "é a vontade de Deus" tornando Deus o Grande Capitalista detentor de todo ouro e toda a prata e com isso o medidor de quão "abençoada" é a igreja será sempre o quantitativo quer monetário, quer de "sócios" filiados à determinada instituição.

E o que acontece quando de dentro da instituição surgem os que não se conformam com tal dinamica? Que questionam a teologia adotada? Que propõem mudanças estruturais ao invés de meros reparos estéticos? Que evidenciam a filiação da instituição com a dinamica do capital? Que propõem reflexões críticas visando mudar o status quo? O que deve ser feito com eles?

A meu ver a instituição deveria apoiar estes questionamentos, incentivar uma reflexão crítica, incentivar o repensar da fé que tem a característica de ser sempre viva e nunca estanque, que é fruto do espírito (que sopra como vento, isto é, sem forma, livre) e nunca petrificada, mas não é isto o que acontece, ao invés disso prefere-se condenar ao ostracismo quem se coloca como protestante tentando com isso limitar o campo da crítica para que ela não alcance outros e venham com isso a se levantar contra o status quo. Daí talvez vermos hoje uma igreja que na maioria das vezes não consegue traduzir as boas novas para o mundo contemporâneo e se vê fechada dentro de formulações que não dizem nada para um sociedade em constante mudança. E como não ver nesta rigidez institucional e na falta de credibilidade assumida pela instituição o grande número de "sem-igreja" que vemos hoje.


Diante disso vejo que a minha exclusão era apenas uma questão de tempo e a meu ver ela já deveria ter sido tomada há mais tempo, mas excluir um membro por contestações teológicas, institucionais, etc. soa muito mal para uma igreja evangélica, então é melhor que ele seja expulso por infrequência, assim a instituição se mantém "imaculada" e o membro como aquele que se desviou do caminho.

Eu, no entanto, sigo caminhando, e enquanto caminho penso e repenso o próprio caminho para que possa  andar por ele em paz.