sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Igrejas inclusivas - Algumas considerações






Todos que me conhecem sabem que sou super a favor da causa homossexual, defendo que eles devam ter todos os direitos iguais como  qualquer outro cidadão, quanto a isso acho que não tem o que discutir. 

Recentemente recebi um email sobre a criação de uma igreja gay que se reúne em BH e em outras cidades brasileiras.  As igrejas ditas inclusivas já e existem há algum tempo. Em um grupo que participo a questão sobre esta igreja apareceu e entre as conversas foram ponderadas algumas coisas. 

A igreja evangélica lida muito mal com a questão homossexual e isto é sabido por qualquer homossexual que tente frequentar uma igreja evangélica. Geralmente é dado a este homossexual duas alternativas: Ou ele "abre mão" de sua orientação sexual (como se isso fosse possível), ou então "mantém sua orientação sexual" contando que não pratique uma relação homossexual. Não sei qual das duas alternativas seria a pior para o sujeito, mas nenhuma das duas soa saudável. 

E por que a igreja evangélica age assim em relação aos homossexuais? Porque para a igreja evangélica os escritos de Paulo devem ser lidos de forma literal sem contextualização histórica, sem a ponderação de que talvez a visão paulina seja fruto de seu meio, de seus próprios pré-conceitos, fundados em um tipo de antropologia que fazia sentido na época, mas que precisa ser repensada hoje. 

Notem bem que não cito os textos de Levíticos pois isto levaria a discussão para um outro lugar que seria uma questão do tipo: "Quais são os critérios para obedecer alguns preceitos de Levíticos (por exemplo quando citam a questão homossexual), e não outros claramente proibidos por lá (tais como os alimentos proibidos, os filhos desobedientes que deveriam ser apedrejados, etc)?" Questões estas que podem até ser analisadas em outro texto posterior. 

A meu ver, enquanto se mantiver uma visão fundamentalista do texto bíblico não é possível um diálogo aberto sobre a questão homossexual dentro da igreja evangélica. Pois temos que admitir que as duas "alternativas" que são dadas aos homossexuais pelas igrejas evangélicas citadas acima não configuram alternativas sadias. Apenas uma visão fundamentalista do texto bíblico permite o tipo de tratamento que é dado aos homossexuais dentro das igrejas evangélicas. 

Do ponto de vista teológico penso que a questão fica bem complicada para legitimar a igreja gay. No entanto, eu acredito que seja possível uma igreja cristã que aceite a questão homossexual sem abir mão de sua teologia, mas abrindo mão de sua antropologia, e neste sentido já há uma boa tentativa de diálogo. Como exemplo cito o livro lançado pela Unisinos chamado "A pessoa sexual" onde este diálogo é feito de uma forma mais sistemática. 

Algo que me preocupa é que ao ser necessário uma "igreja gay" não estaria a própria igreja enquanto instituição sucumbindo à dinâmica mercadológica em um nível acima do que já vemos constantemente hoje? 

No final das contas parece que quem determina o "tipo de igreja" é a "demanda do mercado" de forma que ela se torna mais um produto a ser consumido. Ou seja, tem-se a igreja gay para os gays, a igreja rica para os ricos, etc. como sendo um mero produto, e isso a meu ver é um projeto fadado ao fracasso.

Por um lado estas igrejas podem ser "úteis" por permitir uma certa vivência congregacional a indivíduos aos quais são negados o congregar, mas por outro lado todas estas "mercadorias eclesiásticas" podem estar cooperando para o esvaziamento da proposta que diferencia "igreja" de "produto"...

Em suma, não seria a própria dinâmica do capital que criaria a "necessidade" de uma igreja gay de forma a atender "o mercado" carente de um certo produto da mesma forma que as igrejas que adotam a teologia da prosperidade vêm fazendo? E se for esta a relação predominante, não estaria a igreja gay sendo um grito de intolerância diante de uma instituição que se nega a aceitar seus pressupostos?

Entra-se numa dinâmica estranha onde ambos os lados podem ser chamados de intolerantes. Tanto a igreja cristã que nega a aceitar a questão gay em nome de uma certa teologia, e ao mesmo tempo a igreja gay que tenta forçar um reconhecimento em uma instituição que não aceita os pressupostos e para isso assume o título de "igreja cristã" sem uma certa legitimidade.  

Mas por que as igrejas que adotam a teologia da prosperidade  e todas estas falcatruas que vemos em seu meio são aceitas como igrejas evangélicas e as inclusivas não? A meu ver é porque as igrejas neopentecostais não mexem na "antropologia teológica comumente aceita", enquanto que as igrejas inclusivas precisam se arraigar seu discurso "refundando" uma antropologia.  

A questão é bem embricada e vários fatores estão relacionados, apenas citei alguns aqui para  vermos que a questão não passa apenas por uma questão teológica, embora tenha nela a base da minha crítica. 

Para mim, falta às igrejas ditas inclusivas um embasamento teológico mais consistente de forma a legitimar o seu discurso dito cristão. Enquanto isso não acontecer, penso que as igrejas inclusivas permanecerão sendo vistas com maus olhos pela igreja cristã e sua tentativa de inclusão terá pouquíssima chance de ser aceita. 

Fica aqui o meu convite às igrejas inclusivas