segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Horácio ?





Horácio era um homem complicado, mas era um bom homem. Nele não havia nada demais que o pusesse acima da média, nem nada de menos que o colocasse abaixo dela. Era um homem normal, sem muitas qualidades e também sem muitos defeitos. Ou talvez as suas qualidades se equiparassem aos seus defeitos e todos ficavam com a sensação de um grande zero a zero.

Todos gostavam do Horácio. Ele era simpático, conversava bem; não era de tanto assunto assim, mas geralmente tinha alguma contribuição a fazer em assuntos variados. Alguns diria até que ele era um sujeito conversado que atraía as pessoas para si.

Aparentemente nada incomodava Horácio. O seu senso de normalidade espantava muita gente que o tinha como talvez um grande cosmopolita para quem pouco importavam as diversas moralidades contando que ao seu redor as coisas estivessem minimamente em ordem. Isso obviamente fazia com que fosse um sujeito agradável na maior parte do tempo. Raríssimas vezes vi Horácio tecer algum comentário mais taxativo ou de cunho moralista sobre algum assunto. A última coisa que ele queria era parecer um sujeito "mente fechada". Às vezes fazia um esforço Hercúleo para parecer não se importar com as coisas, mas geralmente surtia efeito. Pelo menos não incomodava muita gente com esse tipo de conversa.

Horácio teve uma boa criação cristã. Era filho de pai protestante e mãe católica. Cresceu a maior parte da sua infância dentro da igreja protestante pois sua mãe, apesar de ter a sua vivência de fé, não apreciava muito a igreja próxima à sua casa e por isso ia raras vezes. O pai por ser mais assíduo à igreja sempre levava Horácio para a escola dominical e o fazia ler minimamente os textos bíblicos. Seu pai era diácono na igreja e por isso sempre fazia questão de que Horácio o seguisse aos cultos. Não era daqueles que ia a todos os cultos, mas nos finais de semana sempre marcava presença. A formação protestante de Horácio foi feita em uma igreja nem tão fundamentalista, mas também nem tão liberal. Diria que o aspecto "morno" da igreja em que cresceu tenha contribuído para a forma de Horácio lidar com sua vida posterior.
Um excesso de apatia acometia Horácio de vez em quando de forma que ele ficava como que indiferente ao mundo e não raras vezes tentava aplicar alguma teoria a algum tipo de experiência que estava vivendo. Geralmente não obtinha sucesso nesse tipo de empreitada.

Trazia consigo o peso da criação cristã. Esse era talvez um grande fardo para ele em vários momentos. À medida que foi crescendo foi aprendendo a lidar com essa culpa que o consumia, mas no momento atual de sua vida estava longe de obter êxito com esse problema e também podemos dizer que não estava tão preocupado assim com a questão. O que o incomodava, pelo que me disse recentemente, era uma certa sensação de vazio, um certo incômodo em relação a si mesmo que já vinha tentando lidar há algum tempo. Na maior parte das vezes vivia como se isso não fosse tão grande problema, mas de vez em quando caía em uma espécie de "reflexão" que o levava a devaneios existenciais. Ele não levava jeito para tais devaneios e por isso rapidamente desviava a cabeça para outra coisa.

Enfim, Horácio era um homem bastante normal que tinha como todo mundo certas crises existenciais às quais dava pouca atenção por achar que isso era coisa meio besta para se perder tempo, mas nem por isso poderíamos dizer que era um cara "superficial", afinal, ele tinha lá seus "insights", suas opiniões sobre as coisas, etc. Não sei porque resolvi falar da vida do Horácio nesse momento, mas sempre o achei um cara interessante e talvez por excesso de ócio e falta de assunto resolvi trazê-lo ao conhecimento dos demais. Quem sabe não fale mais sobre Horácio algumas outras vezes?

Confeso que eu não me surpreenderia se através de algumas vivências do Horácio descobríssemos um pouco de nós mesmos, nossos medos, esperanças, etc.