terça-feira, 19 de agosto de 2014

A fé vem pelo ouvir (Rm 10,17) - Um Diálogo entre fé e psicanálise




"A fé vem pelo ouvir" (Rm 10,17), essa é talvez a única vez que a Bíblia fala sobre o surgimento da fé. Ou seja, a fé, como nos diz Paulo se inicia com uma palavra.

Sabemos que a psicanálise nos propõe que também nós enquanto sujeitos só surgimos com a palavra. Antes dela somos apenas um corpo pulsante que não distingue entre o que sou eu e o que é o outro. Essa relação é tipificada na relação entre a mãe e o bebê onde este se sente um com a mãe, em uma relação que Freud chamava de "fusional".  Somente quando a palavra entra nesse corpo é que é possível o nascimento do sujeito. Tornar sujeito significa estar submetido a uma separação, significa ser lançado no mundo, significa se colocar diante da realidade de forma que a antiga relacão fusional se mostre para sempre perdida. Essa palavra será a responsável pela nossa separação. É nesse sentido que a instância paterna aparece como a promovedora desse corte narcísico que põe fim ao desejo de onipotência da criança de ser o único objeto de amor para a mãe.

Essa palavra que entra em nós é sempre condicionada pelo mundo desse Outro que nos diz essa palavra. Nossos pais nos ensinam a partir da experiência deles o que é o mundo, como ele se organiza, etc. Essa palavra que nos é dita nos orientará por toda a nossa vida e nos fará entrar no mundo da cultura. Tal palavra mesma é dita dentro de uma determinada cultura. Nossos pais nos ensinam o que aprenderam de seus próprios pais e a partir daí os ensinamentos vão sendo passados de geração a geração criando um mundo para cada novo indivíduo que nasce.

Nossa fé também é ensinada culturalmente, ou seja, a nossa entrada no mundo religioso será sempre marcada pela nossa cultura, e por isso mesmo será sempre advinda de uma palavra. Nesse sentido que podemos concordar com Paulo quando diz que a fé vem pelo ouvir. Podemos também lembrar que Maria engravida pela palavra, ou seja, ela se abre para ouvir o que Deus lhe propõe e a partir daí assume tomar posição diante da palavra ouvida e encarar a missão que lhe foi proposta.

A fé que vem pelo ouvir, se coloca então como promovedora de um lançar-se no mundo, nos fazendo como seres separados, que encaram a realidade em que vivemos sem a nostalgia de um retorno a um mundo onde tudo era seguro e certo. A experiência da fé insiste em nos fazer ver a realidade, mas ao mesmo tempo nos permite ver que não se está sozinho para vivenciá-la. Dessa forma que a fé nunca se caracteriza como certeza, mas sempre como dúvida.

A fé, como nos diz Morano, sempre no coloca em relação a duas palavras. A palavra da instância paterna que nos faz sujeitos, que nos vem da cultura, que nos coloca como seres marcados pela falta, diante de um desamparo estrutural,  e a Palavra, essa com "p" maiúsculo, pois vem de fora, vem de um Outro que permanece para sempre escondido, sendo "visto" apenas pelas costas (Ex 33,23). A grande tensão que se estabelece é de não tentar tomar essa Palavra que vem de Deus como resposta à carência que vem da palavra da instância paterna. Essa Palavra de Deus não visa tampar o buraco da falta, não visa resolver o drama do nosso desamparo estrutural que nos assola enquanto humanos, não visa ser uma resposta ao desamparo, mas visa abrir para nós uma outra dimensão da existência que aceita a contingência, mas nos dá motivos para a esperança de um sentido para a vida.

O desejo infantil de encontrar um objeto que tampe o buraco da falta facilmente cai na tentação de ver em Deus esse objeto e quando isso acontece a religião se torna uma grande ilusão tal como nos disse Freud em obras tais como O futuro de uma ilusão e Mal-estar da civilização. No entanto sempre é possível uma relação positiva com a religião e com a fé. A partir do momento que compreendemos que Deus não deve ser visto apenas como uma "muleta psicológica" (para usar a expressão de Bonhoeffer), nem deve ficar preso nas fixações infantis de um pai imaginário que detém todo o poder seremos capazes de pensar a nossa relação com Deus de uma forma mais madura.

Obviamente que as representações de Deus como pai ou mãe funcionam de forma a nos permitir vivenciar a nossa experiência com Ele/Ela de uma forma mais pessoal, no entanto é preciso ter em mente que tais representações nunca serão capazes de dizer o que de fato Deus é, nem mesmo devem tais representações tomar o estatuto de "verdade", mas devem permanecer sempre abertas para que não se caia novamente na tentação infantil de suprimir a falta que é estrutural.

O Deus da necessidade deve se transformar no Deus do desejo, ou seja, do Deus necessário como sustento para compreender a própria existência ao Deus que surge da aceitação da própria carência. Esse movimento pode ser visto na pessoa de Jesus que mesmo diante do desamparo de Deus, diante de um dos momentos mais tenebrosos de sua vida

é capaz de se entregar manifestando assim como revelação de Deus que se revela como amor, como fraco e não como Deus onipotente desejado pela criança.

A fé que vem pelo ouvir nos chama a uma fé madura, uma fé que não nega a contingência nem a finitude da vida, uma fé que não tem em Deus apenas uma busca por uma segurança ou perdão,  mas uma fé que  é capaz de se relacionar com Deus a partir do desejo, a partir da falta, mas sempre entendendo que esse Deus não será capaz nunca de suprimir a falta que é sempre estrutural.

Como nos afirma Morano, "talvez seja absolutamente necessária a morte de nossas expectativas sobre Deus, como condição de possibilidade para nos encontrarmos autenticamente com Ele." (MORANO, Carlos Dominguez. Experiencia cristiana y psicoanalisis. 2006)