terça-feira, 11 de novembro de 2014

A elitização da universidade pública. Observações iniciais para um diálogo.






Não sou a favor da privatização das universidades. De forma alguma, muito pelo contrário, sou a favor de uma escola pública, de qualidade. No entanto, penso que essa escola pública deva ser para quem precisa da escola pública uma vez que claramente temos um problema de divisão de renda envolvida. A meu ver, a forma como a universidade publica funciona hoje não funciona, pois deixa de fora a maior parte das pessoas que realmente dependem da universidade pública caso queiram ter uma formação superior, ou então reservam para essas pessoas os cursos que farão com que elas permaneçam na condição social a que pertencem.

Basta olhar os cursos "de rico" das federais, tipo medicina, engenharia química, direito, etc, e ver quantas pessoas de classes mais desfavorecidas estão frequentando esses cursos. Sabemos que a maior parte dos que frequentam tais cursos vem de uma elite e que teriam perfeitamente condição de estudar em uma escola particular, mas não querem fazer isso porque o ensino da universidade pública várias vezes é melhor.
A elitização da formação superior se mantém basicamente da mesma forma. É claro que tem havido um aumento de acesso considerável no ensino superior nos últimos anos, mas se olharmos bem, veremos que as classes menos favorecidas ingressam no ensino superior apenas em cursos de licenciaturas, tirando claro as exceções.

Quando olhamos para as faculdades particulares vemos que a maioria das pessoas que as frequentam  são trabalhadores que precisam pagar as mensalidades ou então dependem de financiamento tipo PROUNI (que acho um programa de incentivo fantástico) ou então o FIES (que agora foi aberto para a pós-graduação), tirando obviamente as exceções. Em um mundo ideal, não vinculado à dinâmica do capital, etc, toda a educação do sujeito seria gratuita, desde a escola infantil até o doutorado, e isso seria para todos independente do curso que o sujeito optasse por fazer, no entanto, sabemos que a coisa, pelo menos no Brasil, não funciona assim, e que o sistema educacional é feito para de alguma forma manter quem está no poder, no poder. 

Se a realidade das universidades federais é essa, acho bem defensável que ela seja paga para quem pode pagar e gratuita para quem não pode pagar. Sabemos que proporcionalmente os mais ricos são os que menos contribuem no Brasil. O montante maior de contribuição vem da classe média e da classe mais pobre do país que pagam impostos que chegam a mais de 25% dos rendimentos enquanto as classes mais abastadas pagam bem menos. Basta a gente lembrar do drama que eh a implementação de impostos sobre as grandes fortunas no país. A meu ver a universidade pública tinha que ser para quem não pode pagar. O critério não deveria ser meritocrático, mas a meu ver, deveria ser socioeconômico. Claro que poderia haver cotas para os mais ricos, mas a prioridade deveria ser a população que não pode pagar por seus estudos.
 
Um outro exemplo da elitização das federais é o simples fato de TODAS AS PÓS-GRADUAÇÕES STRICTU SENSU SEREM NA PARTE DA TARDE. Isso em si mesmo já visa excluir a classe trabalhadora (que tirando alguns casos onde a flexibilização é possível, ou o trabalho é de 6 horas) que não pode frequentar esses cursos, os reservando à MESMA ELITE que continua nas universidades federais. Claro que há vários casos de pessoas que estudam e conseguem fazer a pós-graduação, eu mesmo sou um exemplo desse caso, mas a meu ver, a falta de empenho por parte das universidades em se colocar cursos de pós-graduação a tarde é mais um ponto que comprova o quanto a universidade brasileira continua extremamente elitista e excludente. 

Se o sujeito trabalhador quiser fazer o seu mestrado ou doutorado ele precisa se virar e, ou abrir mão do seu emprego e tentar viver com bolsas das agências de fomento, (o que para a maioria dos trabalhadores não é interessante, pois recebem mais do que ganharia com a bolsa, sem contar que a bolsa, por não ter vínculo empregatício, o tira do mercado de trabalho por 2 ou 4 anos sem nenhuma garantia que ele conseguirá se recolocar no mercado de trabalho depois de terminado a sua pós-graduação) ou então trabalhar apenas em meio período ou com jornada reduzida. (o que claramente é um número muito pequeno de trabalhadores, basicamente funcionários públicos). É óbvio que nem todos os trabalhadores têm interesse em fazer mestrados e doutorados, mas os que têm padecem com as condições dadas nas universidades públicas.

A forma como a universidade federal caminha no Brasil, a meu ver faz com que se mantenha a diferença estrutural vinculada à renda no Brasil. A meu ver corre-se o risco de sob o discurso de "universidade pública gratuita" esconder um discurso que visa manter no poder a mesma classe dominante que sempre esteve lá. É óbvio que o assunto é um assunto complicado, com várias atenuantes, mas é algo que mesmo com todos os espinhos precisa ser pensado seriamente no Brasil.