terça-feira, 18 de novembro de 2014

Não. Não falo sobre mim !





Às vezes olho para mim e me percebo como longe daquilo que gostaria de já estar sendo no momento. Fica aquela sensação de que já poderia estar tão mais longe, que já poderia ter deixado de lado muitas das coisas com as quais luto até hoje, mas que por causa de inúmeras contingências da vida ainda não alcancei.

Fica a sensação de que talvez aquele ideal com o qual eu constantemente me comparo nunca será alcançado, pois para realizar isso eu teria que ser outra coisa que não eu mesmo.
Aparentemente me sinto incapaz de atingir uma meta que eu mesmo construí, mas claro que não construí sozinho, mas foi construído por outros e assimilado por mim como meu. A fixação nesse ideal quase "etéreo" é o que me faz sofrer todo dia, pois me vejo não suficiente o bastante, não bom o bastante, não inteligente o bastante, não bonito o bastante, enfim, não me vejo o bastante para ser o que gostaria que fosse.
Dessa forma tudo que faço parece pouco. Em tudo que conquisto fico sempre com aquela sensação de que poderia ter feito melhor, poderia ter dedicado mais, poderia ter gasto um pouco mais de tempo e mudado aquele pequeno detalhe que ninguém reparou a não ser eu mesmo. Diante disso novamente sofro por não conseguir novamente alcançar aquele projeto forjado para mim.

Triste vida essa minha correndo atrás do vento. Correndo atrás da perfeição, que por definição, eu nunca poderei alcançar por ser eu mesmo imperfeito. O que escondo talvez seja apenas a minha insegurança, seja apenas essa triste visão que tenho sobre mim mesmo, mas que meus afazeres e meu perfeccionismo insiste em esconder. Tudo se configura, portanto, como um grande semblante diante desse nada que me assola e do qual não tenho para onde fugir. É como se o abismo habitasse no mais íntimo do meu ser e no meu constante olhar para ele, ele insistisse em olhar de volta, como já nos comentava Nietzsche em tempos idos. 

Se tento esconder desse abismo me encontro mais próximo dele do que quando finjo que ele não existe. Inútil às vezes é alçar a voz, pois não há ninguém para ouvir, ninguém disposto a ouvir, ou disposto a parar para que essas coisas em mim cessem. Se elas insistem em persistir quem sou eu para lhes calar dentro de mim? Quem senão um outro para fazer calar isso dentro de mim? Esse outro sempre escondido, sempre distante, sempre envolto em seus afazeres, sempre indiferente para tudo e para todos. Esse outro que aparece também como uma máscara para o vazio que ele também representa, pois não está aí de fato, mas apenas finge estar.

Não seria esse outro almejado uma outra idealização inalcançável? Não seria a tentativa de encontrar um auxílio fadada ao fracasso diante da nossa hipermodernidade onde o que importa é mais que tudo o indivíduo e seu sucesso pessoal? Não seria talvez a hora de abandonar a minha esperança desse consolo e assumir resilientemente esse abismo que em mim habita e que se encontra também fora exemplificado por aquele nada que tudo nadifica?

Se for assim, como é possível suportar tamanho abandono?

"Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste !" gritou certa vez um homem quando confrontado com tamanho abandono. O que lhe restou depois disso foi apenas o último suspiro e nada mais. Próximo a ele apenas alguns que nada podiam fazer a não ser contemplar o fim daquele que foi abandonado. No último suspiro o homem abandonado "entrega o seu espírito", mostrando com isso que apesar do abandono, apesar da falta de sentido de sua morte, ele ainda acreditava que haveria alguém em quem pudesse se entregar como último ato de fé.

Mas será que eu sou capaz daquele ato de fé daquele homem abandonado? Será que para mim haverá ainda a esperança da última entrega diante do mesmo abandono? Se por definição não há nenhuma garantia de que meu salto encontrará uma mão que me segure no final, resta talvez apenas tentar que o último suspiro valha a pena.

E quem sabe ali, no último suspiro, perceber que todo esse trabalho não foi em vão.