sábado, 21 de fevereiro de 2015

Diálogo entre o "discurso evangélico" e outras áreas?




Confesso que me espanta às vezes o nível raso de várias pregações e comentários bíblicos que vejo tanto no mundo virtual quanto no mundo real. Geralmente as interpretações bíblicas que são apresentadas não passam de pequenas paráfrases de Salmos, ou então paráfrases dos evangelhos ou das cartas de Paulo. Muito raramente se consegue um diálogo mais interessante com o próprio texto bíblico ou então (e talvez aqui já seja querer demais) com outras áreas de conhecimento como a filosofia, a psicologia, psicanálise, etc. 

Tal "falha" no meio do povo evangélico a meu ver é bastante sintomática e remete a uma conjuntura de cunho mais histórico  da formação do evangélico brasileiro. Como sabemos a grande parte dos evangélicos no Brasil são advindos de ações missionárias americanas no início do século XX. Esse evangelho de missão chegou de forma avassaladora por aqui e se instaurou muito rapidamente nas diversas camadas da sociedade. O exemplo mais paradigmático que teríamos desse movimento é o da Assembleia de Deus que chegou ao Brasil por volta dos anos 10 do século XX e rapidamente se instaurou em nosso meio e até hoje está bastante atuante em diversos estados brasileiros. 

O evangelho de missão, como o próprio nome já diz, está muito mais preocupado com uma propagação da mensagem do que propriamente com o fazer dialogar a fé com outras áreas de conhecimento. (Obviamente que existem vários seminários, escolas de teologia desta vertente que aqui chamamos de evangelho de missão preocupados com o ensino mais sistemático do texto bíblico etc. No entanto, é visível que a preocupação se dá mais do ponto de vista de treinar o sujeito para manusear bem a bíblia do que propriamente instigar um maior diálogo da fé com outras áreas de conhecimento) Neste sentido já é um avanço significativo em relação a outro segmento muito aclamado no Brasil que é o da teologia da prosperidade, que nem mesmo se preocupa com o ensino do texto bíblico. 

As igrejas que adotam a teologia da prosperidade (aqui a igreja paradigmática é a Universal do Reino de Deus (IURD). Embora atualmente haja diversas igrejas que são frutos de um evangelho de missão que assumiram o discurso da teologia da prosperidade de forma muito visível. Como exemplo destas igrejas podemos falar da Igreja Batista da Lagoinha e Igreja Batista Getsêmani, ambas em Belo Horizonte) possuem uma preocupação muito grande com a arrecadação de dízimos e ofertas e deixam de lado um ensino mais sistemático do texto bíblico. E é de se inferir que se deixam de lado um ensino mais sistemático do texto bíblico, o diálogo com as outras áreas de conhecimento nem mesmo é cogitado.

O que se percebe é que desde a formação dos pastores (que no caso da IURD pode se dar em apenas 6 meses, i.e, o sujeito se converte e dentro de 6 meses, se for do seu interesse, já está apto a pastorear uma igreja, e no caso da Batista da Lagoinha vários pastores são formados pelo Carisma que é um curso implementado na Lagoinha onde os alunos escutam palestras de outros pastores da igreja e depois de algum tempo se formam líderes. Talvez um caso bem curioso seja o da Batista Getsêmani em que várias pessoas com título de pastor não possuem nenhum tipo de formação teológica, mas mesmo assim são "ungidas" pastores e pastoras.) não se é incentivado um diálogo com outras áreas de conhecimento, mas se ensina um manusear mínimo do texto bíblico de forma que os versículos chaves sejam decorados. Versículos como João 3,16, ou I Pe 5:7, obviamente Ml 3,10, etc. Um uso extremamente instrumental do texto bíblico onde se prima por uma leitura literalista do texto sem nenhuma preocupação com um contexto mais amplo que fomentaria discussões interessantes.

É bastante claro que esta instrumentalização do texto bíblico geralmente visa interesses institucionais e não precisa ser um exímio conhecedor do texto para saber que vários são usados de forma errada e várias vezes de forma perversa. A meu ver, se o diálogo com outras áreas de conhecimento fosse incentivado dentro das igrejas, isso geraria um debate muito mais profícuo, e um entendimento muito mais saudável do próprio texto bíblico. Obviamente que quando proponho tal diálogo, proponho que o mesmo seja honesto, ou seja, não vise apenas "comprovar" as coisas que estão na Bíblia de tudo quanto é jeito. Já perdi as contas de quantas vezes tentaram usar o texto bíblico para explicar a existência ou a não existência de dinossauros, ou "usar a ciência" para comprovar que o sol realmente parou depois da oração de Josué, etc. Este tipo de diálogo, por mais que seja interessantíssimo durante um almoço em um retiro, a meu ver em nada coopera para um melhor entendimento do texto.

Enfim, gostaria muito de ver a igreja evangélica brasileira desenvolvendo uma fé mais madura, que não se nega a debater assuntos importantes com uma mente mais aberta ao invés de sofrer da sina de enfiar um "evangelho" goela abaixo de qualquer um sob o pretexto de "pregar a tempo e fora de tempo." No entanto, para que seja capaz de tal diálogo, é preciso que tal igreja esteja disposta a ouvir um outro discurso que não o seu, assimilá-lo para depois debater, mas para isso exige-se que tal igreja não seja uma igreja infantilizada, mas que seja uma igreja adulta.