segunda-feira, 6 de abril de 2015

Um Deus sádico nunca poderá nos salvar




Uma coisa que sempre achei bem estranho, embora tenha aceitado por muito tempo é a noção de que Deus estaria de alguma forma usando o "deserto" para nos testar. 
Sempre quando alguém falava algo desse tipo me vinha à mente a ideia de um Deus sádico que gosta de atormentar os seus filhos para que eles aprendam "a qualquer custo" seja lá o que for. 
Essa mesma visão de um Deus sádico sustentada por uma leitura literalista do texto de Jó sempre me deixou bastante inconformado. 
De alguma forma parece que esse "Deus" precisa que alguém sofra para que ele possa ensinar algo, como se de alguma forma o mais importante não fosse o ensino e sim a sofrência do impotente. É a figura do Deus que usa o câncer para ensinar alguém, ou leva fulano de tal à falência para fazer o sujeito se converter, etc.

Para mim essa forma de pensar a figura de Deus é extremamente infantil e extremamente injustificada, pois afirmar que "os pensamentos de Deus são maiores que os meus pensamentos" em nada retira desse Deus o seu caráter sádico que algumas pessoas insistem em colocar como característica Dele. 

Por trás da permissão para o sadismo de Deus está o conforto que a noção de onipotência divina traz para aqueles que preferem não encarar a dureza da vida, mas preferem se ancorar em uma visão paternalista de um Deus que o próprio Jesus demonstrou na cruz não ser assim sempre tão presente. 

Esse Deus que visa responder todas as faltas, ser aquele que tampa a falta estrutural do humano aparece sempre como uma grande ilusão, uma tentativa desesperada do ser humano de lidar com aquele desamparo que é estrutural, mas sem aceitá-lo, e por isso várias vezes esse Deus adquire essa fase sádica. No entanto esse sadismo se mostra como sombra imperceptível diante do discurso da onipotência divina que tem "pensamentos mais altos que os nossos" e por isso tem todas as ações justificadas por sempre saber o que virá mais a frente.  


Esse mesmo Deus sádico se mostra também na doutrina da retribuição tão cara à maioria do antigo testamento em que a visão de Deus recorrente era a daquele que deveria abençoar apenas os que fizessem tudo corretamente e deveria punir àqueles que não agissem da forma como prescrita por Ele. Talvez um dos textos onde essa proposta apareceria de forma mais veemente seja Deuteronômio 28 em que as bençãos e maldições são descritas de forma circunstancial, "Se me obedecerdes essas bençãos seguirão", "se não obedecerdes essas maldições seguirão", um detalhe interessante é que constam 13 versículos sobre as bençãos e 53 versículos sobre as maldições, o que a meu ver nos diz muito da visão sádica que se tinha de Deus na época da escrita do texto.


Algo que talvez achamos estar tão afastados de nós ainda é visto com muita força em diversos lugares, igrejas, redes sociais, ou seja, essa mesma ideia de que Deus estaria usando o sofrimento para aprendizado, ou até recompensando os bons e punindo os maus, mesmo quando já no Eclesiastes essa ideia é fortemente questionada. E aqui é interessante notar como que a crítica do Eclesiastes é bastante ignorada por vários até hoje; É como se confirmasse aquilo que falamos mais acima de que uma visão sádica de Deus fosse algo  preferível a assumir a ideia de um Deus não tão potente assim.


"Apenas um Deus fraco pode nos salvar" já afirmava Žižek  e aqui concordo com ele, pois esse Deus fraco se mostra como antítese daquele Deus sádico que insistimos em manter por perto como forma de aplacar a nossa dor de existir. Esse Deus fraco pode ser visto na pessoa de Jesus que experimenta o abandono, que não oferece todas as respostas, que sofre com a injustiça, que não se conforma com a exploração do templo, etc. Esse Deus fraco aparece também hoje em nossa época na qual não se há respostas definitivas para nada. Um Deus todo poderoso pouco tem a dizer para a nossa hipermodernidade.


Na ausência das respostas definitivas o que aparece é apenas uma pequena voz que clama no deserto. E aqui o deserto não se mostra como "lugar onde Deus nos testa", mas sim como o único lugar onde Deus pode se fazer presente; Esse Deus não mais visto como um Deus sádico que deseja obediência a todo custo, mas visto agora como algo ou alguém que se apresenta para o homem em meio à falta que não será aplacada por nada. Ao invés de um Deus que aparece como algo que tampará a falta do sujeito, um Deus que se apresenta como um grande vazio, mas que por ser um grande vazio é passível de se tornar um grande sentido para o sujeito. 


Se a visão de um Deus sádico nos conforta por conta da sua suposta onipotência que o desculpa por todas as suas ações, a visão de um Deus fraco nos coloca diante da nossa própria existência nos responsabilizando por nossas próprias ações sem ninguém além de nós mesmos para culparmos. Ao invés de um Deus infantilizado, um Deus que se mostra de outra forma, ou seja, o Deus de Jesus, que longe de dar todas as respostas, se mostra presente apenas em sua ausência e por isso se constitui sempre um possível horizonte para o sujeito.