sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Por um Deus não infantilizado





"É um fato surpreendente e às vezes até mesmo escandaloso (apesar da frequência com que, infelizmente, o temos de enfrentar) o estado de imaturidade que revelam determinados comportamentos, atitudes e posicionamentos religiosos de algumas pessoas. Temos, com efeito, a impressão de que, no âmbito do religioso, podem permanecer elementos enormemente infantis ao mesmo tempo em que em outros âmbitos da personalidade se produziu uma evolução e um desenvolvimento para a vida adulta. Profissionais qualificados, líderes sociais, pessoas cultivadas intelectualmente podem nos surpreender a qualquer momento com posicionamentos notadamente infantis, dependentes, mágicos, repletos de tabus ou ilusórios, os quais contrastam com as capacidades adultas, comprometidas, críticas e livres que manifestam em outros setores de suas vidas, tais como os profissionais, econômicos, políticos ou familiares.

É de fato desconcertante que uma pessoa que  mostre um alto grau de capacidade crítica em relação a determinados posicionamentos teóricos ou uma atitude de saudável independência diante de determinadas pressões ambientais aceite de forma acrítica, no âmbito de suas crenças religiosas, qualquer tipo de formulação dogmática, ou que, em suas relações intra-eclesiais (com seu diretor espiritual ou com seu grupo de fé), possa chegar a adotar as posições mais submissas e dependentes."


Carlos Domingos Morano. Crer Depois de Freud. Edições Loyola. 2003. p. 127,128


O fenômeno tão bem descrito por Morano pode ser visto todos os dias também nas redes sociais em que vemos proliferar vários e vários discursos em que uma visão completamente infantilizada de Deus parece ser a tônica. Um deus extremamente punitivo, vingativo, que apenas te aguarda depois da curva para que a bênção do livre-arbítrio se transforme em critério para a punição, etc. 

Além disso as inúmeras mensagens compartilhadas que coloca Deus como alguém que simplesmente fica contabilizando erros e acertos para no juízo final colocar tudo em pratos limpos. Um deus estático em que a noção de "não-mudança" que deveria ser entendida do ponto de vista ontológico se transforma em algo visto do ponto de vista moral enfraquecendo consideravelmente o entendimento sobre Deus.

Um Deus completamente dicotômico para o qual só existe duas opções, (bem e mal / certo e errado / preto e branco), um Deus extremamente rígido que apenas encarna a lei, um deus sádico, e que para muitos, tem nessa mesma lei a forma mais pura de amor, distorcendo dessa forma tanto o conceito de "lei" quanto o conceito de "amor" que possamos atribuir a Deus. 

Não raras vezes podemos ler e ouvir frases do tipo : "Eu não sou nada, mas Deus é tudo", "Deus já planejou tudo", "os planos de Deus não podem ser frustados". Isso soa como uma espécie de consolo diante das incertezas da vida e ao mesmo tempo demonstra, a meu ver, uma enorme dificuldade do indivíduo em lidar com o aspecto incerto da vida no mundo. 
É como se de alguma forma Deus precisasse se manter onipotente/estático/onisciente/onipresente para que o indivíduo consiga existir minimamente. Fazer desse Deus uma espécie de projeção paterna faz com que a relação com Deus se dê de forma extremamente patológica e ao mesmo tempo aponta para uma dificuldade do sujeito em se responsabilizar pelas suas ações.

Seguindo a sugestão de Morano, essa visão infantilizada sobre Deus deve dá lugar à uma visão mais madura, ou uma visão adulta sobre Deus. É o que para Morano se caracteriza na diferença entre o Deus da criança e o Deus de Jesus. O Deus de Jesus  seria um "Deus diferente", pois não se coloca como alguém pronto a realizar uma mágica para que as coisas aconteçam de acordo com o meu desejo, não se coloca como alguém que quer nos levar para o céu, nos salvar das mazelas do mundo, etc. 

Mas o Deus de Jesus se coloca como aquele que não providencia explicações para os problemas que a vida nos coloca, mas permite que vivenciemos a vida na sua forma mais crua, mantendo-se como uma esperança para os que crêem. É um Deus como o de Jó, que em meio ao sofrimento não responde às perguntas, mas apenas propõe outras em seu lugar deixando as respostas sobre o sofrimento humano em aberto. É um Deus que longe de se mostrar onipotente, oferece apenas uma mensagem de vida, mas sem eliminar as angústias da existência. É um Deus que concede um lugar para a morte, pois esta se constitui como parte essencial da vida humana e em nenhum momento a nega, nem procura dar uma solução para ela. 

O Deus de Jesus se coloca, portanto, como uma visão bem diferente em relação ao Deus da criança, mas para que estejamos dispostos a vivenciar esse Deus proposto por Jesus é preciso que estejamos dispostos a crescer. É preciso que estejamos dispostos a "matar Deus", matar esse Deus infantilizado, para que o Deus de Jesus de fato ressuscite dentre os mortos e de fato habite os nossos corações trazendo vida e não morte e culpa. Não que deixaremos de nos referir a Deus como "pai" ou "mãe", afinal, essas estruturas remetem à noção de confiança, segurança, etc. que são extremamente importantes para nós enquanto humanos, mas ao nos referirmos a Ele dessa forma teremos a consciência que tal prática remete à sua dimensão simbólica e não a elementos puramente projetivos. Talvez a partir daí estejamos mais próximos da proposta de Jesus que tinha a ousadia de chamar a Deus de pai sem que com isso apontasse para uma visão infantilizada sobre ele.