quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Uma felicidade homeopática. Eclesiastes e o trabalho.



                                                                          Foto: Shinichi Maruyama


"Para quem estou trabalhando tanto, e por que razão deixo de me divertir?  Isso também é absurdo." (Ec. 4,8). 

"Durante toda a sua vida, seu trabalho não passa de dor e tristeza; mesmo à noite a sua mente não descansa. Isso também é absurdo" ( Ec. 2,23)

Fico várias vezes pensando nessa relação nossa com o trabalho e sobre isso já escrevi algumas vezes aqui no blog. 

Fico pensando que talvez, quem sabe, se os dias fossem melhores e fossem menos cansativos, menos estafantes, menos entediantes, menos extenuantes, menos angustiantes, menos exigentes, menos cobradores, menos rápidos, menos atarefados, menos corridos, menos sem sentido, menos pesados, menos tristes, menos toscos, menos injuriantes, menos provocantes, menos tenebrosos, menos nostálgicos, menos raivosos, menos barulhentos, menos cheios de coisas pra fazer, menos fóbicos, menos cinzentos, com menos problemas, com menos trabalhos, com menos pensamentos, menos irrealistas, com menos opiniões, menos certezas, etc. se não seríamos mais felizes ou se isso realmente faria diferença de alguma forma para nós. 

Nessa nossa relação com o trabalho entramos diversas vezes em uma espiral louca de tantos afazeres para adquirir coisas que se tornarão vãs no segundo depois de adquiridas que parece que em diversos momentos temos que concordar com o autor de Eclesiastes de que isso é realmente um absurdo.
Trabalhamos tanto, deixamos de nos divertir, criamos problemas e mais problemas para nós mesmos ou com nossos próximos porque estamos o tempo todo preocupados com o trabalho. Nossa saúde se deteriora, comemos mal, nos relacionamos mal, abrimos mão das coisas simples e belas da vida etc.

Não descansamos. Nem mesmo à noite a mente descansa, pois se não se está pensando nos trabalhos que deveríamos ter feito e não fizemos, paramos para pensar nas outras esferas da vida que não pensamos porque estávamos atarefados demais para pensar nelas. À noite tudo volta e o momento que deveria ser de paz e de descanso se torna momentos de angústia, momentos em que os monstros voltam para nos atormentar. Nós que sempre achamos que eles simplesmente iriam embora pelo fato de não darmos muita atenção a eles somos surpreendidos por eles, pois se encontram no exato mesmo lugar que os deixamos. 

É claro que as demandas da vida se impõem, que dentro de um sistema regido pelo capitalismo o trabalho se torna um grande meio para se adquirir coisas e exatamente por isso que trabalhamos. Queremos sim condições de vida melhores, uma nova casa, um carro novo, viajar, pagar as contas; queremos sim uma vida em que possa divertir, etc. e tudo isso é muito legítimo e não há nenhum demérito em se querer essas coisas.  A não ser que estejamos dispostos a fazer uma revolução e lutar contra o sistema capitalista, essa dinâmica se imporá a nós de uma forma ou de outra. Dentro desse sistema a relação do homem com o trabalho é completamente pervertida, desumanizada, etc. Isso Marx já nos falava muito bem no século XIX.  

Essa relação nossa com o trabalho, que longe de ser um vínculo criativo com o mundo se torna nada além de um meio para se adquirir algo, nos leva a mais um absurdo que é o fato de nos contentarmos com doses homeopáticas de felicidade. Nos contentamos com  pequenos momentos felizes em meio a tanta dor e desilusão que enfrentamos diariamente. A felicidade que deveria ser excessiva se torna a exceção. Nós nem pedimos a Deus, à vida para que os dias sejam mais felizes, mais belos, etc. apenas que sejam menos. Uma espécie de resiliência diante da faticidade da vida, uma espécie de resignação com um mínimo de esperança para que tudo não caia no abismo. A máxima da moda de que "menos é mais" aponta nesse caso para a nossa situação absurda.

Mas será que se esse nosso desejo se cumprisse e os dias realmente fossem menos isso tudo que falamos mais acima, se o nosso trabalho fosse apenas uma esfera da vida e não aquilo que nos martiriza, não arrumaríamos nós mesmos os meios para que tudo fosse diferente? Não preferiríamos o martírio à paz, a tristeza à alegria? Não preferiríamos a "excedência do mais" ao invés da paz trazida pelo menos?