quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Se passas, amo-te como quem pode perder-te !








Se passas, amo-te como quem pode perder-te !

Uma belíssima contribuição de Freud ao tratar em um texto de 1916 sobre a transitoriedade é mostrar que a transitoriedade das coisas não deve nos remeter à angústia de que aquilo não mais estará entre nós, mas deve nos lembrar do valor inestimável que determinada coisa ou pessoa adquire para nós enquanto a temos. 

Sofrer pela ausência inevitável que um dia acontecerá, pela transitoriedade da vida, que por definição é finita, é perder toda a beleza que a própria transitoriedade nos aponta. É pelo fato de acabar algum dia que as coisas carregam sua beleza. Assim como Freud coloca, é o fato do inverno levar consigo toda a beleza da primavera que esta deve ser vivida em toda a sua intensidade enquanto está conosco. Deixar de aproveitar a primavera porque o inverno chegará em breve faz-nos perder a dimensão do encanto que os momentos belos da vida nos proporcionam.  

A nossa finitude se mostra como um convite a contemplar a beleza do que muda, a beleza do que se transforma a cada estação, a beleza dos rostos que envelhecem trazendo consigo novas belezas que desconhecíamos. A nossa própria transitoriedade é um convite não a fixarmos ao presente de forma irresponsável, mas a prestarmos atenção ao presente como o tempo que temos para contemplarmos a beleza que nos circunda e nos envolve.

Diante do mal que assolava Freud na época da escrita do texto de 1916 (A 1ª Guerra mundial) e os diversos males que nos assolam hoje, mantenhamos a esperança de que a mesma transitoriedade que carrega consigo a beleza das coisas abre para nós a possibilidade de pensar que os males não são definitivos, que eles também são transitórios...

A transitoriedade se mostra como possibilidade de esperança, e talvez por isso, possibilidade para a beleza.