quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Templo de Salomão - Relato antrosociológico - Parte 2 - Sobre a segurança e a não representação imagética no templo





Algo muito interessante sobre a visita ao Templo de Salomão que descrevi no último texto é a ausência da possibilidade de se fazer qualquer tipo de filmagem, imagem sobre o templo. Tal impedimento é tão grande que, como relatado no texto descritivo, há diversos detectores de metal na porta do templo e até mesmo para o uso dos sanitários, de forma que visa-se ao máximo impedir qualquer tipo de registro da experiência que se tem no templo. 

A meu ver há dois tipos de justificativa para esse tipo de medida. Sendo uma do ponto de vista teológico e outra do ponto de vista "sociológico". 

A justificativa do ponto de vista teológico foi a primeira coisa que pensei. Quando vi a seriedade com que se pensa a ausência de registro imagético no templo, a conhecida relação entre a não-representação possível de Deus no judaísmo oposta à suntuosidade do templo foi a primeira coisa que me ocorreu. Como se sabe o Deus judaico não podia ser representado de forma alguma, e qualquer tipo de tentativa de representação da divindade era completamente estranha ao povo de Israel. Isso vemos claramente no segundo mandamento dado a Moisés "Não farás para ti imagens de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra [...]  não a adorarás e nem as dará culto" (Ex 20,4-5). Enquanto no mandamento judaico a restrição se daria em torno da "imagem" de Deus, em relação ao templo de Salomão a restrição se dá em nome da "presença de Deus" que supostamente estaria naquele lugar e por isso não deve ser "captada" por nenhum tipo de aparelho eletrônico. 

A questão da "imagem" como aquilo que denigre de alguma forma o objeto representado é pensado de maneira muito séria no judaísmo, tanto que nem mesmo o próprio nome de Deus (YHWH) pode ser pronunciado como forma de não "restringir" aquilo que Deus é. O acesso a Ele se daria, no judaísmo, apenas por meio de pequenos símbolos que em nada toca aquilo que Deus seja, mas apenas "representa" parcamente aquilo que "pensamos sobre ele". Talvez daí a presença de inúmeros artefatos judaicos no interior do templo. Os candelabros, que segundo o pastor Rodrigo, representariam os "sete espíritos de Deus" em referência ao texto de Apocalipse 3,1 seriam um constante lembrete de que ali há algo da presença de Deus que "circundaria" todos os presentes e ao mesmo tempo um lembrete constante de que qualquer imagem, qualquer tentativa de representar o "lugar onde Deus está" deve ser duramente evitada.

O relato da construção do templo de Salomão é descrito no texto bíblico em I Reis do capítulo 6 a 8 e mostra toda a suntuosidade do templo construído que demorou 13 anos para ser concluído. A versão da IURD demorou apenas 4 anos para ser construído, e percebe-se diversas tentativas de fazer algo parecido ao relato bíblico, embora não haja uma preocupação em seguir a risca o relato do texto. 

A outra justificativa, a sociológica, seria a questão da segurança (bombas, atentados às pessoas, etc.) e para isso seria interessante relatar que todo o templo conta com um sistema de filmagem que segundo o pastor Rodrigo, é capaz de registrar "a página da Bíblia que o fiel está lendo" (Palavras dele). Esta preocupação com a segurança é algo bastante sintomático, pois é algo bastante diferente do que é visto nas igrejas católicas mesmo com toda a riqueza que há nos templos católicos. Em nenhuma igreja católica que visitei até hoje havia detector de metais, em nenhuma havia sistema de segurança que visava restringir acessos a áreas dos templos, pois aparentemente o próprio templo traria em si a noção de "respeito" à presença divina que ali estava. Segundo o pastor Rodrigo, o celular, as câmeras, etc. atrapalhariam o andamento do culto e seria motivo de distração, algo que tiraria o fiel da presença de Deus. Esse aparelho eletrônico por isso deveria não estar ao alcance das mãos dos fiéis durante a celebração. 

Essa preocupação exacerbada com a segurança aponta na direção de que mesmo querendo que ali se reflita a "presença de Deus" é como se tal templo, por maior e mais opulente que seja não fosse capaz de trazer essa experiência do divino para dentro de suas portas e necessitasse para isso que se revestisse de uma espécie de "especialidade" para que aquele que entra por suas portas reparasse que o lugar seria um lugar diferenciado. A não possibilidade do registro imagético aponta, portanto, para um vazio tanto estético quanto religioso da própria construção e isso aponta ao mesmo tempo para a diferença gritante que se vê entre um templo católico, em que a preocupação estética se faz presente de forma extremamente nítida e a ausência de preocupação estética nos templos evangélicos em que a opulência visa assumir o lugar da beleza, mas falhando de forma visível. 

A não possibilidade de se registrar é a meu ver algo bastante sintomático da enorme fissura que há entre o interior do templo e o exterior da cidade. Enquanto no templo reina a opulência, a magnitude, das portas pra fora reina a pobreza, a pequenez dos que passam. Registrar tal fissura seria mostrar para todos que o templo que ali está em nada representa de fato o povo que até ele vai para celebrar. A fissura entre o cotidiano e o templo não pode ser registrado, pois tal fissura apenas apontaria aquilo que o imaginário popular já sabe há muito tempo e que até mesmo o próprio Jesus colocou de forma muito clara aos seus discípulos, i.e, que não se pode servir a dois senhores. Curiosamente, a única vez que o relato bíblico compara o Deus judaico a "outro Deus" é quando se fala sobre o dinheiro. Os "dois senhores" (Deus e a riqueza) são colocados como opções "excludentes" quando o assunto é serviço. Ou um é servido, ou o outro, os dois se tornam impossíveis de serem adorados pela mesma pessoa. 

O templo de Salomão da IURD faz uma tentativa desesperada de unir esses dois senhores mostrando que por meio da opulência seria capaz de trazer a presença de Deus para um determinado lugar, no entanto se esquecem que, como o próprio Jesus aponta, onde há um deus chamado riqueza clamando por adoração não é possível haver um deus sem nome a ser adorado. O não registro imagético, aparentemente visa esconder tal oposição proposta por Jesus entre os dois senhores criando em nome da "segurança" uma tentativa vã da não representação como algo que apontaria para o antigo Deus judaico.