quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Visita ao templo de Salomão em SP (Relato antrosociológico) (Parte 1)






No final de 2015 tive a oportunidade de visitar São Paulo e como já estava por lá não podia perder a oportunidade de visitar o aclamado "Templo de Salomão" construído pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A experiência foi interessantíssima, e sobre ela que escrevo esse texto. Foram várias impressões suscitadas em mim e por isso talvez esse relato gere alguns outros textos por aqui, mas por enquanto deixo apenas algumas impressões.

A primeira coisa que se nota é antes mesmo da chegada ao templo. No bairro em que se encontra o templo, o Brás, há uma colônia enorme de bolivianos que trabalham nas fábricas têxtil. Esses bolivianos vêm para o Brasil em busca de uma vida melhor e não raras vezes acabam trabalhando em trabalhos que beiram a escravidão nas inúmeras fábricas de roupas que há em SP. O Brás é um bairro muito grande e populoso com uma população mais humilde e um comércio muito ativo. São lojas e mais lojas de roupas para todos os gostos e tudo com um preço bem atrativo. Por ser um bairro muito grande e muito populoso não é difícil encontrar pedintes nas ruas, no entanto, algo que me chamou muita atenção já  no caminho para o templo é que vários desses pedintes estavam lendo a Bíblia. Eles estavam na calçada, pedindo dinheiro, mas também estavam lendo a Bíblia. Esse fato em si já me chamou bastante atenção, pois não foi apenas um pedinte que vi fazendo tal leitura, mas pelo menos três nas imediações do templo, o que de fato é muito curioso. A condição material de existência deles não diferenciava dos outros pedintes em nada, o que já dá algo para pensar. Obviamente que não dá para saber se esses pedintes leitores do texto bíblico frequentam ou não alguma igreja na região. 

Em relação ao fato de haver outras igrejas na região, isso também me chamou muita atenção. O templo de Salomão fica na Avenida Celso Garcia, 605, mas ali naquela mesma avenida há mais 3 igrejas sendo uma catedral da própria IURD que fica a uns 300 metros do templo de Salomão do mesmo lado da rua; uma igreja católica EM FRENTE ao templo de Salomão, e exatamente DO LADO da igreja católica há uma igreja Assembléia de Deus enorme. Em um espaço de 500 metros há 4 templos, sendo 3 templos evangélicos (sendo dois da IURD) e um templo católico. Isso tudo aponta para a religiosidade bastante latente no Brás. Desde os pedintes que leem o texto bíblico até a existência de tantos templos em um espaço tão pequeno mostra que de alguma forma a religiosidade é algo bastante explorado naquele bairro. Com certeza há várias outras igrejas em ruas próximas à avenida Celso Garcia, mas o tempo não permitiu que visitasse outras avenidas para comprovar tal fato.  Essa presença maciça da igreja evangélica em uma rua tão movimentada aponta, a meu ver, para uma interessante estratégia de evangelismo que visa de alguma forma oferecer talvez uma espécie de "conforto" para a dura vida dos moradores do bairro. Se com efeito positivo ou negativo é o que precisa ser averiguado. 

Claro que por se tratar de uma igreja tipicamente neopentecostal não podia faltar o elemento financeiro envolvido, e no caso específico da IURD essa ligação é bastante clara. Bem ao lado do templo de Salomão há uma loja que vende produtos da IURD tais como livros, cds, camisas, etc. e também souvenir do próprio templo, tais como réplicas da arca da aliança, réplicas do próprio templo, candelabros em tamanhos normais e miniaturas e tudo mais que se puder imaginar que faça alusão ao templo de Salomão que está ao lado. Essa prática não é algo próprio apenas da IURD, em várias igrejas neopentcostais isso acontece. Na Batista da Lagoinha em Belo Horizonte tem-se a Seara desde muito tempo, na Batista Getsêmani em Belo Horizonte também há uma loja para venda de produtos da igreja, etc. O comércio e o culto caminham muito juntos nas igrejas neopentecostais, e isso é algo que não é segredo para ninguém. 

Dado essa visualização rápida de onde estava, o contexto sócio-cultural do Brás e o panorama da Avenida Celso Garcia, passo agora a descrever as minhas impressões sobre a visita ao templo de Salomão.

A entrada do templo já é em si um negócio abismal. O portão mais externo que dá na rua abre às 18h para a celebração que começa às 20h. Entre o portão externo e a porta do templo há um um grande pátio onde as pessoas ficam batendo fotos, conversando, crianças brincando, etc. No final desse grande pátio, antes do acesso ao templo principal, há uma linha de seguranças (homens e mulheres) que vistoriam todos que querem ter acesso ao templo. Há detectores de metal como se fosse a entrada de um grande show. Não se pode ter acesso ao templo portando absolutamente nenhum tipo de acessório eletrônico. Nada de celular, câmera, filmadora, extremamente nada nesse sentido é permitido. Os seguranças que fazem a revista com os detectores de metal indicam os guarda-volumes onde se pode guardar os aparelhos eletrônicos antes de entrar para o templo, e antes também de usar os banheiros. Nos banheiros também há detectores de metal.

Finalmente passada a vistoria, guardado os aparelhos eletrônicos tem-se acesso ao templo. Ao entrar no templo percebe-se de cara a suntuosidade da obra. É um imenso galpão com 9545 cadeiras (segundo o pastor que gentilmente nos contou) que segundo o pastor ficam lotadas em determinados cultos, chegando às vezes ter reuniões com cerca de 12.000 pessoas. O pé direito do templo é altíssimo e nas paredes laterais há 6 enormes candelabros que representam a presença de Deus. Na frente do templo, atrás do púlpito há um grande véu branco que encobre parcialmente a grande arca da aliança dourada que há atrás, e na parte da frente do púlpito há réplica de pedras preciosas tais como descritas no Apocalipse de João. Rubi, Ametista, etc.

A ambientação no templo é bem lúgubre e enquanto as pessoas entram para o templo, no sistema de som fica-se tocando uma música instrumental bem tranquila para dar um clima mais aconchegante ao ambiente. Na entrada do templo as pessoas responsáveis por receber os fiéis ficam vestidos com uma roupa branca com uma fita amarela dando cumprimentos em hebraico, tipo "Shalom" e outras saudações tipicamente judaicas.

Há diversos pastores que se encarregam de encaminhar as pessoas para seus lugares e estão aptos para responder perguntas sobre o templo. Um desses pastores que encontramos foi o Rodrigo que foi super atencioso conosco e nos explicou várias coisas sobre o templo. Uma dessas coisas foi que toda a pedraria da parte interna do templo veio de Israel. O piso, os revestimentos de mármore, granito, etc. tudo veio diretamente de Israel. O Rodrigo nos conduziu à parte lateral do templo onde fica uma espécie de capela junto a oliveiras vindas diretamente do Uruguai (tentativa de representar o monte das Oliveiras descrito no NT). Esta capela só pode ser visitada no tour guiado por um "sumo sacerdote" que custa R$ 25,00 e precisa ser previamente agendada. O Rodrigo também nos disse que junto ao templo há uma torre de 18 andares que abriga tanto os pastores que lá residem quanto outras coisas da Universal, tais como estúdio de TV, escola bíblica, etc. e também há 3 estacionamentos nos arredores sendo que um deles cabe mais de 10 mil carros segundo ele. Ainda na parte de fora do templo há diversas bandeiras representando todos os países onde a IURD possui templo.
É tudo extremamente grandioso no templo, extremamente suntuoso, no entanto a questão estética não é algo muito frisado no projeto do templo. Mesmo com toda a suntuosidade percebe-se claramente que é um grande galpão com alguns toques de estilo. Muito diferente de uma igreja católica, por exemplo, onde a questão estética é visível nos diversos quadros, aspectos arquitetônicos, etc.

Diante de tal experiência é impossível não aparecer diversas questões referentes à relação entre a instituição e sua função social, questões sobre a religião em si e o caminho do neopentecostalismo no Brasil, no entanto essas reflexões ficarão para o próximo texto para não tornar esse aqui muito cansativo.