quarta-feira, 4 de maio de 2016

O hiato entre a visualização e resposta, ou mais claramente, entre Eu e o Outro.






Uma das coisas que para nós, os ansiosos da era digital, incomoda profundamente é quando alguém visualiza uma mensagem enviada e não responde. Quer seja ela no Email, Whatsapp, Messenger, SMS, ou qualquer outro meio de comunicação. A situação se torna extremamente incômoda, uma ansiedade domina de forma quase totalitária e aparentemente não há nada, que pelo menos eu consiga fazer, para canalizar essa ansiedade em algo útil. Todas as atenções se voltam para o fato, todas as energias são canalizadas para lá. Não há racionalização possível nesses momentos. Há casos em que até a fome perde-se nessas horas. Esse hiato entre o envio e a visualização e entre a visualização e a resposta é fonte também de extrema angústia, pois revela o hiato entre o sujeito e o outro. Entre o desejo do sujeito e o desejo do outro, para falar como Lacan, ou o infinito entre o eu e o tu para falar como Levinás. Para vários é até preferível saber que o outro não viu do que saber que viu e não respondeu. A primeira opção ainda  assegura uma espécie de "importância" para o outro, afinal, cria a outra ilusão de que "assim que ele vir, ele vai me responder". Já a segunda opção te coloca em  um terrível hiato em que a única coisa que resta é o desejo do outro em te responder ou não, sendo dessa forma muito mais angustiante, pois agora não é mais uma questão de ver ou não ver, mas de querer ou não querer responder. 

Quando o Whatsapp e o Messenger se atualizaram de forma a permitir que as pessoas vissem que o outro leu a mensagem lembro que diversas pessoas na época procuraram inúmeras formas de não mostrar a visualização para o outro como forma de não se sentir na "obrigação" de responder, e isso tanto no Messenger quanto no Whatsapp. A meu ver acho que faz parte da boa educação responder às pessoas que te enviam mensagens. (a não ser é claro mensagens abusivas, que incitam ódio, que ofendem, etc. ou mensagens de trabalho fora do horário de trabalho, etc. Nesses casos acho que bloquear a pessoa faz até bem, pois evita esse tipo de situação estranha. Ou então silenciar pessoas e grupos que apenas te chamam para te cobrar coisas e trabalhos infinitos.)  No entanto, para nós, os ansiosos, saber ou não saber que a pessoa visualizou em nada muda a relação que estabelecemos com a mensagem. A ansiedade se faz presente da mesma forma só que agora ao invés de se configurar em duas opções como falamos acima, ela se configura apenas de uma forma. Não saber que a pessoa visualizou  a mensagem faz-nos apenas criar possíveis histórias para tentar organizar o porque da não-resposta. O mesmo tipo de história que tentamos contar quando sabemos que o outro viu, mas não nos respondeu. Não precisa dizer que essas histórias também são fontes de extrema ansiedade né?

Algo que já é muito senso comum é afirmar que o sujeito hipermoderno é extremamente fragilizado, não consegue lidar muito bem com as adversidades da vida e talvez um desses motivos seja realmente o advento massivo das redes sociais e avanços tecnológicos que o afastam da natureza o confinando cada dia mais em uma vida sem muitos desafios reais, mas apenas construídos muito artificialmente. Sempre fico pensando no como as relações eram bem diferentes na época em que as notícias chegavam por carta ou a cavalo e às vezes as respostas demoravam dias, meses, até anos para chegarem aos seus destinatários. O hiato entre a emissão, visualização e resposta era extremamente maior que atualmente e isso forçava esse sujeito a lidar com as relações de forma muito diferente com a qual lidamos. Um de nós ansiosos, teríamos seríssimos problemas nesse período. Obviamente que a ansiedade generalizada é um sintoma da nossa época hipermoderna e com quase certeza podemos afirmar que os antigos eram muito menos ansiosos que nós.

Obviamente que há um quê de Procusto nisso tudo. Um desejo de que o outro aja da forma que você age, uma expectativa que o outro dê o mesmo tipo de atenção que você dá para esse tipo de coisa aparentemente tão besta. Afinal, responder ou não uma mensagem é algo aparentemente muito pífio para que nos preocupemos com isso. Mas ao mesmo tempo nada é besta em si mesmo, mas tudo depende da relação que se estabelece com determinada configuração. Com certeza seria muito mais fácil se o outro lidasse sempre da mesma forma que você, pois isso aparentemente acalmaria todos os corações. 

A relação que eu criei para mim diante dessa situação das mensagens da era virtual é a de sempre posicionar o outro de alguma forma. Se não posso responder no momento, eu sempre envio algo como "vi sua msg e em breve te respondo", ou "Desculpa, te respondo em breve" para de alguma forma situar o outro da minha posição. Não sei qual tipo de relação o outro estabelece com aquilo que ele me enviou, não sei o grau de urgência com a qual aquilo se mostra para ele. A meu ver não custa esse tipo de atitude. É algo que chamo de "gentileza online".  Mas como cobrar isso do outro? Como forçar o outro a querer o que você quer? E a liberdade dele? E as tarefas dele, as suas coisas a serem feitas? Ele está perfeitamente justificado por não querer fazer a coisa do jeito que nós idealizamos como "ideal". O que resta senão sofrer em silêncio diante da angústia e a ansiedade que te consome nessa hora? 

Na maioria das vezes os outros nem sabem de todo esse sofrimento, afinal, não é bom ficar revelando-se sempre tão fraco, tão dependente, tão fragilizado por qualquer rompimento na rotina da vida. A vida é ela mesma feita de inúmeros imprevistos, coisas que não seguem um ritmo certo, incongruências, inconstâncias. Se tem uma coisa que a vida menos tem é uma rotina por assim dizer. Estabelecer essa rotina acaba sendo uma forma bastante ilusória de lidar com esse Real da vida que se impõe e mostra todo o vazio intransponível, indizível. 

Mas quem conseguiria viver apenas diante desse vazio? Essas ilusões criadas por nós servem para nos acalmar, para sentirmos que temos algum tipo de controle sobre a situação. Mas e quando essa ilusão se rompe e esse Real se apresenta trazendo toda a sua carga horrível diante de nós? É esse o momento da angústia, o momento do incontornável. Isso soa extremamente dramático, mas para nós, os ansiosos, é mais ou menos como a coisa se configura. É mais ou menos o sentimento que nos domina quando essa resposta não vem, ou quando a nossa pergunta não vai. Não que precisamos da sensação do outro "sempre ali" em que a massificação da presença do outro em todos os momentos configurará como angústia, não é isso. Na realidade o que se espera nesse momento é apenas uma espécie de simpatia, uma espécie de compreensão de que aquilo é importante para o outro e por isso, se não me custa fazer, por que não agir de forma a trazer paz a ele?

Por mais que tentemos nos antecipar à situação, nos preparar, racionalizar, prever que tal rotina pode ser quebrada de alguma forma, (e que de fato não há nada de ruim nisso) quando o evento acontece, quando a coisa se rompe lá está de novo todo o sentimento ruim novamente, toda a ansiedade, toda a angústia, todo o choro sendo segurado. Lá está de novo evidenciada toda a nossa fragilidade, as nossas incertezas. Não que não compreendemos a dinâmica da vida do outro; não que achamos que o outro deva estar sempre disponível para nos responder a qualquer chamado; temos plena consciência de que a vida corrida, os afazeres é algo comum a todos, de que às vezes não se teve tempo para responder, de que às vezes simplesmente não se quis responder a tal mensagem por motivos diversos (pensar nessa última opção também pode gerar extrema angústia), mas o fato de termos toda essa consciência em nada alivia (embora devesse) a angústia e a ansiedade. 

Mas não será isso dar um peso extremamente absurdo para algo absolutamente tão insignificante? O que isso representa na dinâmica do sujeito? O que isso representa na nossa dinâmica? Essa situação não aponta para questões muito mais estruturais? Será ainda honesto jogar esse peso sobre o outro? Será que isso precisa chegar até ele? Não seria isso uma tentativa de eliminar a minha responsabilidade diante da forma como eu me sinto jogando isso para uma atitude que viria do outro?Não será o caso de fingir uma suposta atitude de paz para não gerar problemas maiores? A quem revelaremos todas as nossas fraquezas sem que isso gere uma sensação de culpa no outro? Quem suportará nossas fraquezas sem se defender ou nos acusar de insensatos?

É uma espécie de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) que se volta para as relações sociais; como se tudo precisasse funcionar de uma determinada forma, ser arranjado de um determinado jeito. Aquela "folha torta em cima da mesa" não deveria estar "torta ali em cima da mesa", mas por mais besta que seja, aquilo incomoda de uma forma tão grande que não adianta dizer para quem sofre disso: "Mas você não pode ficar assim ! Olha como isso não tem sentido!" Não é a isso que o sofrimento remete. Esse TOC do sujeito remete a outra coisa; desde questões neuronais até mesmo questões psicológicas para serem resolvidas por meio de terapias diversas. O que aqui chamo de TOC das relações sociais se dá da mesma forma só que se volta para as rotinas cotidianas. Se algo sai da rotina (se a folha está torta em cima da mesa) toda a suposta estabilidade se rompe e faz o sujeito cair em um abismo sem sentido.No caso do TOC das relações sociais ainda tem um complicador que é o fato do "conserto da situação" não depender apenas do sujeito, mas do outro. Enquanto para o TOC clássico o sujeito é capaz de resolver a coisa por si só, (ele pode simplesmente arrumar os papéis sobre a mesa, organizá-los e etc.) no caso do TOC das relações sociais a solução do problema vem do outro que de alguma forma é parte e solução do problema, o que deixa a situação muito mais complexa e difícil de ser resolvida. Aliado a isso ainda se tem os problemas diários da vida, i.e, o trabalho que está muito grande, as contas que devem ser pagas, a família que não está bem, ou seja, inúmeras outras situações que cooperam para que a banal experiência da quebra da rotina se mostre ainda mais cruel.

Pode-se ver que para além de uma simples idiossincrasia sem sentido de pessoas mimadas ou "viciadas em internet" (Recalcati já nos chama a atenção do sobre o como as redes sociais podem se configurar como uma espécie de nova droga extremamente viciante em que a ausência acarreta sintomas muito parecidos com crises de abstinência, tais como palpitações, tremores, etc. É um problema bastante recorrente e sério) tal dinâmica pode apontar para algo muito mais estrutural do que a princípio se mostra. Tal situação parece apontar para a difícil relação entre eu e outro aparentemente tão facilitada pelo mundo da internet; parece apontar para o hiato estrutural entre o meu desejo e o desejo do outro, e aprender a lidar com essa ausência de resposta do outro, lidar com esse "desamparo aparente" é algo a ser aprendido por todos nós, os ansiosos. 

Mas será que temos que lidar com isso todos os dias? Não podemos querer também algum tipo de consolo ilusório que nos livre dessa sensação? Nos tornamos piores por querer manter tal ilusão mesmo que momentânea? Será que não podemos contar com a simpatia do outro para conosco? Contar com o seu compadecimento? Obviamente há diversas pessoas que dão uma enorme importância para tal dinâmica e o seu cuidado para conosco é algo digno de ser registrado nessa pequena reflexão sobre um pequeno detalhe da nossa vida contemporânea. Estas pessoas são cada vez mais raras em nossas vidas e isso aponta para relações que transcendem a comunicação online, transcendem os laços líquidos (pra falar como Bauman) da contemporaneidade. Estas pessoas fazem o que podem e o seu esforço deve sim ser notado aqui. 

Dessa forma, sugiro que se há algo que você possa fazer para que seus amigos/colegas/namorado (a) se sintam melhores, por que não fazer? Por que não praticar a tal "gentileza online" e poupá-los de mais essa fonte de angústia entre a visualização e a resposta? Ao propor tal "gentileza online" não me coloco como detentor da única resposta possível para a situação, apenas sugiro que talvez isso possa ser algo que acalmará corações que às vezes se afligem com coisas supostamente muito pequenas. É um tema que cada dia exige mais reflexão de nossa parte e aponta para uma dinâmica muito mais profunda do que aparenta a princípio. No fundo parece remeter à difícil relação entre o Eu e o Outro. E quantas outras coisas, quantos outros relacionamentos não remetem exatamente a esse hiato entre o Eu e o Outro? Entre o meu desejo e o desejo do outro? Entre a minha forma de conceber o mundo e as relações e a forma do outro de conceber o mundo e as relações?