segunda-feira, 4 de julho de 2016

Candomblecistas, Umbandistas, Evangélicos, uni-vos !




Algo interessante a se notar no meio evangélico é a sua dificuldade na forma de lidar com aquilo que é diferente de suas concepções de mundo. Do ponto de vista da própria formação do discurso evangélico esse tipo de dificuldade é muito facilmente compreendido dado a sua "tara" com a noção de certeza. 
Em diversas vezes lemos ou ouvimos alguém dizer algo nesse meio que remete a uma posição segura e infalível de sua crença, das suas concepções de mundo, etc. Esse tipo de relação vai se mostrando pior à medida que o outro discurso vai se afastando de suas concepções. 

Um lugar onde tal discurso se mostra de forma extremamente estranha é na relação estabelecida entre as igrejas evangélicas e as religiões de matriz africana ou também chamadas de religiões afrobrasileiras. Para além de toda discriminação envolvendo as pessoas negras e suas culturas, que no caso brasileiro diversas vezes é associado a algo ruim, (o que é muito sintomático dada a presença maciça da população africana na constituição do povo brasileiro) há ainda a questão ontológica/metafísica envolvida que para algumas pessoas torna qualquer tipo de diálogo impossível. 

Em via de regra, para o evangélico comum, a relação é muito simples e pode ser resumida a formulação de que  "tudo associado a religiões de matriz africana pode ser demonizado e deve ser evitado a qualquer custo." Não há nenhuma possibilidade de diálogo entre os dois ramos religiosos. Tudo associado a Orixás, Nkises, Voduns deve ser evitado sob a constante ameaça disso "abrir portas" para o mal sobrevir à pessoa ou à sua família. Em diversas igrejas há os chamados "cultos de libertação" em que se visa "expulsar os demônios" e em vários casos os nomes dados a esses demônios são nomes retirados da própria tradição de religiões africanas. Nomes como "tranca-ruas", "pomba-gíria", "preto velho" são transformados em demônios que precisam ser expulsos da vida do sujeito pelo fato de serem eles que estariam causando todo o mal. A relação se dá de forma muito direta e isso é um fator interessante de se notar da discriminação envolvida em relação às religiões de matriz africana. 

É necessário aqui ressaltar a diferença que fazemos entre protestantes e evangélicos que já falamos em diversos outros textos. No meio protestante a postura dialogal se mostra um pouco melhor que no meio evangélico (embora várias vezes meio "truncado") e há diversos movimentos de trabalhos conjuntos entre o protestantismo e as religiões de matriz africana. Eu mesmo já participei de alguns encontros em que líderes de religiões afrobrasileiras se encontravam presentes e o clima dialogal se fez presente de maneira muito cordial e respeitoso. No entanto, tal prática ainda não se mostra a tônica nem mesmo entre os chamados protestantes. Um movimento interessante do diálogo entre as igrejas protestantes e as religiões de matriz africana, caso alguém tenha algum interesse, é a Fundação Luterana de Diaconia (de onde sai a imagem que ilustra esse texto)


Algo importante a se ressaltar é que as Religiões afrobrasileiras celebram a natureza e respeitam a diversidade e são ícones de uma cultura ancestral. É preciso salientar, por exemplo, que a figura do diabo não existe nas religiões afro-brasileiras e a associação dele ao candomblé e Umbanda pode ser entendida como uma estratégia de um discurso de dominação bem implantado por parte dos opressores. Ou seja, a hierarquia ontológica se mostra devedora das relações de poder do mundo material.

O candomblé é uma  religião que cultua divindades da natureza, que são os Orixás, Nkises, Voduns, nome que varia de acordo com  a nação que a casa pertence, se Kêtu, Angola, ou Jêje respectivamente. No candomblé, o canto, a dança são muito presentes nos cultos e são elementos importantes na atração da energia espiritual que se cultua. Ele  pode ser entendido também como uma prática religiosa ligada aos costumes das tribos antigas africanas, na medida em que tudo o que se faz é muito ligado à uma tradição e que se propaga ,sobretudo através da oralidade. As formas de culto e as nomenclaturas são  bem particulares seguindo sempre sua nação e raiz de origem. Isso justifica as diversas formas desse culto no Brasil, cujo  formato é organizado em xirês ,que são as ordens em que são apresentados os Nkisses, Orixás ou Voduns nos cânticos de um toque para essas divindades.

As nações do candomblé são, por assim dizer, o “lugar” dessa organização de ritos, nomenclatura, fundamentos, cantos, história das divindades e articulações simbólicas referentes a elas. Embora possua, na sua essência a reverência a várias divindades ligadas à natureza, o candomblé  é uma religião monoteísta, ou seja, que cultua um único Deus – Nzambi (Nação Angola) -  Olorum (Nação Ketu) dentre outras possíveis nomenclaturas. Nesse contexto, as divindades, são entendidas em alguns casos como espíritos que auxiliam a Deus no governo do mundo, uma espécie de força da criação divina. Entendendo a ideia do culto a essas divindades como ela é realizada, é possível dizer  então, que o candomblé cultua ritualisticamente a energia da natureza em suas múltiplas manifestações, das nuances mais belas à intensa devastação a que nos submetem.

A Umbanda é a única religião genuinamente brasileira, surge aqui e é fruto da miscigenação e da mescla de cultura e tradições que nos caracterizam. Tem os orixás como guia máximo entre as divindades assim como o candomblé, mas os louva em Português, enquanto candomblé  cultua usando cânticos em yorubá (Ketu) ou Bantu (Angola). Os umbandistas tem seus fundamentos fruto da rica mescla entre candomblé e os valores do cristianismo. Pode-se dizer que a premissa básica desta religião é a caridade e tem os ensinamentos de Cristo como referenciais importantes de conduta na terra. Importante ressaltar que tais religiões não têm a Bíblia como um livro sagrado, mas partem principalmente da oralidade para compor a sua ontologia. Dessa forma afirmar que tais religiões estão "contra a verdade bíblica" incorre ao mesmo tempo em um grande desconhecimento do que poderia ser chamado "verdade bíblica" e ao mesmo tempo um desconhecimento em relação ao funcionamento das religiões em questão.

Podemos perceber que as religiões de matriz africana, como toda religião, buscam o contato com a esfera do sagrado e para isso se organizam de uma determinada forma dado o seu contexto cultural. Nesse sentido podemos dizer que do ponto de vista do objetivo das religiões afrobrasileiras o que está em jogo é o mesmo objetivo do cristianismo, ou seja, o contato com aquilo que consideramos sagrado. Há obviamente uma diferença ontológica (do que é considerado existente) nas formulações cristãs e nas formulações de outras religiões. A ontologia cristã não aceita essa personificação da natureza proposta por algumas religiões afrobrasileiras, não aceita a existência dos chamados "orixás" e outras coisas, assim como as religiões afro não aceitam a existência do "diabo", "demônios" com essa nomenclatura, coisa que para o evangélico comum é tido como de  "indubitável existência". A diferença ontológica/metafísica, no entanto, não deve ser motivo para a demonização das religiões afrobrasileiras. O fato destas religiões não compactuarem com aquilo que consideramos existentes não as tornam algo a ser combatido, não as tornam algo a ser "evitado", mas muito pelo contrário, algo a ser conhecido e respeitado por qualquer pessoa ou religião.

Obviamente que a questão a que se propõe este texto não é o de "igualar" todas a religiões afirmando que todas elas servem ao mesmo Deus, etc, o que seria um desrespeito às especificidades de cada formação religiosa, uma afronta à própria concepção de Deus evidenciada em cada religião. Mas o que se pretende antes de tudo é mostrar que a demonização feita por grande parte das igrejas evangélicas em relação às religiões de matriz africana tem mais a ver com uma discriminação de cunho social e ideológico do que com uma questão ontológica/metafísica. Claramente que a primeira é condicionante da segunda na nossa opinião, mas há sempre aqueles que pensam que a segunda é a causa da primeira, e esse tipo de pensamento é o que leva a diversos fundamentalismos de ambos os lados, embora a presença do fundamentalismo pelo lado evangélico se sobressaia, dada à nossa própria configuração social.

Tem havido um grande avivamento das religiões afrobrasileiras e cada vez mais pessoas tem-se assumido praticantes destas religiões rompendo estigmas e tendo que lidar diariamente com a discriminação advinda dessa tomada de postura. Em diversos momentos se assumir pertencente a uma religião de matriz africana se mostra como um grande protesto e ao mesmo tempo um afirmar de uma identificação com outra forma religiosa que não as cristãs ocidentais. Por incrível que pareça, mesmo as religiões orientais (budismo, taoísmo, etc.) possuindo uma ontologia mais afastada da ontologia clássica cristã, elas são mais aceitas no ocidente, o que a meu ver aponta para a discriminação social/ideológica das religiões de matriz africana que leva à discriminação e à demonização das mesmas por parte de diversas denominações evangélicas. 

O candomblé, a Umbanda e diversas religiões afrobrasileiras são ricas em cultura, função social e são também pilares que constituem nossa sociedade há muito tempo e precisam ser respeitados como quaisquer outras práticas religiosas. 




Esse texto só foi possível dada a contribuição substancial do caríssimo Washigton Luís, irmão do Candomblé que contribuiu na elaboração deste texto principalmente na parte das características das religiões afrobrasileiras.


 
Washington Luís Santos oliveira é candomblecista , formado em Comunicação Social / Jornalista atuou como repórter e apresentador nas Rádios Alvorada e Band News FM. Membro do Conselho executivo do Instituto Bambare de valorização da cultura Afro-Brasileira e membro da Rede Ecumênica de Juventude REJU.


Fabiano Veliq é Filósofo graduado em Filosofia pela UFMG. Mestrado em Filosofia da Religião pela FAJE. Especialista em Teologia Sistemática pela Faculdade Batista de Belo Horizonte. Doutor em Psicologia pela PUC Minas. Possui pós-doutorado em Psicanálise pela PUC Minas.