quinta-feira, 2 de março de 2017

A Religião light ou Religião "à la carte"








Na relação do homem com a religião na contemporaneidade acontece o que aqui chamarei de uma espiritualização instrumental da vida. Um movimento crescente de pessoas que nas redes sociais e às vezes até mesmo na vida diária adotam agora "novas posturas", "novas formas de vida", que agora afirmam se dedicar à yoga, alimentação saudável, cultura da paz, práticas exotéricas, mapas astrais, lemas budistas, práticas milenares de meditação, etc.

Esse fato mesmo parecendo ser recente é algo que já acontece há algum tempo em nossa sociedade totalmente permeada pelo individualismo e pela ausência de referenciais. Esse novo tipo de "espiritualidade" é o que chamamos de  "religião light", ou "religião a la carte", ou até mesmo "religião portátil". Todos esses os conceitos trazem em si a noção de que a apropriação que um indivíduo faz de preceitos religiosos é, diversas vezes,  meramente instrumental e aliada às demandas do próprio capitalismo. Não é raro vermos pessoas que afirmam que assim que começaram a meditar se sentem mais dispostas para o trabalho, afirmar que rendem mais em suas atividades, etc. A prática espiritualizada servindo em grande parte para a exacerbação da produção. 

A religião light se evidencia principalmente entre os mais jovens que na ânsia de encontrar algum sentido diante das diversas sensações que o mundo oferece começam a ver em práticas religiosas uma possível saída para o estado de anomia. Assim, o sujeito encara de forma muito tranquila o fato de seguir preceitos budistas e fazer coaching para produzir melhor. Ou então ele se sente muito bem praticando yoga, mas trabalhando freneticamente porque tem no acúmulo financeiro um objetivo inegociável de vida. Para esse sujeito é muito tranquilo participar de festas consumistas em que a dinâmica efêmera da vida está toda estampada contando que a proposta apareça com o nome de "Krishna" ou alguma outra entidade oriental. Esse sujeito da religião light é ele mesmo um indivíduo light, descomprometido com tudo, que tem na ausência de conflitos a sua razão de viver.

A religião à la carte é exatamente esse movimento de se servir de preceitos religiosos em uma espécie de self service onto-metafísico em que o "cliente" (afinal a sua apropriação na maior parte das vezes é para se aliar à dinâmica do capital) é livre para se apropriar do que achar mais interessante para a sua vida. Com o seu prato ele se serve da mística cristã, da sabedoria budista, dos tambores africanos, da serenidade das religiões orientais, da yoga, da meditação e monta o seu prato pronto para ser devorado durante o horário de almoço da sua vida em busca de dinheiro. Essa relação do indivíduo com a religião marca uma tendência contemporânea no mundo da ausência de referenciais. A sociedade líquida (Como Bauman gostava de chamar) traz consigo essa liquidez nas relações que o homem estabelece com a religião. A religião light é uma religião descomprometida, sem afeto, sem amarras metafísicas, sem compromissos ontológicos; ela se torna simplesmente um instrumento para o sujeito se sentir melhor. E esse "sentir melhor" pode ser simplesmente um "comer comida orgânica", "meditar algumas vezes por semana" e se sentir "transcendendo a efemeridade da vida" por alguns minutos em silêncio.

A religião light ou "à la carte" é ao mesmo tempo uma "religião portátil", ou seja, aquela que o indivíduo tem "sempre à mão" para pegar o que precisar, quando precisar, para a tarefa que precisar. Se em um determinado momento ele precisa justificar uma determinada prática que pode ter alguma pega com algum preceito budista, o sujeito simplesmente se apropria daquilo e utiliza sem precisar conceituar ou colocar tal preceito dentro do arcabouço teórico a que tal conceito pertence. Ele é simplesmente utilizado pelo sujeito segundo seu bel prazer e o mesmo acontecendo com os diversos rituais das diversas religiões.

As religiões orientais são talvez as que mais são apropriadas pelo ocidente devida a sua forma bastante diferente de ver a relação do homem com o mundo. Daí muito facilmente vermos os mais diversos praticantes de yoga, meditação, práticas alimentares que simplesmente estão fazendo estas determinadas coisas para otimizar a sua vida financeira, ou sua vida profissional, enfim, para render melhor na dinâmica do capital. Isso marca uma deturpação curiosíssima da função consagrada da religião que em sua dinâmica está totalmente alheia à noção de "produção". A religião light permite ao sujeito se sentir melhor, mas mantendo a mesma dinâmica neurótica que o aprisiona dentro da estrutura do capitalismo. Nesse sentido podemos dizer sem nenhuma dúvida que a religião light é o fenômeno que marca a apropriação da religião pelo capital.

A religião, de doadora de sentido para a existência, se transforma em um meio para otimizar a produção do sujeito na dinâmica capitalista; e quando ela se torna isso, há muito tempo já perdeu o seu sentido de ser.