segunda-feira, 3 de abril de 2017

O Realismo científico - Pequeno esboço






Dentro de uma visão realista sobre a ciência, o homem passa a ser um desbravador rumo a sua origem, rumo aos princípios básicos que constituem um mundo, uma galáxia, um universo etc.
O realismo científico nasceu em resposta a um anti-realismo principalmente depois das proposta de Carnap que afirmava que existe um excesso na linguagem que não consegue corresponder diretamente àquilo que é observável. Carnap adotava o modelo da ampla linguagem na qual dividia a linguagem em teórica e observacionais. A primeira compreendendo os termos teóricos mais as regras , e na segunda, contendo aquilo que é observável juntamente com as regras de linguagem. Entre a linguagem teórica e a linguagem observacional existe uma regra de correspondência, mas como é impossível uma interação completa entre a linguagem teórica e aquilo que é observado, a interpretação dos termos teóricos é imparcial.

Acontece então o que Carnap chama de excesso de significado. Isso acontece porque não é possível uma redução completa da linguagem teórica para uma linguagem observacional. Carnap adota uma idéia de negação de uma ontologia mediante uma análise da linguagem. Para ele, os termos teóricos são instrumentos de linguagem para falar de algo não observável, e este algo não observável não é uma entidade existente independente de uma certa teoria. Ele só existe e tem sentido dentro de uma teoria específica. Ele adota a ideia de um instrumentalismo semântico. Os conceitos teóricos possuem um significado mas não correspondem a uma entidade existente por si. O conceito só é real dentro de um sistema teórico de referência. Carnap tenta resolver a questão afirmando que o sentido de um termo não está ligado à uma referência. Ficando muito mais próximo de Russell do que de Frege na análise da linguagem.

O realismo científico nasce em resposta a esse movimento de Carnap. A pergunta que o realismo científico tenta responder é se os conceitos teóricos realmente existem enquanto uma entidade? É esta a questão que incomoda os realistas científicos. Segundo eles, as entidades realmente existem independente das teorias, e as teorias tentam compreender e explicar essa entidade da melhor forma possível. Para comprovar a ideia da existência das entidades científicas, os realistas científicos adotam alguns pontos de vista. Eles explicam o sucesso científico em detrimento de uma visão realista a respeito das entidades não observáveis; é preciso um comprometimento ontológico com as entidades científicas. O realismo científico postula que para uma teoria científica ideal da realidade é preciso ter alguns aspectos. Um aspecto interessante é o que diz de um compromisso metafísico que pode ser descrito mais ou menos assim:  "os inobserváveis descritos pela teoria científica existem independente da nossa mente."  

Sobre este ponto, gostaria de tecer alguns comentários sob os quais acho interessante pensar. O realismo científico coloca a questão da existência independente da nossa mente, e o homem como um desbravador que procura conhecer aquilo que existe de alguma forma. Ele não tem conhecimento se aquilo que ele postula é verdade ou não, mas a única coisa que ele sabe é que aquele algo que ele postula existe e é passível de uma teoria. Stephen Hawking em seu livro, “uma breve história do tempo” afirma que os buracos negros foram um caso raro na ciência. Foi a primeira vez onde um evento foi comprovado matematicamente sem nunca ter sido observado.

É curioso porque a ciência é algo empírico. Ela trata daquilo que é observado e postula a respeito daquelas coisas (pelo menos a princípio), no caso dos não observáveis com os termos teóricos, o processo se inverte. A experiência, no caso dos não observáveis comprova que existe algo lá que não se sabe o que é. Cria-se então uma teoria para representar e nomear aquilo que está ali de alguma forma. A partir desta nomeação o objeto desconhecido passa a ser conhecido sob certo nome. Não quer dizer que o objeto passou a existir a partir de sua nomeação, mas que a partir daquele momento, ele será entendido de tal forma. Nada impede que a teoria formulada para explicar aquele algo esteja errada, mas enquanto não surge uma teoria melhor, aquela que funciona, não tem porque não ser aceita. Este argumento remete ao senso comum, e ao funcionamento da teoria científica.

Se ela funciona , então temos boas razões para acreditar que ela é verdadeira. A utilidade de uma teoria científica em determinado tempo, dá a ela credibilidade . Temos na história das ciências alguns exemplos de postulações que foram consideradas erradas por muito tempo e que com o passar do tempo, comprovaram que a tal teoria era verdadeira, e também casos onde a teoria considerada verdadeira foi comprovadamente considerada falsa. Sobre este tipo de teoria, temos o exemplo da física de Newton que perdeu muito do seu mérito com a teoria de Einstein. A grande revolução dos vários tipos de delimitação do espaço como foi compreendido por Lobatchevsky, e Rienam marcaram uma grande revolução na compreensão do espaço. Foi algo usado por Einstein para a sua formulação de uma teoria da relatividade. 

Os realistas científicos também tem um argumento muito interessante para justificar a existência dos termos teóricos como entidades. É o que é chamado de “argumento do não-milagre” onde afirma que : se alguém não aceita que os termos teóricos existam como entidades, só lhe resta acreditar em um milagre ou então em algum tipo de coincidência cósmica. Para o realista científico não tem como o mundo ser ordenado da forma que é sem que existam entidades reais. Só se alguém acreditar em um milagre é que pode conceber que o mundo é da forma que é sem que algo realmente exista de fato. Se tudo fosse criação da nossa mente, assim como proposto pelos anti-realistas, tenderíamos a um solipsismo, ou então a uma aproximação muito grande ao pensamento de Berkeley. 

Essa questão com certeza recai sobre a discussão entre o criacionismo e o evolucionismo, onde na minha opinião o criacionismo se aproximaria de uma visão realista das coisas e o evolucionismo em uma visão anti-realista. É preciso ter muito mais fé para aceitar em uma visão evolucionista onde tudo se constitui pelo acaso do que crê que existe um ser superior que coordena todo o mundo para que ele funcione do jeito que ele funciona. 

Não há um milagre, ou como disse Einstein : Deus não joga dados. Se o mundo é como é, é porque há uma ordem substabelecida e esta não pode ser por acaso. Como podemos ver, o princípio da realidade dos termos teóricos possui uma relevância enorme nos dias de hoje, e implica também na aceitação ou pelo menos a consideração de alguns fatos que norteiam a nossa vida. Embora o princípio seja científico ele possui várias implicações na vida em sociedade como também na relação do homem com o mundo. Por exemplo; se adotamos que os termos teóricos realmente existem e não são meramente criação do homem, então temos que admitir que estamos em algum caminho rumo a tentativa de conhecer algo fora de nós. Isso enfraquece bastante a função da teoria Berkeleyana de que tudo o que existe, existe em nossa mente. Os termos teóricos assumindo uma existência, o próprio papel do ser humano dentro do mundo cai de uma posição central, para uma mera posição dentro de todo o cosmos. 

Estudos recentes em cosmologia afirmam que o universo está se expandindo cada vez mais e que este seria sem limites. Se considerarmos esta teoria como verdade, cada dia que passa nos tornamos mais insignificantes. Independente de considerarmos esta teoria como verdade ou não, para o realista científico, o que acontece é que a coisa denominada movimento do espaço existe, e pode ser teorizada porque existe. Esse movimento não é criado pela nossa mente e nem passou a existir depois que se teorizou a respeito. Essa é a visão adotada pelo realista científico. Para ele, as coisas existem independente de se teorizar a respeito de algo. Concluindo, o realismo científico é uma visão bastante interessante a respeito da realidade das coisas e postula que o papel do homem não é o de criar coisas através da linguagem, mas descobrir as coisas e nomeá-las. O trabalho do homem é portanto bastante reduzido. De criador, a conhecedor.