segunda-feira, 8 de maio de 2017

Eclesiastes 3,1-8. Com tempo, sem télos !





No capítulo 3 de Eclesiastes há os conhecidíssimos versículos em que o Qohélet nos afirma que há tempo para todo propósito debaixo do sol e por meio de vários ciclos de morte e renascimento nos conduz a repensar a nossa relação com o tempo. Relação essa cada vez mais tumultuada, cada vez mais difícil de aprender dadas as inúmeras coisas que arrumamos para fazer durante o dia, durante a semana. Na maior parte das vezes nem temos tempo para refletirmos sobre como usamos o nosso tempo. 

As coisas seguem como uma grande avalanche levando consigo todas as coisas e nos levando juntamente com ela. Refletir sobre o tempo é um exercício que deveríamos fazer com mais frequência. Como diz o Eclesiastes, há tempo de nascer e morrer, plantar e arrancar o que se plantou, etc. Entender o ciclo das coisas, o ciclo da natureza é primordial para que no entendamos também. O ciclo da natureza do versículo 1 se liga às nossas ações no versículo 2, que se liga às nossas emoções tratadas no versículo 3, etc.  

O que o Eclesiastes nos mostra nesses 8 versículos em que nos elucida a questão do tempo é que por mais que tentemos abarcar todas as coisas, a circularidade do tempo é algo que nos manterá para sempre preso a ele. Não há uma finalidade em si para as coisas que acontecem debaixo do sol. Elas funcionam em ciclos que vão e vêm.  Talvez não seja fácil perceber, mas aqui há uma crítica grande à noção de linearidade tão comumente aceita pela tradição judaica. O fato do texto ter sido escrito no século 2 a.C aponta para uma possível influência de algumas escolas helênicas tais como o estoicismo e o ceticismo. O autor do texto aponta para um constante devir das coisas que acontecem debaixo do sol, tanto que logo após tal reflexão o versículo 9 nos aponta: "Que proveito tem o trabalhador naquilo que trabalha"? 

Não há a dimensão de um "télos" (finalidade) na passagem do tempo segundo o autor do texto; o que vemos são as coisas acontecendo em ciclos de nascimentos e mortes, ações e des-ações e compreender isso nos coloca em uma posição mais tranquila diante do mundo. Primeiramente porque nos ensina a não nos perturbarmos em querer fazer coisas desesperadamente, em segundo lugar por mostrar que o tempo que temos é sempre o ideal para fazermos tudo aquilo que é importante para ser realizado. Se todas as ações do homem não encontram um "télos", todas elas podem ser executadas no tempo que temos debaixo do sol. Até a guerra e a paz se encontram nesta circularidade temporal. Nada escapa ao passar do tempo e todas as coisas se complementam à medida que o tempo passa. 

O Qohélet aponta que o tempo é aquilo que rege as ações debaixo do sol e debaixo do sol é o tempo para fazer todas as nossas ações já que depois dele nada mais haverá para fazer. Para além de toda moralidade simplória o ciclo do tempo coloca para nós que há o "tempo de matar", "o tempo de odiar", etc. i.e, a vida que ocorre debaixo do sol é uma vida muito ampla, difusa, complexa de forma que toda tentativa de um "télos" pré-ordenado se mostra comprometida. Esta conclusão está em total consonância com o teor do livro do Eclesiastes que será capaz de, apesar de toda ausência de finalidade da vida, afirmar a alegria e a crença na figura de Deus. 

A reflexão sobre o tempo proposta pelo Qohélet é essencial para os nossos dias, para que não nos deixemos levar pelas dinâmicas da vida contemporânea que nos sugam o tempo e nos fazem perder as pequenas alegrias do "tempo de abraçar", "tempo de dançar", "tempo de amar". Se há tempo para todo propósito debaixo do sol, que nos esforcemos para que as pequenas alegrias encontrem tempo em nossas vidas e nos façam viver melhor com os outros e conosco. A grande tentação do nosso tempo é que sempre precisamos estar para além do tempo que temos debaixo do sol. Sofremos pelo passado que não fizemos, pelo futuro do qual não temos nenhum controle e enquanto isso o momento fugaz do presente vai passando sem que nos apercebamos que deixamos de lado os abraços, os amores, as alegrias, etc. "Tempus fugit" já diziam os latinos, e é exatamente para que o tempo não fuja que o Qohélet nos aponta para a nossa relação com o tempo. A circularidade do tempo aponta para a sua infinitude, mas ao mesmo tempo nos mostra que nós somos finitos e por isso precisamos ter em mente que há sempre tempo para todo propósito debaixo do sol mesmo sem um télos para dar sentido às nossas ações.