quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sobre Morte e Fé






Ontem estava conversando sobre a morte. Esse fim que está destinado a todos os homens, animais, plantas. O último grande feito de qualquer ser vivo.

A conversa foi muito interessante.


Falávamos sobre um "sentido último da realidade". Questionamos se ele existia ou não. Afinal, a vida pode ter um sentido, ou pode ser absurda. Pode ser que haja algo para além da morte como pode não haver nada. Dependendo da corrente que nos filiamos, isso muda completamente a nossa forma de nos relacionar com o mundo e no mundo.


Na história da filosofia temos vários autores que trabalham esta questão. Desde posições cristãs como Tomás de Aquino, Agostinho, Kierkegaard, até as posições "nilistas" tais como Sartre e Camus. O que é interessante não são as posições em si, mas o questionamento sobre essa questão tão crucial para o ser humano.

Pouco tempo depois entrei no msn e encontrei uma colega de trabalho, também formada em letras como a primeira pessoa com quem conversei. Falávamos sobre as férias e depois, não sei como, a conversa recaiu sobre o mesmo assunto e começamos a conversar principalmente sobre a questão de Deus e do sentido da vida.


Em um outro texto, escrevi que vejo Deus como "sentido" e não necessariamente como "ser". Tive que dar algumas explicações para alguns que leram o texto, mas ainda assim mantenho a posição. Deus não precisa ser um "ser" para fazer "sentido". Deus pode ser um horizonte, um norte para onde queremos sempre regressar.


Minha interlocutora do msn me disse: "Interessante pensar dessa forma, apesar que, pensando assim, a questão da morte fica muito mais angustiante." Tive que concordar com ela. Realmente a questão da morte fica muito mais angustiante se não aceitarmos um deus pessoal que nos espera quando morrermos.


Mas eu penso que isso dá à fé um aspecto muito mais sublime. Acreditamos sem certezas. Arriscamos nossa vida em nome de uma verdade meramente aparente. Damos o que o que Kierkegaard chamava de "salto da fé". Nos fiamos em uma pequena teia de palavras que dão sentido e esperança à nossa vida. Por esta teia morremos se for necesário. Mas, o angustiante é saber que essa teia foi construída por nós mesmos. Como a aranha no canto da parede que tece a teia e se dependura nela. A teia sai da aranha, assim como a nossa teia sai de nós mesmos.

Fé não é certeza, fé é o "fundamento das coisas das quais se espera, a evidencia de coisas que não se vêem" (cf. tradução king james da bíblia, ou mesmo a Almeida corrigida).

Fundamento não é certeza, evidência não é verdade.

Esperamos as coisas acreditando que elas acontecerão, temos evidencias (mas apenas evidências) de coisas que não vemos, mas tudo isso é apenas um salto no escuro.

Certezas? estas não possuímos. Esta fé (que é apenas salto) faz com que ajamos de uma forma no mundo, mas nem por isso temos certezas. (Queria falar um pouco mais sobre o texto de hebreus 11, mas deixo pra uma outra oportunidade, senão o texto aqui ficará enorme)

Ah, mas como queremos habitar o mundo das certezas. O mundo "comprovado cientificamente". Mas o que a vida nos oferece são apenas perguntas, várias delas sem respostas.

Me lembro que quando era adolescente, as pregações na igreja giravam em torno do "centro da vontade de Deus" e da famosa pergunta "você tem certeza de sua salvação?". Quantas vezes me angustiei por ter respostas negativas para estas perguntas.

Em relação à primeira, eu sempre me questionava se haveria realmente tal centro, pra mim não fazia sentido isso, ficava pra mim a imagem de um deus que quer apenas moldar todo mundo do mesmo jeito e colocar todos no mesmo lugar. Como se o objetivo de toda minha vida fosse simplesmente achar um centro seguro de onde todas as minhas ações estariam corretas. Isso pra mim não fazia sentido.

A segunda pergunta remete muito ao que falei acima. Queremos habitar o mundo das certezas. Você sempre tem que ter certeza se está na profissão correta, se está fazendo o que é certo, se está salvo do inferno ou não. Somos uma sociedade que não consegue conviver com a dúvida. Ainda mais quando se trata do "destino da nossa alma".

Incrível como que diante da morte todas estas coisas se tornam fúteis. Diante dela não faz diferença se se é protestante ou católico, espírita ou muçulmano. Estas coisas se tornam secundárias. Diante da morte resta apenas a interioridade, resta apenas essa análise consigo mesmo, resta apenas uma última avaliação, resta apenas a pergunta pelo sentido, a esperança de que a teia onde nos fiamos toda a nossa vida nos ajude nessa hora, resta a esperança de que o salto realizado nos fará cair sobre a grama verde em um lindo dia de sol. Mas temos apenas a esperança e o desejo de que assim seja. Nenhuma certeza.

O meu justo saltará no escuro, ou melhor, viverá pela fé ! (Hb 10:38)

Foram excelentes ambas conversas. Falar sobre esses assuntos cruciais é sempre muito bom. Pena que a grande maioria das pessoas não querem pensar sobre eles.